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sexta-feira, agosto 29, 2008

O SOPRO DA BRISA E A MORTE DAS ÁRVORES


















Liso, seco, translúcido,
o tecido sobre a janela ainda se deixa atravessar
assim,
entre a luz e a palavra cujo sentido
nomeia a cortina, no balanço breve da brisa
a descer sobre o tapete copiado dos persas
aqui,
no lugar procurado pelo cão,
passos leves encobertos, dispersos,
cão que vem dormir vagos sonhos
no chão feito de flores e fios diversos.

Dorme, cão, respira devagar como as plantas,
sonha que é natural e verdadeira a relva desse tapete
e deixa que o teu pêlo se pareça com a lã do chão,
mal reflectindo a luz amarelada que desce da janela,
ou das cortinas e dos panos laterais,
ou do teu próprio sonho,
dessa lassidão lateral, de cão,
as pernas estendidas e a cabeça de orelhas caídas,
tombada e já sonhando novas saídas.

Nem tu sabes, cão, quantas vezes estive assim,
dormindo pela tarde fora, fingindo o real,
mal acordado depois pela cortina contra a cal,
outros panos laterais, igualmente teatrais,
pesados do sol a queimar e dos anos mais.

Morte anunciada, a deles,
dos troncos seculares, sem canais,
gigantescos e abandonados pelos pardais,
seiva seca, ramos quebrados,
jardim de bairro, recantos abafados,
dois patos, lentos e sós,
e um lago breve onde eles deslizavam, perto de nós.
Olhares divagando, doridos,
enquanto as serras cortavam os troncos feridos.

Troncos mortos antes de feridos.
Pardais mortos antes de perdidos













quarta-feira, agosto 27, 2008

APRENDER AS HORAS COM O RELÓGIO DA AVÓ


Eu era menino, já formava palavras e fazia contas. Foi há muito tempo, sem brinquedos nem prendas soberbas, a casa velha e fria, uma avó santa que me ajudava nas pequenas redacções e me oferecia, quando regressava de Aljezur, caixas com regimentos inteiros de soldadinhos de chumbo. Chamava-se Angélica, a avó, e fazia lindas rendas em crochet, costurava camisas e vestidos singelos de senhora. Cozinhava petiscos de galinha do campo e por vezes mandava ao forno público tabuleiros de folares. Em certos dias, quando não falava e nos dirigia olhares saudosos, era fácil perceber que tipo de sentimentos a povoavam e as saudades adiantadas para depois da morte. Tinha 90 anos e uma saúde de ferro. Escapara à pneumónica e tivera seis filhas.
O meu padrinho era um senhor farmaceutico, que emigrara para França e lá casara com uma senhora de boas famílias, madame Renée, que ainda conheci largos anos depois da guerra. Tinha um flho da minha idade e acabara por ser igualmente minha madrinha.
Quase no fim da guerra, o meu padrinho veio a Portugal para se tratar de uma doença dos pulmões e trouxe-me duas ofertas de sonho: um carro descapotável, pequeno, que andava a corda e no qual podíamos rodar o volante, mudando a direcção das rodas, e ainda um relógio de pulso, à prova de água, com ponteiros luminosos, segundo creio de muito boa marca.
Foi rápida a minha adaptação ao automóvel, em metal e com rodas de borracha, um luxo que nunca vira nas feiras onde só havia tralha de lata, de madeira e arame, coisas pitorescas mas que sucumbiam junto do meu peugot. Os meus dedos finos, de criança, manejavam o volante com facilidade e em bom acompanhamento de marcha.
O relógio, lindíssimo, grande de mais para a minha idade, é que era o pior. Pior porque eu não sabia ver as horas e não queria revelar a ninguém essa falha. Nem sequer me ocorria pedir a um dos amigos do meu pai, na Havaneza, que me ensinasse. Isso não seria estranho, pensava eu, tanto pela minha idade, como pela minha relação com a pessoa, o senhor Costa. Mas tive vergonha, de uma timidez congénita, e fiquei sem poder usar o relógio, embora o visitasse muita vez e lhe tivesse dado corda.
Eu ouvia as pessoas falarem das horas: «Maria? Que horas são?» E a voz dela, lá do fundo: «São dez e trinta e cinco». Depois percebi, quando a avó alimentava de corda o seu velho relógio de parede, acertando logo as horas, que o ponteiro mais pequeno correspondia aos números, aos doze números, o sinal das horas, sendo o maior um instrumento das tais partes ou minutos. Cada vez, neste jogo de espionagem, sabia mais sobre o funcionamento dos relógios e a marcação das horas.

Um dia, estava a minha avó a fazer a cama, perguntei-lhe: «Vó? Que horas são no seu relógio? Não vejo bem daqui.» E ela: «Pois claro, filho, és tão pequeno. São nove e dez». «Ah, está bem». E logo corri para o meu quarto com o intuito de colocar os ponteiros do meu relógio na posição em que vira os dela. Depois fui espreitando o andamento dos relógios. Por volta das cinco da tarde, decidido a aprender a ler as horas, meti-me na casa de banho e com um papel apontei aquele famoso «nove e dez». Percebi depressa que poderia, logo a seguir áquela hora, haver uma outra, no caso das dez. Se o ponteiro pequeno fosse colocado nas dez e o grande na posição das nove e dez, o resultado só podia ser «dez e dez». A partir daí começei a fazer experiências diferentes, rinventando o tempo que os outros apregoavam durante o dia. Eram seis horas quando descobri tudo, com uma alegria interior brutal. Quase a tremer, rodei o meu ponteiro das horas para as seis; e o maior para o número três. Segundo a minha descoberta seriam seis horas e 15. Corri para o corredor, onde a minha avó se sentava e vigiava o seu próprio quarto, mas, para disfarçar, desandei para o quintal. Um pouco depois clamei: «Vó?» E ela: «O que é, menino?» E eu:«Que horas são no seu relógio?» Ela inclinou-se para ver e disse: «São seis e vinte». Estremeci. Esperei. Acrescentei cinco aos 15, porque o seis já eu lobrigara do corredor. Fui, enfim, com ar distraído e sonso olhar a renda da avó e, logo que me foi possível pôr a jeito, olhei para o relógio dela: os velhos e rendados ponteiros estavam na posição dos meus: seis e vinte e quatro.
Nesse dia, até à noite, andei pela rua e pelo café a perguntar as horas. Quando mas diziam, eu pensava. O ponteiro pequeno está nas sete e o grando está nos 30, que eles chamam de meia hora.
E assim, longamente, tudo foi batendo certo. Não esperei por mais idade para colocar o relógio. De manhã coloquei-o no pulso, antes de ir para a Escola, e quando parti eram sete e trinta e cinco: sete horas e trinta e cinco minutos.
Rocha de Sousa

sexta-feira, agosto 15, 2008

PENSADOS DE ONTEM, CONSUMIDOS HOJE


A seguir a este conjunto de imagens, captadas na Feira Medieval de Silves, poderemos ver mais coisas próximas da sedução pela bugiganga. Estamos em Agosto de 2008 e a ideia dos dos organizadores cestes eventos é chamarem as massas que devoram tudo o que seja espectáculo , obstruindo a cidade e chamando os milhares de mirones que devoram tudo o que seja erspectáculo e bens (mesmo menores) consumíveis. Aqui olharemos pulseiras «iguais» e tecidos porventura trabalhados em teares eléctricos, informatizados, nos quais ninguém procura efeitos especiais capazes de sugerirem a espessura dos panos medievais, obtidos em grandes aparelhos horizontais, rudes e produzindo por vezes delicadas tramas de linho. Teares de quatro pentes e correpondente número de pedais, que separavam as teias umas das outras, aos pares.


quinta-feira, agosto 14, 2008

SILVES: FEIRA MEDIEVAL OU A ILUSÃO CÉNICA

OS ESPELHOS MÁGICOS

A Feira Medieval de Silves é uma tradição recente. Uma cenografia mágica, com espelhos milagrosos e milhares de bugigangas que não servem para nada mas que, na sua anarquia de multidão, se espetam nos nossos olhos e tornam-se estranhos sucedâneos dos nossos desejos. A população, sobretudo jovem, veste os trajes da época, por vezes cortejando as almas do clima, circulando em marchas dançantes, acompanhado a célebre dança do ventre, olhando de longe as lutas dos cavaleiros,--combates de lança e a cavalo, combates rancorosos a pé, com grandes espadas cerimoniais. A rainha não sei donde vem ao largo das memórias poéticas e navega brevemente no rio engalanado. Este ano imaginou-se o tempo do domínio árabe e a conquista da cidade por D. Sancho I, apoiado numa armada de Cruzados. Mas tudo se reduz ao mesmo do ano passado, a Idade Média são fantasmas de várias épocas, enquanto nas barracas sem idade e luzes bruxeliantes, instalam-se marroquinos, ciganos, espanhóis e até lordes ingleses, louros, com mulheres e filhos, estilo baile de máscaras, a vender candeias de lata e colares de vidrinhos. É uma boa brincadeira, cercada de grandes espaços toscos, onde se comem leitões e as mais esquisitas iguarias Essas sim, lembram mais de perto a Idade Média. Sem querer ser desmancha prazeres, acho que era mais honesto chamar ao ecento apenas Feira de Outros Tempos. Ficava tudo mais integrado, sem medo dos erros históricos e sem as joalharias de lata e vidro em barracas de lona vanguardista. Em paralelo podia fazer-se história, lembrar acções dos séculos XI, ou XIII, ou mesmo XIV.





terça-feira, agosto 12, 2008

A LENTA SUBMERSÃO DOS HOMENS | A CASA

Livro de 2006. Em preparação de saída
CÍRCULO DOS LEITORES
extracto
A irmã Mariazinha andava de volta, o braço direito a balançar como numa saudação, sugerindo a impossível distribuição de hóstias fora da hora litúrgica que as ligava ao Senhor. Francisca arrastara a Dona Feliciana para uma esquina diante do janelão, tratava das bolachas com geleia, espalhando toda essa anunciada felicidade pela bandeja que depois sabia ajustar nos braços da cadeira de rodas. Feliciana tinha alguns haveres preciosos e a serventia voluntária daquela mulher que ficara marcada pelo gosto beato de assumir estes trabalhos e outros similares, sempre na dependência de alguém, sempre em obediência ao poder instituído. Na sua passagem fiscalizadora, Mariazinha soltava no ar certas palavras de ordem: «despache a senhora, tia Francisca, isto não é serviço para mimos e rezas mururadas». Mariazinha vinha zelando pelo equilíbrado decorrer da refeição, sem alienar as palavras próprias e os gestos indiciando ordem, entre roupas pardas e o aviso dos cheiros. Era necessariamente muito tolerante para com os velhos que usavam roupa da Casa, pijamas de flanela às riscas, largos, grotescos, ou fatos de cotim, tesos das lavagens completadas com ferro e goma. Ajudava no sentido de que tudo decorresse, por outro lado, dentro do horário previsto, inacessível aos velhos sem dentes ou outros males semelhantes, terminando a chamar de longe as auxiliares para que carregassem a louça, pilhas de louça. As auxiliares eram mocinhas de pouca idade, maminhas a despontar, rostos de porcelana e acabamentos a ouro, pernas já grossas e abauladas nas calças de ganga que traziam por baixo da bata curta. Bolinhos, mais bolinhos. «Que idade tens tu, minha querida?» As bocas luzidias da saliva e do chá abriam-se e fechavam-se umas após outras, comendo, falando, expondo a língua por acaso ou num maginário de luxúria. Mateus ia sempre para o mesmo lugar, de perna aberta, a mastigar bolinhos e a escarrar nos guardanapos de papel. Punha a mão no sexo quando as mocinhas passavam e gostava de vê-las rir, como se elas lhe viessem prestar outros serviços, daqui a pouco ou de madrugada, entre aventuras cheias de lascívia. «Deixe as moças em paz, compadre Mateus, olhe que ainda o mandam para o olho da rua». Gargalhadas, murmúrios de desaprovação. E ele: «Mas que faço eu às miúdas, ó merda? Olho para elas com um olhar sem malícia, saudoso dos borrachos de outras épocas, nem mais nem menos». O senhor José tinha recebido a visita da irmã Mariazinha porque deixara cair uma chávena e esta partira-se. Ela dedicou-lhe palavras atordoantes, como setas nos alvos de cortiça pintada em círculos, o dourado ao centro. «Ah sim? Está tudo apertado ou os senhores é que se apertam como pardais no cimo das árvores?» José era um velhote de estatura meã, torrado pelo sol dos campos, que a Junta de Freguesia da sua aldeia cobrira de alguns favores em troca das culturas dele, da casa em ruínas e da pensão de miséria que o Marcelo lhe inventara. «Eu pago a chávena, foi sem querer, as minhas mãos ficaram trémulas logo que deixei de cavar».
Excerto do capítulo 13, livro A Casa, de Rocha de Sousa

terça-feira, julho 29, 2008

VELHAS PORTAS, A BELEZA DO APODRECER


Quando a indústria de transformação da cortiça entrou em colapso no seu maior centro, Silves, já muitas portas de armazéns e de acesso a depósitos da matéria prima, tinham, junto ao chão, este aspecto arruinado, com buracos que facilitavam a entrada das águas das chuvas e os ventos de pó que atacavam a cidade em certas alturas do ano. Estas imagens são actuais (2008), são restos de arranjos inutilizados, fósseis, fibras secas, ferros de aperto afinal inúteis. Se nos alhearmos do chão, que nestes enquadramentos não se vê, o que nos é oferecido pode merecer o nome de paisagens, algo que soçobrou e adquriu o eterno estatuto de ruína. Há formas de morrer assim, como tantas vezes a arqueologia nos dá a ver, conciliando aparência e conservação.



Pela tardinha, num dia nada próprio do verão, divaguei por estes sítios e mais uma vez convencido da beleza difícil destas imagens, coisas, memórias, rostos velhos escondendo buracos negros ou vazios de armazéns outrora floridos, cheirando a frutos secos, amêndoa, coberturas retorcidas do milho. Por vezes quase me sentava no chão, entre os carros estacionados e a porta a enquadrar no ponto escolhido.
A certa altura, uma jovem fresca e bem aprimada de corpo, parou e perguntou-me:
«Mas que raio, o senhor acha isso bonito?
Eu levantei-me, sem ter perdido o disparo, e perguntei, por minha conta, à rapariga:
«Gosta de crianças, acha-as em geral bonitas?»
«Sim, claro que sim», respondeu ela.
«Conhece gente idosa, velhos, alguns como aqueles que se sentam debaixo das alfarrobeiras? Haverá, entre essa gente, o exemplo de uma beleza na velhice?»
«Sim, claro que sim» voltou ela a responder.
E eu:
«Pois saiba a menina que ando por aqui a fotografar estes belos velhos, velhos e silenciosos»
E ela:
«Ah, que giro. Giro mesmo. Visto assim, tem toda a razão».
Até esta porta ardida ganha, em beleza e despojamento,
os plásticos queimados do italiano Burri

fotografias de Rocha de Sousa

domingo, julho 27, 2008

APETRECHOS DE FÉRIAS: RESPIRAR E LAVAR

Em pleno século XXI, retornar a meados do século XX, num lugar diferente do habitual, para exercitar os neurónios do repouso, pode acontecer usarmos este apetrecho, com ele regando as flores e tomando, pelas seis da tarde, um copioso banho, os pés nus sobre as lajes do quintal.

Estas plantas, que rodeiam o quintal, têm uma duração de vida maior do que a minha, vão sobrar para os outros, e espero que os outros, mesmo retraídos pela escassa cultura da globalização, ainda tenham à sua disposição aquela mangueira, ou similar, e sobretudo que ainda exista água para usos domésticos indiscriminados.

Com máquina de lavar roupa ou não, conservo sempre este cabo, já lasso, onde gosto de ver roupa lavada, íntima, descomprimida, a dormir na espera do seu modo de vida sobre a pele humana. Parece que estou a ver imagens dos anos 40 e do tempo da guerra, em que se fazia sabão em casa, numas lindas caixas de madeira de pinho. Toda a gente devia aprender isso na Escola. Toda a gente devia treinar a lavar roupa nas pedras que marginalizam o rio, em pleno açude.

quinta-feira, julho 17, 2008

AS COISAS QUE NOS PASSAM PELA CABEÇA


As coisas que nos passam pela cabeça
quando um aviso de bala
crava no céu o primeiro estampido
e é depressa alarme de morte.
Logo o capim se quebra na queda
e todos em volta subitamente gritam,
todos e ninguém,
ali e além,
a vomitar mil chamamentos,
em brados imensos, de ferro ao acaso,
tudo no ar, entre ventos, por alguém,
tudo por nós, em suma,
contra o inferno inteiro e raso.
*
Cheira a urina no cheiro do capim quebrado
assombrando o resto de nós.
Pétalas no chão já esmagadas
e talvez, em murmúrio, ainda perfumadas,
sangradas,
morrendo com o peso do nosso medo
que nos queima os dedos
ao acaso dos outros dedos cravados no gatilho,
até a arma, ela própria, se calar.
*
As coisas que nos passam pela cabeça
quando o ar se torna límpido, de súbito calado,
devagar a sombra das árvores
no absurdo silêncio da guerra,
e os homens além, ou ali, riscados pela terra,
impossivelmente a chorar sobre o capim,
dizendo num sopro, baixinho, sim, sim,
Eu sei que sim, mãe.
*
Rocha de Sousa
memórias de Angola

quarta-feira, julho 09, 2008

OS ODORES IRREPARÁVEIS DA VELHA CIDADE

O problema não se resume ao facto destas imagens revelarem aspectos de duas portas, situadas, de frente uma para a outra, na mesma rua. O problema decorre do cheiro pestilento que se sente junto delas, quer na proximidade da velha porta de madeira, quer diante da inutilizada porta de ferro, outrora forrada, na parte superior, por uma grelha envidraçada.
A porta de ferro correspondia a um daqueles lugares que se chamavam justamente «lugares» e nos quais, além de frutas e vegetais frescos, se vediam também mercearias, desde o petróleo para o fogão até ao jurássico «sabão macaco». O cheiro que vinha do fundo, da contraloja, não era muito próprio de uma loja com este perfil: porque se tratava de um «cheiro a canos», como explicavam as vizinhas, apesar do senhor António, dono do «Lugar», garantir a toda a gente que se estafava a limpar a casa de banho e a grelha que havia na cerâmica do pátio, zona a céu aberto onde se acumulavam velhos móveis, cadeiras partidas, alguidares, a casota do gato. E lixo para evacuar à noite.
A porta de madeira, muito velha, talvez mais velha do que a sua vizinha da frente, em ferro pintado, corresponde a um daquelas prédios tocados de ornatos nas cantarias, janelas simétricas, ao alto, paredes revestidas de azulejos da boa época desse gosto. Havia duas residências, simétricas relativamente à porta, e ambas, naturalmente, situadas no rés do chão. A residêndia da esquerda ficara devoluta dez anos atrás, pela morte da sua locatária, e nunca mais foi reabilitada. Do lado direito, havia também uma única locatária, com mais de oitenta anos. Embora desta outra porta, no lado oposto da rua, também cheirasse a canos, sobretudo quando era aberta, a Dona Clementina garantia, a quem a interpelasse, que podiam entrar na sua casa, estava toda lavada e não pairava por lá nenhum mau cheiro.
Durante muitos anos, como á habitual entre nós, este problema ganhou a importância de catástrofe urbana, meteu delegados de saúde, polícia, tribunal, e nada se provou. O «Lugar» foi definhando e o Senhor António faliu. Desactivada a casa, sem produtos nem pessoas, continuava a contaminar a rua nas suas redondezas, pelo que foi entaipada com tijolos. Obviamente, morta a a Dona Ricardina, os netos entregaram as chaves e tudo ficou encerrado durante anos e anos. Por estranho que pareça, quando se passa ali, o cheiro é determinante na mesma e obriga-nos a ensaiar círculos de afastamento.
Hoje, diga-se o que se disser, na maior parte de prédios como estes, em várias zonas da cidade de Lisboa, o cheiro pestilento já ultrapassa esta ou aquela porta, mas na maior parte delas, imensamente, eternamente, sem a menor das compensações

sexta-feira, julho 04, 2008

VOLTAR AO REFÚGIO DÁ-NOS DE NOVO A PAZ

Somos feitos de memórias e sem elas, sem a sua grandeza e a sua qualidade, não seríamos capazes de projectar verdadeiramente o futuro. No sonho ou na convicção das somas consistentes. Os nossos hábitos, no fundo, consolidam-se da mesma forma, ordenando-se pela colagem a coisas que nos lembram outras coisas,mudanças, estabilidades, rotinas, a dedicação a lugares remotos, doce aprisionamento, dia a dia nos sítios onde vivemos e onde acumulamos objectos, adereços, livros, roupas, fotografias, aí sim, entre retiros exíguos servindo para pensarmos ou rever as imagens do mundo, interioridades estranhas, conlitos, possíveis lutas de reunificação das energias. O presente é fugaz, em todo o caso, ponte que nos afasta dos factos a montante do nosso percurso, sobre o rio da existência, aproximando-mos assim de reconstruções possíveis, do real e do sonho a jusante.

GRANDES AMPUTAÇÕES DA GUERRA INÚTIL

ferida irreparável



O feiticeiro agarra uma criança pelas pernas, gira o corpo no ar, em movimendo de hélice, e larga de súbito o pequeno ser que se esborracha na parede da casa destelhada. As galinhas fogem, espavoridas, deixam penas por aqui e por ali, e os gurreiros saltam e gritam e arrebatam mais crianças das mães encurraladas. Há cabeças cortadas, rolando fofo no capim, e outros meninos a berrar como porcos na matança até quebrarem os crânios contra as paredes onde os esguichos de sangue começam a escorrer na vertical, em fios mais ou menos finos. As mães que podem fugir, depois de perdidos os filhos, ficam ajoelhadas, numa estridência de gritos, e os homens vendem a sua pele o mais caro possível. Alguns conseguem furar a barriga dos guerreiros, soltar- lhes as tripas, mas são logo dobrados para o chão à paulada e castrados com catanas. Uns negros muito negros rastejam na periferia das cenas, riem (satânicos) e juntam troncos que espetam no chão. E os guerreiros pintados, emplumados, gritam gritos de guerra, agitam no ar as cabeças degoladas, os sexos amputados, vindo ornamentar com esses despojos aquela espécie de paliçada erguida pelos seus companheiros. Estes arrumam tudo um pouco melhor, atafulhando as bocas das cabeças com os pénis grandes e moles. Os tiros estalam lá mais adiante, fora das casas destruídas, são festa e foguetes a fingir, a ordem do caos, um calor abafado em volta. Sobram crianças mal mortas e há fetos secando fora dos úteros esfaqueados, grandes poças de sangue, panos, tufos de capim e clareiras de areia cor de laranja, pássaros negros rodando muito alto, no céu cor de chumbo.
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Pequeno excerto o livro «Angola 61, crónica de guerra» obra publicado em 1999, pela editora Contexto, «uma crónica de guerra ou a visiblidade da última deriva». Livro que descreve toda uma realidade acontecida de facto no teatro de operações na zona dos Dembos, embora explorando a plasticidade do cenário, literariamente, e fornecendo coerência «fílmica» aos grandes movimentos, paisagem e personagens.

sexta-feira, junho 20, 2008

A HORA SACRIFICIAL


Esta imagem será substituída por outra a obter em melhores condições de luz e com meios mais apropriados. A fotografia foi realizada como ensaio na fase terminal da obra, uma composição (a acrílica) que parece envolver o avanço de alguém, mulher certamente, para um altar sacrificial, o filho oferecido por ordem divina à morte capaz de pacificar a palpitação das tribos. Este terrível mito bíblico foi superado há mais de 2000 anos, mas não deixa de continuar a executar-se de outra forma, meninos da Palestina (ou de outras regiões do mundo) sob o acaso das balas, crianças negras entregues a um destino de peste e fome pela perfídia dos homens. A pintura atrai aqui eventuais leituras desse tipo. Mas pode tratar-se da aproximação à pia baptismal, compromisso antecipado também, ou dar-se como pintura apenas.

quinta-feira, junho 05, 2008

LIXOS: MATERIAL PLÁSTICO E DE REFLEXÃO


A imagem aqui publicada foi recortada de um contexto urbano, Nápoles, onde vários problemas de ordem política e social criaram uma situação aterradora: o enchimento de grandes áreas da cidade com verdadeiras montanhas de lixo. O enquadramento abstractiza a realidade visual e chega a produzir um efeito muito próximo daquele que experimentamos perante documentos de mortandades derivadas de conflitos humanos, genocídios, remoção de violentas catástrofes. Curiosamente (e assim se apura a sensibilidade criadora) a imagem seguinte encontra-se, por algumas analogias, com o sentido geral da primeira. Em ambos os casos há uma acumulação de matérias, de corpos semelhantes e simdaultaneamente diferentes. Na segunda imagem acontece o registo de uma obra de arte ligada à tendência pop, à arte urbana, ao expressionismo. Grandes quantidades de embalagens perdidas, de latas que foram amolgadas e comprimidas lado a lado, por camadas, podem favorecer o aparecimento de mensagens polissémicas, todas envolvendo a ideia de sociedade consumista, avassaladora, de perdas e excessos, de falta de organização plural do nosso comportamento, sua funcionalidade equilibrada, manejo e destruição produtiva em ordem ao equilíbrio sistémico dos modos de vida e da sua qualidade.

Este é um ponto de viragem, transformação do lixo comprimido e feito objecto de arte. As latas coloridas e apertadas em camadas, geram um espectáculo matérico, emergência artística, a vibração poética que evoca a própria civilização tecnológica e lhe extrai um valor expressionista pela dramaticidade caótica vinda do tratamento digital a vários níveis (cor, forma, textura aparente) em termos de descaracterização abstractizante do referente.

quarta-feira, junho 04, 2008

BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS




JÁ FOI LANÇADO O LIVRO CUJO TÍTULO NOMEIA ESTE POST

E eram as pedras maiores, quase soltas das outras em redor, a responder ao tumulto das nossas vozes, provocandoo ressonâncias nos espaços descarnados, nos pátios e vastas escadarias, silhuetas sobrevivendo ao alto, de algum modo pilares de uma complexa arquitectura conventual que atravessara o horror de 1755 - Lisboa caída a seus pés, sob a imagem de inevitáveis fissuras nos espessos muros de várias frentes que o vento norte fustigava, as chuvas também, mais tarde a força renascida do sol e da luz branca cujo calor vinha de novo distender tudo em volta. Paulino esgueirava-se cedo, durante o Inverno, nessas noites começadas pouco depois das primeiras aulas da tarde. Cheirava a pano molhado, borracha húmida, e mesmo assim o pujante Firmino atravessava os lugares com o falto macaco aberto, os tornozelos nus, chinelos sem origem, cambados, chapinhando nos pequenos lagos formados entre as lajes ou na concavidae delas. Manuel fumava a um canto, à espera. Acácio aprofundava o seu mutismo, um cigarro suspenso dos lábios, os óculos redondos brilhando no escurecimento das horas, entre sombras que passavam a camiho do largo. Leocádia? FElismina avançava e detinha-se na ponta dos corredores, escutando alguma resposta através dos murmúrios e dos risos. A Rosa voltava para casa sem ligar a esses pormenores, tinha daqui a pouco de apresentar o gisado ao marido esformeado, além de tratar das suas pr´prias mazelas, pernas grossas bordadas de varizes, pêlos descendo pelo exterior das coxas numa hibridez sensual, a cama a ranger por cada banho de gel que ela aplicava ao enorme corpo ainda tocado de aparências carnais semelhantes às pinturas dos mestres senis. Cavaletes, meninas afogueadas, as batas sujas de tinta. Rosa puxava as saias, espalmava as mãos sobre as pernas, pensava no marido e naquela fome que ele lhe transmitia todos os dias. «Bom dia», aflorava a corda vocal do Aldemiro de cada vez que chegava ao nicho da porta da sala, fechando, atrapalhado, um enorme chapéu de chuva de doze varetas. Abertos, uns sobre s outros, esses objectos era postos a secar no vão anterior às retretes, pareciam bichos sombrios, de pele esticada e húmida. Alguém acendia logo o gás. Alguém puxava as cortinas. Passos sobrepostos, a mudez do frio, os primeiros cavaletes arrastados de forma ensurdecedora. Manuela? Helena? A rua do Carmo estava atolada de gente e lama que parecia brutar, eternizada, de dois postos de obras municipais. Os professores vinham de táxi, a maior parte deles, os novos candidatos pela Direcção Geral ao abrigo da reforma recente, já velha ao nascer, guardada no cofre do Paulino, sob abóbadas seculares e cheias de bolores. Leocádia?

segunda-feira, maio 26, 2008

ILUSTRAÇÃO para SEGREDOS CONVENTUAIS



Ali se encontravam, em metáfora, os corpos trucidados nas guerras de Alexandre, os membros e os torsos de primitivos cristãos massacrados e comidos pelos leões, no Coliseu de Roma, pedaços, enfim, daquela Grécia grosseiramente imitada que o velho Macedo Vieira, com benigna invenção e ciência persuasiva, nos dava a ver, numa grandeza bem longe das falas abrangentes e pitorescas de Hermano Saraiva na televisão. Naqueles fundos corredores e permissivas prateleiras, sombras envolvendo os gessos, noites entre as sombras, pombos de manhã, dali poderia retirar-se um amanhecer em Atenas. Abrir os moldes como cascas de dinossauros e revisitar concavidades de imitativas convexidades, esse era o apelo de qualquer visitante de tão complexos meios de ressuscitar os heróis e os santos, um lugar fragmentado pela grande geometria em pedra, em abóbada, lugar, também e de certa maneira, onde repousava mais de um milhar de virtuais estátuas da antiguidade clássica, muitas delas servidas no jeito de prato insubstituível nas aulas de iniciação à pintura, anos atrás. Em geral, as «pedras» amarradas por fitas flexíveis ou meras cordas, arames aqui e além, sobravam para uma inesperaa abstracção, assim entaladas nas reentrâncias sombrias, por cima das prateleiras, cemitério inenarrável de formas que se afirmavam humanas, corpos utilados, restos marcados por infinitos códigos de martírio póstumo

quinta-feira, maio 08, 2008

HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE SE JULGA
LEIA ESTE LIVRO
E CONHEÇA O MUNDO
ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO



estas histórias derivam de viagens que as editoras desconhecem, preferindo receitas e nomes de uma falsa segurança

segunda-feira, maio 05, 2008

AO VER ALGUNS MÁRTIRES DA TETCHENIA


Não estive lá. Não quero estar lá. Vi muitas e muitas fotografias da resistência dos habitantes da Tetchenia perante a guerra que os russos ali sustentam para garantir a sua férrea tutela sobre este país cuja identidade não cede aos bombardeamentos sistemáticos de artilharia pesada e ao sopro mortal que desce das nuvens pardas, estilhaçando bairros inteiros. Entre os resistentes, diante da sua cidade capital arrasada por completo, há sempre um remédio qualquer: tratarem dos feridos, organizarem a competência cívica, enterrarem os mortos e, na tarde de súbito silenciosa, tomarem um pouco de chá, trocando plavras, a sondar os seus corações. Numa revista americana, de belíssimo papel e luxuosa organização gráfica, deparei um dia com a imagem terrivelmente nítida de dois guerrilheiros deitados junto de uma esquina em pedra. Um dos guerrilheiros, a quem fora arrancada a perna direita, justamente abaixo do joelho, estava ali, assim, ajudando o seu companheiro. Ele sabia que o perigo não se encontrava atrás de si, mas ouviu os passos dos fotógrafos e olhou de soslaio, a cabeça voltada com certo esforço, dois olhos naturais e brilhantes como se pertencessem a outra pessoa, não a um recente mutilado, elementarmente assistido pelas suas próprias mãos. Nunca mais esqueci aqueles olhos e tudo o que pensei depois foi já dentro de mim, eu mesmo assumindo um lugar como protagonista da cena, do lado dos jornalistas, solidariamente na espera do verdadeiro termo daquele combate e daqueles homens. Pareciam cumprimentar-nos em jeito maquinal: «Ah, são vocês?»

quinta-feira, abril 24, 2008

BOMBA COMO UM SIMPLES SACO DE PRAIA


Num retorno à pintura sobre tela, com tintas acrílicas e os instrumentos convencionais, proponho aqui uma composição semi-abstracta, de decifração não realista, à qual adicionei o título «Bomba como um simples Saco de Praia», o que pode ser uma ironia sobre os perigos acuais, disfarçados pelas cores do consumismo e frequentemente accionados de forma brutal. A liberdade de viajar pelas formas geminadas é, contudo, o sinal de abertura de uma obra deste tipo. Num outro sentido, e de acordo com o que tem sido mostrado neste blog, a pintura aqui reproduzida mostra-se claramente aparentada às composições por completo realizadas em computador: tipo de configuração dada pelos elementos, construção das partes e sentido gráfico, as linhas implícitas complementando a imagem.

quarta-feira, abril 23, 2008

CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO VISÍVEL

Primeira fase organizativa com os materiais em bruto,
embora já nornalizados em colagem no campo.
A fase seguinte, assinalada no texto comleta-se como
se pode observar aqui, por opções estéticas do autor




Algumas pessoas têm-me procurado no sentido de partilhar experiências relativamente ao percurso entre fotografia e pintura, processo analógico e processo digital, o que é só pintura e o como se faz desta uma obra mista, híbrida, trabalhada por fases e, além do mais, se faz sentido, hoje, desenvolver a investigação nestes domínios.
Quando entrei poara uma Escola de Arte, e apesar das insuficiências que sempre se têm arrastado no nosso país, nesse e noutros domínios, dediquei-me a trabalhar para além dos chamadis conteúdos escolares, rudimentares e de base académica. É certo que a revolução das artes no século XX desmontou longas sedimentações técnico-culturais, os géneros, a estabilidade estrutural e formal dos diferentes procedimentos artísticos. O peso das obras, nas técnicas, na dimensão estética, na sua longevidade, dos meios e dos conteúdos, tudo isso se esboroou, dando passagem aos imperativos da invenção, da novidade pela novidade, em ordem a uma sistemática desconstrução das obras, da multipicidade de caminhos, cada um deles despojando-se até soluções breves, coisas surpreendentes mas quase desabitadas ou mesmo desérticas. Penso que, contra todos os processos massificantes e redutores da cultura em geral, vai sendo tempo de achar novas consolidações.
Se me dedico à resolução de pinturas sobre suportes convencionais, conotando as novas técnicas que aprendi, a investigação que realizei tem-me permitido retomar um sentido identidade, o perfil actual do meu testemunho pluridisciplinar. Nada disso é fácil. Mas é cada vez mais urgente.
As experiências aqui desenvolvidas (para lá da divulgação de obras mais tradicionais embora no plano da modernidade) têm beneficiado das próteses instrumentais circunscritas às máquinas fotográficas, analógicas e digitais, ao computador e os seus mais correntes programas de trabalhar ou transferir fotografias, incluindo a realização da forma plástica em si, simuladora dos meios antigos e no entanto restritos à substituição do condutor/rato, de um espaço modificável assim, à mão, modelando tudo sem mais recursos e modelos de representação realista.
O experimentalismo de investigação que isto propicia, envolve o questionamento da visão e, entre outros, o nosso relacionamento plástico com a realidade.
Repetindo um pouco trabalhos anteriores aqui publicados, esta nova proposta nasceu, não de uma fotografia de outra fotografia ou do visível, mas da montagem de elementos fotográficos, fragmentos pintados e riscados, colagens, entre anteriores desconstruções e construções. A matriz conseguida pode então ser fotografada e trabalhada em vários sentidos que modificam a sua natureza imediata, apontando essa espécie de anverso e reverso da própria percepção, soluções complementares, base de partida para outras aparências e outros conteúdos.
Aqui é mostrada, depois de uma primeira conjugação de materiais e de elementos estruturais, a a condução houve séries de trabalhos que conduziram a uma escolha (primeira imagem) e à sua reversibilidade expressiva (segunda imagem).