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sexta-feira, junho 17, 2011
ARTE PODE DIZER A VERDADE PELO EMBUSTE
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quinta-feira, junho 02, 2011
IMAGENS DE GENOCÍDIOS CONTEMPORÂNEOS
entre os conflitos que ainda hoje estão a começar um pouco por todo o mundo, evocam-se genocídios que marcaram o século XX e que nos despertam para o futuro, tendo em vista o que há bem pouco tempo ocorreu em vártios pontos do globo, a fragmentação do que foi a juguslávia e o horror em certos países africanos
como aconteceu no Burundi, 800.000 mortos que não tiraram o sono aos europeus, nem perto da linha que tanto atrai a NATO para a Líbia.
Ontem, ao entardecer, entre coisas indevidas por todo o chão, havia gente no passeio, entardecendo, murmúrios de gente que nem movia os lábios, gente curvada, pisando as folhas, passos lentos. Ao entardecer, ontem, eram velhos aliviados do peso da vida sem rumor nem temor por isso. Eles ladeavam, em deriva, a ideia da morte e os lugares dos mortos para sempre. Lugar negro. Passo a passo. Perdidas as sandálias no chão invisível, e nem sequer se dava por um fio de matéria pisada, passo a passo, pés descalços entretanto, as pernas nuas sob o manto das horas acabadas. Horas acadas assim, até a brisa se confundir com o bafo das meias palavras no curto pisar das folhas, passos quase longe, um riso curto de si mesmo. Chegaram então as luzes. Ou surgiram miniaturais no horizonte crispado. Era um cerco de luzes parando os passos, retorno torneando os que estavam ficando, temor no urmor vindo dos lados todos. Os que vinham em silhueta, vinham sem olhos, todos cegos entra a venda contra as pálpebras e a mordaça nas bocas, porque as falas também dão a ver, ver sobretudo por cima daquele rumor abrangente, a crescer, vasto círculo aumentando o seu espaço para negar a natureza do seu centro onde se viam, finalmente as populações emigradas. desatentas, temendo coisas estranhas e muito mais inquietantes do que o relento das noites. Ouviam-se ordens rápidas e ríuspidas, de longe, de perto, em volta, luzes afinal cegando quem estava livre de ver. De súbito, uma imensa e rangente trovoada rompeu o espaço, rente às cabeças apertas pelas mãos. Era um som a rolar atrás de uma chuva de estilhaços ou mais de cem mil tiros soltando-se em rajadas sem parar, rente, laminatmente, como a grande foice do Apocalipse. E a luz começou então a tremer, com tanto fogo e tantas sombras, gente de súbito irreconhecível, parecia tropeçar, desistir da corrida, ferida, e já ali perto montes e montes de mortos, atirados sem ordem no acaso dos casos, sobre moribundos que procuravam renascer, clamado, impróprios, pelas mães que já ninguém sabia quem eram. Que foi isto? Quem nos quer tanto mal? Arcanjos de asas pretas, diziam duas velhas já de luto.
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Rocha de Sousa
sexta-feira, maio 13, 2011
O MANDANTE E O MATADOR, AO ANOITECER
Engoli uma pedra esta manhã.
Pão de pedra, passos na hora.
Achei coisa de engolir depressa,
os passos partindo, nocturnos.
Mas depressa a coisa ficou presa na garganta,
nem pão nem pedra.
Falta-me o ar,
bebo água que logo retorna, inútil.
Meto os dedos na boca,
empurro o pão para o estômago,
pão ou talvez pedra.
É pedra, certamente,
mas incha como pão
e eu julgo estar prestes a vomitar,
entre pausas.
Deixo-me cair de joelhos,
apoiando o queixo no cano da arma engatilhada.
Que vem por aí, que respiração é esta?
A arma engatilhada,
os meus pés já enviesados
arrastados pelo chão.
De joelhos, sobre calhaus redondos e pretos,
a lua acesa por cima
da minha cabeça tombada.
Dura, e já imensa, a pedra
tomando conta das minhas entranhas.
É urgente, raios, partir a pedra seja como for
e vomita-la.
Agoniado como nunca,
curvo a espinha
forçando o vómito
num urro interminável
como se me rasgasse em sangue
e a pedra solta-se, de súbito, ao contrário:
na avidez de me salvar accionara o gatilho,
e centenas de mais pedras entraram-me pela boca aberta
num estoiro imenso:
o tiro a que eu estava mandado
cumpria-se assim, invertido,
num brutal desmando.
terça-feira, abril 26, 2011
UM MILAGRE INDUZIDO COM SAPOS E RATOS
Um sapo fora arrastado até ao tampo da mesa.
Deixou-se esticar e crucificar na madeira seca
e adormecer com o perfume do clorofórmio.
Cortaram-lhe o peito, fazem ranger a matriz do osso,
e várias pinças puxaram, em simetria, o manto da pele,
afastando para cada lado as duas abas da caixa torácica,
e daí a pouco jé se via o pequeno coração a bater,
grande pulga arroxeada, aos saltos, viva,
e ninguém sabia dizer donde vinha aquela energia,
quem segurava o ritmo e reforçava magias
com o fim de o observar vivo.
O olho do saber,violando a sua privacidade,
recebera apenas orientações para observar o pulsar da vida.
Quando o coração parou
e ninguém mais o conseguiu reanimar,
alguém disse, sem a menor compaixão:
podemos estudar na mesma,
mal se imagina quantos ratos cobaia falecem por dia,
carregados de tumores implantados,
intoxicados por vacinas em análise,
as fémeas esventradas aré ao seu pequeno útero,
sós como nunca,
e assim sempre usadas, para, entre outras veleidades,
permitirem ulteriores trabalhos, não para confirmar a morte,
mas para que deles se refaça, à escala dos homens,
o milagre da ressurreição.
domingo, abril 10, 2011
VIAGENS E GENTE NUM INQUIETO ACONTECER
Todos me foram dizendo, desde a adolescência, que os meus talentos apontavam para a pintura, embora eu soubesse que essa indiciação se confundia concretamente com outras viagens, outras famílias, um gostoso artesanato de escritas e leituras na base de Júlio Verne e Flamarion. Marte tinha canais, sim senhor, a Lua vivera um tempo de mares e continentes. Mal sabia eu que os telescópios desse tempo estavam apetrechados com grossas lentes para congénitas miopias. Não reparem no alinhavo destas notas. E devo dizer-vos que a fala deste texto, ao iniciá-lo, voa por uma sugestão mansa — Vá devagar, mãe, como naqueles dias em que tudo parece lento, a chuva, até os sonhos, os seus passos. Ora esta tentativa de começar um filme doméstico, porventura tocado de impressivas memórias, acontece cerca de trinta anos depois dos longínquos dias dedicados à praia, solidões arenosas e gente ainda rara. O tempo, nesta obra, ocorre a quem escreve em termos de descontinuidade, porque, em idades adiantadas, só se pode calcular maturidades dedilhando comovidamente os laços antigos, sob a memória das equações ainda erradas mas já fascinantes. Por isso é que a mãe Maria morre numa data absurda, já a guerra se aproximava do fim e já a pastosa aprendizagem do desenho com paus de carvão, diante de cabeças em gesso, me segredava que esse deixara de ser o caminho do futuro. E um dia, perdido num comboio quase vazio, em que o tempo parecia lento e dissipado, a melancolia que Angola me cravara no peito atravessou comigo todo o Alentejo meio deserto, apesar de sinalizado, de longe em longe, por casinhas espalmadas no alto das colinas, donde os cães desatavam a ladrar contra a grande «anomalia» da máquina a vapor, fumegante, porventura ameaçadora, rolando majestática.
Uma simples frase retirada do corpo deste livro, pode gerar sentimentos, gritos para nada, sentimentos que atravessavam a história e pareciam decidir por ordem os devaneios festivos ou vidas e mortes ao acaso: Maria, descida à terra, abraçando os ossos que diziam ter sido retirados da urna já pôdre onde meu pai fora colocado e na qual se desfizera como no poema em que ele dizia ter o corpo preso à terra e via a sua alma voando de mundo em mundo. Como se vê, este livro é sobre um acontecer inquieto, arrancado à terra, à vida e à morte da família, onde se convoca pela arte os desentendidos destinos humanos, entre grandezas efémeras e gente mastigando desordenadamente, no limite do absurdo, a sua difícil condição humana.
Incapaz de perceber e viver a cidade grande, a verdade é que nas Belas Artes, ao contrário do que diziam vozes iníquas, nada nem ninguém me furou os olhos.
quinta-feira, março 17, 2011
POR UM LIVRO QUE SE ENCOBRE A SI MESMO
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
QUANDO DEUS USA A EUTANÁSIA EM SOLIDÃO
Um jornalista sádico legendou a fotografia, na base de uma citação institucional, esta frase: o ideal é que os idosos se mantenham no seu ambiente, desde que acompanhados por estruturas de apoio. É como falar na defesa do inquietante património destes fantasmas. Alguns responsáveis desta área da organização social falam de idosos que se encontram autónomos e a viver nas suas casas, tristes e sós. Perto de 40% dos idosos sobrevivem nessa condição um resto de vida, em casa, com mais de 65 anos de idade e auito-sequestrados (ou doentes) durante mais de oito horas por dia, admitindo, em certos momentos e de viva voz, que se sentem todo o tempo tristes e deprimidos.
Entre as notícias sobre este assunto, destam-se seis casos de descobertas de pessoas mortas em casa, sozinhas, algumas («desaparecidas») há muito tempo. Augusta Martins, 95 anos, Rinchoa, Sintra, foi encontrada morta após 9 anos. Em Matosinhos, um homem morto assim, só foi encontrado após instantes protestos dos vizinhos. Cantanhede: um reformado do Exército, 71 anos, esteve morto, durante três meses, em casa. Amadora: Ex.PSP, Ernesto Henriques. esteve morto em casa dez dias. Ourém: Corpo de homem de 67 anos encontrado em Ourém. O laconismo da notícia começa a ser significativo. Faro: Um homem de 65 anos morreu sozinho na sua habitação.
segunda-feira, janeiro 31, 2011
A PARTILHAR COM NOZOLINO UM VER DORIDO
«Apanhei um período de grande turbulência e mal-estar com a minha vida em Lisboa. Como é que se pode ver o "Easy Rider" no Império e vir para a rua e ver a Fonte Luminosa? Eu queria aquela estrada. Sair.» Paulo Nozolino confessa que começou a beber e decidiu estudar pintura, fazendo um curso rápido nas Belas Artes. Mas é então que escolhe a fotografia. Uma namorada fotografada com a primeira máquina. Um corte na relação dela. Acabou por perdê-la na Almirante Reis. Nunca mais a viu. Não estava tudo perdido. «Não se perder tudo, pode guardar-se alguma coisa do que se viveu. Não estava tudo perdido.»
fotografia de Rocha de Sousa
fotografia de Rocha de SousaControvérsia pode gerar linhas divergentes, paralelas, cruzadas, sobrepostas. Nesse caso, uma delas é invisível, deixa de existir. Mas a linha recta, precisa, ao longo do papel, pode ser uma figura contemplável ou a fortuita aparência de algo que esconde o próprio tempo. A menos que nos movamos para a esquerda e para a direita, encontrando todas as linhas anteriores. Esse tempo cinematográfico, gráfico também, não se gera por completo no olho nem na objectiva da câmara fotográfica: é um conhecimento, através da mobilidade visual, dos equívocos da percepção e da representação. A alma de uma fotografia (um retrato, por exemplo) ressuscita de memórias anteriores, pode revelar dinâmicas ou colocar-nos a olhar para o fundo dela. Foi assim que descobri o ser dos meus pais num retrato institucional de família. Desse quase impensável resgate resultou um livro: «Talvez Imagens e Gente de um Inquieto Acontecer» Essa também é uma forma de ultrapassar o perecível e alcançar no futuro um testemunho da verdade.
fotografia de Rocha de Sousa
Os restos de um registo centenário são, apesar de tudo, uma permanência. E a mudança de enquadramento de uma mesma coisa, torna-a outra, sendo esse um dos pontos base da mobilidade visual. A fotografia que vemos aqui já esteve na nossa retina de outro modo. E parecia diferente ou mesmo outra coisa. As nossas bases para esta relação com o real são um ponto essencial da nossa formação, do nosso saber e do nosso ser. Os pontos que assinalam olhares nossos por esse espaço fora são muitas coisas. Um gesto. O amor na memória. A casa onde vivemos é uma base indispensável à nossa estabilidade mental: viajamos até ao Oriente e, quando voltamos, a casa é como um ser vivo e comovente, sentamo-nos e (eventualmente) choramos. Nozolino conta a sua experiência em Berlim. «Há lugares no nosso trajecto pelas coisa que nos deixam feridos. A descoberta do Holocausto levou-me para trás. É então que se compreende o que significa essa coisa terrível de invadir, ocupar, matar pessoas, conquistar. Arrumar tais realidades, ultrapassar o horror que deixaram entre nós, essa é uma tarefa importante da literatura.» Com ela e o cinema, Tarkovski faz-nos ouvir os poemas do pai. É isso a vida. «A verdade é o modo como eu interpreto o mundo. Essa experiência é essencial, o nosso sofrimento, a vida». _______________________________________________
Este post decorre da entrevista assinalada acima, da acutilância de Clara Ferreira Alves e das próprias experiências do autor na pintura, literatura, cinema e acção docente. Só conheci Paulo Nosolino muito tarde, mas as nossas vidas, diferentes, foram contudo paralelas no tempo, no espaço, em certos padecimentos da alma, na espera, enfim, de não ser preciso desfechar um tiro na cabeça.
RSousa
quinta-feira, janeiro 06, 2011
LONGA TRAVESSIA ENTRE A MORTE E A VIDA
foto de Rocha de Sousa
segunda-feira, dezembro 20, 2010
DECIDIR O LIMITE TERMINAL DO SOFRIMENTO
A questão da vida é questão da morte. Só a morte significa a vida. Albert Camus, em O MITO DE SÍSIFO, escreve: «Só há um problema filosófico. o suicídio.» Se estivermos perante um suicídio por nada, só porque sim, porque basta, mais nos interrogamos sobre o sentido da vida. E muito dificilmente aceitamos que o sentido da vida é ela não ter sentido nenhum. Que o próprio homem pode decidir contra a vontade de Deus. Pode pensar: estou em sofrimento e não sei porquê nem para quê. O absurdo desse sofrimento pode iluminar-se com as minhas próprias mãos, pelo livre arbítrio, através da porta de um suicídio dignificante. O problema de decidir sobre a morte, dignifica a indignidade de um sofrimento sem fim, como o de Prometeu agrilhoado, é um problema que respeita à consciência e ao poder que Deus nos legou. A eutanásia, como forma de superar uma dor ignóbil, o prolongamento de uma falsa vida vegetativa, atravessada por breves instantes de consciência no horror da total dissolução da carne, é verdade iluminada, é escolha do limite no limite, é o acto supremo da solidariedade. Só as situações extremas, tantas vezes ilustradas pela guerra, podem explicar o apelo o apelo à morte ajudada. Há situações de combate em que uma baixa súbita, completa, coexiste com a baixa por ferimento não imediatamente mortal mas sem a menor possibilidade de retorno: coloca-se um garrote na perna esfacellada e o que resta dela morre em poucos minutos, fora da consciência. Ao longo de uma hora, o garrote já não trava o fim e há no interior do corpo hemorragias irreversíveis, submetendo o paciente a dores insanáveis, à perda da fala, à proximidade da morte minuto a minuto. Restam dois companheiros com confortam o moribundo, com risco da própria vida e com as comunicações rádio cortadas, incapazes de administrar o tempo e o tempo de aproximação das forças contrárias. O vivo quase morto atravessa um brevíssimo instante de consciência e exprime aos outros, com os olhos, que lhe cerrem as pálpebras. Carregados de ideias feitas, a força inibitória de certos lugares comuns, ainda hesitam muito tempo. Há duas opções neste caso anti-natura: eles acaam com o sopro de vida do companheiro claramente condenado ou eles esperam, procurando perceber se o companheiro já morreu ou ainda não, dúvida que os mata aos três com o rebentamento de um morteiro ali mesmo, dentro desta mistificação da vida, do heroísmo, em pleno espaço do absurdo. Em muitas situações em que o dilema se coloca, em casa, nos hospitais, na solidão, a eutanásia tem o sentido da bem-aventurança dignificante. Quando alguém se encarniça sobre um semi-morto, administrando-lhe fluidos de efeito curto, não eternizável nem curador, esse alguém renega a força da razão e o sentido da medida, do tempo, do limite moral
terça-feira, novembro 23, 2010
OLHOS NOS OLHOS, OLHARES INTRANSITIVOS
segunda-feira, outubro 11, 2010
ODE À SAGRAÇÃO DAS PALAVRAS PERDIDAS
domingo, outubro 10, 2010
O LUGAR DO TROLHA DEPOIS DO ALMOÇO
sexta-feira, setembro 24, 2010
OBRA DE DEUS ECOGRAFADA NASCEU MORTA
Eduardo e Alísia retomaram trabalhos e estudos, como se nada de preocupante tivesse acontecido. A família ajudava-se em certas horas de ausência, as irmãs, os filhos, essa comunidade cujas raízes subiram do fundo do tempo, regulares.
Um ano depois dessa alegria materializada em festa, depois também da precoce cerimónia do baptismo, o ritmo da vida do casal estabilizou numa espécie de velocidade de cruzeiro, entre o trabalho, a família, os projectos cuja dinâmica já lhes concedera coisas e favores. Mas isso envolvia a ideia de um segundo filho, gravidez tentada, preparada, assumida quando os sinais acusaram esse princípio dentro do seu habitat de metamorfose.
sexta-feira, agosto 27, 2010
DO DILÚVIO ÀS LAMAS ASSASSINAS E ETERNAS
domingo, agosto 15, 2010
OS INTESTINOS DO IMPERADOR E O FUTURO

pictogramas digitais de Rocha de Sousa
sábado, agosto 14, 2010
BICHOS, GENTE E A VOZ DO POETA PASTOR
segunda-feira, junho 28, 2010
PELA MANHÃ DO MEU INQUIETO ACONTECER
dentro de mim, morro de forma rara
