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quarta-feira, junho 03, 2009

OS DOIS LADOS DE UMA ALDEIA NA PAISAGEM

Amanhece depressa e a luz arrasta uma brisa ainda fria, mansa, que parece descer da serra. Há um quilómetro na estrada, em curva, donde se avistam as casas meio descaiadas de certa aldeia sem nada nas proximidades. Abrando a marcha, faço o carro passear junto à berma, e isso lembra o trote leve de um cão doméstico que só conhece o dono e só a ele obedece. Quando as velhas casas surgem, um pouco à direita, o que vejo corresponde ao que me contaram, as casas e lá para trás, numa longa encosta, milhares e milhares de eucaliptos: a aldeia está silenciosa e aparentemente deserta, enquanto os eucaliptos bebem a água restante nos veios freáticos. Isso tornou-se banal, é um capitalismo fundamentalista e apressado, imenso, que vai dando no que deu.
Perto da aldeia (velhas construções devidas às dobras agrícolas) os meus passos desconjuntam-se pelo efeito das pedras, da cevada seca ou coisa assim, a terra a desfazer-se e eu a escorregar no que sobra do derrame, pequenas derrocadas após derrocadas, o estalar das hastes secas, as casas a balouçar lateralmente.
Decido parar, olhar em frente através da máquina de filmar, filmar mesmo. Afasto as pernas, faço o acerto das condições de registo, os brancos entretanto, e disparo a objectiva, longamente e em plano fixo, preso ao quadro daquela paisagem talvez comprometida, belos trechos de argamassas deprimidas, muros sujos ou a cal sem brilho, janelas desfeitas, telhados quebrados (em cunha) assim tombados no interior da primeira casa.
Ao terminar este primeiro plano, olhando em profundidade a imagem penosa que parece indiferente à minha aproximação, decido confrontar-me com o lugar. Grito então, com as mãos em volta da boca: «Está alguém aí?» Ninguém responde. «Não está ninguém por aqui?» Uma situação afinal ridícula faz-me ensaiar passos em volta, procurando perceber a natureza e a dimensão do sítio. Agarro a câmara como uma arma de fogo, erguida e perto dos meus olhos ardendo, apontada ao interior de paredes com anverso e já sem reverso, ruínas atrás de ruínas, um rosto fendido, quase plano, sem cabelos nem nuca. Uma volta, depoia outra, tudo não passa de um erro perceptivo, como na história da laranja inteira sobra a mesa, metade da laranja afinal, cuja convexidade estava inteiramente volta para o observador. Alguém comera a outra metade, depois de um corte diametral, e assim deixou a parte que pertencia ao futuro.


Não há aldeia nenhuma, a matéria plural dos telhados desandou em parede oblíqua, currais além, um provável celeiro, nada disso é isso ou foi assim. E tudo o que parecia uma composição lógica, pelo jogo dos planos e pelo escondimento de outros, é apenas uma vaga aparência no registo mental, as casas não passam de uma, duas para fins não humanos, madeira e pedra, a encosta coalhada de currais de qualquer exploração pecuária, eucaliptos em volta, pequena reserva suína entretanto perdida, os eucaliptos ali, todos, donos do território, na sua base jazendo grandes vasos baixos, barro da região sanguínea, mãos outrora talhando carne ou moldando argila dúctil. Vejo teias inteiras de telhados caídos após alguma tragédia indeterminada, um chão sulcado de detritos negros, bem secos, panos com rasgões de acaso, cadeiras da tabúa, sem costas ou sem pernas, mais paredes oblíquas, uma delas apontada a nordeste, painel de adobe riscado a branco e a esconder outros usos, porventura mais produções. Talvez não tenha sido senão uma precária arrecadação, deste lado, não daquele. No enfiamento desse sinal inútil surge um forno construído a preceito mas também rachado pelas derrocadas dos alpendres, bem feitorias de que restam indícios empobrecidos, por vezes claros, coisas absurdas no embaraço das peças visíveis, entre madeiras e telhas e cacos de uma cerâmica rude, feita por ali, memória de artesãos da louça e da pedra, porventura das telhas moldadas à mão, aquecidas ao sol para secar, só depois enfornadas a prestações, horas e horas de vida dada a tudo isso, presa em todas as tarefas inerentes, mãos antigas capinteirando várias estruturas, portas feitas, portas fechadas, nenhumas portas por fim.


Mal acabadas as habitações, estábulos, currais, galinheiros, e já um sopro de perda. Já um primeiro bafo da contracção demográfica, a avó morta, os filhos desaparecidos, os pais emigrados no roteiro sinuoso do trabalho, pouco e mal pago, ou também as rotas da fome, fuga ao vazio, ali se come qualquer coisa, além dormindo longe, mais uma sopa em troca do arranjo de uma enxertia de fábula, e o medo em mentes escurecidas, casas ruindo, ruínas rudemente transformadas em aldeias como esta, que não é aldeia nem nada que se pareça mas fez a vida e a esperança de alguém. Tudo parece longe. Longe e diferente, quando se contorna uma fachada ainda branca e a vemos, do outro lado, esventrada, mostrando a implantação de quartos onde se imaginam nascimentos, risos, vozes, ou as velhas gerindo a tecitura das roupas, rezando na própria enxerga patilhada com dois netos, um dia de sinos tocando aflitos na cidade do outro lado do mundo, incêndios sem medida, procissões, relíquias, passos de dança, devagar, meninas com flores, olhos vaidosos de quem acredita nos Santos e na Ressurreição.
Vou levar daqui uma simples pedra trabalhada pelo homem. Quem a achar no meu quarto de moribundo terá certamente mais discernimento para avaliar quantas gerações de bichos e bichos homens estarão atrás dela e a quantas outras ela sobreviverá.
As pedras não morrem como nós. Transformam-se durante milhares de anos, em muito longas mutações.






está alguém aí?

fotos de Rocha de Sousa

sexta-feira, maio 22, 2009

RECADO PÓSTUMO OU O MENINO DE SUA MÃE


Olha, mãe, já me disseram tudo e entregaram-me as tuas coisas, na ideia de as levar para casa. Qual casa, mãe? Já nada tem préstimo, são coisas de circunstância. Algumas servem de recordação, fios, agulhas, as botas de lã que deixaste para os meninos. Não chegaste a fazer as minhas. Deixa lá, se calhar fica para outra ocasião. Descansa, está tudo tratado, vais amanhã connosco para a Ermida. Sabes, ainda estás tão viva como eu. Já vim preparar a partida para baixo e as pessoas não param de telefonar, daqui e de lá. Não, não tens que ficar aborrecida, toda a gente sabe que já não podes responder. Deixa, eu respondo. Sim, sei perfeitamente que estavas a ser bem tratada no hospital, gostavas da tua vizinha de quarto, a tua velha amiga, até parecia que se conheciam desde crianças. A pobre senhora chorou por ti, nunca mais te viu desde que mudaste para os cuidados intensivos. Sempre te mandou beijinhos e mostrava as botas de lã que tu lhe tricotaste. Agora temos que descansar os dois e pensar um pouco no futuro. Claro que estou bem, mas gostaria de continuar a visitar-te. Os primos, lá em baixo, já trataram de tudo o que se relaciona com a tua chegada. O pai deve ter saudades de ti. Como a situação e a lei permitem, e como era tua vontade, ficas junto dele. Dois corpos enlaçados, lembras-te? Desculpa por teres sofrido durante tanto tempo, apesar das semanas em que ficavas boa e fazias botas de lã, para o Inverno, e ajudavas na cozinha, sentada, tratando as batatas e o feijão verde, atitude muito apreciada pelo pessoal do pavilhão. Seja como for, sabes melhor do que eu as dificuldades dos médicos. Chamaram-me, falaram-me de uma semana, duas, foi só esperar, e tu e eu e os teus amigos, todos esperámos com serenidade. Quando não te vi na cama, fiquei ali, numa espera suplementar. A enfermeira veio conversar comigo, quase em murmúrio, e disse o que havia para dizer.

Amanhã, quando ficares sossegada, pensa no pai, as ossadas dele ficam a teu cargo. Pergunta-lhe como se sente. Dá-lhe um abraço meu. Daqueles que eu lhe dava quando chegava de Lisboa, em férias.

quinta-feira, maio 21, 2009

«O ESTRANGEIRO», MEMÓRIA DOS LIVROS


Nunca somos quem julgamos ser,
olhar brevíssimo ao espelho.

Nunca sabemos quem procuramos
na falência dos dias
e no descuido de várias impaciências,
cedo ou tarde quando amanhace.

Na montra apertada do mundo
as horas não marcam o tempo
e tudo o que depressa arrefece
depressa o sol aquece.

Assim, na ilusão do espelho,
cada procura ansiosa do ver
se desfoca em suor e nos mente.

É gume ou faca.
Alguém grita sem língua nem boca,
de repente.
Olho suspenso,
agonia dele ao aviso aparente da lâmina,
estridência dos reflexos e do sangue,
tudo se exalta e tudo se recria,
inevitável,
responsavelmente,
Meursault respirando azul
ou um rosto que desconhecemos, baço,
e a cadência dos passos lassos,
surdos e quentes
e um brilho súbito
contra a paisagem
ou a areia incandescente
reflectida no olho suspenso.

O sol na lâmina, insuportável,
a faca faísca branca, o sol a pique,
e um tiro maquinal,
breve, seco,
sem alma nem razão,
tão absurdo como a realidade em volta.

Um vulto branco, tombado, talvez alguém.

Espuma dos dias, o mar de Maria.
Um ruído doce de águas, além,
e a espera, a natureza sem nome,
coisas, apenas coisas em volta,
talvez estilhaços do espelho
que nunca reflectiu nada
nem ninguém,
gaivotas voando em volta.
Um vulto tombado.
Um céu azul.
Areia clara.
A espuma do mar.
Quase nada.
Quase tudo.



fotos e poema do autor deste blogue

sábado, maio 16, 2009

VISITAÇÃO DA VIDA ENTRE MEMÓRIA E FILME




Quando nos aproximamos dos outros parece que nos encontramos com o nosso rosto ao espelho. E, no entanto, quem nos olha de frente olha-nos sem nos reconhecer. Pode olhar-nos sem nos ver nem a si mesmo. Ser por dentro é, na verdade, recapitular instintivamente os vultos que repousam naqueles planos difusos do ser, do ser na memória, de milhares de imagens que entram e saiem em cada minuto da nossa vida e destróem ordens antigas para construir novos espaços, intrigas, planos encadeados, equívocos, derivas insanáveis na viagem maior que nos consome perante a irrecusável anunciação da morte. Mas a morte também nos visita em vida, como num filme. Vemos imagens que talvez nos perteçam, a par dos outros, com os outros, e então imaginamos estar num mundo de espelhos, quebras polidas e arestas pela colagem dos sonhos entre si. Hopkins, quando tratou este assunto, trocou as voltas ao filme, o filme da vida e o outro, trabalhando até ao limite a mistura das imagens do real com as imagens falsas do cinema. São falsas porque decorrem de pequenos frames em corrida de dominó. Dominó na própria paragem do gesto ou nos longos planos fundidos capazes de nos levarem a uma espécie de visão suicida que tantas vezes emerge afundando-se de novo, no fundo do inconsciente. Aquele deserto americano é a fábula dos nossos desertos interiores e das estepes do futuro.















0s fantasmas somos nós,
todos nós somos heterónimos
de outros,
entre carros diferentes,
semelhantes ao andarem
sobre rodas.
Vemos o que julgamos
não ver.
O homem que escreve,
ouve os soluços
de alguém que se perdeu de si.
Um tiro na têmpora e acaba-se
o mundo.
Abutres, cabeças de bonecas,
figurantes da morte,
os carros são personagens
que estimulam o prazer
e a morte.
Em boa verdade,
nunca chegam ao fim
das estradas poeirentas.
A alma da vida
passa por isso, na distância,
bonecos misteriosos
e contraditórios
de um filme.
No filme,
o que reaparece, parece,
fala do nossos inconsciente
ou das imagens
esquecidas de nós em nós.

domingo, maio 10, 2009

CASAS EM RUINAS, SINAIS DE GENTE PERDIDA


Casas velhas, em ruínas, dezenas e dezenas de casas assim, dispersas pela paisagem mal tratada do barrocal algarvio. Muitos anos depois de abandonadas por camponeses que haviam perdido o tino do seu trabalho, do que se pedia ao solo e o solo dava, ou do que se semeava mais além e tudo os ventos varriam, entre enchutrradas e animais rolando e morrendo nas encostas pedregosas, com menos fio de terra e poucas árvores, depressa o sol e a seca, homens cinzentos, indo e vindo, empurrados pela escassez dos elementos de que precisavam, quase sem pão, o Henrique que o vendia vinha menos, queixava-se do preço da farinha, da falta de créditos, mas era o último elo de ligação dos camponeses reféns do seu projecto incompleto, para o qual todas as precisões se esgotavam. Henrique trazia, além do pão, algumas coisas de utilidade imediata, como o petróleo para os candeeiros, remédios encomendados à farmácia da aldeia, tão longe e tão pobre a aldeia, velas, pilhas para algum pequeno rádio, sementes, algum azeite. Apitava e desapitava à partida, voltava quando calhasse. Os Messias pediram-lhe que lhes enviasse uma carrinha com tijolos e telhas, das redondas, poque parte da sua velha casa tombara no pino do Inverno. O burro não servia para isso, coitado, mal podia andar pelos serros da cercania de Alferos. Os burros haviam sucumbido ao longo das útimas décadas, velhos, cansados, com doenças pulmonares, entre outras. Eram enterrados como pessoas, nomeados em cruzes de madeira, o que, aliás, também acontecia com os cães e os pássaros de estimação. A fuga daquele lugar que nem sequer vendia o que malmente conseguia produzir. As casas desabitadas, vandalizadas ano após ano tornaram-se jazigos de almas penadas e pequenos bichos acossados.




Estas ruínas formam um quadro arqueológico recente, cerca de cem anos, mas parecem mais remotas, vandalizadas por caligrafias dos meninos da cidade, bufando tinta spray em tudo quanto era muro disponível, ou mesmo indisponível, como acontece nas próprias cidades, por cima de cantarias modernas já com restos de carvão, tintas, cartazes rasgados, bonecos e letras afinal velhas e também de sentido desfocado na dissolvência do que parecera civilização.




Os ciclones eram raros, raros o gado desde então, pessoas solitárias apanhando lenha, cultivando alguns legumes e rezando aos santos dos altares domésticos a favor dos meninos e dos velhos perdidos na serra. Ventos sim, vieram depois, com a escassez de moeda e de sonhos, orvalho pelas manhãs de Dezembro, ou em Janeiro, ou mesmo em Fevereiro. Não havia nem ovelhas, nem cabras, nem gatos ou cães pastores, companheiros leais que ajudavam nas lides do dia-a-dia. Restam galinhas, os ovos das galinhas, o pão do senhor Henrique, o resto foi desaparecendo das tábuas, prateleirias toscas mas rijas, ficavam por vezes um ou dois candeeiros a petróleo, algum azeite, uma pinguinha de vinho. E pouco mais em panos. panos de uso nas limpezas supérfluas. Lavados em pouca águas, estendidos ao sol, em duas lajes. Os panos. Velhos são os panos






fotografias de rocha de sousa

sexta-feira, maio 01, 2009

DIA PRIMEIRO DE MAIO OU O DIA DA MÃO


foto de rocha de sousa

Após o dia 25 de Abril de 1974, os cravos multiplicaram-se em todas as festividades e rondas da tropa. Ainda havia companhias de infantaria na sua quadrícula de Angola, Moçambique ou Guiné. Muito antes disso, em 62 e no mesmo dia, gente meio fardada e barba crescida agarrava nas armas automáticas e abria arduamente picadas quase escondidas no capim e nas matas dos Dembos, perto de Zala. No fim dos anos 40, em Portugal Continental, as armas jaziam nos quartéis da Guarda Nacional Republicana, homens duros, com mãos quadradas, que faziam o seu giro de vigilância a cavalo, um par de cavalos, dois homens pesados e lentos olhando para diante. Mas nesse tempo o 25 de Abril só servia para esperar pelo 1º de Maio, dia do trabalhador, ideia de uma esquerda longínqua, aliás proibida em todo o país. Os trabalhadores não trabalhavam e juntavam famílias em grandes barcaças, em rios como o Guadiana, o Arade, e outros tantos, a sul, levando consigo mulheres e filhos e farnéis, um ou dois harmónios, facas de defesa e sobretudo de dividir pão, fruta, febras ainda por cuidar. Rio abaixo, bem carregadas, lá seguiam as barcaças, entre risos e o tac-tac dos motores, água ondulando no movimento, canas partidas flutuando na traseira do mundo. Todos ancoravam nos pequenos portos das hortas, quintas bordadas pelos caminhos fluviais, cheirando a frutos e flores, moços e moças logo bailando ao pôr pé em terra. E por ali se acomodavam famílias sonhando com mais vida e mais cortiça, em particular no rio Arade, estrada que levava os fardos com rolhas até ao mar e aos cargueiros fundeados além.


Era assim o primeiro de Maio, dia dos trabalhadores, data emblemática da mão que os representa das mais diversas formas, agarrando coisas, acenando para longe. E cada vez o 1º de Maio foi principalmente um sonho, uma recordação, dia das mãos dadas como depois de Abril de 74, dedos agarrados à imagem do futuro, multidão nas ruas de Lisboa, mãos nas mãos, o abraço e o dedo apontado, cartazes, bandeiras, liberdades. Mãos. Nunca mais a mão solitária. Foi assim e já as armas aperradas no outro Continente baixavam canos e os soldados gritavam pelos barcos de volta. Mãos acenando no regrasso, como na partida, mãos retornadas em salvação.

terça-feira, abril 28, 2009

ALGUMAS LINHAS SOBRE O LIVRO «A CASA»

foto de rocha de sousa

«É um livro profundamente dramático e violento, que nos dá a ver, de um modo nu e cru, o que não quereríamos saber da condição humana. O sofrimento, o egoismo, a amargura, os afectos e desafectos das relações e por fim o desespero e o medo, tudo o que nos pode levar à desumanização dos comportamentos, pessoais e sociais.
A escrita é muito bem elaborada, extraordinariamente descritiva e incisiva na sua dimensão visual. A personagem principal surge muito bem construída, entre o real e a ficção, obrigando-nos a fazer o percurso dos "caminhos da dor e do medo", ao longo dos diversos episódios narrativos, ou melhor, reflexivos. Curiosamente, e tal como aconteceu noutros livros do Rocha de Sousa, a presença dele é, para mim, constante. Não consigo deixar de o identificar, como pessoa/personagens, durante quase toda a leitura. Talvez porque alguns momentos se colem a outros, reais, em conversas que tivemos desde há muito. Reconheço-o nas palavras e pensamentos daqueles personagens, na elaboração das suas emoções e sentimentos, nos actos que praticam e no modo como os praticam.
O final é muito bom, é como se estivéssemos sós numa paisagem a ver o sol desaperecer na linha do horizonte»
________________________________________
de Luisa Gonçalves (professora e artista plástica) numa troca de correspondência. Este livro vem anunciado neste blog e no Desenhamento, tendo sido editado é distribuído pelo «Círculo dos Leitores»

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL OU A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS


Acordei ao som da rádio, naquele dia de Abril de 1974. Havia portas a bater, carros assustando as ruas, carros apitando sem parar, como acontece frequentemente nos casamentos. Um amigo telefona-me e dá-me a notícia: o tal movimento dos capitães está na rua. O governo vai cair. Ainda lhe pergunto, sobreposto ao entusiasmo das vozes do outro lado da linha: e basta que esse movimento esteja na rua? Você tem assim tão grande fé? E ele, em perfeita bonomia: não é de fé que se trata, é de esperança. Eu, ainda ensonado: ainda bem para todos. E a rua, como está a rua? O meu amigo, impaciente, a rasgar a voz: a rua desobedece, obviamente, às ordens em nome da segurança individual, é gente e gente, muita gente, talvez gente que não tem fé nem esperança, tem, isso sim, a certeza.
E então, ao abrir o rádio, uma voz convicta dizia: aqui, Movimento das Forças Armadas.
Não foi preciso esperar muito tempo, horas ou dias, para que a certeza popular acompanhasse a forte convicção das forças que haviam, enfim, tomado os pontos cuciais de Lisboa, a par de outros semelhantes acontecendo um pouco por todo o país, numa linha principal e bem estruturada. Floresciam já, assim mesmo, os cravos vermelhos, símbolo indelével do golpe militar que permitiu, à noite, na televisão, declarações lapidares dos factos e sobretudo a leitura de um programa sintético a explicar os pontos essenciais desta viragem no regime: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização. Já nem posso garantir que estou a escrever certo. O amigo que me telefonou no próprio dia 25 de Abril, anda desolado com a marcha da História. Flores emblemáticas sempre recuperadas ao longo dos anos, eram os cravos que as crianças, alegres com o lado bizarro do seu acto, metiam no cano das espingardas em repouso mas em alerta sereno, aparentemente cuidando do futuro.

segunda-feira, março 30, 2009

DO VISÍVEL EM ESTADO PÓS OPERATÓRIO

As paredes da casa eram forradas por pinturas em escaiola, janelas e portas forradas de cantaria, vidros apertados por caixilhos aos losangos, um leão de ferro como batente da altíssima porta, altíssima e dividida e alinhada por esquadrias já muito desguarnecidas de tinta, castanho de lepra, tudo encerrado, mesmo as lados internas atrás dos vidros, fracturas aqui e além, velaturas de água toldada de ferrugem abatendo os valores cromáticos dos falsos mármores, bela imitação, em todo o caso, de certos tons rosa, cinzas lascados, lisura que sobrara dos abandonos todos.
Esta imagem, realista até ao limite da sua objectividade cortante, configurava a parede do fundo da enfermaria, o que não podia ser no bom juizo das pessoas, e eu era pessoa, mas via, confrontava, ora estava dentro de mim, como um feto no ventre da mãe, ora me via deitado, quase confortável, sem dores, um tubo a sair-me da boca, o que era justamente o oposto, mistrura de oxigénio e anidrido carbónico, um sabor a plástico, portanto o tubo vinha de fora para bafejar os meus pulmões e não destes para éter da sala.
A certa altura, não sei quando, se de noite, se de dia, reparei numa mulher que se deslocava pela frente da fachada em escaiola, direita, com chapéu acastanhado, um vestido em pétala de rosa pálido, cintura descaída como nos anos trinta, tecido todo a flutuar, um cinto do mesmo tecido do vestido mas na cor do chapéu. Ela usava luvas rendadas, acastanhadas também e até meio do braço, a pele muito branca, levemente aquecida, os olhos em sombra sombrios, assim as sobrancelhas escondidas nos cabelos soltos sobre a testa. Destacavam-se os lábios pintados com um baton rosado, embora mais escuro do que o rosa da tinta do vestido, fío de asa, lenta queda da borboleta, a vida pouca. Gritos ao longe. A mulher parou, rodando a cabeça num medo antigo, e foi encostar-se à parede e ali ficou parada, um joelho levemente avançado, imagem desfocada do cinema, talvez a imagem não fosse de mulher agora, perto de mim, e sim do real outrora, aparecido, parecido, como se esta existência não o fosse, se calhar nem tudo o que se pode ver seja existente e palpável, embora nos toque o fundo dos olhos, vogando para o fundo do cérebro e aí se conclua em cópia do já visto.
Os gritos. Os gritos rolando do fundo do espaço, batendo neste lado da enfermaria, palácio revertido do século XIX. Gritos estranhos, certamente, pois ali só se viam os médicos sentados em torno de uma mesa redonda, falando entre si, falando mais concretamente do que o som dos gritos, falas altíssimas, a prova do que nos dizem pelas esquinas, o facto desta gente não nos respeitar, médicos, enfermeiros, auxiliares, mesmo na enfermaria dos cuidados intensivos onde as vozes sonoras deveriam descer ao nível do murmúrio, como se estivéssemos na ante-câmara da morte, ou, indevidamente como Didi e Gogo, à espera de Godot, sob a árvore encrespada.
A mulher dos anos 30 parecia um cartão hiperrealista encostado à parede, um lance de escadas ali perto, distorcidas, existentes assim, anunciando a verdade aterradora do nosso irrecusável estrabismo. A mulher parecia um cartão plano, a imagem em alta definição, estava encostada à parede como um cartaz à espera, o volume perdido, a coxa fingida, também a ondulação do vestido, volúpias ornamentais e eróticas, o tom carnal da pele fina. Os médicos falavam todos ao mesmo tempo, pareciam mais gordos, trocavam cartas, bebiam café, e ali perto eu podia ver alguns monitores a trabalhar, televisões minimalistas cujos ecrãs negros, atravessados por linhas verdes e azuis, mostravam a palpitação de números em cima e em baixo, cento e vinte e três, cento e vinte e cinco, sete e trinta e cinco, trinta e quatro, tubos vindos de certa vasilha transparente, com líquido transparente, que mais parecia uma garrafa com o gargalo para baixo, tubos de plástico, pingo, pingo, pingo, o tempo contado pelos pingos, pelos gritos, por um pressentimento de gestos terminais. Então pensei na eutanásia e os médicos continuavam a rir e a falar, as gargalhadas rolavam pelas lajes como bolas de bilhar fora do tabuleiro, da ideia delas acontecia lentamente a travessia de ferros cromados, de pinças, pingos, objectos metálicos de brincar. Os médicos bebiam água por copos de plástico (talvez) em escassos goles. Mas que diziam dentro daquela massa sonora de ruídos? Falavam tão alto que eu nem conseguia escutar, perdia fonemas, palavras, conteúdos. Ah. Estomafálico, laríngua, redonfilia e anaudrato de fénico.

Todos riram quando entrou na sala, vinda do escuro, uma enfermeira obesa, passinhos curtos, gestos obscenos para os outros em volta. É o Conde que está a chegar. Morreu a condessa e a cidade ficou gelada, atrapalhada, coisa tonta numa República. O Conde tinha ficado em estado de choque (no fundo tinha outra mulher escondida com ele atrás de um biombo em cores desbotadas). A Condessa caiu. Não podia ter visto nada mas caiu, de morte súbita, como um vulgar jogador de futebol. Foi então assim, no tapete persa (que disparate, ser persa), fez plof ou plaf, consoante a roupa, e o Conde morreu, sentiu-se mal, esteve metido em contingências de enfarte, e o INEM vai depositá-lo aqui. Já sinto o cheiro a flores e a condição de morto assesssor nesta enfermaria transformada em câmara ardente. Há flores numa mesa. Falsas, certamente. Os risos ultrapassam agora os gritos. A enfermeira gorda (obesa) acaba sentada no colo de um médico vigilante, que não vigia nada, e ela beija-o furiosamente, pernas largas, peludas, transsexuais, obviamente impróprias para lidarem com as meias brancas, enrodilhadas sobre os sapatos brancos, desses que fazem lembrar o ténis sem qualquer razão. Antes as pernas das jovens tenistas, fortes, mansas ou tensas, longas trementes, luzindo o ardor da luta ou do prazer.


Quando o Conde chegou não vinha deitado numa maca. Vinha bem estendido numa espécie de cama, com texto de pano orlado por galão dourado e vários médicos seguravam nos prumos em talha barroca, uma roda chiava por baixo de tudo, cheirava a rosmaninho, tudo como numa procissão das flores. O Conde estava vestido com um bonito fato bege dourado, barbeado, cabelo com gel, um bigode em espirais, uma boquilha com cigarro apagado, as mãos cruzadas sobre o peito, segurando as luvas brancas e uma requintada bengala estendida até aos joelhos. Sapatos de verniz, bordeaux, cada bico para seu lado. A enfermeira gorda (obesa) não ligava nada ao que se passava ao lado da sua imensa anca, excepto os dedos do outro, enquanto a mulher dos anos 30 retomara a sua forma tufada, leve, breve, dirigindo-se para a cova funda donde viera. Mas não era um fantasma, nem uma lembrança pueril.O médico chefe levantou-se e cumprimentou-a, o que é sinal de que a via como eu, aliás confirmado no beijo que lhe deu (curvado) na mão enluvada. Tudo de caminho, delicadamente, e ela disse duas ou três palavras, e as palavras (que pareciam angulares) não chegaram aos meus ouvidos, enrolaram-se no pavilhão, deslizando pelo vinco da cartilagem. Cento e vinte, cento e trinta. Um coração, ou ícon aceso, um zumbido das máquinas por cima de tudo o que estava dependente do chão, camas, cadeiras, monitores, cabeças, luzes de presença, uma legenda de saída. E enfim, na cama ao lado da minha, o Conde deitado como chegara, os olhos líquidos ao alto, as narinas farejando o infinito.

quarta-feira, março 18, 2009

COMENTÁRIO A UM ACHADO DOS ANOS 60


Como sou desorganizado por natureza, não disponho de nenhuma coordenação bibliográfica que diga respeito à minha obra, inicialmente emergente nos anos 60. Este texto que poderemos ler a seguir, da autoria da jornalista e crítica de arte Manuela de Azevedo, é uma peça de grande preciosidade, não pelo elogios que tece à minha primeira exposição na galeria «Diário de Notícias», aliás com uso de vocabulários hoje perdidos quase por completo, mas pelo que dá a ver sobre aquele tempo, algum provincianismo envolvente, algum carinho. O importante, sobretudo, está no surpreendente plano da desmontagem da obra, da sua revelação exterior e interior, dos valores que defendia, da implícita dinâmica daquilo a que se chamava, antes das semióticas e estruturalismos, mensagem. A mensagem, no sentido lírico-retórico, feita de alguns fios românticos, depois aberta às relações perceptivas com a realidade envolvente. Os vocábulos das ciências da linguagem escrita e da teoria da comunicação, transitaram para o domínio das artes plásticas e mudaram os modos de ser, formaram os intelectuais da arte, críticos, orientadores, comissários e curadores.
O texto de Manuela de Azevedo, se nos alhearmos desses mimos próprios do tempo e da pessoa, é um assombroso exemplo de leitura da obra de arte, dos sentidos e projectos de um autor: a técnica pictórica, a simbiose figuração/abstracção, aspectos de natureza expressionista, os títulos e o seu papel, as técnicas e as colagens em desenho. E ainda uma noção exacta sobre toda a morfologia, tipo de sensibilidade, temperamento do ser e do exprimir.
Decidi alinhar estas palavras, assaz escassas quanto à substância do texto de Manuela de Azevedo, um texto que me adivinha desde aquele tempo até hoje, já muitos anos depois da sua morte. O muito que se aprende ainda hoje com a alquimia dos textos remotos e do pensamento plástico outrora, a coerência de alguns autores, a sua viagem, tudo isso emerge ali: porque aqueles meus quadros não negam os de hoje e até lhes conferem suporte. Acrescentaria que muitos visitantes de exposições e críticos me classificaram de ilustrador, como se isso matasse a pintura, e em certa medida ligado à Paula Rego da primeira fase. É verdade que sempre gostei dessa parte da obra de Paula Rego: só que não foi nesse lago que bebi a minha invenção. A velha fotografia, anterior à exposição da Paula Rego na Galeria de Arte Moderna da SNBA, esclarece muita coisa.

VIAGEM AO FUNDO DA INICIAÇÃO EM PINTURA

WAR
anos 60: primeira exposição, registo a preto e branco

imagem difusa da inauguração da exposição aqui referida

reconstituição de uma pintura da primeira exposição
de Rocha de Sousa Galeria Diário de Notícias, Chiado

texto da jornalista Manuela de Azevedo, anos 60

É uma exposição cheia de encanto e frescura, esta que Rocha de Sousa apresenta na Galeria «Diário de Notícias» e que ontem foi inaugurada com elevado número de convidados, entre os quais muitos artistas jovens, como o expositor, que é Assistente na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. São apenas onze os trabalhos que apresenta, neles se fundido, com admiráveis resultados, aquelas doces tonalidades da escola francesa, em que Nuno Siqueira é um dos seus felizes representantes, e aquelas formas deliquescentes de osmoses psicológicas que trazem dentro de si algo da «pop» e do grafismo oriental. Por outro lado, fazendo de temas dramáticos, como «Mutilações», uma expressão suave da «vie en rose», Rocha de Sousa consegue uma aliança estética que é a melhor marca da sua personalidade. Acrescente-se que é um pintor que não encobre as qualidades da sua pintura, sob o pretexto da sujeição a correntes estéticas a que não é estranho o nome de Gorky, se se considerar que há em ambos - e este será o seu único ponto de afinidade - uma espécie de abstracção orgânica e outra espécie de exame da natureza humana. A fantasia das formas, a delicadeza das tonalidades, contrastam e harmoniosamente se aliam a um desenho de verdadeiro senhor do «métier».
Além da pequena e encantadora colecção de óleos, Rocha de Sousa traz a esta exposição - uma das mais representativas apresentadas nesta temporada da Galeria Diário de Notícias -a importante colecção dos seus desenhos e colagens, em que se inserem, por vezes, traços delicados de cores baças. São de uma grande beleza, bem estruturados, no seu caligrafismo insinuando um abstracionismo apenas aparente mas cujo simbolismo é, entretanto, mordaz, como comentário. Toda a temática - e tanto as colagens-desenhos como a pintura mostram obedecer à «regência» do mestre maestro - é, aliás, caracterizada por essa mesma mordacidade crítica cuja leitura pode não ser sempre clara, mas que, enfim, classifica a força de interpretação daqueles que conseguirem penetrar nas séries «Intimidades», «Coisas consumíveis» ou «Modificações». É aqui, de resto, que mais se revela a qualidade de Rocha de Sousa, cuja invenção atinge, com frequência, um prodigioso dinamismo. Mas enquanto o desenho parece, sobretudo, acentuar o valor do ilustrador, pelo contrário, a pintura do artista, com o seu infusionismo, é, quase sempre, lírica e delicadamente sentida. Poderá dizer-se haver nela algo de neo-expressionismo?

Manuela de Azevedo

terça-feira, março 03, 2009

DOIS LIVROS DECISIVOS, ENTRE DEUS E ARTE














Estes livros, já divulgados na comunicação social, lançamentos respectivos e Faculdade de Belas-Artes, foram abordados em blogs e nos apontamentos que se seguem. O tráfico de influências não nos permitiu aceder aos patamares onde tanta gente dença de sucesso e noticiários.
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Não é a primeira vez que trago a este espaço o escritor que repetidamente me louva com palavras amáveis de incentivo à minha produção escrita.
Dedicado também às artes plásticas que vem divulgando na blogosfera em Contrupintar02 e em Desenhamento. Rocha de Sousa prendeu-me pela sensibilidade da sua escrita em «Angola 61», a crónica de uma guerra em que participou, e onde eu pude encontrar descrições emocionantes de lugares e gentes com quem (por mim) partilhei grande parte da minha vida, na terra em que cresci.
Depois de ler «A CULPA DE DEUS», voltei a encontrar uma escrita séria e acutilante, mas leve e agradável no desvendar de «segredos», muros adentro do antigo Convento de S. Francisco em Lisboa, onde o autor também se entregou a uma vida de estudo e dedicação.
Este livro acaba de ser lançado no mercado e é um testemunho vivo de uma das faces da nossa Revolução dos Cravos, a revolução cultural que tarda em cumprir-se.

A CULPA DE DEUS

para um ensaio sobre o livre arbítrio
orion
Um bom escritor, quando as suas palavras possam parecer ainda reais, séculos volvidos, é sinal de que os seus olhos viam para além das aparências, tocavam mais fundo na alma dos povos.
Tenho entre mãos mais uma obra de Rocha de Sousa, um livro que vou digerindo porque não cabe numa relação só. Do que conheço da sua vivência - seus blogs, pintura, desenhos, fotografias, escritos - o autor está lá, nas sucessivas referências à pintura surrealista - Magritte. Magritte que, ao que sei, não se queria nessa gaveta - saltos pontuais mas repetitivos a fagulhas da guerra em África, referências a Camus e Sartre e Beckett, na pele de um narrador em procuura de resposta sem réplica da presença de Deus em quadros sucessivos de Hyeronymus Boch, como ele em virar de século.
A escrita é impetuosa, fluente, a parte formal lembra António Lobo Antunes. Não só. As referências ao período de guerra, o horror dos hospitais para dementes que - ao que conheço, não li toda a sua obra - Lobo Antunes apenas aflora e Rocha de Sousa descreve com todo o realismo, com a segurança de quem fez o trabalho de casa, com intensidade e sentimento.
Estou a ler «A CULPA DE DEUS» na hora certa: quando são reveladas as cartas de Maria Teresa de Calcutá - diga-me. Padre, porque há tanta dor e escuridão na minha alma? - e eu me pergunto se é lícito divulgá-las, quando ela tinha deixado expresso que as queria destruídas, embora o eu conteúdo venha acrescentar a minha paz.
Vou continuar a ler. Até aqui partilho as considerações sobre o livre arbítrio, as decisões que cabem a cada um de nós para que se cumpram os limites que impomos a nós próprios.
Aquilo a que chamo dignidade.
Jawaa
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Ler estas passagens umas após as outras é acompanhar o narrador com o Jerónimo, procurando nos lugares onde o sofrimento humano nos transcende, sinais de Deus, na presunção de que tais lugares serão potenciais reveladores da benção divina, o que por isso mesmo, na excelência da hipótese, se revelará estranhamente inútil.
RS

segunda-feira, março 02, 2009

A CASA DOS VELHOS E A MORTE ANUNCIADA


pintura de Possolo


Numa primeira abordagem, manuseando o livro, aparece-nos por entre os dedos «a casa», numa obra de colagem do próprio autor, também artista plástico de créditos firmados. Ela projeta-se num infinito negro, sem horizontes, telhados assimétricos, montagem sugerindo vários edifícios desalinhados em convívio forçado, querendo parecer um só.
O primeiro contacto perdura ao longo das páginas, «a casa» emergindo da escuridão em que pousa, esplêncida na construção em colagens de persomagens a que correspondem as tonalidades de carácter dentro da mesma cor cor neutra da velhice, plantada sobre os escombros.
Pela mão da juventude -- uma personagem em recuperação de ferimentos graves, eventualmente de guerra -- se percorre o seu interior. Primeiro em cadeira de rodas, depois equilibrando-se em canadianas, aqui e além assolado por fantasmas que permaneem vivos e presentes, aterradores, também as memórias dos primeiros ensaios de jornalismo, seu avô, seu pai nas lides corticeiras, o flash dos cabelos loiros da mãe, a relação fuugaz que estabelece com uma das empregadas mais jovens da casa.
Pertinente, actual, po todo o livro perpassam referências à pintura e a leituras, preocupações, a necessidade de pasar a mensagem da denúncia de situações escusas, infelizmente repetidas sem e com democracia. Destaco a descrição de uma biblioteca fabulosa, «tábuas e papel trepando por ocultas paredes de pedra e argamassa», todo um capítulo com referências que marcaram uma geração, a alusão ao Fahrenheit 451, de Truffaut, à Guerra dos Mundos. Brilhante o final do capítulo com um livro de capa dura que sobrava sobre a mesa atulhada de jornais antigos.
É admirável a pintura do comportamento de gente em declínio, em degradação física e mental a que todos estamos sujeitos, com pinceladas de afectos, a complexidade humana numa bela escrita densa, em que perpassa hna sensibilidade atenta, ponteada da cultura que caracteriza o autor.
Jawaa
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texto de síntese publicado no Bar do Ossian a propósito de um livro do autor deste blog e cuja
notícia já foi amplamente divulgada. Com uma carga de simbolismo por vezes arrasadora, a geração mais nova, traumatizada, ferida de angústia, alguém desperta para a imensidão dos espaços da Casa, imagens que lembram a impossibilidade arquitetónica do mundo e onde se acumulam sobretudo velhos, gente em tertúlia e tosses inquietantes, a morte, a demografia a decrescer, as solidões gerando perdas e olhares de suicídio, um clima, também, que nos lembra por vezes a tragédia contada por Camus em A Peste. A Casa não é Oran, não tem saída para além do bosque, perde dia a dia o seu ar institucional e as gentes, sobrando, na sua cama gélida, o narrador ferido, um jovem largos anos mais velhos, imaginando ver na moldurada redonda da lâmpada do tecto a face nocturna da lua, o Mar da Tranquilidade, em silêncio absoluto.
Sousa Carneiro