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domingo, maio 10, 2009

CASAS EM RUINAS, SINAIS DE GENTE PERDIDA


Casas velhas, em ruínas, dezenas e dezenas de casas assim, dispersas pela paisagem mal tratada do barrocal algarvio. Muitos anos depois de abandonadas por camponeses que haviam perdido o tino do seu trabalho, do que se pedia ao solo e o solo dava, ou do que se semeava mais além e tudo os ventos varriam, entre enchutrradas e animais rolando e morrendo nas encostas pedregosas, com menos fio de terra e poucas árvores, depressa o sol e a seca, homens cinzentos, indo e vindo, empurrados pela escassez dos elementos de que precisavam, quase sem pão, o Henrique que o vendia vinha menos, queixava-se do preço da farinha, da falta de créditos, mas era o último elo de ligação dos camponeses reféns do seu projecto incompleto, para o qual todas as precisões se esgotavam. Henrique trazia, além do pão, algumas coisas de utilidade imediata, como o petróleo para os candeeiros, remédios encomendados à farmácia da aldeia, tão longe e tão pobre a aldeia, velas, pilhas para algum pequeno rádio, sementes, algum azeite. Apitava e desapitava à partida, voltava quando calhasse. Os Messias pediram-lhe que lhes enviasse uma carrinha com tijolos e telhas, das redondas, poque parte da sua velha casa tombara no pino do Inverno. O burro não servia para isso, coitado, mal podia andar pelos serros da cercania de Alferos. Os burros haviam sucumbido ao longo das útimas décadas, velhos, cansados, com doenças pulmonares, entre outras. Eram enterrados como pessoas, nomeados em cruzes de madeira, o que, aliás, também acontecia com os cães e os pássaros de estimação. A fuga daquele lugar que nem sequer vendia o que malmente conseguia produzir. As casas desabitadas, vandalizadas ano após ano tornaram-se jazigos de almas penadas e pequenos bichos acossados.




Estas ruínas formam um quadro arqueológico recente, cerca de cem anos, mas parecem mais remotas, vandalizadas por caligrafias dos meninos da cidade, bufando tinta spray em tudo quanto era muro disponível, ou mesmo indisponível, como acontece nas próprias cidades, por cima de cantarias modernas já com restos de carvão, tintas, cartazes rasgados, bonecos e letras afinal velhas e também de sentido desfocado na dissolvência do que parecera civilização.




Os ciclones eram raros, raros o gado desde então, pessoas solitárias apanhando lenha, cultivando alguns legumes e rezando aos santos dos altares domésticos a favor dos meninos e dos velhos perdidos na serra. Ventos sim, vieram depois, com a escassez de moeda e de sonhos, orvalho pelas manhãs de Dezembro, ou em Janeiro, ou mesmo em Fevereiro. Não havia nem ovelhas, nem cabras, nem gatos ou cães pastores, companheiros leais que ajudavam nas lides do dia-a-dia. Restam galinhas, os ovos das galinhas, o pão do senhor Henrique, o resto foi desaparecendo das tábuas, prateleirias toscas mas rijas, ficavam por vezes um ou dois candeeiros a petróleo, algum azeite, uma pinguinha de vinho. E pouco mais em panos. panos de uso nas limpezas supérfluas. Lavados em pouca águas, estendidos ao sol, em duas lajes. Os panos. Velhos são os panos






fotografias de rocha de sousa

sexta-feira, maio 01, 2009

DIA PRIMEIRO DE MAIO OU O DIA DA MÃO


foto de rocha de sousa

Após o dia 25 de Abril de 1974, os cravos multiplicaram-se em todas as festividades e rondas da tropa. Ainda havia companhias de infantaria na sua quadrícula de Angola, Moçambique ou Guiné. Muito antes disso, em 62 e no mesmo dia, gente meio fardada e barba crescida agarrava nas armas automáticas e abria arduamente picadas quase escondidas no capim e nas matas dos Dembos, perto de Zala. No fim dos anos 40, em Portugal Continental, as armas jaziam nos quartéis da Guarda Nacional Republicana, homens duros, com mãos quadradas, que faziam o seu giro de vigilância a cavalo, um par de cavalos, dois homens pesados e lentos olhando para diante. Mas nesse tempo o 25 de Abril só servia para esperar pelo 1º de Maio, dia do trabalhador, ideia de uma esquerda longínqua, aliás proibida em todo o país. Os trabalhadores não trabalhavam e juntavam famílias em grandes barcaças, em rios como o Guadiana, o Arade, e outros tantos, a sul, levando consigo mulheres e filhos e farnéis, um ou dois harmónios, facas de defesa e sobretudo de dividir pão, fruta, febras ainda por cuidar. Rio abaixo, bem carregadas, lá seguiam as barcaças, entre risos e o tac-tac dos motores, água ondulando no movimento, canas partidas flutuando na traseira do mundo. Todos ancoravam nos pequenos portos das hortas, quintas bordadas pelos caminhos fluviais, cheirando a frutos e flores, moços e moças logo bailando ao pôr pé em terra. E por ali se acomodavam famílias sonhando com mais vida e mais cortiça, em particular no rio Arade, estrada que levava os fardos com rolhas até ao mar e aos cargueiros fundeados além.


Era assim o primeiro de Maio, dia dos trabalhadores, data emblemática da mão que os representa das mais diversas formas, agarrando coisas, acenando para longe. E cada vez o 1º de Maio foi principalmente um sonho, uma recordação, dia das mãos dadas como depois de Abril de 74, dedos agarrados à imagem do futuro, multidão nas ruas de Lisboa, mãos nas mãos, o abraço e o dedo apontado, cartazes, bandeiras, liberdades. Mãos. Nunca mais a mão solitária. Foi assim e já as armas aperradas no outro Continente baixavam canos e os soldados gritavam pelos barcos de volta. Mãos acenando no regrasso, como na partida, mãos retornadas em salvação.

terça-feira, abril 28, 2009

ALGUMAS LINHAS SOBRE O LIVRO «A CASA»

foto de rocha de sousa

«É um livro profundamente dramático e violento, que nos dá a ver, de um modo nu e cru, o que não quereríamos saber da condição humana. O sofrimento, o egoismo, a amargura, os afectos e desafectos das relações e por fim o desespero e o medo, tudo o que nos pode levar à desumanização dos comportamentos, pessoais e sociais.
A escrita é muito bem elaborada, extraordinariamente descritiva e incisiva na sua dimensão visual. A personagem principal surge muito bem construída, entre o real e a ficção, obrigando-nos a fazer o percurso dos "caminhos da dor e do medo", ao longo dos diversos episódios narrativos, ou melhor, reflexivos. Curiosamente, e tal como aconteceu noutros livros do Rocha de Sousa, a presença dele é, para mim, constante. Não consigo deixar de o identificar, como pessoa/personagens, durante quase toda a leitura. Talvez porque alguns momentos se colem a outros, reais, em conversas que tivemos desde há muito. Reconheço-o nas palavras e pensamentos daqueles personagens, na elaboração das suas emoções e sentimentos, nos actos que praticam e no modo como os praticam.
O final é muito bom, é como se estivéssemos sós numa paisagem a ver o sol desaperecer na linha do horizonte»
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de Luisa Gonçalves (professora e artista plástica) numa troca de correspondência. Este livro vem anunciado neste blog e no Desenhamento, tendo sido editado é distribuído pelo «Círculo dos Leitores»

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL OU A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS


Acordei ao som da rádio, naquele dia de Abril de 1974. Havia portas a bater, carros assustando as ruas, carros apitando sem parar, como acontece frequentemente nos casamentos. Um amigo telefona-me e dá-me a notícia: o tal movimento dos capitães está na rua. O governo vai cair. Ainda lhe pergunto, sobreposto ao entusiasmo das vozes do outro lado da linha: e basta que esse movimento esteja na rua? Você tem assim tão grande fé? E ele, em perfeita bonomia: não é de fé que se trata, é de esperança. Eu, ainda ensonado: ainda bem para todos. E a rua, como está a rua? O meu amigo, impaciente, a rasgar a voz: a rua desobedece, obviamente, às ordens em nome da segurança individual, é gente e gente, muita gente, talvez gente que não tem fé nem esperança, tem, isso sim, a certeza.
E então, ao abrir o rádio, uma voz convicta dizia: aqui, Movimento das Forças Armadas.
Não foi preciso esperar muito tempo, horas ou dias, para que a certeza popular acompanhasse a forte convicção das forças que haviam, enfim, tomado os pontos cuciais de Lisboa, a par de outros semelhantes acontecendo um pouco por todo o país, numa linha principal e bem estruturada. Floresciam já, assim mesmo, os cravos vermelhos, símbolo indelével do golpe militar que permitiu, à noite, na televisão, declarações lapidares dos factos e sobretudo a leitura de um programa sintético a explicar os pontos essenciais desta viragem no regime: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização. Já nem posso garantir que estou a escrever certo. O amigo que me telefonou no próprio dia 25 de Abril, anda desolado com a marcha da História. Flores emblemáticas sempre recuperadas ao longo dos anos, eram os cravos que as crianças, alegres com o lado bizarro do seu acto, metiam no cano das espingardas em repouso mas em alerta sereno, aparentemente cuidando do futuro.

segunda-feira, março 30, 2009

DO VISÍVEL EM ESTADO PÓS OPERATÓRIO

As paredes da casa eram forradas por pinturas em escaiola, janelas e portas forradas de cantaria, vidros apertados por caixilhos aos losangos, um leão de ferro como batente da altíssima porta, altíssima e dividida e alinhada por esquadrias já muito desguarnecidas de tinta, castanho de lepra, tudo encerrado, mesmo as lados internas atrás dos vidros, fracturas aqui e além, velaturas de água toldada de ferrugem abatendo os valores cromáticos dos falsos mármores, bela imitação, em todo o caso, de certos tons rosa, cinzas lascados, lisura que sobrara dos abandonos todos.
Esta imagem, realista até ao limite da sua objectividade cortante, configurava a parede do fundo da enfermaria, o que não podia ser no bom juizo das pessoas, e eu era pessoa, mas via, confrontava, ora estava dentro de mim, como um feto no ventre da mãe, ora me via deitado, quase confortável, sem dores, um tubo a sair-me da boca, o que era justamente o oposto, mistrura de oxigénio e anidrido carbónico, um sabor a plástico, portanto o tubo vinha de fora para bafejar os meus pulmões e não destes para éter da sala.
A certa altura, não sei quando, se de noite, se de dia, reparei numa mulher que se deslocava pela frente da fachada em escaiola, direita, com chapéu acastanhado, um vestido em pétala de rosa pálido, cintura descaída como nos anos trinta, tecido todo a flutuar, um cinto do mesmo tecido do vestido mas na cor do chapéu. Ela usava luvas rendadas, acastanhadas também e até meio do braço, a pele muito branca, levemente aquecida, os olhos em sombra sombrios, assim as sobrancelhas escondidas nos cabelos soltos sobre a testa. Destacavam-se os lábios pintados com um baton rosado, embora mais escuro do que o rosa da tinta do vestido, fío de asa, lenta queda da borboleta, a vida pouca. Gritos ao longe. A mulher parou, rodando a cabeça num medo antigo, e foi encostar-se à parede e ali ficou parada, um joelho levemente avançado, imagem desfocada do cinema, talvez a imagem não fosse de mulher agora, perto de mim, e sim do real outrora, aparecido, parecido, como se esta existência não o fosse, se calhar nem tudo o que se pode ver seja existente e palpável, embora nos toque o fundo dos olhos, vogando para o fundo do cérebro e aí se conclua em cópia do já visto.
Os gritos. Os gritos rolando do fundo do espaço, batendo neste lado da enfermaria, palácio revertido do século XIX. Gritos estranhos, certamente, pois ali só se viam os médicos sentados em torno de uma mesa redonda, falando entre si, falando mais concretamente do que o som dos gritos, falas altíssimas, a prova do que nos dizem pelas esquinas, o facto desta gente não nos respeitar, médicos, enfermeiros, auxiliares, mesmo na enfermaria dos cuidados intensivos onde as vozes sonoras deveriam descer ao nível do murmúrio, como se estivéssemos na ante-câmara da morte, ou, indevidamente como Didi e Gogo, à espera de Godot, sob a árvore encrespada.
A mulher dos anos 30 parecia um cartão hiperrealista encostado à parede, um lance de escadas ali perto, distorcidas, existentes assim, anunciando a verdade aterradora do nosso irrecusável estrabismo. A mulher parecia um cartão plano, a imagem em alta definição, estava encostada à parede como um cartaz à espera, o volume perdido, a coxa fingida, também a ondulação do vestido, volúpias ornamentais e eróticas, o tom carnal da pele fina. Os médicos falavam todos ao mesmo tempo, pareciam mais gordos, trocavam cartas, bebiam café, e ali perto eu podia ver alguns monitores a trabalhar, televisões minimalistas cujos ecrãs negros, atravessados por linhas verdes e azuis, mostravam a palpitação de números em cima e em baixo, cento e vinte e três, cento e vinte e cinco, sete e trinta e cinco, trinta e quatro, tubos vindos de certa vasilha transparente, com líquido transparente, que mais parecia uma garrafa com o gargalo para baixo, tubos de plástico, pingo, pingo, pingo, o tempo contado pelos pingos, pelos gritos, por um pressentimento de gestos terminais. Então pensei na eutanásia e os médicos continuavam a rir e a falar, as gargalhadas rolavam pelas lajes como bolas de bilhar fora do tabuleiro, da ideia delas acontecia lentamente a travessia de ferros cromados, de pinças, pingos, objectos metálicos de brincar. Os médicos bebiam água por copos de plástico (talvez) em escassos goles. Mas que diziam dentro daquela massa sonora de ruídos? Falavam tão alto que eu nem conseguia escutar, perdia fonemas, palavras, conteúdos. Ah. Estomafálico, laríngua, redonfilia e anaudrato de fénico.

Todos riram quando entrou na sala, vinda do escuro, uma enfermeira obesa, passinhos curtos, gestos obscenos para os outros em volta. É o Conde que está a chegar. Morreu a condessa e a cidade ficou gelada, atrapalhada, coisa tonta numa República. O Conde tinha ficado em estado de choque (no fundo tinha outra mulher escondida com ele atrás de um biombo em cores desbotadas). A Condessa caiu. Não podia ter visto nada mas caiu, de morte súbita, como um vulgar jogador de futebol. Foi então assim, no tapete persa (que disparate, ser persa), fez plof ou plaf, consoante a roupa, e o Conde morreu, sentiu-se mal, esteve metido em contingências de enfarte, e o INEM vai depositá-lo aqui. Já sinto o cheiro a flores e a condição de morto assesssor nesta enfermaria transformada em câmara ardente. Há flores numa mesa. Falsas, certamente. Os risos ultrapassam agora os gritos. A enfermeira gorda (obesa) acaba sentada no colo de um médico vigilante, que não vigia nada, e ela beija-o furiosamente, pernas largas, peludas, transsexuais, obviamente impróprias para lidarem com as meias brancas, enrodilhadas sobre os sapatos brancos, desses que fazem lembrar o ténis sem qualquer razão. Antes as pernas das jovens tenistas, fortes, mansas ou tensas, longas trementes, luzindo o ardor da luta ou do prazer.


Quando o Conde chegou não vinha deitado numa maca. Vinha bem estendido numa espécie de cama, com texto de pano orlado por galão dourado e vários médicos seguravam nos prumos em talha barroca, uma roda chiava por baixo de tudo, cheirava a rosmaninho, tudo como numa procissão das flores. O Conde estava vestido com um bonito fato bege dourado, barbeado, cabelo com gel, um bigode em espirais, uma boquilha com cigarro apagado, as mãos cruzadas sobre o peito, segurando as luvas brancas e uma requintada bengala estendida até aos joelhos. Sapatos de verniz, bordeaux, cada bico para seu lado. A enfermeira gorda (obesa) não ligava nada ao que se passava ao lado da sua imensa anca, excepto os dedos do outro, enquanto a mulher dos anos 30 retomara a sua forma tufada, leve, breve, dirigindo-se para a cova funda donde viera. Mas não era um fantasma, nem uma lembrança pueril.O médico chefe levantou-se e cumprimentou-a, o que é sinal de que a via como eu, aliás confirmado no beijo que lhe deu (curvado) na mão enluvada. Tudo de caminho, delicadamente, e ela disse duas ou três palavras, e as palavras (que pareciam angulares) não chegaram aos meus ouvidos, enrolaram-se no pavilhão, deslizando pelo vinco da cartilagem. Cento e vinte, cento e trinta. Um coração, ou ícon aceso, um zumbido das máquinas por cima de tudo o que estava dependente do chão, camas, cadeiras, monitores, cabeças, luzes de presença, uma legenda de saída. E enfim, na cama ao lado da minha, o Conde deitado como chegara, os olhos líquidos ao alto, as narinas farejando o infinito.

quarta-feira, março 18, 2009

COMENTÁRIO A UM ACHADO DOS ANOS 60


Como sou desorganizado por natureza, não disponho de nenhuma coordenação bibliográfica que diga respeito à minha obra, inicialmente emergente nos anos 60. Este texto que poderemos ler a seguir, da autoria da jornalista e crítica de arte Manuela de Azevedo, é uma peça de grande preciosidade, não pelo elogios que tece à minha primeira exposição na galeria «Diário de Notícias», aliás com uso de vocabulários hoje perdidos quase por completo, mas pelo que dá a ver sobre aquele tempo, algum provincianismo envolvente, algum carinho. O importante, sobretudo, está no surpreendente plano da desmontagem da obra, da sua revelação exterior e interior, dos valores que defendia, da implícita dinâmica daquilo a que se chamava, antes das semióticas e estruturalismos, mensagem. A mensagem, no sentido lírico-retórico, feita de alguns fios românticos, depois aberta às relações perceptivas com a realidade envolvente. Os vocábulos das ciências da linguagem escrita e da teoria da comunicação, transitaram para o domínio das artes plásticas e mudaram os modos de ser, formaram os intelectuais da arte, críticos, orientadores, comissários e curadores.
O texto de Manuela de Azevedo, se nos alhearmos desses mimos próprios do tempo e da pessoa, é um assombroso exemplo de leitura da obra de arte, dos sentidos e projectos de um autor: a técnica pictórica, a simbiose figuração/abstracção, aspectos de natureza expressionista, os títulos e o seu papel, as técnicas e as colagens em desenho. E ainda uma noção exacta sobre toda a morfologia, tipo de sensibilidade, temperamento do ser e do exprimir.
Decidi alinhar estas palavras, assaz escassas quanto à substância do texto de Manuela de Azevedo, um texto que me adivinha desde aquele tempo até hoje, já muitos anos depois da sua morte. O muito que se aprende ainda hoje com a alquimia dos textos remotos e do pensamento plástico outrora, a coerência de alguns autores, a sua viagem, tudo isso emerge ali: porque aqueles meus quadros não negam os de hoje e até lhes conferem suporte. Acrescentaria que muitos visitantes de exposições e críticos me classificaram de ilustrador, como se isso matasse a pintura, e em certa medida ligado à Paula Rego da primeira fase. É verdade que sempre gostei dessa parte da obra de Paula Rego: só que não foi nesse lago que bebi a minha invenção. A velha fotografia, anterior à exposição da Paula Rego na Galeria de Arte Moderna da SNBA, esclarece muita coisa.

VIAGEM AO FUNDO DA INICIAÇÃO EM PINTURA

WAR
anos 60: primeira exposição, registo a preto e branco

imagem difusa da inauguração da exposição aqui referida

reconstituição de uma pintura da primeira exposição
de Rocha de Sousa Galeria Diário de Notícias, Chiado

texto da jornalista Manuela de Azevedo, anos 60

É uma exposição cheia de encanto e frescura, esta que Rocha de Sousa apresenta na Galeria «Diário de Notícias» e que ontem foi inaugurada com elevado número de convidados, entre os quais muitos artistas jovens, como o expositor, que é Assistente na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. São apenas onze os trabalhos que apresenta, neles se fundido, com admiráveis resultados, aquelas doces tonalidades da escola francesa, em que Nuno Siqueira é um dos seus felizes representantes, e aquelas formas deliquescentes de osmoses psicológicas que trazem dentro de si algo da «pop» e do grafismo oriental. Por outro lado, fazendo de temas dramáticos, como «Mutilações», uma expressão suave da «vie en rose», Rocha de Sousa consegue uma aliança estética que é a melhor marca da sua personalidade. Acrescente-se que é um pintor que não encobre as qualidades da sua pintura, sob o pretexto da sujeição a correntes estéticas a que não é estranho o nome de Gorky, se se considerar que há em ambos - e este será o seu único ponto de afinidade - uma espécie de abstracção orgânica e outra espécie de exame da natureza humana. A fantasia das formas, a delicadeza das tonalidades, contrastam e harmoniosamente se aliam a um desenho de verdadeiro senhor do «métier».
Além da pequena e encantadora colecção de óleos, Rocha de Sousa traz a esta exposição - uma das mais representativas apresentadas nesta temporada da Galeria Diário de Notícias -a importante colecção dos seus desenhos e colagens, em que se inserem, por vezes, traços delicados de cores baças. São de uma grande beleza, bem estruturados, no seu caligrafismo insinuando um abstracionismo apenas aparente mas cujo simbolismo é, entretanto, mordaz, como comentário. Toda a temática - e tanto as colagens-desenhos como a pintura mostram obedecer à «regência» do mestre maestro - é, aliás, caracterizada por essa mesma mordacidade crítica cuja leitura pode não ser sempre clara, mas que, enfim, classifica a força de interpretação daqueles que conseguirem penetrar nas séries «Intimidades», «Coisas consumíveis» ou «Modificações». É aqui, de resto, que mais se revela a qualidade de Rocha de Sousa, cuja invenção atinge, com frequência, um prodigioso dinamismo. Mas enquanto o desenho parece, sobretudo, acentuar o valor do ilustrador, pelo contrário, a pintura do artista, com o seu infusionismo, é, quase sempre, lírica e delicadamente sentida. Poderá dizer-se haver nela algo de neo-expressionismo?

Manuela de Azevedo

terça-feira, março 03, 2009

DOIS LIVROS DECISIVOS, ENTRE DEUS E ARTE














Estes livros, já divulgados na comunicação social, lançamentos respectivos e Faculdade de Belas-Artes, foram abordados em blogs e nos apontamentos que se seguem. O tráfico de influências não nos permitiu aceder aos patamares onde tanta gente dença de sucesso e noticiários.
***
Não é a primeira vez que trago a este espaço o escritor que repetidamente me louva com palavras amáveis de incentivo à minha produção escrita.
Dedicado também às artes plásticas que vem divulgando na blogosfera em Contrupintar02 e em Desenhamento. Rocha de Sousa prendeu-me pela sensibilidade da sua escrita em «Angola 61», a crónica de uma guerra em que participou, e onde eu pude encontrar descrições emocionantes de lugares e gentes com quem (por mim) partilhei grande parte da minha vida, na terra em que cresci.
Depois de ler «A CULPA DE DEUS», voltei a encontrar uma escrita séria e acutilante, mas leve e agradável no desvendar de «segredos», muros adentro do antigo Convento de S. Francisco em Lisboa, onde o autor também se entregou a uma vida de estudo e dedicação.
Este livro acaba de ser lançado no mercado e é um testemunho vivo de uma das faces da nossa Revolução dos Cravos, a revolução cultural que tarda em cumprir-se.

A CULPA DE DEUS

para um ensaio sobre o livre arbítrio
orion
Um bom escritor, quando as suas palavras possam parecer ainda reais, séculos volvidos, é sinal de que os seus olhos viam para além das aparências, tocavam mais fundo na alma dos povos.
Tenho entre mãos mais uma obra de Rocha de Sousa, um livro que vou digerindo porque não cabe numa relação só. Do que conheço da sua vivência - seus blogs, pintura, desenhos, fotografias, escritos - o autor está lá, nas sucessivas referências à pintura surrealista - Magritte. Magritte que, ao que sei, não se queria nessa gaveta - saltos pontuais mas repetitivos a fagulhas da guerra em África, referências a Camus e Sartre e Beckett, na pele de um narrador em procuura de resposta sem réplica da presença de Deus em quadros sucessivos de Hyeronymus Boch, como ele em virar de século.
A escrita é impetuosa, fluente, a parte formal lembra António Lobo Antunes. Não só. As referências ao período de guerra, o horror dos hospitais para dementes que - ao que conheço, não li toda a sua obra - Lobo Antunes apenas aflora e Rocha de Sousa descreve com todo o realismo, com a segurança de quem fez o trabalho de casa, com intensidade e sentimento.
Estou a ler «A CULPA DE DEUS» na hora certa: quando são reveladas as cartas de Maria Teresa de Calcutá - diga-me. Padre, porque há tanta dor e escuridão na minha alma? - e eu me pergunto se é lícito divulgá-las, quando ela tinha deixado expresso que as queria destruídas, embora o eu conteúdo venha acrescentar a minha paz.
Vou continuar a ler. Até aqui partilho as considerações sobre o livre arbítrio, as decisões que cabem a cada um de nós para que se cumpram os limites que impomos a nós próprios.
Aquilo a que chamo dignidade.
Jawaa
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Ler estas passagens umas após as outras é acompanhar o narrador com o Jerónimo, procurando nos lugares onde o sofrimento humano nos transcende, sinais de Deus, na presunção de que tais lugares serão potenciais reveladores da benção divina, o que por isso mesmo, na excelência da hipótese, se revelará estranhamente inútil.
RS

segunda-feira, março 02, 2009

A CASA DOS VELHOS E A MORTE ANUNCIADA


pintura de Possolo


Numa primeira abordagem, manuseando o livro, aparece-nos por entre os dedos «a casa», numa obra de colagem do próprio autor, também artista plástico de créditos firmados. Ela projeta-se num infinito negro, sem horizontes, telhados assimétricos, montagem sugerindo vários edifícios desalinhados em convívio forçado, querendo parecer um só.
O primeiro contacto perdura ao longo das páginas, «a casa» emergindo da escuridão em que pousa, esplêncida na construção em colagens de persomagens a que correspondem as tonalidades de carácter dentro da mesma cor cor neutra da velhice, plantada sobre os escombros.
Pela mão da juventude -- uma personagem em recuperação de ferimentos graves, eventualmente de guerra -- se percorre o seu interior. Primeiro em cadeira de rodas, depois equilibrando-se em canadianas, aqui e além assolado por fantasmas que permaneem vivos e presentes, aterradores, também as memórias dos primeiros ensaios de jornalismo, seu avô, seu pai nas lides corticeiras, o flash dos cabelos loiros da mãe, a relação fuugaz que estabelece com uma das empregadas mais jovens da casa.
Pertinente, actual, po todo o livro perpassam referências à pintura e a leituras, preocupações, a necessidade de pasar a mensagem da denúncia de situações escusas, infelizmente repetidas sem e com democracia. Destaco a descrição de uma biblioteca fabulosa, «tábuas e papel trepando por ocultas paredes de pedra e argamassa», todo um capítulo com referências que marcaram uma geração, a alusão ao Fahrenheit 451, de Truffaut, à Guerra dos Mundos. Brilhante o final do capítulo com um livro de capa dura que sobrava sobre a mesa atulhada de jornais antigos.
É admirável a pintura do comportamento de gente em declínio, em degradação física e mental a que todos estamos sujeitos, com pinceladas de afectos, a complexidade humana numa bela escrita densa, em que perpassa hna sensibilidade atenta, ponteada da cultura que caracteriza o autor.
Jawaa
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texto de síntese publicado no Bar do Ossian a propósito de um livro do autor deste blog e cuja
notícia já foi amplamente divulgada. Com uma carga de simbolismo por vezes arrasadora, a geração mais nova, traumatizada, ferida de angústia, alguém desperta para a imensidão dos espaços da Casa, imagens que lembram a impossibilidade arquitetónica do mundo e onde se acumulam sobretudo velhos, gente em tertúlia e tosses inquietantes, a morte, a demografia a decrescer, as solidões gerando perdas e olhares de suicídio, um clima, também, que nos lembra por vezes a tragédia contada por Camus em A Peste. A Casa não é Oran, não tem saída para além do bosque, perde dia a dia o seu ar institucional e as gentes, sobrando, na sua cama gélida, o narrador ferido, um jovem largos anos mais velhos, imaginando ver na moldurada redonda da lâmpada do tecto a face nocturna da lua, o Mar da Tranquilidade, em silêncio absoluto.
Sousa Carneiro

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

CARTAS SÉRIAS, CASAMENTOS RIDÍCULOS


Não sei se é verdade que todas as cartas de amor são ridículas.
Há gestos que sim, liturgias ridículas que antecipam o casamento. Ridículas são essas guerras de trapos, a escolha dos lugares, das quintas bordadas e solenes, a fingir aristocracias, e os véus e as grinaldas e os bilhetinhos, a meio da tarde, que os noivos distribuíam usando certinhas forradas com papel de seda, entre barulho de talheres, de mistura com sons guturais dos labregos feitos à casaca, grosseiras gargalhadas descoladas do contexto, uma cruz inclusa nessa espécie de trevo desenhado na alvenaria da ermida inventada, e elas, as meninas do liceu cada vez mais destravadas, esvoaçando numa felicidade irracional. Cartas de amor? Cestinhos ridículos, isso sim, e cada destinatário, gestor basbaque, abrindo o seu papelinho, «casa breve mesmo que não queiras»; ou a sina: «A mulher que amas tem as pernas mais bonitas do teu bairro»; ou a sentença»: «Se não tratas a timidez só te resta a costureira do Alto do Pina».
Estivemos sós, compramos uma gravata, ouvimos um amigo, e fomos passear pela Avenida da Liberdade. Tinhas uma flor branca no cabelo e um fato de saia e casaco, branco, feito de renda, e calçavas aquelas chinelas de tacão alto que a produção desaprendeu de produzir, de olhos em bico com o novo design italiano, bombástico e luzidio; por ele, só no nosso país e apenas durante um ano, tais solas de vanguarda provocaram mil e duzentos entorses e cinquenta fracturas do perónio. As mulheres, Joana, não sabem cuidar da sua identidade, da sua autonomia, da sua própria beleza, cuidam assim do seu desejo lunar sem perceber que é premente passar ao lado da moda, dos próprios modos. Não são as cartas, presumivelmente, que são ridículas, mas quem as escreve sem saber o que significa exaltar a saúde e a alegria, nunca os fantasmas de Auschwitz ou as armadilhas das fortunas roubadas. Os fantasmas nus que os aliados empilharam entre portas e janelas sujas pareciam facilitar mais o estudo do esqueleto humano sob a moleza da pele do que pensar no sentido da imagem, exercendo a piedade.
Longe um do outro, lembras-te?, cada vez o desejo (que lubrifica o amor) era maior, substituido por palavras na ansiedade da espera.
Vieste pela noitinha, com sete horas de atraso, e duas horas mais tarde, ao nos sentarmos na marginal, tu balbuciaste que eu te mentira nas cartas, que a cidade era feia, as pessoas pretensiosas, amuletos ao pescoço inteiramente patetas. Nem da água do mar gostaste. Nem dos arredores, senzalas desarrumadas, gente suja, olhares fixos. No cinema, à noite, as senhras tinham tirado os casacos da naftalina e o enfado da «alta«costura» emergia do corte dos anos quarenta, embora o lado patético desse mimetismo impróprio espalhasse no ar uma atmosfera nostálgica, restos de Lisboa salpicando esquinas e colunas e escadarias.
Quando me foste levar ao avião (eu voltava ao seriço no Norte antes do teu regresso à Metrópole), beijaste-me com uma lágrima em diamante ao canto do olho e disseste: «Volta depressa. Isto não vai longe». E eu, apaixonado pela terra: Mas praticamente só viste a cidade!» «Não importa, no interior tudo é belo e deserto, já descolonizado».
Todas as cartas de amor são ridículas e por vezes aterradoramente lúcidas.
Rocha de Sousa

domingo, janeiro 25, 2009

DESTITUIÇÃO DE DOGMAS NA PINTURA


obras de Rocha de Sousa
Já se falou aqui das grandes transformações do pensamento plástico ocorridas nas artes durante todo o século XX, algumas pequenas guerras, exercícios de estilo e duelos por sucessivas discriminações. Entre figurativos e abstractos, por exemplo, as fracturas eram determinantes, base de mútuas exclusões: a teoria em volta das composições que simulavam o real tinham, afinal, apontado para essa imposibilidade ou desnecessidade, conotando os objectivos da pintura, antes de tudo, com a vida própria dos seus elementos estruturais. A manipulação da cor, em superfície e segundo uma ordem imaginada, matemática ou aleatória, apontava sobretudo para a corporização do objecto, para a determinação da sua essência: essa forma adqurida pelos meios básicos deveria ser, primeiro, o espectáculo expressivo assim consolidado.
Há nesta dinâmica despojadora sequelas da longa ilustração religiosa dos temas sacros, a memória de uma composição pesada e laboriosa, engano permanente e faustoso entre a memória do real e as liturgias do catolicismo. Essa inspiração, desde há muito ligada ao poder e ao sagrado, equivocou os fins plausíveis da representação, verdade transitoriamente vencedora e assaz difícil de desmontar, por corresponder de perto às regras erráticas da visão. Operando por esta via, com variantes de dessacralização, as Academias forçavam a instauração suprema do talento, entre a cópia de imitação e os efeitos que sublinhavam o milagre do ver. Essa orientação sempre absorveu um comportamento assente no dogma, regras inamovíveis, teoremas conceptuais, também o grito ilusoriamente invencível, a falsa questão do triunfo dos mais fortes.
Nada disso é assim, tendo razões históricas, e mesmo fundadoras, para o ser. E da guerra entre movimemntos, escolas ou estilos, passou-se a uma inevitável abertura ao convívio, à partilha dos valores estéticos contemporâneos. O espaço das inovações artísticas, agitando o efeito das coisas dinâmicas por natureza, é um plano onde se pode agir, na actualidade, com liberdade assumida, com respeito pelas ideias alheias. Um museu de arte moderna, segundo o pensamento estruturante da última metade do século XX, tanto pode conter núcleos da nova figuração (pop e representação expressionista, entre outras) como pode aglomerar e relacionar os processos conceptuais e a chamada arte abstracta. Qualquer pessoa minimamente relacionada com estes fenómenos tende a visitar um museu de forma aberta, mesmo quando prefere os modos de formar minimalistas e menos a natureza de base no visível que caracteriza os novos realismos ou a figuração expressionista. É destes percursos, no olhar responsável que configura harmonias entre diferenças e semelhanças, que falam hoje as duas pinturas publicadas; serão abstractas e algo expressionistas, ao olhar simplificador, mas a nossa cultura em torno das memórias obtidas na longa absorção do real pode perfeitamente ligar-nos à contemplação das imagens na capacidade de as fecundar em indirecta referência a certos aspectos da realidade.

sábado, janeiro 17, 2009

EXERCÍCIO SOBRE OBSTRUÇÃO DO REAL

exercício de rocha de sousa

Agora até me ocorre misturar as vielas de Lisboa, e o lixo, e as paredes descascadas, com a visão em negativo daqueles quadros. Quadros, alucinações, todo esse surdo amontoado de ruínas e cenas diversas que vieram não sei bem donde. Gente escura, oleada, e as meninas leitosas, fora de época. Cabeças penduradas de janelas, entre flores. Como certas lendas de 1900, varandas coloniais e cemitérios de automóveis. Terra em volta, ferros e coisas de que se pode ainda falar com alguma propriedade, outras emergindo dos buracos da história e as mornas, um arrastar de pés descalços, os muceques. Umas vezes tudo parece tolerável, apesar do cheiro imaginado e da náusea, essa agonia que escorre dentro de nós ou molha a nossa pele num clima opaco. A argamassa intercalar, que separa cenas, que apodrece ilustrações, fizeram isso por ela, trataram-na como cartilagens e carne. Isso perturba-me, confesso. Procuro borboletas, aquelas que via na margem do rio Loge, no sentido de reinventar a beleza sobre o feio, saio de campo, penso numa certa rua de Ambriz, ou mais velha, em Lisboa, e consigo por vezes ficar preso num fogo de deslumbramento inquisidor, códigos e segerdos em cada porta, nas esquinas, nas sepulpturas dos militares entre paísagens ásperas, lugares como os morros de Nambuangongo. Eu sei, aquela pintura não anuncia nenhuma cartografia. A memória africana vem de outra latitude, desaba constantemente sobre muitos trechos de cada composição, entre cubatas, colunas de betão e toscas balaustradas de velhos senhores bem disfarçadas sob as grandes abas dos telhados, ciência benigna de perceber as intempéries. Pé direito muito alto, por outro lado, a parede amarela, até no primeiro andar entre janelas com portadas e ripas, pássaros em gaiolas brancas, fogo aqui e além, vozes antes do sono, nenhum bicho de porte aflitivo ali chega, sem perceber as chamas e as saltar por conta de tanto espaço. Nem mesmo os elefantes com insónias se aproximam das fazendas, deambulam pelas lagoas, nós estamos confinados aos charcos de lama onde deslizam, numa chiadeira, os machibombos da Carris, daqueles que costumavam atravessar-se na Estefânia, encurralando o trânsito, ali como em dezenas de praças da cidade. Autocarros, eléctricos, pardais à solta em Sete Rios e os carros das distribuições, a qualquer hora, entalados na rua do Sol ao Rato ou lá para os lados da Madalena. Acabaram com as docas podres do Poço do Bispo, os ferros, as areias, as barcaças oxidadas. Crescem casas. A multidão de um daqueles quadros guardados na Embaixada de Moçambique pode muito bem ser a malta dos concertos que ensurdecem meia cidade, árvores morrendo de pé, sobreiros decepados no Alentejo, nem jardins, nem Feira Popular. Tenho quase a certeza de que os ratos vão aparecer nesta Oran, cidade que também fora despida de árvores e já não albergava pombos. É a peste. Estes autarcas são duros de roer quando querem, na sua incompetência institucional, embelezar algum recanto de uma rotunda: acham logo palmeiras, africanizam calçadas em salpicos, contra o lado meridional da desaparecida cidade do pintor Botelho. Deixaram arder fragatas. Dizimaram milhares de jovens. Venderam mal as especiarias. Correram com os jesuítas e agora há por aí, entre arqueólogos e antropólogos, montes de santeiros alternando com fadistas.

Eventual trecho de um livro sobre o sentido da criação, Obra de Ninguém

sábado, dezembro 27, 2008

AS ÁRVORES MORREM DE PÉ, AS PEDRAS NÃO

É voz corrente dizer-se que «as árvores morrem de pé». Em correspondência com esta sábia sentença popular, Maria Matos, ao que supoho ter sido o seu último espectáculo no teatro D. Maria, terminava a sua actuação na peça que fora intitulada com aquele título, olhando, muito direita, a quem devia olhar e, tendo bem assente a sua begala, a mão tremente. E dizia: «As árvores morrem de pé!»
Assim acontece com este eucalipto, cuja inclinação é aparaente pelo uso do plano contra-picado: viveu, com a sua habitual soberania, perto da margem de um rio. Os homens exploram este monumento vegetal, peimeiro mais pela ornamentalidade das separações territoriais, depois sem qualquer amor pela sua natureza algo arrebatadora: foi, até agora, o uso do eucaliptal, de crescimento rápido, poderoso de massa explorável, perverso quanto à sua insaciável sede em apreciávis extensões de terra à sua volta. Quandoa sua presença se inutiliza e a sua carne tende a ser cobiçada pelo mercado, as serras mecânicas vêm cortar, um pouco acima do solo, a peça cujo talhe terá as aplicações entretanto suscitadas.
Ao contrário, na imensa Amazónia, lícitos ocupantes da terra dedicam-se ao corte em vida de muitas árvores de grande porte, devastando por dia superfícies equivalente e quatro campos de futrbel. O cheiro da madeira sangrando é inebriante. Após o corte, um pequeno gesto da mão precipita a queda da árvore. Essas grandes plantas, sempre dignas na sua função revitalizadora do clima, tombam com enorme fragor, flagelamdo os ramos inteiros das suas congéneres em volta. São árvores que também se abatem, e ainda vivas, porque os seus assassinos, saindo de uma clandestinidade mórbida, assim delapidam patrimónios indispensáveis à vida na Terra, triturando cada pedaço de vazio para eventuais cultivos igualmente perversos.

Ao contrário, as pedras significadas pela modelação humana, vivas equanto coordenadas com outras nas grandes fachadas de palácios e mansões diversas, são menos poupadas pela fúria das batalhas (e até dos elementos naturais), ofercendo-se, na racionalidade das suas espirais, molduras ou capitéis coríntios, ao abandono no espaço, espalhando-se pelo terreno em redor, como se tivessem decidido engtre si um suicídio carregado de légica, de paisagem, de seculares esperas som um mínimo sopro de descfomdorto. As imagens uscitam algum entendimento desse percurso, dessa morte sem verdadeiro reaproveitamento, seres vindos do além, que contrastam com as plantas verdes caprichando em crescer à sua volta, por vezes enconrindo bocados de curvas, animais escultóricos, patas de leão lascadas sem remissão a altura do tornozelo. Um dia, depois de tempos, as pedras modeladas ainda poderão encontrar-se no mesmo sítio, cremadas por um al brasardor.
As árvores morrem de pé mas são abatidas pelo homem para ficarem à sua disposição, mesmo num mundo futuro e cinzento, quase sem vida, rodando no espaço segundo especiais diretrizes do acaso cóamico. Não gaverá então madeiras capazes de servirem para muletas, nem metais, nem oficinas apropriadas. As facas, pequenas ou grandes terão de ser de novo usadas pelas mãos humanas, rodadas, encravadas, apertadas por longos fios de pele de animal.
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fotos de Rocha de Sousa

domingo, dezembro 21, 2008

ANALOGIA, CONOTAÇÃO, IMAGEM, SENTIDO


Se a imagem visual pode sugerir uma simples transferência analógica da realidade para um suporte compatível, as imagens de um texto, são, por inerência dos sinais e do meio, compostos codificados, realidades dinâmicas e moventes, impulsos de conotação, espaços de decifração. A verdade é que estas últimas imagens, pela escrita que as forma, pelo enquadramento que as conclui, podem tornar-se mais difíceis de descodificar do que a sua correspondência na fotografia. As palavras e as imagens referidas a um mesmo modelo por dois observadores são sempre diferentes da mesma experiência assumida por cada um deles. A realidade de um modelo fotografada não se ajusta, de forma irrefutável, à narrativa escrita do mesmo modelo, ainda que o operador seja também o mesmo.
Mas há, por consequência, um conjunto de regras fixas, de modelos de ideias, para as explorações representativas nestas áreas de expressão e comunicação -- nem a imagem precede o texto, nem o texto precede. O sulco inovador da realidade poética -- abertura sensível aos significantes accionados, relação nova entre sinais, símbolos e metáforas -- é que marca, de forma indelével, os níveis da qualidade da construção proposta. Texto e imagem, em particular no âmbito pedagógico, surgem de uma conjugação profunda no próprio projecto dessa construção: escreve-se no jogo simultâneo da banda de imagens e de palavras possíveis.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

FOTOGRAFIA MENTE TANTO COMO A PINTURA


A fotografia, mesmo a fotografia que procura (pela aproximação) expor a verdade do real, mente tanto como a pintura. Para exprimir esteticamente os objectos que olhamos de passagem nas horas do quotidiano, enfrentamos o problema de mentir para dizer a verdade que a todo o instante se esconde de nós. Posso olhar-me ao espelho e pensar em restituir a figura, com outra forma, ao plano a que chamamos da realidade. Mas a própria imagem ao espelho já não é verdadeira: o braço direito, no vidro, é legível como sendo o nosso braço esquerdo em projecção vertical. Eu penso que é pensável o pensamento plástico. (Francastel). Mas também penso no pensamento sobre o real, a despeito de todas as armadilhas e distorções que a percepção visual nos atira ao caminho das representações. A propósito de tudo isto, continuo a julgar que a abertura alucinante da arte a todas as formas de se configurar, invertendo imagens, inventando a mentira no interior da própria verdade, não está (nem deve erstar) inibida de se reconhecer na necessidade do realismo. É impossível copiar a realidade como se a cópia respirasse, para citar a célebre frase de Claude Roy a propósito de certos quadros de Picasso: «eles estão vivos porque respiram». É uma daquelas afirmações que nos faz, de súbito, perceber tudo. Como a que Magritte escreveu sob a representação ultra-realista de um cachimbo: «isto não é um cachimbo».
Tenho vivido sempre a dialéctica dessa equação: a de olhar para um trecho da realidade e não o ver como definitivo. Lembro-me sempre de um jarro que havia na minha casa, sobre uma mesa de abas móveis junto da janela, na cozinha. Quando entrava naquela dependência pela porta do quintal, o jarro poderia estar posado com a asa para o meu lado direito, a mão tocava-lhe com imediata facilidade. Mas quando entrava pelo lado da «copa», a mesma posição do jarro era-me dada com a asa para a esquerda, o que, sendo eu destro, me obrigava a uma escolha mais complicada: ou usar a mão esquerda com mais cuidado, ou usar a direita, movendo-me para a ter pelo menos de frente para o arco de vidro e poder manejar o objecto, em segurança, com a mão direita. A visão indicia, de facto, certos comportamentos, ajuda-os ou compromete diversas evidências.
Nunca me ocorreu uma ideia apenas ligada à natureza do real e por isso não me espantava nada com os desenhos lógicos (ainda não reféns da percepção) que os meninos da escola realizavam como qem escreve. A vida que desejamos aprisionar no sentido de um quadro ou de uma escultura escapa quase toda para um espaço invisível e dela fica-nos apenas nas mãos a sujidade das tintas e na tela a pressa aterradora da imagem que já não pertence a ninguém.
Tudo isto por causa daquele copo com água, do qual ía beber, e agora, fotograficamente, não passa de uma transparência. Vou à cozinha buscar outro. O jarro ainda está fresco, a água pronta para usar com as mãos e a boca, a asa de vidro voltada eficazmente para a direita: se entrar pela porta do quintal.

sexta-feira, novembro 28, 2008

O BAZAR LABIRÍNTICO DA VIZINHA PATRÍCIA





Pisei o degrau da entrada e fiquei estarrecido por me achar de súbito num interior com- pletamente cercado de uma variedade incontável de objectos vulgares de consumo, coisas utilitárias de metal e de plástico, de madeira e tecidos industriais, máquinas de café, chaleiras, bóias floridas em pleno Inverno, baldes de folha, zincos, candeeiros aprisionados na sua estética das duas assoalhadas, esfregonas, escovas, faqueiros, pentes, cortadores de unhas, espelhos com molduras barrocas, pequenos móveis para casa de banho, sanitas, tampas de sanitas, gambiarras de três e seis lâmpadas, velas finas e gordas, vermelhas, amarelas e brancas, tintas de esmalte, fichas eléctricas, sachos de jardim, tapetes para o banho, fio de nylon, maçanetas para portas fingidamente antigas ou recorrentes, pássaros de brincar, prateleiras de vidro, toalhas turcas, brinquedos a corda e com pilhas, machadinhas de madeira e ferro temperado, tabuleiros para chá, tijelas, quebra-nozes, panos para a louça, acendedores de gaz, trinchas, pincéis, pratos de barro e em cerâmica da Secla, chávenas de café, banheiras de menino, meninos para meninos - «Vizinha!» Latas cairam lá para o fundo e ela apareceu do fundo de uma floresta inenarrável. Vinha a defender-se do aperto das coisas e eu olhei para trás e já não vi a porta, só paredes em volta de materiais diversos, do chão até ao tecto e no próprio tecto. Vinha devagar, obesa, sorridente: «Então vizinho, que é que vai desta vez?» Pensei que, naquele labirinto forrado de bugigangas, não havia lugar para pedir só uma coisa e uma coisa menor. Reagi à crescente sensação de claustrofobia e pedi: «Queria um rolo de nylon, daqueles pequenos e uma lata de tinta plástica, branca». Ela sorriu de forma mais larga. «Por acaso, desta fez não tenho nada disso».

quarta-feira, novembro 26, 2008

RESGATE DE UMA PINTURA DOS ANOS 70


Como já se percebeu desde o início, a minha obra, nas várias disciplinas aqui citadas, nunca foi ordenada por arquivos, códigos identificadores, acervo de artista. Há séries tratadas e estudadas, mas há também centenas de obras plásticas dispersas pelo país e pelo estrangeiro, sobretudo vendidas através de galerias, cujas propriedades não se encontram catalogadas, nem a indicação de qual foi o comprador, além de minúcias técnicas por vezes muito importantes. Certas pessoas que têm estudado a minha produção como printor desde os anos 60, conversando comigo, ofereceram-me reproduções de peças cujo rasto eu perdera (embora me lembrasse da sua forma), facto este que, além de insólito, se ficou com frequência a dever a teses de mestrado e de doutoramento. Dirão os que lerem estas notas que esta indisciplina é inaceitável, seja qual for o verdadeiro valor das obras. Mas ao certo, o meu projecto não era do de tornar pública uma carreira, ter confiança em tudo o que fizesse: se figuro nos dicionários da pintura portuguesa é porque alguém cumpriu o seu dever. Por mim, seria difícil andar esgaravatando o meio, as influências, entre galerias e editoras, a fim de edificar um edifício pluridisciplinar que acabou por estar suspenso por aí.
Esta peça fazia parte de um conjunto trenário, em acrílica, e decorria de uma outra série inspirada nos desastres rodoviários e outros. Toda a minha obra plástica, ou grande parte dela, releva (ou ainda releva) da conturbação do mundo, espaços estilhaçados, desastres principais, como sempre achei por bem nomeá-los. A par de outros, com a mesma orientação, mas conotados com outras catástrofes, as interiores, as da condição humana. Talvez este blog, até ao seu termo, possa delinear um percurso multidisciplinar e assinalar notícias (sem cronologia) de muitas obras, de uma diversidade de projectos consertados em torno destes polos de coerência.

sexta-feira, novembro 21, 2008

TALVEZ UMA DESERTIFICAÇÃO ANUNCIADA


Este livro, alegoria inquietante povoada de gente envelhecida e alguns traumatizados da guerra, começa por nos sugerir um espaço invulgar, entre próteses arquitectónicas improváveis e a quase prosaica imagem de um centro de acolhimento votado sobretudo à terceira idade. Como que saída de um passado indeterminado, não propriamente longínquo, A CASA mergulha numa paisagem exterior sem limite, após jardins mal tratados e vedações atrás de vedações, acrescentada, através dos tempos, de novos pavilhões geminados ao estilo inicial, na urgência de uma demografia trabalhosa, gente meio perdida, pessoas solitárias e sem memória, ali procurando conferir ao resto das suas vidas um resto de dignidade ou de conforto. Mas a imagem do mundo infiltra-se nesta multidão acossada por muitos problemas de saúde, de abandono, restos de retratos amarelecidos, talvez segredos de família, porventura afectos guardados em vulgares caixas de cartão.
O quotidiano desta população, na sua diversidade e grupos mais relacionados, enche de tumultos iniciais estas páginas, numa relação complexa entre cada pessoa, cada saudade, e as regras de serviço, as enfermeiras e auxiliares que fazem por dar uma continuidade razoável aos velhos, a meio das refeições, tratamentos, conversas patéticas, e também a presença ainda forte (mas abalada) dos «hóspedes» mais novos e cuja mente parece gravemente afectada pelas sequelas da guerra ou pela batalha das grandes cidades.
Narrativa visualmente apelativa, antropológica, marcada por uma sociologia do sofrimento, este romance faz-nos reconhecer ideias e perdas contemporâneas, aproximando-nos da condição humana no quadro de uma espécie de desertificação anunciada.

sábado, novembro 08, 2008

O DESTINO OU O QUEBRA-NOZES ESQUECIDO


O quebra-nozes ficou estendido, imaculado, sobre a mesa. Que faz aqui o quebra nozes? Não sei, há anos que não vejo esse instrumento, devia estar guardado numa das gavetas da cozinha, presumo. Nesse caso, e dada a natureza do objecto, seria natural que tivesse sido abandonado lá, por desatenção, onde de resto falta qualquer indício de cascas, ou de miolos, ou nozes inteiras em algum sítio adequado, não é? Pois sim, aqui é a sala de jantar, a mesa costuma ter uns pratos ao centro, flores, ornamentos. E só temos, meio aberto e limpo, o quebra-nozes? De facto, parece uma nova decoração, algum devaneio, uma ideia atípica. Tem a noção do que está a dizer? Porquê? Porque encontramos duas nozes, aliás velhas, num racanto da arrecadação. Mas qual arrecadação, qual coisa, eu tenho aí um armário do próprio andar, cheio de coisas sem préstimo, latas, um azeite creio que rançoso, caixas da aparelhagem, nada mais, há anos que perdi o hábito de vasculhar nesses sítios, as gavetas empenadas, o vão bolorento onde assenta a placa do lava-louiças e do fogão, ou mesmo aquele espaço além, no recanto entre portas, as malas de sempre, cheias de pó, tenho lá paciência para subir ao pico do guarda-loiças, loiças velhas, rachadas, uma salva de prata que foi a única coisa que sobrou para mim, a única lembrança da avó, coitada, santa, irrepreensível, cheia de sardas nas faces descaídas. Sei lá dessas coisas? Mas o senhor é inquilino desta casa. Inquilino já nem sou. Fiquei por aqui, ao deus dará, lendo outra vez alguns livros e jornais antigos, jornais do tempo da revolução, deixo tudo em monte, até copos e pratas usados há cerca de um mês, sofro de reumático, tenho artroses, a reforma mal me chega para o pão, te-nho a água e a luz cortadas, sabem como é, sabem como estes sacanas tratam os velhos, e ainda querem subir as rendas, abater a varanda donde já não se pode ver a rua, nem a rua nem os vizinhos, sem o pássaro na gaiola, os pardais a apanhar restos, sei lá das nozes, nunca comi nozes na minha vida, pareciam miolos de rato, esse quebra-nozes, se é daqui, vem do tempo da minha mulher, que deus a tenha em descanso, gostava de comprar coisas novas, muitas coisas, ainda podem ver aquele móvel castanho, rachado, bem cheio de roupas e caixas de cartão, algumas com chapéus dos casamentos e assim. Vamos lá calar, o senhor quer é dar voltas ao destino. Destino? Mas os senhores não vêem o meu destino? Esteja calado. Conhece aquela mulher? Não sei bem, não vejo bem daqui. Ó António abre a luz e traz a mulher para aqui. Conhece ou não conhece? Ah, minha boa Teodolinda, que é feito de ti? O senhor sabe bem melhor do que ela: não vê aquele dedo entrapado? Aquele dedo foi o senhor que enrolou num lenço e partiu com o quebra-nozes.