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quarta-feira, julho 17, 2013

UM LIVRO QUE ABORDA UMA CRISE ACTUAL

tudo na Síria continua a arder

                                         
NARRATIVAS DA SUPREMA AUSÊNCIA

nem representação nem narrativa
Este livro não tem género, nem mesmo o que se declara na primeira palavra do título. Esse objectivo, aparentemente esboçado nas palavras seguintes, de Albert Camus, em O Estrangeiro, também não é alcançado na sua  propriedade inteira para explicar a natureza dos 28 capítulos desta obra de Rocha de Sousa, entre o limite do apocalipse ou um mundo sem razão. O que talvez tenha acontecido, em plena incandescência, através do real dia a dia, através de memórias semelhantes mas desfocadas e por vezes tristes, poderá estar ligado a uma fase perturbadora do mundo, a inquietantes anunciações de diferentes tragédias em geminação, à impossibilidade de ver o que o olhar colecciona percorrendo as correntes informativas dos jornais quase todos.  Ou mesmo da edição fracturada e rápida dos noticiários, ao que  parece  durante dois meses, com pausas de um fim de vida a dois, Leo e Vicência, sobreviventes dos seus restos de consciência, a cultura esfumada em solidão. Seja como for, para mim, ler este livro foi uma viagem aterradora e fascinante, vendo também, quase em directo, os horrores das guerras que parecem situar-se em meados de 2012 e talvez nos alertem para outros anos que estão a chegar ainda neste século XXI. Correndo o risco de não cumprir um trabalho de apresentação a que me havia prestado, chamo a atenção para a quantidade de jornais, recortes, notícias, artigos, que o autor deste livro terá consultado ou citado, dia a dia, durante os tais vertiginosos dois meses, entre trocas e erros, nomes com várias grafias e fontes demográficas ou étnicas confrontadas por fora das cronologias dentro de 2012 ou muito fora dele, na antiguidade, porventura no presente e no futuro, sobre os conflitos  classificados como  desastres principais.  Rocha de Sousa disse-me, em fim de catarse: lê como se viajasses numa coluna militar em plena Síria a arder, ou na Líbia, ou respirando a cantada imposta pelos talibãs sobre o Corão, as meninas cegas, tu protegido na retoma da marcha, com algum chefe de Estado, em voo retrospectivo, sobre os massacres do ano anterior e as imagens soltas de gente que sobrevive amando pela memória ou de facto e relendo ainda Camus. Depois, entregando-me um papel, o meu amigo preveniu-me: «talvez estas breves palavras, a publicar na capa do livro, contenham algumas, poucas, informações que agilizem o esboço dessa minha atormentada viagem, tudo numa edição errática e comprometida no sentido sobre o mundo destas horas.»

O papel dizia:

O mundo visto dia a dia e durante dois meses, em imagens e recortes de jornais ou episódios do real, entre sonhos de estranhos medos, véu de tudo sem nexo, como todos nós.

                                                                                                          Anónimo

quinta-feira, maio 30, 2013

QUAL A ORIGEM DO HOMEM E PARA ONDE VAI?


Como aconselhar alguém, quanto ao procedimento pós morte: Como? «Pelo fogo, pelo fogo, amigo!» Assim nos vemos, como as falsas bruxas que os falsos inquisidores faziam arder nas fogueiras do Terreiro do Paço. Só depois as enterravam.

foto Miguel Baganha


a ironia da história
Mas eu penso: vivi durante nove meses dentro de um líquido (amniótico) e nasci a berrar com a garganta queimada pelo oxigénio. Depois disso, quando já tinha seis anos, molhava-me na praia, andava na areia, andava na terra. Afinal sempre andei na terra e um pouco no ar, levado por aviões. Só a terra sabe quem sou, não o fogo, embora lhe reconheça, ao fogo, uma certa grandeza no impulso que deu aos assados, às luzes com óleo de bisontes, às tochas da Idade Média, às fogueiras de São João. Mesmo assim, ainda prefiro a água (fria) que lava e cria. É bonito ver as cerimónias, a bordo de grandes navios, quando mergulham um morto no oceano, preparado para descer às profundezas do Grande Enigma da Grande Escuridão das covas abissais. Mas nada como manter os olhos abertos e ver para compreender o mundo pela nossa própria cabeça.
Eu gosto da terra, mesmo para morrer e ficar dentro dela até me transformar em ossos. Mas o meu sonho maior, quase impossível, era ser lançado no espaço (estilo Laika) por forma a que saísse da órbita terrestre e ficasse «eternamente» a gravitar nos acasos da força dos astros. Esse é que seria o verdadeiro sarcófago para um homem. Para o único ser inteligente criador do nosso planeta — votado ao universo que nunca chegou a compreender.

Fogo, terra, Oceano. O espaço, o espaço cósmico, meu amigo. A Humanidade, viva ou morta devia começar já e emigrar para o espaço, antecipando o futuro.

terça-feira, maio 07, 2013

A BELEZA DO AMOR EMERGE DO SEU MISTÉRIO


O amor não é nada uma coisa simples e escorreita que se impõe e permanece por aí, na porta do corredor ou no jardim doméstico ou mesmo junto dos nossos fantasmas mais amigos e bondosos. Eu sou  uma pessoa de paixões e até de amores, apesar de não saber nada de filosofia, teoria dos comportamentos e outras «ciências» assim. Ter medo do amor ser misterioso (no mais profundo sentido da palavra) é mais ou menos branquear as suas tonalidades e diferenças caso a caso, uma vez que ele é plural, transforma-se de pessoa para pessoa, e cada pessoa é, só por si, uma entidade transcendente, inegavelmente misteriosa, nem sabe donde vem nem para onde vai. Não se pode levar o amor, que é uma mais valia da nossa personalidade, para o campo light ou par a falibilidade do simples e escorreito, como qualquer canção que logo fica no ouvido, insípida e inodora, binária no ritmo, pano branco sobre a relva da nossa improvável evidência.
O amor é um dos mais complexos sentimentos da vida humana na sua manifestação relacional e sob a circunstancialidade da sua própria dinâmica -- dinâmica vital cujo sentido é esquivo e cujo fim não se conhece. Essa vida exprime amor, exprime justamente o mistério de si mesma, não há nada de mais penoso ou sombrio nisso: ele é tão pulsante como o nosso coração e tão falível como um súbito nada que nos atira para a eterna perda da consciência.
Se ele não fosse assim, feito à nossa imagem e semelhança, era uma aparência menor e artesanal, simples, escorreito, ornamental e naturalmente sem mistério.
É bonito?
Claro que sim, quase sempre, como as pessoas que o vivem e se apoiam nele. Mas isso só me dá razão, mesmo se olharmos para a imensidade do planeta onde vivemos, para o universo que nos rodeia e onde tudo acontece sem sabermos porquê, para quê, até quando, misteriosamente belo, inexplicavelmente imenso, talvez infinito, a crescer a velocidades impensáveis.
O Universo é belo? 
Eu acho que sim, sobretudo porque é misterioso, poético, de imagens sem nome mas arrebatadoras. No Universo quase tudo é misterioso, dentro e fora do nosso conhecimento. O Homem é uma parte desse universo, caminha sobre as estrelas e ao contrário delas, evoluindo lentamente em busca (com o amor e outros sentimentos e saberes) do dia em que poderá excluir-se da sem razão que por vezes o rodeia em muito do que o ultrapassa.
O lado menos reico da arte é o seu lado transcendente, é o diálogo da forma com o conteúdo, do visível ou do invisível. A arte conhece a manifestação do mistério (não de um mistério infernal como o belo horrível): antes do mistério que é a suprema ideia de nós, a que vamos descobrindo ao retirar muitas das camadas que nos rodeiam e nos encobrem, pela ciência pela medicina, pela voz das ideias e das civilizações. O arqueólogo conhece o mistério dos restos que investiga: pode nunca resolver esse universo, mas vai abrindo caminho através dele, pela razão e pela utopia.
O lado misterioso do  mundo e de alguns sentimentos complexos não é necessariamente uma coisa má. Pode ter luz e cor, como muitas pessoas gostam. Gostar das cores integradas por uma velatura uniformizante também é um gosto defensável e a história da arte demonstra-o desde muito cedo.
Sintetizo e peço desculpa: o amor é uma entidade fora de nós, que esteja ali apenas, legível na maior banalidade das evidências, ainda que bonitas.

sábado, março 09, 2013

UM MURO CENTENÁRIO, LEPROSO E AINDA VIVO

Fotografia de Rocha de Sousa

Numa velha e melancólica cidade do sul, onde em grandes armazéns se desenvolvia, pujante, a indústria da cortiça, havia, pelos anos 50, um febril palpitar da demografia operária e uma contínua produção de rolhas, de elementos diversos naquele material, além de restos ou aparas que se faziam escoar pelo rio abaixo, em direcção a cargueiros que absorviam os milhares e milhares de fardos, um material que era transformado, no país e fora dele, em pó e logo em placas ditas de corticite, aplicadas aos interiores, em paredes e sobretudo no chão das casas.
Sempre que visitava a cidadezinha, mesmo depois da crise da indústria corticeira e da derrocada pelas chamas de quase todas as grandes fábricas, passeava pelos longos corredores da periferia, olhando os altos muros escurecidos, primeiro a sustentarem ainda telhados e guardando coisas diversas, mas, entre datas, sujos de humidade e musgo, despintados, riscados por rachas onde se acoitavam lagartixas e, no verão, osgas repelentes mas medrosas. Ao longo dos anos fui fotografando as paredes e as janelas em ruína daquela zona da cidade, só hoje mais habitada, com fábricas, depois de longos anos abandonadas, substituídas por construção de todo um imobiliário procurado por gente da cidade (em troca de casa) e de muitos funcionários que vieram de fora e cobriram em parte a desertificação resultante da migração em massa dos operários corticeiros em direcção à margem sul do Tejo.
Agora, no maior daqueles edifícios ainda de pé mas completamente abandonado, o que vejo são paredes imensas, sulcadas por doenças inenarráveis, salpicadas de forma intensa, entre sobreposições a letras sopradas a negro e azul, dermes purulentas de grandes animais sem nome, nem do jurássico nem talvez da própria Terra. Através de planos alargados ou de planos próximos, os registos fotográficos obtidos chegam a alcançar a qualidade da mais genuína e expressionista pintura abstracta -- rugas, restos de pinturas brancas, sanguíneas ou azuis, fendas colossais, imagem como que em plongé interminável de alguma superfície planetária neste universo que nos cerca e que só há uma década nele se descobriram centenas (de uma contagem posterior de biliões) de planetas em sistemas como o nosso, esperança de um dia se notar em tais paragens outras paredes com qualquer coisa como lagartixas, vida legítima, talvez humanoides ou gigantes ainda longe da tecnologia da comunicação por ondas invisíveis, à distância.
Fica aqui o enquadramento de parte de um muro centenário para jogos imaginários de tempos perdidos, de vidas passadas, da acção do tempo e dos homens, talvez uma primeira semelhança com um primeiro planeta rochoso exterior ao sistema solar que nos acolhe por um lapso de tempo irrisório na escala do universo e da sua marcha não se sabe para onde.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

NEM ANTIGO NEM VELHO, IMITAÇÕES À ESPERA

  

fotografia de Rocha de Sousa

Loja de antiguidades. Venda de Velharias. A fotografia é deliberadamente traiçoeira, um desafio ao nosso olhar e às memórias da percepção. Em boa verdade, este cenário não é habitado por objectos de uma antiguidade cara nem de velharias para devaneio de vários fingimentos épocais. É antes um cenário relativamente acanhado, armazém de um grande bazar onde se vende de tudo um pouco, objectos decorativos ou funcionais, de cozinha ou de sala, móveis com algumas décadas, pratos e centros de mesa, cadeiras, candeeiros eléctricos, materiais caseiros, instrumentos de cozinha, serviços de chá a fingir Limoges, faqueiros de há vinte anos, não mais, ferramentas ou caixas de pose ornamental. 
Este embuste, aliás ainda virgem de vendas e numa casa honrada, está aqui, na reserva, para uma esperada venda. Tudo o que vemos ali (sem rigor porque o olhar nunca o foi) é constituído por objectos das mais variadas espécies, já com anos ou décadas, mas que nunca tiveram saída para o palco da loja principal, num bairro lisboeta, e ali continuam jamais usadas, jamais verdadeiramente vivas, à espera de que o seu desuso, de que o seu estado démodé, lhes permita aspirar a compra e a entrada numa habitação de família, "gente remediada" ou de "novos-ricos" a desejarem engalanar o seu habitat com coisas novas mas de traçado antigo, como foi moda vulcânica nos anos 60.
A bem dizer, aproximamo-nos do tempo em que nem sequer haverá casas com mobílias completas e ornamentos "assim-assim". Já duas famílias partilham um único apartamento. E agora até há uma campanha para que os estrangeiros ricos (angolanos, porventura) venham comprar as casas que sobraram da vertigem europeísta, já mobiladas, com piscina, 400.000 euros e limpas de complicações.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

CORTE O PÃO MAS NÃO MORRA. FMI OU MORTE?


O rei foi ferido no início da batalha por Portugal. Foi ferido, o sangue escorreu entre os encaixes da couraça mas o verde da sua marca de esperança  trancou a hemorragia. Quando, séculos e séculos depois, o rei já havia sido substituído por um amanuense duro e rigoroso, seminarista incompleto, muito tempo depois da gesta das navegações e dos Descobrimentos, que fora ponderada com razão e demora, com apoios múltiplos, acabada, enfim, no intervalo das indecisões, até um dia (no futuro) ter começado perto do risco o famoso Império que parecia ter acontecido eterno após todas essas aventuras. Um dia, no limite de uma longa espera, pela última metade do século XX e durante uma pesada guerra além-mar, o amanuense, morto, chegou a ser substituído por um professor universitário, mas os capitães travaram Lisboa, o Carmo, e o próprio presidente do Conselho. No Carmo, entre povo e balas contra as paredes, gritos de vitória no barulho do sonho. O presidente do Conselho foi então levado no interior de uma Chaimite, e os capitães (de Abril) meteram cravos por todos os lados, até no cano das espingardas, ali ao Chiado. Tal imagem andou por todo o mundo e Sartre veio visitar o país. Parecia uma glória europeia.
Mas não era. Formou-se a União Europeia e os nossos moderníssimos políticos, cheirando a vanguarda e um planeta central, lavaram as mãos da mais rápida descolonização de sempre, o que provocou dores imensas, roubos inauditos, sobretudo entre os «retornados», velhos e novos. Foi tudo depressa outra vez. Os homens do poder trataram de aderir à União, papando o euro e tudo, moeda de fascínio que caíu na nossa terra, sob condições draconianas: era preciso largar metade das pescas, reduzir a agricultura em mais de 60%, afundar a marinha mercante, formar quadros. O país nadava em euros e compras faustosas, dos iates às autoestradas, e a dívida foi aumentando. Nas terras do sul, os coitados produtores de laranjas tinham de calibrar tudo como mandava a Europa, perderam-se de todo, e a Espanha invadiu de novo Portugal com as sua laranjinhas medidas ao milímetro, entre outras coisas, enquanto os nossos patos-bravos desataram a encher tudo de casas, em conluio com os bancos e massas de crédito que levaram as populações, ensandecidas, de olhos arregalados, a comprar casa própria por centenas de milhares de euros. Estava o caldo entornado. E logo se entornou nos Estados Unidos da América, infectando o mundo: depois da queda do muro de Berlim, o capitalismo mostrava o seu lado aterrador, venal e contaminante. Os credores, que viviam soberanamente do pagamento dos juros (isso bastava), acharam que tal festa acabara: os mercados crisparam-se, pararam os créditos e exigiram, em pouco tempo, o pagamento de todas as dívidas -- biliões e biliões de euros. Ainda Portugal, já engasgado de auto-estradas, andava a negociar o início das obras do TGV para Madrid, calcule-se.
De súbito, os ricos da Europa e os senhores aristocratas do Norte, disseram o que tinham a dizer: a bancarrota é o fim, façam favor de chamar O FMI e pedirem planos de resgate. Toda a gente sabe o que aconteceu de seguida, o Sócrates andava a querer um PEC 4, o PSD babava-se pelo poder. A TROIKA foi chamada: passámos todos a viver de cortes nas despesas e nos salários, o governo da coligação PSD-CDS cumpria o duro memorando da TROIKA com sagacidade e cegueira, cada meta era atingida através de contracções brutais, o consumo baixou, as Empresas faliram aos milhares e milhares. Tapando buracos financeiros no meio da marcha forçada e falhando os objectivos de cada patamar, o Governo discursava sem capacidade mobilizadora nem boa comunicação.
E agora, que se atingira a segunda fase nas reformas e pensões, fase  de um sacrifício imenso, todos a pagarem as fraudes e os deslumbramentos dos maiores, um novo programa para 2013 começou a fumegar: o monstro comia um pouco por toda a parte: nos salários, no IRS, através do IVA, e apesar de tudo a derrocada era precária para tão longas dívidas e tão estranha gestão europeia, sobretudo centrada na Alemanha, por uma senhora vinda da RDA, cujo treino da norma e da austeridade parecia imbatível.
Começou 2013. E, sem que ninguém percebesse como, foi derramado sobre o país, julga-se que a pedido do próprio governo, um Relatório Proposta do FMI. Há quem diga que está muito bem feito e oferece pistas apropriadas. Há quem diga que se trata de um simples golpe final de uma conspiração do tamanho do Sol. Muitos portugueses emigraram no ano passado, embora haja sempre quem arranje uma horta na varanda e se ponha a comer relva, vendo futebol. Eu não emigro, aliás sou muito velho e tenho artroses. Já me cansei de pensar: o que eles querem, afinal, é simples, trata-se de aliviar o Estado de 60 a 100 mil funcionários, incluindo 50.000 professores, mantendo cortes substanciais nas reformas e nos rendimentos, além do aumento das taxas na Saúde, uma taxa de solidariedade (não sei para quem) e a queda do subsídio de desemprego, considerando ainda que a polícia é excessiva e custa mais do que as europeias, devendo o Hospital Militar integrar-se no SNS. De resto, o cuidado com a Educação parece um pouco pecaminoso, devendo por isso poupar-se 710 milhões de euros nesse sector. Isto é o que me lembro. Vou deixar-me abater, poucos anos me separam do fim. Mas gostaria de ajudar os meus compatriotas a troikar o troikado pensamento dos troikistas. Louçã, amigo meio reformado, achei o teu artigo tão manso, tão pouco imaginativo. Será que vais emigrar? Nós, outrora navegadores, já nem dominamos meio mar e abandonámos 6% de pessoas na agricultura. Talvez eu saiba como se pode recomeçar, mas fiquei de súbito muito cansado. Já ouvi três intervenções na TV, vozes de sábios, todos tratavam em oposições e bondades mútuas o fenómeno kafkiano que o FMI nos ofereceu. Ó Louçã, sabes que há um gajo que já visitou o Banco Central Europeu com um carro armadilhado, obrigando o presidente, num prazo curto, a emitir secretamente 50 triliões de euros, tendo fornecido uma lista de instâncias onde o dinheiro devia ser, no escuro, entregue e negociado para certas operações? Um espião da Alemanha soube do caso e disse no Banco que parassem tudo, pois a inflação não era coisa para germânicos. Tem graça, foi morto por um Palestiniano disfarçado que, por sua vez, sequestrou um político israelita. Suprema Ausência!

sábado, janeiro 05, 2013

ABOMINAVELMENTE OLHANDO O VISÍVEL E PINTANDO O INVISÍVEL

pintura digital de Rocha de Sousa

Abominavelmente parece um pouco excessivo, embora corresponda a um estado de olhar, de ver e de representar que começa e culmina ao longo de um caminho exaltante e muito perturbador. Ainda que haja quem se sinta em estado de júbilo ao pintar, vendo ou mesmo no limite da cegueira. É que não vemos nada do que olhamos e não vemos nada do que decisivamente constitui a realidade. Paul Klee apontou-se o véu de um exemplo. A Arte não reproduz o real, torna-o visível. Parece assim que, em boa verdade, olhar pertence  às funcionalidades do viver,  incluindo ver e pintar, mas que a maior consistência das coisas se situa para além das aparências. E que a criatividade é um processo de descoberta para além do sentir corrente, abre-se à memória, ao imaginário, às linguagens do ser, passando mesmo (talvez sobretudo) pelo domínio mais encoberto dos sonhos, misturas em certos casos dantescas da vulgar paisagem e de colossais ou inquietantes visões que o real nunca nos fornece em termos de quotidiano. Por vezes, a Natureza rebela-se: são os dilúvios e as catástrofes mais extensas que arrasam populações inteiras. Nada que o Homem, em grupos armados, não seja capaz de produzir.
A luta que o artista trava perante o real e perante ele mesmo, isso é um abominável e fascinante destino civilizacional que antecipa vidas estranhas, inimagináveis, revoluções orgânicas e, com alguma frequência, a anunciação da morte. Chirico pintou uma praça relida em Freud, onde as sombras são ameaçadoras mas contra as quais, inocente e feliz, uma menina empurra sobre as pedras, em equilíbrio, um arco de ferro. Ela vive e a pintura mistura os dois pólos da existência. Mas o medo está em qualquer parte, pressente-se nos próprios instantes do contentamento. Por outro lado, ao olharmos os auto-retratos sucessivos de Rembrandt, nos quais há um início faustoso, o último de todos eles tem a grandeza de um fim, testemunho da superioridade do Homem na irrecusável anunciação  do inexplicável apagamento.
Na pintura: imagem da vida.
Igualmente: imagem da morte

sexta-feira, janeiro 04, 2013

DEPOIS DO DESAPARECIMENTO DA HUMANIDADE



Num dos séculos do segundo milénio, durante dois anos, todo o equipamento de energia nuclear no mundo começou a explodir, arrasando com grandes partes do planeta e a substância estrutural das sociedades humanas. Fugas em massa, desesperadas, não evitaram o horror da contaminação radioactiva. Em cerca de dez anos não havia rasto da humanidade, senão as suas cidades e tóxicas formas de exploração do  meios de energia mais perigosos. A fauna, em zonas remotas menos poluídas, resistiu ao nível de diversas espécies, como parte da flora, a qual, cem anos depois, já começara uma importante recuperação, absorvendo os meios em ruínas da civilização humana.
Em baixo, algumas antecipações, sem arranjo cronológico, de um filme que escalpelizou a evolução do fenómeno até ao deserto, por exemplo, que pulverizou e cobriu toda a cidade maníaco-festiva de Las Vegas.

 explosões quase em cadeia das centrais atómicas









Berlim e Londres, 200 anos depois, a parasitagem floral de Paris e um aspecto de Londres.
                                                                                       



Cerca de 300 anos mais tarde, este é um dos aspectos da cidade de Nova Iorque, com derrocada do Empire State Building, numa geral maceração do antiga metrópole.                   
 

Apesar desta paisagem apocalíptica que será reduzida a uma floresta monstruosa e desertos, o fundo dos mares encheu-se de mais destroços dos que já lá existiam. Os peixes que resistiram foram multiplicando-se por espécies e no tamanho. À superfície, dos insectos aos mamíferos de pequeno, médio e grande porte, tudo se reequilibrou sem os distúrbios dizimantes da tecnologia humana.
 


Tendo resistido mais do que se supunha, a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, acabou por se desmoronar, acabando o suporte apenas erguendo hastes e meio submerso na flora em redor.
 

 A Liberdade degolada


Um aspecto de Londres a meio do período de
degradação que iria chegar aos 900 anos. 
 

 


                              
                           As barragens não duraram para sempre. A Natureza                                           recuperou  a sua dimensão  e as barragens romperam.                                      
      
 

 Os desertos acabaram por delimitar grandes zonas   dantes frondosas e usadas para produções diversas.

Nova Iorque
300 anos depois