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terça-feira, abril 15, 2008

VANDALIZADA A BANDEIRA DA GLOBALIZAÇÃO

foto/pintura/técnica mista: rocha de sousa

Dizem os tratadistas que uma pintura não vale pelo assunto, nem mesmo pelo tema. Os tratados perderam a sua hora e, porventura, a sua verdade. O título deste post pode dar um nome a esta pintura dita habitualmente abstracta. A semelhança entre as partes e a sua idêntica dinâmica podem sugerir uma «bandeira» após Jasper Johns, esventrada e sem que a sua geometria seja absoluta na identificação de tudo no todo. O quadro é, a despeito da sua natureza plástica e das acções que o transfiguraram, um corpo ainda normalizado. Mas a «vandalização» transformou o seu eventual aspecto regular e fez com que ressurgisse como uma nova organização de partes, individualizadas, ainda tocadas pela memória do todo, conservando semelhanças entre si na diferença que as nomeia caso a caso.

segunda-feira, abril 14, 2008

O VISÍVEL E A REVELAÇÃO DO INVISÍVEL


composição fotográfica, técnica mista, de rocha de sousa


Investiguei o real de um lado e do outro das suas aparências e um certo temor tomou conta de mim. Iniciei tudo por uma fotografia alheia, fui à janela registar a luz, folheei a Internet em busca das meninas desaparecidas, achei algumas delas com uma venda nos olhos, ligaduras nas mãos, mortas e abandonadas num sotão onde nem sequer os vagabundos pernoitam. Tudo era recente, afinal, o prédio cujo interior fotografei em sucessivas geminações, positivas e negativas, ou esse soalho cheio de terra e detritos, a luz de uma janela inventada a partir de outro sítio, a luz matinal e o negro nocturno conforme a magia dos meios ou das eventuais marcas da vida nas louças partidas, tudo a preto e branco, um corpo enfim, sinal de Deus sem dúvida. Um corpo de menina dormindo, morto ainda cedo, a cegueira escondida sob a venda electrónica das redes obscuras, transnacionais, que operam um novo vampirismo, obsceno enquanto reverso da civilização, enquanto as calotes polares entram inevitavelmente em colossal degelo.
Talvez este texto, apesar das suas pistas, não tenha sentido. Mas o que é que tem sentido se a própria beleza o não tem?

quarta-feira, abril 09, 2008

APARÊNCIA, VERDADE E MENTIRA DO OLHAR






O que vemos em múltiplas representações pictóricas só existe enquanto tal. Cada referente perde-se na inexistência ou declina para o lado invisível das coisas. Um sistema de visão muito diferente daquele que possuímos dar-nos-ia outras informações acerca do exterior, recebidas e trabalhadas em bases com outras premissas orgânicas. Lugares paisagísticos como os que são aflorados fotograficamente nas imagens aqui recolhidas e publicadas podem iludir-nos pela introsão de meios auxiliares de expressão, mas essa mentira não é nem maior nem menor do que aquela que as próprias provas nos sugerem: uma fixidez inexistente no real, uma só direcção por cada olhar, o porte lírico da sua escolha e seu tratamento, na inflexível redução do real à memória (porventura recente) da sua presença. A mobilidade visual é por vezes concentrada na suspensão do instante ou dilatada por especiais derivas, ténicas e estéticas, das possíveis análises cada vez mais prontas nos nossos dias.
Mas nenhum conhecimento desse tipo nos rouba a necessidade da viagem poética através das coisas, pela cor que desliza entre as horas pálidas e o declíneo dourado das tardes, pelo gosto (afinal realista) do registo a preto e branco, na consulta das diversas cartografias da cidade em volta, o Tejo a estretar-se, as colinas mais despojadas visitáveis do lado das ruínas e do lado onde as portas palacianas se abriram e revelaram um interior de meia luz, sereno, guardando a suposta perenidade do que terá sido, pela arte, a verdade acreditada de certos momentos na história dos diversos habitats sempre atravessado por gente dissemelhante no traje, fantasmas cujo desejo seria o da sobrevivência para lá de todos os entardeceres. Digo plavras assim, letras falantes, na exacta medida de que o universo destas humildes fotografias repintadas ou reimaginadas são apenas o cenário perdido de uma certa grandeza palaciana. O amarelo voltará à cor da cantaria, o negativo ao positivo, mas nenhuma dessas reiniciações ao limite canónico terá poderes para fazer existir o que não vejo, ruínas presentes e aparentes, os pássaros alcandorados nos ramos, piando de quando em quando, a Primavera substituindo o Inverno ou confundindo-se com ele, coisas velhas, restauros, o rosto do lugar desenhado a esfuminho ou gravado em alto contraste. Por dentro desta breve reflexão, olhando pedras manipuladas por exímios canteiros ou lascadas milhares de anos antes, de que forma poderemos reencontrar o tempo real em que nem sequer havia um processo humano?

domingo, abril 06, 2008

ENTRANHAS DUM CARRO MORTO NO ASFALTO

foto-pintura de rocha de sousa

OS AUTOMÓVEIS TAMBÉM SE ABATEM

Entre os bens civilizacionais, a carnificina decorrente dos desastres nas estradas e nas autoestradas é das realidades mais lamentáveis, pesadas e pungentes com que nos defrontamos no dia a dia. Fala-se em segurança. Fala-se em campanhas gigantescas, assumidas pela polícia da estrada nas datas festivas e outras importantes, mas os resultados parecem sempre débeis, na estatística e avaliadas as estratégias. A imagem não pretende ilustrar nada, a não ser que a morte também é bela, e o que resta deve ser tomado com alguma grandeza pela consciência ou no sentido dos valores poéticos de toda a realidade.

domingo, março 30, 2008

RETRATO DOS PADRINHOS NA VISITA DE 1945




Esta composição, obra plástica em técnica mista sobre papel, faz parte da colecção já assinalada com outros exemplos, mas reporta-se a uma memória difusa, creio que durante a visita dos padrinhos, que viviam em França, e que, após casarem assim, viajaram para Portugal, deixando um país em destroços e difícil de suportar, à letra, estas mordomias. São recordados entre folhas secas, agora, já depois de anos e anos passados sobre a sua morte.

quinta-feira, março 27, 2008

A ESTRANHA BELEZA DAS RUINAS SINGELAS

fotos de rocha de sousa

À medida que eu crescia, nesses anos de crueldade, as fábricas foram ardendo meticulosamente, uma após outra, e os senhores delas, simulando a dor e o desastre, partiam para o Norte ou para o Centro, abandonando (discretos) homens e ruínas. No rio prestes a morrer ao avanço da lama que ninguém removia, os fardos de aparas de cortiça vinham carregar as grandes barcaças para as últimas viagens da decadência. E eu lembrava-me do uso colectivo desses cascos de madeira, Maio-festa, velho costume de flores e farnéis, grupos em cacho nos convés, rio abaixo, pequenos portos nas hortas de bilhete postal. Acampava-se nas margens ainda jardim, entre laranjeiras, as lanchas da nossa viagem imaginariamente maior como peças de uma aventura à Salgari. A procissão voltava à cidade na maré da tarde, tac-tac dos motores, os cestos repletos de ramos ornamentais que ficariam muito tempo presos nas paredes das nossas casas, um laço de papel segurando as hastes decepadas. Restam algumas fotografias, Helena. Porque, breve na minha adolescência, tudo se degradou - homens, fábricas, crianças, o rio. E as noites de cada incêndio, marcando a fogo o próprio retrato político do país, banhavam a soturnidade das últimas mortes. Espectáculo após espectáculo que eu seguia com uma espécie de gosto comovido, um terror e uma ternura não sei porquê nem por quem, o espanto a misturar-se do mesmo modo com o apelo-repulsa dos gritos, enquanto percebia, sob as cicatrizes, como o sofrimento pode em certa medida empolgar-nos. Fiquei gostando irremediavelmente das ruínas, embora seja mais fácil ver nelas a morte do que a vida.

Excerto do livro do autor deste blog «OS PASSOS ENCOBERTOS» e que retrata um pouco a demolição do país nos anos 50, com a perda da indústria corticeira.

segunda-feira, março 24, 2008

A FACE DILACERADA DE MUITO PATRIMÓNIO

Como veremos nesta breve deriva pela zona circundante do Palácio da Ajuda, há aqui uma face dilacerada pelo decorrer do tempo e pela injúria das catástrofes, entre desleixos quanto ao dever de conservação do nosso melhor património construído. Fachadas laterais como cenários perdidos de um teatro antigo, arcos como capelas vazias, dessacralizadas, além das perspectivas angulares de tudo o que sobra a leste, a norte, sob a brisa matinal e as árvores iluminadas pelo sol ainda rasante. A beleza das ruínas, quando nem a conservação é possível, pode funcionar como apelo à contemplação, fio de memórias antigas e de fantasmas pressentidos entre várias arcadas e projecções de sombra.

fotos de rocha de sousa

sábado, março 22, 2008

JAZIGOS DE CEMITÉRIO ou PALÁCIO DA AJUDA









PERTO DOS RESTOS DO PALÁCIO DA AJUDA




Nem são precisas palavras para nomear cada resto, cada sítio abandonado em torno do palácio, o sonho português está cheio de belos destroços já paisagem, aqui, longe, no Índico, ou do outro lado do Atlântico, entre fortalezas e antigas moradias encomendadas para o Brasil, no tempo dos engenhos, levadas para lá, como a ópera de Manaus.







fotos de rocha de sousa

quarta-feira, março 19, 2008

RETOMA DE DAS PRSONAGENS ILUSTRADAS

Não se trata aqui de resgatar algo de que se fopi perdendo o fio condutor e a memória, mas apenas assinalar que este ciclo, fechado nos anos 80, fecha também aqui, sendo certo que todas as 12 peças, em histórias absurdas do ser e do estar, hoje ainda na ilusão do presente, amanhã na antecâmara da morte, fósseis de vários destinos, encenações de pessoas ainda jovens, depois mutiladas, corpos nus que sobejam na margem dos caminhos, incestos e amores sem nome, meninas gémeas que contemplam um cisne a dormir e são depois devoradas por ele. Talvez não fosse um cisne, mas parecia. A doçura do estar tornou-se voracidade do ser.

segunda-feira, março 17, 2008

PORMENORES DE OBRAS JÁ PUBLICADAS





Grandes fragmentos de quadros já publicados da série intitulada «Desastres Principais»

sábado, março 15, 2008

A REPRESSÃO OU OS CONFLITOS DE RUA




Velhos são os tempos destas crises em plena paz da guerra fria. Os alunos, em luto e luta durante 62, procuravam as razões da sua escassez de meios e o ser dos que ficavam excluidos. Os estudantes de Maio de 68, nomeadamente em Paris, decretavam nas ruas que era proibido proibir. E outras querrilhas assim, um pouco por todo o mundo, em nome da liberdade, dos direitos humanos, da esperança num verdadeiro futuro.

sexta-feira, março 14, 2008

O HABITAT DAS PARAGENS NECESSÁRIAS


fotos de rocha de sousa

MENINOS LADINOS OU BONECOS DE RUA




Para quem tiver paciência de seguir esta minha deriva por obras que elaborei outrora e recentemente, acabará por verificar que a viagem de agora, das telas e desenhos de agora, ainda se apresentam marcadas pelo léxico essencial do meu «discurso gráfico-pictórico», mesmo quando as configurações se tornam mais angulares ou retornam às sinuosidades, dobras, resoluções orgânicas e fragmentárias. Este quadro é dos anos 80 e mostra um lado de «tortura», de «fingimento», de «alegria» e de «máscaras» de brincar ou amedrontar. De cima vem o contorno surdo de uma máscara exótica ou meramente doméstica: poderá tombar sobre o rosto de menino velho, enrugado, como acontece com os anões do nosso espanto, grotescos, perversos e doces, a pele em pregas como a de um homem acabado de nascer, sangrento. Noutro ponto deste roteiro, e dentro em breve numa retoma de detalhe, há quadros recentes, quadrados, onde as hastes laminares atravessam espaços de nenhum lugar e farrapos abstractos denotam, em todo o caso, uma perna amputada, a imagem instantânea de um filme de guerra. Não é possível representar o real, mas também não podemos deixar de o referir através da vida que nos agita e compromete.
Por cima desta imagem, uma outra resgatada da série dos posters, e na qual o papel amarrotado, em trompe l'oeil, inclui a síntese de uma célebre fotografia do Maio de 68. O contraste é de meios, técnicas e forma da mensagem. Mas é ainda, ou de novo, aquilo de que somos feitos enquanto testemunhas de tempos diferentes. O que somos são todas as imagens que nos atravessam.

quinta-feira, março 13, 2008

RETRATO SEM ROSTO


O retrato não é, necessariamente, a representação mimética da face de alguém. Ou melhor: seria outrora, algo assim, mas sempre mais, pela qualidade intrínseca da expressão plástica, e segundo o contexto tecnológico existente. Numa tese universitária sobre a deriva do retrato, alguém tentou seguir esta pista de pesquisa, esta orientação criativa, percorrendo as sinuosas formas de apresentação da pessoa, não apenas do seu rosto, mas também as marcas, os sinais, os símbolos cuja raiz poderia associar-se à natureza humana, a uma certa maneira de ser e de aparecer. O júri julgou improcedente este caminho, apegou-se às determinações da evolução histórica desse género de representação a que se convencionou chamar retrato. O desenho aqui proposto é o retrato de alguém, numa certa idade e com certos adereços ou comportamentos, identificável pelos elementos propostos e organizados no plano, não apenas enquanto à memória física mas também como portadora de significações particulares.

quarta-feira, março 12, 2008

AS CATÁSTROFES DE PAPEL

















Estas peças são colagens sobre papel, ordenadas de novo sob uma tensão de catástrofe, entre o ritmo e a mistura quase ornamental dos seus efeitos plásticos. Como na maior parte dos casos da minha trajectória de trabalho artístico, os meios de intervenção no plano ultrapassam, pela diversidade de manipulações, a sua natureza intrínseca. Os papéis recortados, por vezes laminarmente, podem ser pintados no começo ou ter cor própria, industrialmente produzida. A estes materiais juntam-se outros similares mas intervencionados por referências aos jornais, notícias, derrocadas. As letras maiores quase insinuam passos conhecidos da história recente do país. Os jornais amarrotados contrapõem o seu realismo às estruturas geométricas, podendo apresentar um tratamento de completação por grafite.

terça-feira, março 11, 2008

PAUSA DE LAZER ENTRE TEMPESTADES


fotos de rocha de sousa

dor, conflitos, desastres e outras próximas lamentações, foram apaziguados por estas imagens quase sem cor, de um cinza brando, enquanto o nosso olhar tende a rolar pelo horizonte, absorvendo a distância.