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terça-feira, julho 29, 2008

VELHAS PORTAS, A BELEZA DO APODRECER


Quando a indústria de transformação da cortiça entrou em colapso no seu maior centro, Silves, já muitas portas de armazéns e de acesso a depósitos da matéria prima, tinham, junto ao chão, este aspecto arruinado, com buracos que facilitavam a entrada das águas das chuvas e os ventos de pó que atacavam a cidade em certas alturas do ano. Estas imagens são actuais (2008), são restos de arranjos inutilizados, fósseis, fibras secas, ferros de aperto afinal inúteis. Se nos alhearmos do chão, que nestes enquadramentos não se vê, o que nos é oferecido pode merecer o nome de paisagens, algo que soçobrou e adquriu o eterno estatuto de ruína. Há formas de morrer assim, como tantas vezes a arqueologia nos dá a ver, conciliando aparência e conservação.



Pela tardinha, num dia nada próprio do verão, divaguei por estes sítios e mais uma vez convencido da beleza difícil destas imagens, coisas, memórias, rostos velhos escondendo buracos negros ou vazios de armazéns outrora floridos, cheirando a frutos secos, amêndoa, coberturas retorcidas do milho. Por vezes quase me sentava no chão, entre os carros estacionados e a porta a enquadrar no ponto escolhido.
A certa altura, uma jovem fresca e bem aprimada de corpo, parou e perguntou-me:
«Mas que raio, o senhor acha isso bonito?
Eu levantei-me, sem ter perdido o disparo, e perguntei, por minha conta, à rapariga:
«Gosta de crianças, acha-as em geral bonitas?»
«Sim, claro que sim», respondeu ela.
«Conhece gente idosa, velhos, alguns como aqueles que se sentam debaixo das alfarrobeiras? Haverá, entre essa gente, o exemplo de uma beleza na velhice?»
«Sim, claro que sim» voltou ela a responder.
E eu:
«Pois saiba a menina que ando por aqui a fotografar estes belos velhos, velhos e silenciosos»
E ela:
«Ah, que giro. Giro mesmo. Visto assim, tem toda a razão».
Até esta porta ardida ganha, em beleza e despojamento,
os plásticos queimados do italiano Burri

fotografias de Rocha de Sousa

domingo, julho 27, 2008

APETRECHOS DE FÉRIAS: RESPIRAR E LAVAR

Em pleno século XXI, retornar a meados do século XX, num lugar diferente do habitual, para exercitar os neurónios do repouso, pode acontecer usarmos este apetrecho, com ele regando as flores e tomando, pelas seis da tarde, um copioso banho, os pés nus sobre as lajes do quintal.

Estas plantas, que rodeiam o quintal, têm uma duração de vida maior do que a minha, vão sobrar para os outros, e espero que os outros, mesmo retraídos pela escassa cultura da globalização, ainda tenham à sua disposição aquela mangueira, ou similar, e sobretudo que ainda exista água para usos domésticos indiscriminados.

Com máquina de lavar roupa ou não, conservo sempre este cabo, já lasso, onde gosto de ver roupa lavada, íntima, descomprimida, a dormir na espera do seu modo de vida sobre a pele humana. Parece que estou a ver imagens dos anos 40 e do tempo da guerra, em que se fazia sabão em casa, numas lindas caixas de madeira de pinho. Toda a gente devia aprender isso na Escola. Toda a gente devia treinar a lavar roupa nas pedras que marginalizam o rio, em pleno açude.

quinta-feira, julho 17, 2008

AS COISAS QUE NOS PASSAM PELA CABEÇA


As coisas que nos passam pela cabeça
quando um aviso de bala
crava no céu o primeiro estampido
e é depressa alarme de morte.
Logo o capim se quebra na queda
e todos em volta subitamente gritam,
todos e ninguém,
ali e além,
a vomitar mil chamamentos,
em brados imensos, de ferro ao acaso,
tudo no ar, entre ventos, por alguém,
tudo por nós, em suma,
contra o inferno inteiro e raso.
*
Cheira a urina no cheiro do capim quebrado
assombrando o resto de nós.
Pétalas no chão já esmagadas
e talvez, em murmúrio, ainda perfumadas,
sangradas,
morrendo com o peso do nosso medo
que nos queima os dedos
ao acaso dos outros dedos cravados no gatilho,
até a arma, ela própria, se calar.
*
As coisas que nos passam pela cabeça
quando o ar se torna límpido, de súbito calado,
devagar a sombra das árvores
no absurdo silêncio da guerra,
e os homens além, ou ali, riscados pela terra,
impossivelmente a chorar sobre o capim,
dizendo num sopro, baixinho, sim, sim,
Eu sei que sim, mãe.
*
Rocha de Sousa
memórias de Angola

quarta-feira, julho 09, 2008

OS ODORES IRREPARÁVEIS DA VELHA CIDADE

O problema não se resume ao facto destas imagens revelarem aspectos de duas portas, situadas, de frente uma para a outra, na mesma rua. O problema decorre do cheiro pestilento que se sente junto delas, quer na proximidade da velha porta de madeira, quer diante da inutilizada porta de ferro, outrora forrada, na parte superior, por uma grelha envidraçada.
A porta de ferro correspondia a um daqueles lugares que se chamavam justamente «lugares» e nos quais, além de frutas e vegetais frescos, se vediam também mercearias, desde o petróleo para o fogão até ao jurássico «sabão macaco». O cheiro que vinha do fundo, da contraloja, não era muito próprio de uma loja com este perfil: porque se tratava de um «cheiro a canos», como explicavam as vizinhas, apesar do senhor António, dono do «Lugar», garantir a toda a gente que se estafava a limpar a casa de banho e a grelha que havia na cerâmica do pátio, zona a céu aberto onde se acumulavam velhos móveis, cadeiras partidas, alguidares, a casota do gato. E lixo para evacuar à noite.
A porta de madeira, muito velha, talvez mais velha do que a sua vizinha da frente, em ferro pintado, corresponde a um daquelas prédios tocados de ornatos nas cantarias, janelas simétricas, ao alto, paredes revestidas de azulejos da boa época desse gosto. Havia duas residências, simétricas relativamente à porta, e ambas, naturalmente, situadas no rés do chão. A residêndia da esquerda ficara devoluta dez anos atrás, pela morte da sua locatária, e nunca mais foi reabilitada. Do lado direito, havia também uma única locatária, com mais de oitenta anos. Embora desta outra porta, no lado oposto da rua, também cheirasse a canos, sobretudo quando era aberta, a Dona Clementina garantia, a quem a interpelasse, que podiam entrar na sua casa, estava toda lavada e não pairava por lá nenhum mau cheiro.
Durante muitos anos, como á habitual entre nós, este problema ganhou a importância de catástrofe urbana, meteu delegados de saúde, polícia, tribunal, e nada se provou. O «Lugar» foi definhando e o Senhor António faliu. Desactivada a casa, sem produtos nem pessoas, continuava a contaminar a rua nas suas redondezas, pelo que foi entaipada com tijolos. Obviamente, morta a a Dona Ricardina, os netos entregaram as chaves e tudo ficou encerrado durante anos e anos. Por estranho que pareça, quando se passa ali, o cheiro é determinante na mesma e obriga-nos a ensaiar círculos de afastamento.
Hoje, diga-se o que se disser, na maior parte de prédios como estes, em várias zonas da cidade de Lisboa, o cheiro pestilento já ultrapassa esta ou aquela porta, mas na maior parte delas, imensamente, eternamente, sem a menor das compensações

sexta-feira, julho 04, 2008

VOLTAR AO REFÚGIO DÁ-NOS DE NOVO A PAZ

Somos feitos de memórias e sem elas, sem a sua grandeza e a sua qualidade, não seríamos capazes de projectar verdadeiramente o futuro. No sonho ou na convicção das somas consistentes. Os nossos hábitos, no fundo, consolidam-se da mesma forma, ordenando-se pela colagem a coisas que nos lembram outras coisas,mudanças, estabilidades, rotinas, a dedicação a lugares remotos, doce aprisionamento, dia a dia nos sítios onde vivemos e onde acumulamos objectos, adereços, livros, roupas, fotografias, aí sim, entre retiros exíguos servindo para pensarmos ou rever as imagens do mundo, interioridades estranhas, conlitos, possíveis lutas de reunificação das energias. O presente é fugaz, em todo o caso, ponte que nos afasta dos factos a montante do nosso percurso, sobre o rio da existência, aproximando-mos assim de reconstruções possíveis, do real e do sonho a jusante.

GRANDES AMPUTAÇÕES DA GUERRA INÚTIL

ferida irreparável



O feiticeiro agarra uma criança pelas pernas, gira o corpo no ar, em movimendo de hélice, e larga de súbito o pequeno ser que se esborracha na parede da casa destelhada. As galinhas fogem, espavoridas, deixam penas por aqui e por ali, e os gurreiros saltam e gritam e arrebatam mais crianças das mães encurraladas. Há cabeças cortadas, rolando fofo no capim, e outros meninos a berrar como porcos na matança até quebrarem os crânios contra as paredes onde os esguichos de sangue começam a escorrer na vertical, em fios mais ou menos finos. As mães que podem fugir, depois de perdidos os filhos, ficam ajoelhadas, numa estridência de gritos, e os homens vendem a sua pele o mais caro possível. Alguns conseguem furar a barriga dos guerreiros, soltar- lhes as tripas, mas são logo dobrados para o chão à paulada e castrados com catanas. Uns negros muito negros rastejam na periferia das cenas, riem (satânicos) e juntam troncos que espetam no chão. E os guerreiros pintados, emplumados, gritam gritos de guerra, agitam no ar as cabeças degoladas, os sexos amputados, vindo ornamentar com esses despojos aquela espécie de paliçada erguida pelos seus companheiros. Estes arrumam tudo um pouco melhor, atafulhando as bocas das cabeças com os pénis grandes e moles. Os tiros estalam lá mais adiante, fora das casas destruídas, são festa e foguetes a fingir, a ordem do caos, um calor abafado em volta. Sobram crianças mal mortas e há fetos secando fora dos úteros esfaqueados, grandes poças de sangue, panos, tufos de capim e clareiras de areia cor de laranja, pássaros negros rodando muito alto, no céu cor de chumbo.
_______________________________________

Pequeno excerto o livro «Angola 61, crónica de guerra» obra publicado em 1999, pela editora Contexto, «uma crónica de guerra ou a visiblidade da última deriva». Livro que descreve toda uma realidade acontecida de facto no teatro de operações na zona dos Dembos, embora explorando a plasticidade do cenário, literariamente, e fornecendo coerência «fílmica» aos grandes movimentos, paisagem e personagens.

sexta-feira, junho 20, 2008

A HORA SACRIFICIAL


Esta imagem será substituída por outra a obter em melhores condições de luz e com meios mais apropriados. A fotografia foi realizada como ensaio na fase terminal da obra, uma composição (a acrílica) que parece envolver o avanço de alguém, mulher certamente, para um altar sacrificial, o filho oferecido por ordem divina à morte capaz de pacificar a palpitação das tribos. Este terrível mito bíblico foi superado há mais de 2000 anos, mas não deixa de continuar a executar-se de outra forma, meninos da Palestina (ou de outras regiões do mundo) sob o acaso das balas, crianças negras entregues a um destino de peste e fome pela perfídia dos homens. A pintura atrai aqui eventuais leituras desse tipo. Mas pode tratar-se da aproximação à pia baptismal, compromisso antecipado também, ou dar-se como pintura apenas.

quinta-feira, junho 05, 2008

LIXOS: MATERIAL PLÁSTICO E DE REFLEXÃO


A imagem aqui publicada foi recortada de um contexto urbano, Nápoles, onde vários problemas de ordem política e social criaram uma situação aterradora: o enchimento de grandes áreas da cidade com verdadeiras montanhas de lixo. O enquadramento abstractiza a realidade visual e chega a produzir um efeito muito próximo daquele que experimentamos perante documentos de mortandades derivadas de conflitos humanos, genocídios, remoção de violentas catástrofes. Curiosamente (e assim se apura a sensibilidade criadora) a imagem seguinte encontra-se, por algumas analogias, com o sentido geral da primeira. Em ambos os casos há uma acumulação de matérias, de corpos semelhantes e simdaultaneamente diferentes. Na segunda imagem acontece o registo de uma obra de arte ligada à tendência pop, à arte urbana, ao expressionismo. Grandes quantidades de embalagens perdidas, de latas que foram amolgadas e comprimidas lado a lado, por camadas, podem favorecer o aparecimento de mensagens polissémicas, todas envolvendo a ideia de sociedade consumista, avassaladora, de perdas e excessos, de falta de organização plural do nosso comportamento, sua funcionalidade equilibrada, manejo e destruição produtiva em ordem ao equilíbrio sistémico dos modos de vida e da sua qualidade.

Este é um ponto de viragem, transformação do lixo comprimido e feito objecto de arte. As latas coloridas e apertadas em camadas, geram um espectáculo matérico, emergência artística, a vibração poética que evoca a própria civilização tecnológica e lhe extrai um valor expressionista pela dramaticidade caótica vinda do tratamento digital a vários níveis (cor, forma, textura aparente) em termos de descaracterização abstractizante do referente.

quarta-feira, junho 04, 2008

BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS




JÁ FOI LANÇADO O LIVRO CUJO TÍTULO NOMEIA ESTE POST

E eram as pedras maiores, quase soltas das outras em redor, a responder ao tumulto das nossas vozes, provocandoo ressonâncias nos espaços descarnados, nos pátios e vastas escadarias, silhuetas sobrevivendo ao alto, de algum modo pilares de uma complexa arquitectura conventual que atravessara o horror de 1755 - Lisboa caída a seus pés, sob a imagem de inevitáveis fissuras nos espessos muros de várias frentes que o vento norte fustigava, as chuvas também, mais tarde a força renascida do sol e da luz branca cujo calor vinha de novo distender tudo em volta. Paulino esgueirava-se cedo, durante o Inverno, nessas noites começadas pouco depois das primeiras aulas da tarde. Cheirava a pano molhado, borracha húmida, e mesmo assim o pujante Firmino atravessava os lugares com o falto macaco aberto, os tornozelos nus, chinelos sem origem, cambados, chapinhando nos pequenos lagos formados entre as lajes ou na concavidae delas. Manuel fumava a um canto, à espera. Acácio aprofundava o seu mutismo, um cigarro suspenso dos lábios, os óculos redondos brilhando no escurecimento das horas, entre sombras que passavam a camiho do largo. Leocádia? FElismina avançava e detinha-se na ponta dos corredores, escutando alguma resposta através dos murmúrios e dos risos. A Rosa voltava para casa sem ligar a esses pormenores, tinha daqui a pouco de apresentar o gisado ao marido esformeado, além de tratar das suas pr´prias mazelas, pernas grossas bordadas de varizes, pêlos descendo pelo exterior das coxas numa hibridez sensual, a cama a ranger por cada banho de gel que ela aplicava ao enorme corpo ainda tocado de aparências carnais semelhantes às pinturas dos mestres senis. Cavaletes, meninas afogueadas, as batas sujas de tinta. Rosa puxava as saias, espalmava as mãos sobre as pernas, pensava no marido e naquela fome que ele lhe transmitia todos os dias. «Bom dia», aflorava a corda vocal do Aldemiro de cada vez que chegava ao nicho da porta da sala, fechando, atrapalhado, um enorme chapéu de chuva de doze varetas. Abertos, uns sobre s outros, esses objectos era postos a secar no vão anterior às retretes, pareciam bichos sombrios, de pele esticada e húmida. Alguém acendia logo o gás. Alguém puxava as cortinas. Passos sobrepostos, a mudez do frio, os primeiros cavaletes arrastados de forma ensurdecedora. Manuela? Helena? A rua do Carmo estava atolada de gente e lama que parecia brutar, eternizada, de dois postos de obras municipais. Os professores vinham de táxi, a maior parte deles, os novos candidatos pela Direcção Geral ao abrigo da reforma recente, já velha ao nascer, guardada no cofre do Paulino, sob abóbadas seculares e cheias de bolores. Leocádia?

segunda-feira, maio 26, 2008

ILUSTRAÇÃO para SEGREDOS CONVENTUAIS



Ali se encontravam, em metáfora, os corpos trucidados nas guerras de Alexandre, os membros e os torsos de primitivos cristãos massacrados e comidos pelos leões, no Coliseu de Roma, pedaços, enfim, daquela Grécia grosseiramente imitada que o velho Macedo Vieira, com benigna invenção e ciência persuasiva, nos dava a ver, numa grandeza bem longe das falas abrangentes e pitorescas de Hermano Saraiva na televisão. Naqueles fundos corredores e permissivas prateleiras, sombras envolvendo os gessos, noites entre as sombras, pombos de manhã, dali poderia retirar-se um amanhecer em Atenas. Abrir os moldes como cascas de dinossauros e revisitar concavidades de imitativas convexidades, esse era o apelo de qualquer visitante de tão complexos meios de ressuscitar os heróis e os santos, um lugar fragmentado pela grande geometria em pedra, em abóbada, lugar, também e de certa maneira, onde repousava mais de um milhar de virtuais estátuas da antiguidade clássica, muitas delas servidas no jeito de prato insubstituível nas aulas de iniciação à pintura, anos atrás. Em geral, as «pedras» amarradas por fitas flexíveis ou meras cordas, arames aqui e além, sobravam para uma inesperaa abstracção, assim entaladas nas reentrâncias sombrias, por cima das prateleiras, cemitério inenarrável de formas que se afirmavam humanas, corpos utilados, restos marcados por infinitos códigos de martírio póstumo

quinta-feira, maio 08, 2008

HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE SE JULGA
LEIA ESTE LIVRO
E CONHEÇA O MUNDO
ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO



estas histórias derivam de viagens que as editoras desconhecem, preferindo receitas e nomes de uma falsa segurança

segunda-feira, maio 05, 2008

AO VER ALGUNS MÁRTIRES DA TETCHENIA


Não estive lá. Não quero estar lá. Vi muitas e muitas fotografias da resistência dos habitantes da Tetchenia perante a guerra que os russos ali sustentam para garantir a sua férrea tutela sobre este país cuja identidade não cede aos bombardeamentos sistemáticos de artilharia pesada e ao sopro mortal que desce das nuvens pardas, estilhaçando bairros inteiros. Entre os resistentes, diante da sua cidade capital arrasada por completo, há sempre um remédio qualquer: tratarem dos feridos, organizarem a competência cívica, enterrarem os mortos e, na tarde de súbito silenciosa, tomarem um pouco de chá, trocando plavras, a sondar os seus corações. Numa revista americana, de belíssimo papel e luxuosa organização gráfica, deparei um dia com a imagem terrivelmente nítida de dois guerrilheiros deitados junto de uma esquina em pedra. Um dos guerrilheiros, a quem fora arrancada a perna direita, justamente abaixo do joelho, estava ali, assim, ajudando o seu companheiro. Ele sabia que o perigo não se encontrava atrás de si, mas ouviu os passos dos fotógrafos e olhou de soslaio, a cabeça voltada com certo esforço, dois olhos naturais e brilhantes como se pertencessem a outra pessoa, não a um recente mutilado, elementarmente assistido pelas suas próprias mãos. Nunca mais esqueci aqueles olhos e tudo o que pensei depois foi já dentro de mim, eu mesmo assumindo um lugar como protagonista da cena, do lado dos jornalistas, solidariamente na espera do verdadeiro termo daquele combate e daqueles homens. Pareciam cumprimentar-nos em jeito maquinal: «Ah, são vocês?»

quinta-feira, abril 24, 2008

BOMBA COMO UM SIMPLES SACO DE PRAIA


Num retorno à pintura sobre tela, com tintas acrílicas e os instrumentos convencionais, proponho aqui uma composição semi-abstracta, de decifração não realista, à qual adicionei o título «Bomba como um simples Saco de Praia», o que pode ser uma ironia sobre os perigos acuais, disfarçados pelas cores do consumismo e frequentemente accionados de forma brutal. A liberdade de viajar pelas formas geminadas é, contudo, o sinal de abertura de uma obra deste tipo. Num outro sentido, e de acordo com o que tem sido mostrado neste blog, a pintura aqui reproduzida mostra-se claramente aparentada às composições por completo realizadas em computador: tipo de configuração dada pelos elementos, construção das partes e sentido gráfico, as linhas implícitas complementando a imagem.

quarta-feira, abril 23, 2008

CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO VISÍVEL

Primeira fase organizativa com os materiais em bruto,
embora já nornalizados em colagem no campo.
A fase seguinte, assinalada no texto comleta-se como
se pode observar aqui, por opções estéticas do autor




Algumas pessoas têm-me procurado no sentido de partilhar experiências relativamente ao percurso entre fotografia e pintura, processo analógico e processo digital, o que é só pintura e o como se faz desta uma obra mista, híbrida, trabalhada por fases e, além do mais, se faz sentido, hoje, desenvolver a investigação nestes domínios.
Quando entrei poara uma Escola de Arte, e apesar das insuficiências que sempre se têm arrastado no nosso país, nesse e noutros domínios, dediquei-me a trabalhar para além dos chamadis conteúdos escolares, rudimentares e de base académica. É certo que a revolução das artes no século XX desmontou longas sedimentações técnico-culturais, os géneros, a estabilidade estrutural e formal dos diferentes procedimentos artísticos. O peso das obras, nas técnicas, na dimensão estética, na sua longevidade, dos meios e dos conteúdos, tudo isso se esboroou, dando passagem aos imperativos da invenção, da novidade pela novidade, em ordem a uma sistemática desconstrução das obras, da multipicidade de caminhos, cada um deles despojando-se até soluções breves, coisas surpreendentes mas quase desabitadas ou mesmo desérticas. Penso que, contra todos os processos massificantes e redutores da cultura em geral, vai sendo tempo de achar novas consolidações.
Se me dedico à resolução de pinturas sobre suportes convencionais, conotando as novas técnicas que aprendi, a investigação que realizei tem-me permitido retomar um sentido identidade, o perfil actual do meu testemunho pluridisciplinar. Nada disso é fácil. Mas é cada vez mais urgente.
As experiências aqui desenvolvidas (para lá da divulgação de obras mais tradicionais embora no plano da modernidade) têm beneficiado das próteses instrumentais circunscritas às máquinas fotográficas, analógicas e digitais, ao computador e os seus mais correntes programas de trabalhar ou transferir fotografias, incluindo a realização da forma plástica em si, simuladora dos meios antigos e no entanto restritos à substituição do condutor/rato, de um espaço modificável assim, à mão, modelando tudo sem mais recursos e modelos de representação realista.
O experimentalismo de investigação que isto propicia, envolve o questionamento da visão e, entre outros, o nosso relacionamento plástico com a realidade.
Repetindo um pouco trabalhos anteriores aqui publicados, esta nova proposta nasceu, não de uma fotografia de outra fotografia ou do visível, mas da montagem de elementos fotográficos, fragmentos pintados e riscados, colagens, entre anteriores desconstruções e construções. A matriz conseguida pode então ser fotografada e trabalhada em vários sentidos que modificam a sua natureza imediata, apontando essa espécie de anverso e reverso da própria percepção, soluções complementares, base de partida para outras aparências e outros conteúdos.
Aqui é mostrada, depois de uma primeira conjugação de materiais e de elementos estruturais, a a condução houve séries de trabalhos que conduziram a uma escolha (primeira imagem) e à sua reversibilidade expressiva (segunda imagem).

domingo, abril 20, 2008

AS NEGRAS E FUNDAS LIXEIRAS DO UNIVERSO


NGC.6334.Paul Nebule, em perda convulsiva


Hoje sonhei com um «buraco negro». É sem dúvida um dos fenómenos mais aterradores do Universo, capaz de engolir pequenos fragmentos de astros errantes, estrelas inteiras, porventura a própria galáxia onde se situa e ganha continuamente a maior e mais absurda das massas, como aconteceria, embora noutra escala, se comprimíssemos toda a literatura da história humana na mais recôndita pasta de um computador. Assim acontece, por mera aproximação imagística, com os milhões de sinais que enviamos para as caixas de reciclagem na Internet. O «buraco negro» do meu sonho aproximava-se mais das recentes fotografias desses fenómenos cósmicos acontecidos há milhares de anos luz do nosso ponto de observação (a Terra), mas, de acordo com o lado surreal da maior parte dos sonhos, visionando absorções aberrantes, ao mesmo tempo caricatas e trágicas. Na verdade, comecei por ver, num absoluto silêncio, a precipitação no «buraco negro» de planetas semelhantes à Terra, sistemas de estrelas, cometas, poeiras cósmicas com áreas incalculáveis, tudo a afunilar-se para um vórtice de ocultação. As imagens, na observação directa, pareciam paradas, dada a distância donde chegavam, mas eu sabia que as mais variadas coisas que povoam o espaço, e são sugadas por estes «orgãos» inexplicáveis, o fazem a velocidades incalculáveis, restos de luz, estrelas cadentes a fingir, matérias de natureza indecifrável, ou astros inteiros, plasmas, humanidades desconhecidas. Os sonhos começam por vezes assim, baseados nos dados da divulgação científica, expelindo depois, do fundo do inconsciente, sopros fantasmáticos que ultrapassam a lógica de muitas iniciações. Por isso, a certa altura, eu começei a reconhecer muitos objectos do nosso próprio parimónio a serem engolidos pelo monstro sem fim, palácios inteiros, barrocos, com gente a saltar das janelas. esbracejando por uma vida condenada, além de móveis, cacos de espelhos reflectindo o que nunca se projectou neles, multidões arrancadas às estradas e torres incendiadas, ramos de flores, jardins completos, com as suas árvores e os meninos ainda a pedalar as suas bicicletas. Os nossos próprios oceanos transformavam-se em rios inteiros, arrasando cidades colossais, Londres ou Nova Iorque, por exemplo, pelas cheias logo canalizadas, no espaço negro, para aquele «lugar» ou fundo de agulha em que tudo se miniaturizava e se perdia: casas e mobiliário, exércitos daqui e de além, os transatlânticos, os bombardeiros, os cemitérios, as catedrais, a Amazónia em chamas, fábricas e fumos, nuvens e glaciares, escriturários com óculos redondos, combóios de brincar e de atravessar continentes, enormes aviões de passageiros, pares de noivos, padres, armários como aquele que é manejado numa das mais aflitivas danças criadas por Pina Bausch, armários e cómodas e retratos dos avós, bíblias, o Vaticano todo, as caricaturas de Maomé, toda a beleza das obras de arte, os objectos que melhor caracterizavam a nossa civilização, desde a sanita de Duchamp à Guernica, de Picasso. Depois do homem dobrado sob o peso do armário, que se apagou como a chama de um fósforo soprado secamente, rolaram pedras, montanhas, Sísifo contrariado na sua condenação, arrastado (com a sua derradeira pedra) para o fundo do abismo, aliás entre livros, incluindo os livros proibidos e todos os index das religiões todas. E ainda consegui perceber a desconstrução de uma casa de madeira, um casal enrolado nos lençóis, as suas lembranças, filhos fotografados, filhos mortos no Vietnam e no Iraque, tudo em queda livre, o campo em volta, as ovelhas e os profetas, Senados em plena actividade, um pastor de nome Lucas, amigo de Caeiro, já sem bordão, nem adereços próprios da sua permanência nas altas pastagens de uma ilha. E a Lua, a própria lua, cinzenta e cravada de crateras, a lua dos mitos românticos, a lua dos poetas mal inspirados, um astro singelo e ordeiro que já vira eclipsar-se pelas leis gravitacionais e agora apagar-se, num estertor silencioso, para todo o sempre.

Quando acordei, sobressaltado, a boca seca, ocorreu-me olhar para as estantes repletas de livros que ocupavam uma parede inteira do quarto. Estava tudo nos seus lugares, excepto uma obra solta, caída no chão, e que logo corri a tomá-la nas mãos: era a conhecida obra de Huxley, «Admirável Mundo Novo».

sábado, abril 19, 2008

UMA ESCOLA MAL-AMADA, CONVENTUAL


Helena, um belo prelúdio de amor e as fantasias desfazendo-se no umbral da porta, acenos distraídos, um cheiro a bolos daqui a pouco. Comia o meu bolo de arroz em passeios sem nexo no corredor que dava passagem para o atelier de modelo vivo. Bebia as minhas próprias légrimas virtuais, humilhado pela mediania do exílio e pela cada vez mais clara pobreza, desactualizada, daquele curso -- Aldemiro como penosa imagem de tudo isso, professor amável e inútil, refém da sua única corda vocal e das bibliotecas e museus que lhe favoreciam certas descobertas, a par do trágico comportamento do século. Tombavam tectos de novo, as abóbadas tinham fissuras inquietantes, os canos vertiam fios de água para dentro das grossas paredes, havia humidade um pouco por toda a parte, vozes longe, na envolvência da realidade e da memória. Bolor. Bolores nos arquivos de belos desenhos arquitectónicos e cópias de ânforas do Mediterrâneo. Caves cheias de «Diários do Governo» e de ratos, num fedor que emergia de outras caves mais fundas, esgotos, labirintos da morte. Como no cinema. Mas sem a fúria e a vertigem de travellings impossíveis. Quem descesse a essas novas cavernas da civilização contemporânea, numa deriva de que jamais sairia, usando em todo o caso lanternas e máscaras, formaria, a curto razo, passos arrastados, brevíssimos, imersos na lama escorregadia ou nos vales mais profundos onde uma água barrenta e esverdeada acabaria por imobilizar o aventureiro, borbulhando em torno do se pescoço.

*
curto excerto do livro a sair em breve, de Rocha de Sousa, «Belas Artes e Segredos Conventuais»

terça-feira, abril 15, 2008

VARANDA


Sorte vã na varanda ao entardecer,
um caminho outrora.
Sorte de sombras
nas veredas do céu
ou nas encostas ainda salpicadas de luz,
portal, limite, lugar de partidas entretanto.
Passos raspam a terra,
camponeses retornando do alto da serra,
dedos na carcaça das roupas velhas, dedilhando,
tudo devagar, lasso, perto do fim.
Sorte de casa com varanda colonial,
agora amurada velha do olhar longe,
as horas e os sinos tocando,
embalada de brisas mornas,
sorte de aragem soprando milhões de insectos,
sorte de respirar num ranger afinal manso
em sons breves e surdos, ainda quentes,
outros sons rasgados, emergentes,
que o chão abriga, encobre, esconde
pela geografia feita de arestas cortantes
ou riscos coincidentes,
sorte de varanda afinal já cercada de ventos.
Sorte de velhos trabalhadores
e o som das enchadas deles.
Sorte dos passos, outrora,
entre dunas e juncos e convites a recolher
antes do assalto à morte
por forma a rever mitos e ritos da terra em volta,
ocupada, colonizada,
e cabeças inesperadamente expostas,
rolando, rolando,
degoladas e saltando no declive,
de olhos abertos, espantados e cegos.
Sorte de lugar escavado, sete palmos de terra
retirados à matriz da Natureza.
Hoje vou enterrar, assim,
o que resta dos meus mortos,
tantos e tão poucos no jardim queimado,
sorte de varanda ao entardecer,
cruzes toscas,
grades secas,
espera derradeira
pavorosamente inútil.
De sorte que,
amanhã,
ninguém ressuscitará.

VANDALIZADA A BANDEIRA DA GLOBALIZAÇÃO

foto/pintura/técnica mista: rocha de sousa

Dizem os tratadistas que uma pintura não vale pelo assunto, nem mesmo pelo tema. Os tratados perderam a sua hora e, porventura, a sua verdade. O título deste post pode dar um nome a esta pintura dita habitualmente abstracta. A semelhança entre as partes e a sua idêntica dinâmica podem sugerir uma «bandeira» após Jasper Johns, esventrada e sem que a sua geometria seja absoluta na identificação de tudo no todo. O quadro é, a despeito da sua natureza plástica e das acções que o transfiguraram, um corpo ainda normalizado. Mas a «vandalização» transformou o seu eventual aspecto regular e fez com que ressurgisse como uma nova organização de partes, individualizadas, ainda tocadas pela memória do todo, conservando semelhanças entre si na diferença que as nomeia caso a caso.

segunda-feira, abril 14, 2008

O VISÍVEL E A REVELAÇÃO DO INVISÍVEL


composição fotográfica, técnica mista, de rocha de sousa


Investiguei o real de um lado e do outro das suas aparências e um certo temor tomou conta de mim. Iniciei tudo por uma fotografia alheia, fui à janela registar a luz, folheei a Internet em busca das meninas desaparecidas, achei algumas delas com uma venda nos olhos, ligaduras nas mãos, mortas e abandonadas num sotão onde nem sequer os vagabundos pernoitam. Tudo era recente, afinal, o prédio cujo interior fotografei em sucessivas geminações, positivas e negativas, ou esse soalho cheio de terra e detritos, a luz de uma janela inventada a partir de outro sítio, a luz matinal e o negro nocturno conforme a magia dos meios ou das eventuais marcas da vida nas louças partidas, tudo a preto e branco, um corpo enfim, sinal de Deus sem dúvida. Um corpo de menina dormindo, morto ainda cedo, a cegueira escondida sob a venda electrónica das redes obscuras, transnacionais, que operam um novo vampirismo, obsceno enquanto reverso da civilização, enquanto as calotes polares entram inevitavelmente em colossal degelo.
Talvez este texto, apesar das suas pistas, não tenha sentido. Mas o que é que tem sentido se a própria beleza o não tem?

quarta-feira, abril 09, 2008

APARÊNCIA, VERDADE E MENTIRA DO OLHAR






O que vemos em múltiplas representações pictóricas só existe enquanto tal. Cada referente perde-se na inexistência ou declina para o lado invisível das coisas. Um sistema de visão muito diferente daquele que possuímos dar-nos-ia outras informações acerca do exterior, recebidas e trabalhadas em bases com outras premissas orgânicas. Lugares paisagísticos como os que são aflorados fotograficamente nas imagens aqui recolhidas e publicadas podem iludir-nos pela introsão de meios auxiliares de expressão, mas essa mentira não é nem maior nem menor do que aquela que as próprias provas nos sugerem: uma fixidez inexistente no real, uma só direcção por cada olhar, o porte lírico da sua escolha e seu tratamento, na inflexível redução do real à memória (porventura recente) da sua presença. A mobilidade visual é por vezes concentrada na suspensão do instante ou dilatada por especiais derivas, ténicas e estéticas, das possíveis análises cada vez mais prontas nos nossos dias.
Mas nenhum conhecimento desse tipo nos rouba a necessidade da viagem poética através das coisas, pela cor que desliza entre as horas pálidas e o declíneo dourado das tardes, pelo gosto (afinal realista) do registo a preto e branco, na consulta das diversas cartografias da cidade em volta, o Tejo a estretar-se, as colinas mais despojadas visitáveis do lado das ruínas e do lado onde as portas palacianas se abriram e revelaram um interior de meia luz, sereno, guardando a suposta perenidade do que terá sido, pela arte, a verdade acreditada de certos momentos na história dos diversos habitats sempre atravessado por gente dissemelhante no traje, fantasmas cujo desejo seria o da sobrevivência para lá de todos os entardeceres. Digo plavras assim, letras falantes, na exacta medida de que o universo destas humildes fotografias repintadas ou reimaginadas são apenas o cenário perdido de uma certa grandeza palaciana. O amarelo voltará à cor da cantaria, o negativo ao positivo, mas nenhuma dessas reiniciações ao limite canónico terá poderes para fazer existir o que não vejo, ruínas presentes e aparentes, os pássaros alcandorados nos ramos, piando de quando em quando, a Primavera substituindo o Inverno ou confundindo-se com ele, coisas velhas, restauros, o rosto do lugar desenhado a esfuminho ou gravado em alto contraste. Por dentro desta breve reflexão, olhando pedras manipuladas por exímios canteiros ou lascadas milhares de anos antes, de que forma poderemos reencontrar o tempo real em que nem sequer havia um processo humano?