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quarta-feira, novembro 28, 2007

METAMORFOSE DA PEDRA ATRAVÉS DA LUZ




foto de rocha de sousa
A cor não existe. Ou melhor: a cor não existe nas coisas. Tudo o que vemos diversifica-se na aparência e sobretudo na cor através da luz, com as diferentes radiações que a deteminam e se formam em comprimetos de onda, os quais, por sua vez, bombardeiam tudo em volta. As inúmeras constituições moleculares e atómicas das matérias expostas à luz permitem a sua reflexão mais ou menos diferenciada, o que chega à retina em efeitos graduados. Se a nossa retina não tivesse células sensíveis aos comprimentos de onda das radiações comportadas pela luz, a percepção que formaríamos de tudo o que nos rodeia acabaria por plasmar o visível num branco mais ou menos cortado por sombras cinzentas ou negras. Há um pintor que padece desta anomalia e tudo o que faz é a preto e branco, de aparência surda e dramática. Ele conhece bem o seu problema e por isso pode tirar partido de tal contingência. Ao usar o vermelho e o verde na área das sombras, fazendo emergir o resto de tintas mais luminosas, o resultado, para o pintor, é harmónico na graduação de valores monocromáticos. Mas, para nós, a obra constituída ganha ao mesmo tempo a maior das estranhezas e uma força brutal. Esta nossa exploração de hoje, com base numa fotografia tratada, mostra-nos o efeito de valoração e significação que os três níveis de registo causam no plano da percepção visual. O homem extrai muitos efeitos, conraditórios ou harmónicos, dos seus conhecimentos neste domínio, e das experiências que retém, manipulando com diversos intuitos plásticos ou simbólicos a qualidade visual das coisas vistas ou imaginadas. E porquê as imaginadas? Porque o imaginário está naturalmente contaminado pela complexa experiência da visão e do mundo de aprendizagens, sob os indicadores da luz, que esta fornece à vida humana.

sábado, novembro 24, 2007

MANIPULAÇÕES FOTO-PLÁSTICAS




As transformações que se verificaram, durante o século XX, no domínio das disciplinas de índole artística, como já vimos noutros locais deste blog, abriram o mundo das artes plásticas a um grande número de casos experimentais, à desconstrção e reconstrção da realidade, num sentido de pesquisa, por vezes quase arqueológica, enfrentando a «mentira» de certas novas relações sobre o visível, para conferir mais verdade às aparências que percepcionamos todos os dias.
De um jornal meio amarrotado, onde «sobrava» uma fotografia sobre o lixo urbano, usei os meus polos de sensibilidade para seleccionar bocados de peça. Várias vezes, com maior ou menor densidade de aparência restante. Depois passei esse material para um suporte programático mais tolerável quanto à manipulação da cor e da própria forma. Não dispunha de um pincel, dispunha de vários, a par de meios riscadores rectilineos, capazes de todos os arabescos, além
de simulações de spray e de utensílios de preenchimento automático em várias zonas com valores tonais de contraste e aproximação. Parece um aparelho de culinária. E, em certa medida, as semelhanças emergem de cada acção. Só que isso é apreciável quando estamos a trabalhar com tintas e pincéis de verdade. Aqui resta-me o teclado e os cliques de formulação diverisificada do imediatismo do enter.
Os verdadeiros problemas técnicos acontecem no domínio da mutação dos elementos, sem grande predisposição para ilustrar uma ideia, antes para criar novas ideias com a raridade surpreendente de centenas de encaixes, sobreposições, quebras, contornos, harmonias cromáticas -- outra imagem do lixo, porventura, que nos induz na condensação de novas figuras de sedução visual, dentro das quais parece possível abrir outras janelas para a realidade, acasos a que nos é acessível emprestar cúmulos de significação, um estranho ruído contemporâneo, a face do real sujeita a outros climas donde se extraiem coisas, apenas coisas, e contudo vibrando no contexto da nossa atenção quotidiana ou contemplativa.

segunda-feira, novembro 19, 2007

BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS

SOBRE UM LIVRO QUE DESVENDA
OS ATRASOS SOMBRIOS DO ENSINO ARTÍSTICO

Estes dois excertos foram escolhidos de um livro de rocha de sousa que vai sair dentro em breve e que põe a nu, pela primeira vez, um longo percurso de desdém pelas artes e pela cultura, significativamente traduzido antes e depois do 25 de Abril de 74, durante décadas de humilhação de professores e alunos, Escolas sem meios, vigiadas, sem cumprimento das carreiras dos docentes e das reformas entretanto saídas em 1957, por último em 1976, treze anos em que os artistas ali trabalhando, roubados das categorias a que deviam aceder, conseguiram, ainda sem quadros, obter do governo a consolidação das Escolas Superiores de Belas Artes em Faculdades -- a de Lisboa na Universidade de Lisboa e que só há pouco dispôs das primeiras categorias. Das seguintes também, finalmente até catedrático. O país e os brasileiros do Chiado nunca quiseram perceber, nem quiseram tentar, a realidade das batalhas travadas, das metodologias modernas que chegaram a ser clandestinas, do incumprimento de leis que remeteram para a designação de primeiros assistentes personalidades raras, duas décadas esquecidas do acesso a Professores Auxiliares. Perante governos que até o design baniam, largos anos depois da «revolução», pode fazer-se uma ideia, apesar de tudo, da perda em demissões e do desinteresse pela prestação técnico-artística que os novos licenciados poderiam oferecer ao país, desde um verdadeiro ensino atístico até à defesa do espaço urbano, do ambiente, das instituições regionais onde saberiam fundar novos polos dedicados ao entendimento da cidadania e de objectivos de vida capazes de inverterem a desertificação do interior.

primeiro

Helena, um belo prelúdio de amor e as fantasias desfazendo-se no umbral da porta, acenos distraídos, um cheiro a bolos daqui a pouco. Comia o meu bolo de arroz em passeios sem nexo no corredor que dava passagem para o atelier de modelo vivo. Bebia as minhas próprias lágrimas virtuais, humilhado pela mediania do exílio e pela cada vez mais clara pobreza desactualizada daquele curso -- Aldemiro como penosa imagem de tudo isso, professor amável mas inútil, refém da sua única corda vocal e das bibliotecas e dos museus que lhe favoreciam certas descobertas a par do trágico comportamento do século. Tombavam tectos de novo, as abóbadas tinham fissuras inquietantes, os canos vertiam fios de água para dentro das grossas paredes, havia humidade um pouco por toda a parte, vozes longe, na envolvência da realidade e da memória. Bolor. Bolores nos arquivos de belos desenhos arquitectónicos e cópias de ânforas do Mediterrâneo. Caves cheias de «Diários do Governo» e de ratos, num fedor que emergia também de outras caves mais fundas, esgotos, labirintos de morte. Como no cinema. Mas sem a fúria e a vertigem de travellings impossíveis. Quem descesse a essas distantes cavernas da civilização contemporânea, numa deriva de que jamais sairia, usando em todo o caso lanternas e máscaras, formaria, a curto prazo, passos arrastados, brevíssimos, imersos na lama escorregadia ou nos vales mais profundos onde uma água barrenta, talvez esverdeada, anunciaria o aventureiro, daí a pouco borbulhando em torno do seu pescoço.

segundo
«Também tu, mulher? Esta casa vai desabar, que é que julgas? O Firmino está feito com o Paulino, sabem de tudo, encontram-se com o Salazar durante a noite, mandam prender comunistas. Eu bem vejo os quadros do Mestre Salgado, enrolados debaixo do móvel de pau preto, à espera dos gajos da fronteira. A Cova Funda está cheia de ratos, crostas de caca, bolor em volta. De noite são os morcegos, aquelas asas de pano, pretas, num desassossego. Mas dentro do lixo há sempre um anel de brilhantes, noivas mortas, véus. E as molduras dos quadros roubados. E o sangue da violação. E as argolas e as correntes penduradas, cheias de ferrugem. As noivas eram crianças abandonadas na cripta, quando os cavalos se afastavam e batiam com ferros nas pedras da calçada. Tive os esqueletos das meninas nas minhas mãos, sobraram em monte depois das obras de 1911. Obras e reformas, sim. Foram os republicanos que mandaram edificar os casarões de escultura e pintura. Aproveitaram as escadas em caracol, descendo e subindo vezes sem conta entre fantasmas de frades e de freiras. A história levou-os mais fundo. A um lugar de cisternas e túneis lamacentos, donde removeram velhas armaduras semi-desfeitas, ainda habitadas pelas ossadas dos soldados mortos no labirinto. É tudo um labirinto. As estátuas antigas haviam sido modeladas em pedra. Os gessos armazenados. Foram todas enviadas, as estátuas, aos bocados, no bojo dos veleiros, para o Brasil. Nós somos os indigentes abandonados na fossa, ou aí dispersos pelos campos, mas esses campos secaram, amaldiçoados, desde o fim do Império e já não são Portugal. O Mestre Macedo tinha documentos que falavam destas coisas. Ele quase endoideceu quando, perseguido pelos homens do 28 de Maio, descobriu que já não vivia no seu país. Salazar, dez anos mais tarde, deu-lhe razão. Porque a pátria que o ditador não discutia, nem erstava à venda, era o Estado Novo, não era Portugal. Tudo começara a desfazer-se com o desaparecimento de D. Sebastião. Houve especiarias, a par do escorbuto, um tempo de viagens. O rei menino nunca mais voltou e não faltou quem dissesse, quando a corte fugiu para as terras achadas pelo Cabral, que alguém padeceu muito num convento anterior a este. Traziam de certa masmorra, para o caneiro que ía dar ao rio, roupas sujas, potes cheios de fezes, sangue e comida vomitada».
«Cala-te, Acácio!», gritou Felismina.
«Aquele sangue pertencia ao último português».
«Não digas asneiras, Acácio!»
«Todos os portugueses que voltam à terra onde existiu o reino de Portugal, voltam de madrugada, escondendo-se nos grandes nevoeiros da planície».

*

O primeiro excerto envolve referências a um clima escolar dos anos 50, assim revelando a natureza das carências, das salas degradadas e de uma pedagogia que já não fazia sentido.

O segundo excerto traduz uma «fala» do funcionário Acácio, no início da sua demência, das suas metáforas erráticas, antes ainda do tempo em que o mantiveram no serviço quando ele permanecia em estátua o dia inteiro, alucinado e de corpo dilacerado.

terça-feira, novembro 13, 2007

APÓS OS PIORES DIAS DE BRASA


Alguns anos atrás, em pleno Verão, os incêndios florestais atingiram a paisagem algarvia, o mato seco e muitas árvores de várias espécies, trepando pelos montes e iluminando as cidades do interior desta forma aterradora, apesar de fascinante. Em pleno dia, um disparo fotográfico produzia, em registos sobre papel e após a revelação, efeitos assim, que mais parecem um mero truque de breve encanto. Estas fotografias não foram feitas com máquina digital, mas parece que as diferenças entre sistemas técnicos não se afastava muito dos tons ardentes, alaranjados. Podemos considerar esta memória como sinal de um desastre raro. Mas hoje, com o despertar das sociedades para os fenómenos da alteração do clima terrestre e previsões credíveis, imagens assim obrigam-nos a olhar com mais respeito as catástrofes que começaram a abater-se sobre os continentes em datas recentes.














Alguns anos atrás, num verão de grandes incêndios florestais, o fogo atingiu largas áreas do Algarve e as fotografias que se obtinham em pleno dia ficavam registadas como se pode ver acima, acabando o mato, após esse desastre, de fornecer apenas este desolado aspecto de perda.




sábado, novembro 10, 2007

ANIMAIS AMIGOS E SERVOS DO HOMEM


farm
rocha de sousa, em férias sabáticas

sexta-feira, novembro 09, 2007

A BELEZA MEDONHA DO CORAÇÃO HUMANO (pausa)


«Já compraste a nova versão do MCARDIO/VISTA?» «Eu queria, nem parece arificial, mas o meu médico não alinha pelas novas tecnologias». «Muda de médico, este equipamento é inteiramente fiável e, em princípio, dura muita mais do que nós; há até quem faça transplantes com os MCARDIO/VISTA que sobram». «Isso já me parece excessivo, algo macabro». «Não te ponhas a pensar assim: estes equipamentos têm uma duração de cerca de 150 anos e podem ser aproveitados, com inteira segurança, nos doentes em falência cardíaca». «Mas não têm mesmo avarias?» «Claro que não, embora tenhamos que contar com os problemas adjacentes, a falibilidade dos orgãos naturais, pulmões, artérias e veias, rins, essas coisas». «E nesses casos, lá vamos nós de charola para a lista de espera». «Nada disso, isto compra-se em qualquer farmácia qualificada». «Não me referia a isso, mas à parte biológica a tramar esse material molecularmente indefinido». «Podes sempre optar, contra a superstição, pelos engenhos que incorporam partes biológicas de desgaste desprezível.» «Estou a ver». «Com certeza, sou teu amigo, não ía enganar-te com um problema tão delicado. Podes pensar mais algum tempo; mas espero que contes comigo, sou representando dos três modelos e faço-te um preço em conta, em prestações e sem entrada».
da revista CÁRDIO, diálogo obtido por um representante da Ciberiótica germânica. A gravura apresentada tem origem na reprodução por infografia.

quinta-feira, novembro 08, 2007

1987: PRIMEIROS ENSAIOS PARA PERSONAGENS ILUSTRADAS




fragmento de «A MORTE DAS AVES»

As apresentações feitas neste blog visam, como disse no início, conceder lugar a obras de minha autoria, quer no domínio das artes plásticas, quer no âmbito da fotografia e do cinema, quer ainda no espaço da criação literária. Esta prática pluridiscilinar, sem partir de qualquer ambição de sucesso, teve sobretudo, ao longo de toda a minha actividade enquanto docente, o propósito de abrir vias didácticas e pedagógicas nos processos metodológicos do ensino artístico. Pensar pluralmente os meios de criação naqueles domínios, agir através de um deles ou trabalhar em sistema interactivo naquela base, isso alarga o quadro de recepção de informações, de conhecimentos, permitindo agir por nós ou em regime de formação de alunos, na prática e na teoria, no sentido de gerar um número cada vez maior, e sobretudo mais apto, de operadores das artes plásticas, visuais e do design.
Não tendo condições logísticas nem de arquivo para subir a minha obra a montante, cronometrando as suas fases no presente e preparando resultados a jusante, o que se justificaria num Site devidamente apetrechado, entre solicitações várias, fiquei humanamente aqui, dedicado a recuperações de documentos e obras quase perdidas. Num Site, como sugeri, seria agora possível aceder à bibliografia publicada ou guardada sem grande nexo, bem como obras literárias e científicas, a par de um largo espólio pictórico e a uma recuperada presença de cinema de ensaio (filme e vídeo), junto da qual existem peças de carácter científico e pedagógico, tal como as unidades audiovisuais de leccionamento (Didáctica da Educação Visual) no campo específico da Universidade Aberta.
As imagens entretanto propostas são anteriores a muitas outras que já apareceram atrás, mas esses arcos de revisão são úteis a diversos níveis. No caso presente, estamos em presença de ensaios ou estudos para a série «As Personagens Ilustradas», obras que nunca foram expostas e que, num modo gestual, apontado, desde logo ensaiando as simbioses ou enlaces paradoxais, visão entre o sonho e os complexos quotidianos, desastres, tratamentos, reencontros, abraços de partidas e chegadas, toda uma contingência, enfim, destas personagens, a busca e o desespero. Alguns casos estão perto do sonho ou da metamorfose, como podemos rever a montante, mas as cenas, na generalidade, tendem a «ilustrar» temáticas reconhecíveis desde há muitos anos e principalmente na actualidade, tempo de grandezas respeitáveis e de degradações globais que um dia obrigarão (com ou sem apocalipse) à escolha de um projecto com novos objectivos na articulação adequada de bens estruturais de consumo, num outro uso do planeta e em função de equilíbrios civilizacionais enfim despojados dos desastres principais que hoje contêm paradoxalmente uma fúria genocida, a par do crescimento de brutalizantes desnecessiades.

sábado, outubro 27, 2007

PARA UM ENSAIO SOBRE A CONTINGÊNCIA DO VER

pinturas de rocha de sousa

Ao inserir neste ensaio a problemática da visão, e tendo em conta os estudos de Arnheim sobre a cor, pretendo apenas levantar mais uma vez a ideia de que a nossa capacidade perceptiva, no campo visual, é muito contingente. Circunscreve-se a uma mecânica de sensibilidade às radiações luminosas, as quais passam por vários tipos de células da retina, sofrendo o impulso de trajecto que vai accionar uma parte específica do cérebro, produzindo os fenómenos sensoriais neste domínio e a percepção das formas do visível. A atitude de fitar fixamente duas pinturas semelhantes, como os apresentadas aqui, garante-nos uma recepção de formas e cores cuja ordem parece ter sido distorcida, alterada, imposta pelos princípios da presentação, aliás coordenados num juizo concreto mas mutável. A verdade, porém, é que esse juizo é muio selectivo e dependente de um lago espectro de circunstâncias, bem como dos meios operativos ou outros. A mobilidade de abertura ou de aproximação, a duas ou três dimensões, poderá implicar efeitos de negação do ponto de partida: olhar de muito perto uma obra do tipo das apresentadas, mas de grande escala, pode levar-nos a ver apenas duas formas e duas cores ou, até, uma única cor. A mobilidade reversível, atrás, fará com que percamos o reconhecimento desta enovelada cartografia, entrará para um espaço mínimo, residual, comprometendo as relações espaciais desfeitas quando comparamos o resultado da operação. Este exemplo não passa de uma operação elementar: desde a avaliação das duas estruturas cromáticas às propridades da realidade enquanto nos movemos num espaço a três dimensões e isso basta, consoante a nossa deslocação, para provocar o aparecimento e desaparecimento de formas, das suas cores, numa substituição por outras áreas do espaço, alteração das sobreposições, ângulos determinantes da mudança das figuras e da luz. De cada vez que nos organizamos em relação a um modelo, imóveis, a imagem mantém-se fixa: o olhar parece fixo, apertado contra o campo escolhido. Uma laranja cortada ao meio é vista por nós como inteira, se o interior estiver voltado para trás, com rigor geométrico. Três passos para a direita, com rotação da cabeça para a esquerda, abrirá uma outra imagem e uma outra consciência do que se está a indagar. Esta relatividade do olhar e do ver podem alterar substancialmente o julgamento de objectos que parecem mudar de sentido consoante as condições em que os observamos. Nos quadros apresentados, a estrutura cromática é a mesma, mas a alteração da sua colocação e configuração parece opor os arranjos compositivos. Ao mover-se, o real sofre efeitos substanciais. Um rosto que passe por nós a grande velocidade não nos confere dados de percepção para reconhecimento: é como se, dessa maneira, a parcentagem daquele reconheciento baixasse drasticamente, impedindo a captação descriminada do modelo (digamos ideal) e a verdadeira penetração o sentido do real. O mundo é, em si, muito diferente daquele que percepcionamos.

domingo, outubro 21, 2007

DETALHES DE TAPEÇARIAS E FOLHAS ÀS CINCO DA TARDE


pormenor de uma tapeçaria de rogério ribeiro

Pormenor de uma tapeçaria em ponto português (Portalegre) tecitura sólida e delicada que cresce a partir da lã e das mãos como terra rodopiando na harpa da teia, ao alto. No fim, alguns metros quadrados de vida plástica estarão prontos a posar num espaço parietal e a justificar o longo dedilhar das tecedeiras. A tapeçaria, nos seus melhores exemplos, lembra a folhagem de certas plantas e do estímulo da luz, na relação entre fundo e forma, contraste de valores baixos e altos.


fotos de rocha de sousa


Por vezes, ao cabo de horas e horas de trabalho, o cansaço toma conta do nosso corpo e os olhos ardem no limite de todas as suas aplicações. Há casos de erros e recomeços, desesperadamente quando o objecto em formação estava quase concluído. Lembro-me de visitar em Portalegre, no auge da sua actividade, a Manufactura de Tapeçarias. O ponto português é uma invenção deste lugar e permite, a nó, a realização de grandes tapeçarias, como as que ali foram tecidas para uma catedral na Austrália e as quatro peças, de doze metros de comprimento cada uma, para a sala de honra da Fundação Calouste Gulbenkian. Esta tecelagem, em camadas de nós sobre camadas, vista de perto e em plena laboração, mostra a velocidade das mãos das tecedeiras, umas ao lado das outras, e a desfocagem quase completa da ponta dos dedos enrolando e esticando o cordão de vários fios coloridos. O cansaço vem depois, horas e horas depois, sob o efeito do grande pano a subir aos milhares de pontos por dis e por operária. Resta dizer que, todo o património técnico e humano de grande qualidade, brilha ainda em edifícios públicos e transmite ao espaço uma cintilação semelhante à destas plantas, vivendo de contrastes fortes e belos contornos. Indelizmente, apesar dissso, a Manufactura já quase não existe, desfazendo-se através de gestões insanas.

terça-feira, outubro 16, 2007

A TEMPESTADE



«A Tempestade» é um ensaio vídeo que realizei em torno dos problemas do Médio Oriente, Curdos, Kosovo, Rússia. Não se trata, directamente, de nenhuma abordagem sócio-política, étnica, nem mesmo histórica. A identificação que o espectador terá de fazer das sequências documentais, em paralelo com construções fílmicas de minha autoria mas com carácter metafórico ou alegórico, dependerá da sua cultura, incluindo substancialmente muitos aspectos largamente difunidos pela televisão, sobretudo o golpe de Moscovo e a subida ao poder de Ieltsine, aquela noite inquietante em que as pessoas acompanharam provocatoriamente, na rua, os carros de combate e já se batiam por uma viragem que dias depois estava a começar, com as virtudes e defeitos envolvendo grande parte do mundo.

«A Tempestade começa por ser, prosaicamente, uma tempestade autêntica, de características tropicais, que se abateu sobre Lisboa ao início da noite. Essa realidade foi por mim registada, sem qualquer pressuposto que não fosse a grandeza do espectáculo e os relâmpagos quase sincronizados com os trovões.

Ao acompanhar os acontecimentos desencadeados na antiga União Soviética, uma força surda durante a noite (lá) e as provocações dos moscovitas em plena rua, lembrei-me da tempestade que filmara. A sua associação ao caso de Moscovo era aliciante. Entretanto, fui gravando situações na antiga juguslávia e noutros pontos quentes, documentos de grande força e sentido trágico.
Num ensaio de montagem não linear nem cronológico, trabalhando com cenas construídas por mim, a cores, em cemitérios e jardins, entre nostalgias da chuva e outros efeitos, acabei por introduzir, do mesmo modo, uma personagem que, apesar da trovoada, lê excertos do relato (futuro?) da própria realidade presente, folheando cadernos e fotografias com as mãos «sujas» de sangue.
Dois travellings à frente e à mão pontuam o princípio e o fim deste documento ao mesmo tempo real e ficcionado, trabalho que procura claramente mobilizar as consciências para um mundo em convulsão em pontos estratégicos importantes e em que os massacres ou guerras regionais nos alertam, com efeito, para as nossas fragilidades civilizacionais.








quinta-feira, outubro 04, 2007

A RENDIÇÃO DAS ALMAS




fotogramas de filmes de ensaio - rocha de sousa

Cada artista, cada operador de imagens, todos eles, na fotografia, no cinema, nas artes plásticas, exprimem o seu amor ou a sua angústia através de obras como estas, procurando saber como existiram estes lugares e como se diluiram assim, em pleno abandono, conotáveis com as árvores próximas igualmente descarnadas. A Rendição das Almas, como filme de ensaio, referia-se de facto a um tempo de desistência, metalurgias inutilizadas, vago aceno ao futuro. Por mero acaso, e bondade de um amigo, foi-me permitido filmar cerca de trinta fotografias dos acontecimentos do 25 de Abril e, nesse mesmo dia, apanhar um dos mais espetaculares nevoeiros junto da ponte sobre o Tejo. Embora esclareça aqui que só utilizo fotogramas do filme inicial, a verdade é que ele se transformou, em montagem adequada, com inserts das fotos entre as redes e os ferros, no segundo filme e foi apresentado como «As Névos do 25 de Abril». Inseridas a preto e branco, no travelling que nos faz deslizar pelos muros de ferros oxidados, temos assim, ainda, entre destroços, uma força subliminar de cunho sebastianista.




ALEGRIA BREVE


fotos rocha de sousa
«Alegria Breve» ocorre de um livro de Vergílio Ferreira

Estas imagens foram recolhidas numa deriva matinal, entre muros e distâncias singulares. Não se fala aqui de testemunho comprometido nem da denúncia dos desastres principais, ou dos crimes domésticos, por vezes hediondos, que parecem dar cada vez mais conta de um mal genérico, num psiquismo aterrador. Antes da lírica do desassossego e depois da Rendição das Almas, plantas em pausa, sagração do instante de paz, brisa interior de uma alegria breve.

quarta-feira, outubro 03, 2007

SINOPSE DE «LÍRICA DO DESASSOSSEGO»

fotogramas do vídeo «Lírica do Desasossego» rocha de sousa
Esta é uma última imagem do vídeo «Lírica do Desassossego», com Isabel Rocha, em que a personagem acaba por soçobrar ao ataque de um corda espessa e outras mais finas, as quais se erguem do fundo de um monte de fotografias antigas, em parte de família, colando-se às mãos até aí intérpretes delicadas, liricamente delicadas, de uma visita à imagem dos mortos, das casas, das velhas ruas da velha e decadente cidade de província. De fato, e quando a personagem mergulha bem fundo no monte de fotografias que recolhera, assusta-se ao ver emergir daqueles amarelados documentos uma enorme corda dura, enrolada, contra a qual luta, puxando-a e empurrando-a, no efectivo esforço de se desfazer daquele fenómeno. A imagem da corda enquanto corda não é disfarçado, embora escurecida em castanho, mas a sua conotação com uma longa serpente parece óbvia. Enquanto o corpo é enrolado pela corda espessa, as mãos, procuram convulsivamente libertar-se, mas acabam por ficar «algemadas» pelas cordas mais finas. Contudo, a personagem, rolando pelo chão de pano avernelhado, e depois de procuras meio desesperadas relativamente aos instrumentos dispersos pelo espaço, tenta serrar uma haste de madeira a que estava presa (pelas cordas ainda em actividade). Grande e longo plano fixo da serra a sulcar dificilmente a madeira. Essa acção é intemporalizada, antes do fim pretendido, pela paralisação da imagem: a madeira resistiu até meio, o destino apenas se exprime por metade. Presa da memória, a mulher fecha devagar as pálpebras, o serrote tombado além.





















Nem só as máquinas do Apocalipse se aproximam para nos destruir. Há milhares e milhares de anos que nos debatemos com as nossas memórias e a metamorfose das cordas colando-se ao corpo e às mãos, simulando a morte pelos répteis ou o suicídio perante um futuro rasgado.