domingo, maio 10, 2009
CASAS EM RUINAS, SINAIS DE GENTE PERDIDA
sexta-feira, maio 01, 2009
DIA PRIMEIRO DE MAIO OU O DIA DA MÃO
Após o dia 25 de Abril de 1974, os cravos multiplicaram-se em todas as festividades e rondas da tropa. Ainda havia companhias de infantaria na sua quadrícula de Angola, Moçambique ou Guiné. Muito antes disso, em 62 e no mesmo dia, gente meio fardada e barba crescida agarrava nas armas automáticas e abria arduamente picadas quase escondidas no capim e nas matas dos Dembos, perto de Zala. No fim dos anos 40, em Portugal Continental, as armas jaziam nos quartéis da Guarda Nacional Republicana, homens duros, com mãos quadradas, que faziam o seu giro de vigilância a cavalo, um par de cavalos, dois homens pesados e lentos olhando para diante. Mas nesse tempo o 25 de Abril só servia para esperar pelo 1º de Maio, dia do trabalhador, ideia de uma esquerda longínqua, aliás proibida em todo o país. Os trabalhadores não trabalhavam e juntavam famílias em grandes barcaças, em rios como o Guadiana, o Arade, e outros tantos, a sul, levando consigo mulheres e filhos e farnéis, um ou dois harmónios, facas de defesa e sobretudo de dividir pão, fruta, febras ainda por cuidar. Rio abaixo, bem carregadas, lá seguiam as barcaças, entre risos e o tac-tac dos motores, água ondulando no movimento, canas partidas flutuando na traseira do mundo. Todos ancoravam nos pequenos portos das hortas, quintas bordadas pelos caminhos fluviais, cheirando a frutos e flores, moços e moças logo bailando ao pôr pé em terra. E por ali se acomodavam famílias sonhando com mais vida e mais cortiça, em particular no rio Arade, estrada que levava os fardos com rolhas até ao mar e aos cargueiros fundeados além.
Era assim o primeiro de Maio, dia dos trabalhadores, data emblemática da mão que os representa das mais diversas formas, agarrando coisas, acenando para longe. E cada vez o 1º de Maio foi principalmente um sonho, uma recordação, dia das mãos dadas como depois de Abril de 74, dedos agarrados à imagem do futuro, multidão nas ruas de Lisboa, mãos nas mãos, o abraço e o dedo apontado, cartazes, bandeiras, liberdades. Mãos. Nunca mais a mão solitária. Foi assim e já as armas aperradas no outro Continente baixavam canos e os soldados gritavam pelos barcos de volta. Mãos acenando no regrasso, como na partida, mãos retornadas em salvação.
terça-feira, abril 28, 2009
ALGUMAS LINHAS SOBRE O LIVRO «A CASA»
sábado, abril 25, 2009
25 DE ABRIL OU A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
segunda-feira, março 30, 2009
DO VISÍVEL EM ESTADO PÓS OPERATÓRIO
Quando o Conde chegou não vinha deitado numa maca. Vinha bem estendido numa espécie de cama, com texto de pano orlado por galão dourado e vários médicos seguravam nos prumos em talha barroca, uma roda chiava por baixo de tudo, cheirava a rosmaninho, tudo como numa procissão das flores. O Conde estava vestido com um bonito fato bege dourado, barbeado, cabelo com gel, um bigode em espirais, uma boquilha com cigarro apagado, as mãos cruzadas sobre o peito, segurando as luvas brancas e uma requintada bengala estendida até aos joelhos. Sapatos de verniz, bordeaux, cada bico para seu lado. A enfermeira gorda (obesa) não ligava nada ao que se passava ao lado da sua imensa anca, excepto os dedos do outro, enquanto a mulher dos anos 30 retomara a sua forma tufada, leve, breve, dirigindo-se para a cova funda donde viera. Mas não era um fantasma, nem uma lembrança pueril.O médico chefe levantou-se e cumprimentou-a, o que é sinal de que a via como eu, aliás confirmado no beijo que lhe deu (curvado) na mão enluvada. Tudo de caminho, delicadamente, e ela disse duas ou três palavras, e as palavras (que pareciam angulares) não chegaram aos meus ouvidos, enrolaram-se no pavilhão, deslizando pelo vinco da cartilagem. Cento e vinte, cento e trinta. Um coração, ou ícon aceso, um zumbido das máquinas por cima de tudo o que estava dependente do chão, camas, cadeiras, monitores, cabeças, luzes de presença, uma legenda de saída. E enfim, na cama ao lado da minha, o Conde deitado como chegara, os olhos líquidos ao alto, as narinas farejando o infinito.
quarta-feira, março 18, 2009
COMENTÁRIO A UM ACHADO DOS ANOS 60
VIAGEM AO FUNDO DA INICIAÇÃO EM PINTURA
texto da jornalista Manuela de Azevedo, anos 60
terça-feira, março 03, 2009
DOIS LIVROS DECISIVOS, ENTRE DEUS E ARTE
A CULPA DE DEUS
segunda-feira, março 02, 2009
A CASA DOS VELHOS E A MORTE ANUNCIADA

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texto de síntese publicado no Bar do Ossian a propósito de um livro do autor deste blog e cuja
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
CARTAS SÉRIAS, CASAMENTOS RIDÍCULOS
domingo, janeiro 25, 2009
DESTITUIÇÃO DE DOGMAS NA PINTURA
sábado, janeiro 17, 2009
EXERCÍCIO SOBRE OBSTRUÇÃO DO REAL

Agora até me ocorre misturar as vielas de Lisboa, e o lixo, e as paredes descascadas, com a visão em negativo daqueles quadros. Quadros, alucinações, todo esse surdo amontoado de ruínas e cenas diversas que vieram não sei bem donde. Gente escura, oleada, e as meninas leitosas, fora de época. Cabeças penduradas de janelas, entre flores. Como certas lendas de 1900, varandas coloniais e cemitérios de automóveis. Terra em volta, ferros e coisas de que se pode ainda falar com alguma propriedade, outras emergindo dos buracos da história e as mornas, um arrastar de pés descalços, os muceques. Umas vezes tudo parece tolerável, apesar do cheiro imaginado e da náusea, essa agonia que escorre dentro de nós ou molha a nossa pele num clima opaco. A argamassa intercalar, que separa cenas, que apodrece ilustrações, fizeram isso por ela, trataram-na como cartilagens e carne. Isso perturba-me, confesso. Procuro borboletas, aquelas que via na margem do rio Loge, no sentido de reinventar a beleza sobre o feio, saio de campo, penso numa certa rua de Ambriz, ou mais velha, em Lisboa, e consigo por vezes ficar preso num fogo de deslumbramento inquisidor, códigos e segerdos em cada porta, nas esquinas, nas sepulpturas dos militares entre paísagens ásperas, lugares como os morros de Nambuangongo. Eu sei, aquela pintura não anuncia nenhuma cartografia. A memória africana vem de outra latitude, desaba constantemente sobre muitos trechos de cada composição, entre cubatas, colunas de betão e toscas balaustradas de velhos senhores bem disfarçadas sob as grandes abas dos telhados, ciência benigna de perceber as intempéries. Pé direito muito alto, por outro lado, a parede amarela, até no primeiro andar entre janelas com portadas e ripas, pássaros em gaiolas brancas, fogo aqui e além, vozes antes do sono, nenhum bicho de porte aflitivo ali chega, sem perceber as chamas e as saltar por conta de tanto espaço. Nem mesmo os elefantes com insónias se aproximam das fazendas, deambulam pelas lagoas, nós estamos confinados aos charcos de lama onde deslizam, numa chiadeira, os machibombos da Carris, daqueles que costumavam atravessar-se na Estefânia, encurralando o trânsito, ali como em dezenas de praças da cidade. Autocarros, eléctricos, pardais à solta em Sete Rios e os carros das distribuições, a qualquer hora, entalados na rua do Sol ao Rato ou lá para os lados da Madalena. Acabaram com as docas podres do Poço do Bispo, os ferros, as areias, as barcaças oxidadas. Crescem casas. A multidão de um daqueles quadros guardados na Embaixada de Moçambique pode muito bem ser a malta dos concertos que ensurdecem meia cidade, árvores morrendo de pé, sobreiros decepados no Alentejo, nem jardins, nem Feira Popular. Tenho quase a certeza de que os ratos vão aparecer nesta Oran, cidade que também fora despida de árvores e já não albergava pombos. É a peste. Estes autarcas são duros de roer quando querem, na sua incompetência institucional, embelezar algum recanto de uma rotunda: acham logo palmeiras, africanizam calçadas em salpicos, contra o lado meridional da desaparecida cidade do pintor Botelho. Deixaram arder fragatas. Dizimaram milhares de jovens. Venderam mal as especiarias. Correram com os jesuítas e agora há por aí, entre arqueólogos e antropólogos, montes de santeiros alternando com fadistas.
Eventual trecho de um livro sobre o sentido da criação, Obra de Ninguém
sábado, dezembro 27, 2008
AS ÁRVORES MORREM DE PÉ, AS PEDRAS NÃO
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fotos de Rocha de Sousa
domingo, dezembro 21, 2008
ANALOGIA, CONOTAÇÃO, IMAGEM, SENTIDO

quinta-feira, dezembro 18, 2008
FOTOGRAFIA MENTE TANTO COMO A PINTURA

sexta-feira, novembro 28, 2008
O BAZAR LABIRÍNTICO DA VIZINHA PATRÍCIA
quarta-feira, novembro 26, 2008
RESGATE DE UMA PINTURA DOS ANOS 70

sexta-feira, novembro 21, 2008
TALVEZ UMA DESERTIFICAÇÃO ANUNCIADA


