Páginas

segunda-feira, julho 06, 2015

VIAGEM ENTRE A SOMBRA E A LUZ


Vivemos uma hora difícil, de miseráveis conflitos e recessão cultural, em praticamente todos os domínios da civilização planetária, talvez da globalização amalgamante dos nódulos que sinalizam o pensamento e a memória. E assim, dia a dia, dentro de espaços cada vez mais fechados na densidade urbana, habituamo-nos a cerrar os cortinados, mesmo os mais leves, para nos defendermos do 14º andar do prédio vizinho, frontal, obstrutor do espaço da nossa janela. O que nos acontece de opressão, neste caso, acontece a milhões e milhões de pessoas por todo mundo. Os meninos defendem-se a brincar com os seus aparelhos eletrónicos, visitando por vezes o mundo inteiro, com as suas guerras e naufrágios sem conta, ou jogando partidas encantatórias de futebol ou de lutas jurássicas. Quando viajam dedilham os ecrãs, enfiando os olhos na passagem de luxos asiáticos ou meninas opulentas, em bikini. Ler é cada vez mais difícil, apesar das escritas se banalizarem por convocação de bonecos disparatados. 
A miséria é mais difícil de explicar, decorre abaixo da própria rua, ou atrás dela, ou escondida nos vãos entre os contentores do lixo e as altas paredes das torres a que chamam arranha-céus.



Dantes, quando os pintores procuravam representar aparências da realidade, os efeitos de relação entre a luz e a sombra podiam lograr instantes ilusonistas
como o desta singela fotografia. As fases da paralisação do visível, passavam intensamente, sobretudo nas Renascença, por fabulosas imitações da prática perceptiva, embora cada autor se aproximasse cada vez mais de um certo modo de formar, de um estilo, de processos, temas e assuntos como que desde logo assinados através das características da expressividade -- um quadro de Leonardo seria sempre identificável pelo seu modo de ser e de aparecer e nunca pelo tema trabalhado. Há muitas pinturas representando a Última Ceia de Cristo (imagem mitológica que se enquadra na vida daquela figura messiânica); há de facto muitas peças dessas, de autores diversos, acabando por se tornarem do mesmo modo reconhecíveis. Outros. Alinhando pelo   mito e pelas muitas fábulas concertadamente enquadradas, diferentes entre si, semelhantes entre si.



Os nossos olhos são aqui desafiados, perante uma certa desordem, a descobrir a verdade (ou essência) das duas linhas claras à esquerda, já que poucas dúvidas terão na roupagem amarelada à direita, em  claro-escuro, acerca do assunto, da luz diurna e da qualidade fotográfica.




Será óbvia a aparência pictórica desta imagem? O olhar chegará depressa a essa conclusão perceptiva? No âmbito da mobilidade visual, esta reprodução fotográfica pode parecer de um quadro, mas a tecitura das manchas deslocam do ilusório tal percepção. Um rapazito de imaginário fecundo, ainda disse que a paisagem mostrava um monte rochoso, do fundo do qual jorrava uma talha de água. Destruída essa leitura pela explicação em pormenor do que ali se passa, tecidos diferentes ondulando dobras doces, e um outro pano brotando deles e mostrando-se num envolvimento em curva, como água plana ao precipitar-se, compacta, no vazio, num jeito que lembra a dobra da queda de água de certo leito pedregoso.
Mas não deixa de ser verdade que o rapazito reinventou bem o real, porque esta imagem, neste mesmo enquadramento, poderia ser transformada numa pintura de média dimensão e ainda muito mais aproximado do assunto indicado, mesmo respeitando a ordem compositiva.