Esta breve relação que estabeleço aqui, entre pinturas minhas e fotografias também da minha procura habitual, não é mais do que um sinal sobre o vasto campo de aproximações e afastamentos entre áreas como as enunciadas. Não se trata de uma questão de semelhança, mas, se há destroços e dinâmicos rasgões nos «desastres» indiciados pelas pinturas, algo de idêntico se passa na «soma de destruições» das duas fotografias, nas quais o tempo fez e desfez olhares -- e até lá conservou ícones de hoje para que não nos esquçamos da nossa própria invenção do sonho.
quarta-feira, março 21, 2007
DO REAL À PINTURA E A PINTURA ELA MESMA
Esta breve relação que estabeleço aqui, entre pinturas minhas e fotografias também da minha procura habitual, não é mais do que um sinal sobre o vasto campo de aproximações e afastamentos entre áreas como as enunciadas. Não se trata de uma questão de semelhança, mas, se há destroços e dinâmicos rasgões nos «desastres» indiciados pelas pinturas, algo de idêntico se passa na «soma de destruições» das duas fotografias, nas quais o tempo fez e desfez olhares -- e até lá conservou ícones de hoje para que não nos esquçamos da nossa própria invenção do sonho.
domingo, março 18, 2007
JARDIM COM LEGENDAS DE ALBERTO CAEIRO
quinta-feira, março 15, 2007
EXPOSIÇÃO «NOVAS FUNDAÇÕES»
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Estas obras, uma das quais já foi divulgada aqui, fazem parte da exposição de Rocha de Sousa na galeria CiDi arte. Mais uma vez a relação entre a formulação plástica manual e o modo digital foi aqui testada e a problemática da conservação da identidade nos dois campos avaliada exeperimentalmente. Embora o autor esteja a elaborar, por meios digitais, ainda em fase de pesquisa, procurando em breve aceder a outras escalas, as peças dos dois processos mantêm uma originalidade de raiz comum e o espectáculo, desta vez tratado com rigor, beneficiou de um lugar apropriado.
quinta-feira, março 08, 2007
NOJO AOS VELHOS
Era a hora alta do chá e dos bolinhos, doses pequenas, formais, miniaturais, um eufemismo da ração que constava da ementa diária. A verdade, contudo, é que só uma pequeníssima minoria de residentes da Casa se escusava a esse ritual barulhento, mal servido na qualidade e na pressa, de qualquer forma delicioso para preencher vários tipos de espera, impaciências nossas nas mesas de jogo, falas simultâneas, rachadas pelo arrastar de cadeiras ou de algumas vozes mais agudas. Eu tinha ficado a um canto, do lado dos janelões, olhando os vultos com olhares panorâmicos, mal focados; e era uma dormência tão difícil de suportar como de perceber, odores oleosos ajudando a brotar a lassidão, as imagens que me ocorriam de um suicídio com os pulsos cortados, pingo a pingo a esgotar com eles a avidez da vida, vontade do movimento, o resto (de súbito poeirento) de um projecto afirmativo, contra o absurdo. Levantava um pouco a cabeça e via um friso de pernas ora magras, ora gordas, em geral manchadas de varizes, erros de anatomia, com os pís metidos para dentro, frisos de chinelas, botas de flanela, sandálias medicinais, um espectáculo envolvido na suspensão aérea de urina e de águas de colónia baratas. Esta realidade penetrava-me nos brônquios, vinda primeiramente dos olhos, escorrendo por dentro de mim em jeito de náusea, alternando com un nojo objectivo, agressivo, que me apertava a garganta. As vozes esganiçadas, ou o som de trapos soprados pelo vento, criavam naquele espaço uma estranheza concordante com as figuras por vezes goyescas de muitos dos velhos residentes, bocas desdentadas, desenhadas a frio, as gengivas petrificadas à flor de covas escuras. Muitos rostos começavam a fixar-se no fundo da memória, fotografias amontoadas, dobradas pelo tempo, grupos de velhas senhoras encostadas no jardim dos sofás, com os seus corpos obesos, os bracinhos agitando figuras abstractas, dedos gordos qe batiam o ritmo de uma afirmação, dedos magros a deslizar por coxas magras, apanhando fios invisíveis, reexaminando as fissuras do tecido, tacteanso a lembrança da pele jovem através dele, a pele desses dias de sal e gaivotas, algum corpo mais, ali perto, na praia à noite e depois das férias, nudez plácida após cada orgasmo, o peito a arfar, o dela e o do outro --era tarde na melancolia do céu estrelado e na aparente possibilidade de um repúdio do gosto pela preguiça, um resto de suor entre os seios de mamilos ainda endurecidos. E eu via entretanto certa mão gorda, ali perto, numa pose autista, a descansar no desproporcionado e grosso desenho da coxa; e as pernas curvavam para dentro, acabando em pés insuflados, as pontas enviesadas, a pele escondida por meias cinzentas, cerzidas, um resto de roupa interior abaulada, perdida (à vista) no côncavo da pose sem alma. Trapos pardos, trapos sépia um pouco por toda a parte, a par de algumas palavras ou frases geradas naquele ruído quebrado mas forte; e dezenas de bocas abrindo-se e fechando-se no ar brumoso, a lembrar seres dotados de guelras, bocas ovais logo fechadas no arco em rosa dos lábios de novo apertados. Faces pálidas em redor, algumas rosadas, uma boa dezena de pessoas imóveis, transitoriamente olhando para dentro de si, a rever porventura a frouxidão que acomete a vida, ou vidas para nada, entre a névoa que pairava levemente no lago da Quinta do Conde -- lugar provável da meditação completa, enquanto os peixes bem tratados não fugiam à lei da vida, começando a dormitar, a morrer de velhos, cercados por montes de exemplares vermelhos, todos virando à esquerda e à direita num golpe secreto de comando. Na Casa, apesar de haver um grande aquário, não se descortinavam acções de desvelo pelos habitantes da água verde. E, no entanto, podíamos observar também peixes grandes, pesados, sonolentos, rodeados igualmente por pequenos cardumes de bebés vermelhos, ordenados, que pareciam patrulhar com um navegar nervoso os seus iguais claramente mais idosos, as escamas enfim baças, seres de outro mundo ainda a flutuar na água onde parecia escassear o oxigénio. Nesse lugar privado, especial, encostado às sombras, dir-se-ia acenar ainda um fio de vida no líquido por fim imóvel, baço, ou até impensavelmente sujo,
Nota: este texto corresponde a um fragmento do capítulo 13 do livro, cuja publicação está a negociar-se, e é da autoria de Rocha de Sousa, por sua vez rascunhador deste blog com diversas obras ou parte delas, entre vários meios de expressão. O livro intitula-se, numa espécie de antítese NOJO AOS VELHOS.
domingo, março 04, 2007
EÇA DE QUEIRÓZ VANDALIZADO NA FANTASIA
CONFIGURAÇÕES DAS PEDRAS SIMBÓLICAS
ESTUFA DESERTA
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
VELHOS SÃO OS BARCOS
domingo, fevereiro 25, 2007
OLHAR E FECUNDAR
Esta breve incursão nos meus ensaios de desenho e pintura com meios digitais e fixação por impressora pretende apenas dar a ver, entre outros espaços de criação, uma forma plástica que, apesar de não perder a identidade da forma que pratico, releva contudo da compreensão mais despojada quer dos meios quer do discurso. Evocando a construção do desenho animado, a primeira imagem, em cima, sugere um personagem vagamente naif, habitante corrente da rua, a contemplar um objecto absurdo, suspenso sobre a sua cabeça, ou vogando, observador, sobre quem o fixa em jeito de surpresa.A imagem situada em baixo, fazendo concordância formal e cromática com a anterior, parece a metamorfose irrecusável da outra que descia e se requalifica absorvendo o pequeno personagem espantado. Agora ´poderemos imaginar uma entidade híbrida, um corpo de dois blocos inchados em ariculação no espaço, ser indizível e que, em princípio, suscitará algum respeito pela sua estranheza.Esta abordagem às duas pinturas não é um entendimento científico, que parta das estruturas básicas, cromáticas, além de seres vagamente humanóides em apelo transformista, a par de um trabalho mais gráfico do que pictórico, a lembrar o desenho animado ou a banda desenhada. Se essas coordenadas se podem convocar, desta ou de outra maneira, a verdade é que todo o espaço da nossa experiência pessoal, criativa, diante de propostas tão abertas quanto estas, fica de facto livre, no limite de um imaginário sempre rico.Na mais extrema das metáforas, resta-nos a liberdade para dizer que ollhar também fecunda. A metamofose final é, porventura, o resultado de uma simbiose fecundante, biologicamente pomposa.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS
As pinceladas gestuais entre lixos rasgados tão perto de personalidas públicas |
É inútil desvincular o pensamento plástico do visível
A realidade transforma-se a cada instante ou o uso que fazemos dela, ou ela de si mesma. Mas no confronto das coisas visíveis com a sua metamorfose expressiva, diferença e semelhança acabam misturando-se no nosso próprio imaginário. Aquilo que os artistas nos dão a ver é parte do que eles próprios vêem e do que se encontra para além do visível, formas expressivas outras — e o sonho. ________________________ pinturas de Teresa Magalhães fotografias de Rocha de Sousa |
terça-feira, fevereiro 13, 2007
A CÂMARA CLARA
«A Fotografia não diz (forçosamente) aquilo que já não é, mas apenas e de certeza aquilo que foi. Esta subtileza é decisiva. Diante de uma foto, a consciência não segue necessariamente a via nostálgica da recordação (quantas fotografias estão fora do tempo individual), mas, para toda a fotografia existente no mundo, a via da certeza: a essência da Fotografia é ratificar aquilo que representa. Um dia, um fotógrafo enviou-me uma foto minha. Apesar dos meus esforços, não consegui recordar-me onde havia sido tirada. Inspeccionei a gravata, o pull-over, a fim de detectar em que circunstância os tinha usado; trabalho inútil. E, contudo, porque se tratava de uma fotografia, não podia negar que tinha estado lá (mesmo que não soubesse onde). Esta distorção entre a certeza e o esquecimento provocou-me uma espécie de vertigem e como que uma angústia policial (o tema de Blow-up não andava longe); eu ia à inauguração como um inquérito para compreender finalmente aquilo que já não sabia de mim próprio» 1
sábado, fevereiro 10, 2007
DANTES FOTOGRAFAVA-SE ASSIM
As fotografias aqui publicadas correspondem aos avôs paternos do autor deste blog. Claro que, revisitadas, são sobretudo uma homenagem familiar. Mas aqui podem testemunhar como já se fotografava nas duas primeiras décadas do século XX e o sentido de plasticidade, poeticamente muito forte, que emerge desta vaga bruma, desta distância logo anunciada naquele tempo. De resto, tratando-se de peças de grande formato, mais se apuram os nossos sentidos na peculiar natureza destas pessoas a montante do traçado da nossa vida.Eugénio ds Santos, autor das fotografias e muito reputado no país, era daqueles que punham os pintores retratistas em polvorosa, pois este realismo é bem maior do que as laboriosas imagens que eles produziam.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
RONDA TÉCNICO-IMAGINÁRIA: DERIVAS
terça-feira, fevereiro 06, 2007
DOIS PEQUENOS OBJECTOS SEM NOME
Voltando ao campo da imagem pictórica de base digital, aqui temos duas composições gemináveis, orientadas segundo a diagonal ascendente, mas equilibrando-se porque a colocação no espaço acentua o peso visual no quadrante inferior esquerdo. As pinturas estabelecem uma relação de semelhança na diferença, isto é, a sua configuração geral é idêntica mas o detalha afasta-as: à esquerda, onde não seria difícil nomearmos uma sacola suspensa, a periferia aproxima-se da imagem colocada do lado direito. Mas, neste caso, há formações orgânicas que parecem guardadas (no interior da sacola?) e que determinam uma hipotética desmultiplicação de sentido.Além disso, o elemento de sustentação não existe ou tem outro desenho: correia de um lado, asa de mão do outro.A leitura analógica numa composição, ou em duas que se formaram da mesma génese, tende a historiar os elementos, relacionando no campo a sua história e os significados eventualmente comparáveis.
domingo, fevereiro 04, 2007
FRAGMENTO DE «A CASA REVISITADA»
12
_______________________________________________________Tento esvaziar a primeira gaveta do primeiro móvel à direita da porta, na sala que servira de escritório. Escritório depois destituído de funções, biblioteca sem ordem, arrecadação de caixas e selos, ossos antigos, candeias árabes ou sala de estar ou sala de trabalho — retiro de desenhadores, leitores prováveis e poetas de circunstância. Avanço dedos indecisos no arquivo nostálgico dessas idades que se perdem na desordem, fabuloso nexo, por outro lado, de múltiplos desarranjos criadores, e os maços de fotografias emergindo na superfície cheia como um lixo branco a crescer. Meninos nus, deitados sobre pedestais de seda, misturam-se com rapariguinhas de chapéu branco e laçarotes cinza, ou com fotografias de famílias inteiras expostas de frente, desbotadas pela lenta cremação das matérias modeladoras do visível, agora quase flutuando numa espécie de queimadura feita pelo obturador demasiado aberto — olhos negros suspensos em véus mal definidos, brancos de ausência, alto-contraste a negro dos fatos, as polainas dos homens tornando autónomos e caricatos os sapatos sem corpo, sem chão, reduzidos à perspectiva do escorço, ou laterais e solitários ao lado de bengalas presas a mãos invisíveis. Deixo cair montes destes fantasmas sobre o pó do tapete, procuro com alguma impaciência o fundo da gaveta, leio de raspão sonetos que passam, pateticamente líricos, e espreito caixas de cigarrilhas podres, acabando por esgaravatar, munido do corta-papéis, os papéis sedosos e dobrados que encobrem os últimos testemunhos, cartas soltas, postais, um barco enorme todo furado de vigias, carregado de formigas escuras, de acenos, de serpentinas, de cordas pesadas. Apesar da diferença festiva, este navio faz-me lembrar as partidas dos paquetes para África, nos anos sessenta, sem alegria nem serpentinas, muito mais cheios de silhuetas, três mil soldados de cada vez, todos para Angola e em força, as malas, os sacos, os gritos mutilados, intérpretes depois por muitos natais que a televisão transmitia de forma massificada, banalizante, «um adeus português», mensagens a preto-e-branco na distância impensável, a câmara a deslizar de rosto em rosto, «um abraço para vocês, bom Natal, adeus e até ao meu regresso».________________________________________Excerto do livro A CASA REVISITADA, de Rocha de Sousa. Penso que posso passar a publicar aqui referências aos meus livros, da minha obra polifacetada, tais como A CULPA DE DEUS (para um ensaio sobre o livre arbítrio), publicado pela Tartaruga. O primeiro romance (discreta iniciação) chama-se OS PASSOS ENCOBERTOS e foi publicado pela Editora Figueirinhas, Porto. ANGOLA 61, uma crónica de guerra, teve dupla publicação, pela Contexto e Circulo de Leitores. Fora a ficção, fiz o meu trabalho de natureza científica, Belas-Artes, Gulbenkian, Universidade Aberta. Constam da distribuição académica. Na ficção, o último a sair foi A CULPA DE DEUS, pode ser pedido à editora Tartaruga e em vários sítios de Lisboa, como a Sá da Costa e a Ler (C.Ourique)
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
ENSAIO SOBRE OS SINAIS DA VELHICE

quinta-feira, fevereiro 01, 2007
OS SENTIDOS DO SENTIDO CROMÁTICO
Trata-se de um pincel virtual
que trabalha no ecrã,
risca, corta, pinta, rasura.
A estrutura cromática
não apaga o ruído
mas abafa o conjunto
e confere-lhe uma
homogeneidade lírica
Os contrastes mais violentos,
apesar de uma certa
monocromia de cinzas
e castanhos avinhados,
fingem aproximações
ao real, à sensação de
conflito, violência e estrondo,
indfinidamente no tempo
pintura digital de rocha de sousa