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segunda-feira, agosto 29, 2011

NEM LONGE NEM PERTO, A ALMA DA GENTE


composição foto e colagem de Rocha de Sousa
Lusofonia, quer queiram quer não:
ela vem de longe e revê-se nos corpos de hoje


Li hoje, deslumbrado, um dos mais belos documentos sobre Portugal e o Brasil, sobre os desvios da História e as mitologias ou sarcasmos inúteis que tantos teceram acerca de viagens e gentes, face a face na distância dos continentes e dos sonhos ganhos ou perdidos. É um texto de Miguel Sousa Tavares, no Expresso, uma lição testemunhal perante os erros, equívocos, vários ritos antigos e modernos, a par de muitos esmagamentos da verdade intrínseca da história lusófona.

«...as relações Portugal-Brasil, nos últimos 150 anos, são um interminável jogo de ioiô, em que, quando um está em cima, e vice-versa, com ciclos de emigração, económica ou política, cruzados ao sabor da situação interna de cada um de nós. Dir-se-ia então que o desdém e a fútil superioridade com que aqui recebemos esses brasileiros que vieram ocupar os trabalhos que os portugueses já não queriam foi uma espécie de ajuste de contas tardio na forma como os brasileiros receberam os portugueses que para lá foram em massa desde o último quartel do século XIX até às primeiras décadas do século XX. Injustiça paga com injustiça: nós ficamos agora a dever aos brasileiros grande parte da construção das auto-estradas, hospitais, Expos, com que, imbecilmente, imaginamos ter conquistado para sempre a modernidade e o progresso; e, antes, eles ficaram a dever os ciclos do café e da borracha da Amazónia, o que não teria sido possível, por ausência de mão de obra, sem a impressionante emigração portuguesa — que teve, como contrapartida, a ruína do interior de Portugal.» Miguel Sousa Tavares trata bem a história do padeiro, personagem que invadiu por completo o imaginário do brasileiro: emigrantes que desenvolveram a indústria da panificação e geriam as respectivas lojas e sobre os quais os brasileiros idealizavam seres de pé descalço, trepando pela riqueza acima e explorando o povo em épocas de crise. A ideia da perfeição do Brasil e de tanta mistura devem colidir com a realidade histórica e ontológica do mundo e dos seres: em boa verdade, a perfeição é impensável e o que importa é sabermos qual a nossa relação com os lugares a que pertencemos. Miguel considera-se inteiramente do Brasil e de Portugal, o que é uma boa medida para a sensatez que nos vai faltando. Ele diz-se muito irritado com «as críticas mútuas e redutoras com que tantos portugueses e brasileiros se entretêm, como se com tanta mistura de sangue e de sémen, tanta aventura e tanta desgraça em que andámos envolvidos, uns com os outros, os vícios e fraquezas de cada um nunca tivessem passado ao outro.» Não terão os brasileiros sido também portugueses e os portugueses também brasileiros, pelo menos até 1882?
Diz Miguel Sousa Tavares:«1808», de Laurentino Gomes, sobre a chegada da corte de D. João VI ao Brasil: um panfleto doentiamente antiportuguês, sem preocupação de enquadrar a história no seu contexto e onde só interessa o lado negro da aventura joanina. Parece, segundo o autor, que, com a estada da corte portuguesa, os "brasileiros" descobriram, estupefactos, a porcaria urbana, a corrupção, o compadrio e o desgoverno (tudo coisas que, como se sabe, foram extintas em todo o Brasil há muito). Ora todos sabemos que D. João VI era um atrasado mental e que D. Carlota Joaquina era uma ninfomaníaca sevilhana permanentemente ocupada em conspirar contra o próprio rei ou marido.» Havia disso em todas as cortes europeias, fruto, também de problemas de consanguinidade e pelas regras arbitrárias dos próprios sistemas monárquicos da época.
«D João VI foi bem melhor soberano no brasil do que foi em Portugal. Reformou a cidade do Rio de alto a baixo, abriu os portos brasileiros ao comércio internacional e instalou um verdadeiro Estado — que levou daqui por inteiro — onde antes apenas havia capitanias e mandantes locais. O seu grande erro foi não ter tido a visão de perceber que a capital do Império devia estar no Brasil e não em Portugal.

sexta-feira, agosto 26, 2011

EVENTUAL PARTÍCULA DO INVISÍVEL E DA MORTE



Imagens ao espelho, corpos, estou a olhar
um cadáver de cada vez, nus, frios e hirtos.
como vítimas estranhas jazendo no espaço frio da morgue
ou na cortante madrugada, sacudida de ventos finas areias.

Os espelhos multiplicam-se, os corpos também.

Todos eles, primeiro, foram expulsos do mar
pela maior vaga alguma vez vista naqueles dias.
Todos eles, depois, vomitam peixes,
morrendo sem forças, ao procurarem expulsar da boca
grandes porções de areia em papa e pequenas conchas prateadas.

Apesar de tudo, e da reanimação imaginária como possível,
estavam mortos os homens, como os peixes,
bocas abertas, areia até aos dentes;
os olhos fixos, os corpos já inchados,
entretanto patéticos, inúteis, sombrios, inquietantes.

Ninguém se arredou da tarefa dura de cavar aquelas bocas.
Ninguém se apercebeu das coisas vindas nas colheradas enviesadas.


Cobertos por mantas até ao queixo, aqueles homens,
permaneciam ocultados dos filhos, mal de ver,
e os próprios filhos talvez nem imaginassem os pais ali,
apenas feitos de bocas entaipadas por areia húmida.
Alguns filhos eram rapazes de estudos,
já só percebiam dias de férias, a baba de cada pai, o prato da açorda.

Olhavam, apesar disso, numa curiosidade mórbida mas de fascinação,
as bocas abertas e erguidas, quase tapadas de areia,
quase fingindo um grito em vias de soltar-se do fundo
e na hora terrível em que tudo estivesse limpo.

Mas quando as mulheres, já perto da garganta,
deixaram de esgaravatar tão malvada areia
e entornaram água para dentro das bocas rígidas,
os moços, ansiosos, quiseram levar aquela matéria, a baba das ondas,
além desses pequenos e subtis grãos das praias,
os quais isolavam em descoberta debaixo de uma grossa lente
e logo os perdiam de vista ao adestrado dos gestos.


A sua esperança residia no facto de haver ali, entre fios de algas
e os restos da massa, ligando areia e sufocação,
como breves sinais, porventura sempre a escapar-se,
sinais cuja natureza entretanto, e afinal, mantinha invisíveis
outras coisa que não fossem porventura, e apenas, partículas da morte.

fotografias de Rocha de Sousa com a participação encenada de Miguel Baganha

quinta-feira, agosto 18, 2011

PELA ESPUMA DOS DIAS OU O BANHO A BRINCAR


Sem vontade de nada, para nada, nado na banheira cheia.
Braços estendidos ao lado do corpo,
ondulando para cima e para baixo,
ora devagar, ora mais depressa,
flocos de espuma com a lógica da sua leveza
a descer, lentas, como pedaços de nuvens rendadas,

Agora formou-se tanta espuma
que o teu corpo até pode esconder-se:
aí ficas por instantes, a respiração suspensa e os olhos fechados
contra o ardor desse mundo de brincar,
dedos depois em voltas de ajuda.

A água e o sabão escorrem pelo corpo já torto,
respira e abre os olhos,
ao contrário escorres tu antes de poderes ver,
antes de poderes abrir a boca, Antes de soletrares o real
limpo da espuma dos prazeres breves, Vidros, mármores e cromados.
Um espelho cheio de bruma, sem ti, coberto de espuma e perfume.
E rios árcticos como rachas estampadas no Universo.

Enfim, desta vez és tu quem quer sair da submersão,
agarrar o cromado e a torneira em falta,
procurar a âncora pendurada já sem argola nem sinal.
Sem nenhum prumo auxiliar no escuro da espuma,
nem espelho em volta na volta da moldura solta.
E um pé desliza para longe, o outro também,
a cabeça a cravar-se na pedra e no metal atrás,
onde se aquece a vida e a chuva
quando nos molha de acordares.
Ficas imerso e acompanhado desse ruído borbulhante
no súbito silêncio da tua boca.

Olhas para mim, emergindo, mas já não olhas de verdade
e a tua boca começa a encher-se de espuma
como se estivesses a engolir nuvens.

terça-feira, agosto 16, 2011

NEM SONHO NEM BRISA, O ACORDAR DA IMAGEM












***************
Nem sonhos nem o efeito da brisa sob os véus da janela suposta entre as pálpebras ainda inchadas. Imagens sim, podemos falar delas, imagens que se libertam, a todo o custo, da realidade à qual porventura estão ligadas. Fotografias? Também, porque não? Os cisnes passam perto delas, numa semelhança de diferenças, mas as penas ou são ilusórias ou se perderam entre ancoragens, amarrações ou no desfazer dos laços. A fotografia finge tanto como a pintura, chega a fingir que é sombra a sombra que afinal a habita desde há muito. Seria, possível, no desfazer desse fingimento, iluminar de forma lenta cada parte destas ondulações, fios, tecidos, ou penas desfocadas, tornando cada vez mais claro o acordar destas imagens? Talvez como se nos fosse dado o talento de recriar o visível, bolhas de pano molhado emergindo da escuridão, o mistério do invisível abrindo-se num jogo matinal de aparecimentos. Apesar das concavidades ainda insondáveis e das aparências obscuras que tenderem a permanecer ali até ao rodar do dia, horas perdidas da tradução em escrita das previsibilidades de cada brilho, de cada bordado dentro ou atrás dos fios, estampagem, inércia dos artifícios ornamentais. Lembro-me de ter chegado aqui, um dia pela manhã, deslumbrando-me com a suave claridade que começava a aparecer nas janelas, atrás da respiração lenta e calada dos painéis finos, transparentes, que sempre velavam a objectividade excessiva das coisa aparecendo na grelha de madeira pintada de branco, branco mas na delicada cinza dos panos tradicionais que nos protegiam do ardor da luz os olhos transitando, a espreitar de lado. Mas agora não sei se vou voltar a este amado lugar, curvas do tempo e do visível meio desfeito, casa revisitada, amada, onde os portas diziam os seus versos do fundo das estantes e muitos testemunhos da antiguidade cobravam o seu lugar arqueológico nos intervalos das palavras. Candeias árabes, moedas rústicas das nossas primeiras dinastias, o ouro belíssimo que D. Fernando mandara cunhar, o estudo comparado das religiões e das almas, almas a cores, como as torturadas aparições em «Julieta dos Espíritos», de Fellini, ou as mutações malabaristas dos fantasmas fabricados pelos espiritas brasileiros, em nome da ciência, rostos na sombra, desfocagens de meninas vestidas de branco, um sopro do Além agitando a vela solitária, na quase noite carregada de murmúrios. Aqui, os espíritos, são os esplendorosos rostos dos meus avôs paternos, beleza da feição antiga, marcas de fungos num canto inferior. Mas talvez me concedam a força voltar aqui no próximo ano, abrir estas janelas, passar os cortinados sedosos pelas mãos crispadas de frio, oh, isso não sei. A porta bate, com o vento. De súbito, pousando na calçada, um pequeno pássaro confunde o frio com o medo. Imobiliza-se para se fingir morto.



fotografias de Rocha de Sousa

quinta-feira, agosto 04, 2011

NASCER PARA CRESCER, CRESCER E MORRER

Ninguém sabe quando nasce, nem porquê nem para quê. Conscientes de tanta coisa em volta, a fecundação, os fetos sangrentos, os meninos já toldados da melancolia e da dúvida esperam, no canal gelatinoso da vida, o momento da chegada. Antes a penetração, perto do acaso, num certo ovário, de uma certa mulher, de uma certa família. Trazendo consigo um karma de vida e saudade, na certeza da morte, branco de estímulos, excepto a força ardente do oxigénio nos pulmões e o modo como o tocam, tão diferente da sua aconchegada placenta.
Após algum tempo de maternidade e de urgência das tetas, lavado e vestido, o menino cresce. E é nessa altura, como se disse atrás, que os sentidos se perturbam, se interrogam, diante de coisas sem nome, embora as pudesse pisar e sujar nelas as pequenas mãos do emergir da idade da razão.


Sentado num ponto alto, já homenzinho como ouvia dizer as vizinhas, o Carnaval apanhou-o a descer sobre o universo da família, uma grande cara junto de si. O menino não era mais do que um balãozinho pousado na cabeça do seu irmão, um homem já grande, esse sim, capaz de o levar às cavalitas e de se embrenhar, entre as estrelas do céu, nos ombros e cabeça do outro, o anterior, o irmão. Verdadeiramente, ninguém se conhece nessa altura, começa-se a brincar, a ver e aprender coisas dos adultos. E então o menino pensava: não posso andar sempre neste homem-cavalinho. Andarei pela mão. Andarei pelos lagos do jardim. E ele afastar-se-á um pouco, anos depois. O menino foi um dia à Escola: era no número 33. Valeu-lhe a sorte, porque quando chegou à idade da tropa, ganhou o nome numérico de 333, a conta que Deus fez, e começo de estudos mais difíceis. Tinha acabado o estudos de Belas Artes quando, no quartel onde se encontrava, o convocaram para a guerra que deflagrara em Angola. Era uma guerra de que ele não sabia nada, porque, enquanto menino, menino mesmo, levara a ouvir relatos da Grande Guerra, e viu cinema, e leu revistas, e começou a pressentir que lhe havia de calhar um calhau daqueles. Lá foi para Angola, em 61, num navio aparelhado para transportar três mil homens. Ele estava melhor servido, na zona habitável e não nos porões ataviados com altas e triplas camas de madeira.
E aqui em baixo, por volta dos 20 anos, cá está o menino depois da metamorfose, fotografado solitariamente no Colonato do Vale do Loge. Ainda faltava tempo, mas, fosse qual fosse a indignidade daquela guerra dita colonial, houve longas aprendizagens, o corpo cheio de vitalidade, grandes «tempestades» de medo em lenta guerrilha e longos minutos de pacificação, assim, exactamente como o menino homem se olha e parece dizer: ainda aqui estou.

auto-retrato

Voltou noutro barco, tendo beneficiado de uma rendição individual por estar nomeado para o liceu D. João de Castro. O barco parecia ser todo para ele. À noite, num dos decks, via filmes e sonhava com a família. Contra tudo o que decorria aqui e além, foi ali que ele viu pela primeira vez um filme fascinante, «A Sede do Mal», de Orson Welles. Nunca mais se desligou das artes visuais e da escrita, que é feita de letras e palavras e frases, pintando também o mundo, visualizando a guerra de há pouco e os jardins em volta de lagos, num país longínquo.

sexta-feira, julho 15, 2011

A LEVE E CLARA ARGUMENTAÇÃO DO SENSÍVEL












Pinturas de Isabel Sabino

O visível é um fenómeno complexo da nossa natureza, por vezes relacionável com o invisível ou a denegação do real. Vimos aqui, não há muito tempo, um notável conjunto de obras de Isabel Sabino, cuja poética e cuja estética se podem evocar, em perfeita coerência, com as actuais peças, o melhor que conhecemos na ordem rapidamente esquecida da pintura anacrónica. Havia naquelas obras talvez um segredo, da pintura ou do real ou dos conceitos algo paradoxais que atravessavam as cenas de um provável jardim, espaço revisitado na óptica do humano mas a perder-se, inútil, na espessura pouco encorpada do seu abandono ao vazio. Após um eventual desastre, as ausências sucederam-se e as imagens que podíamos contemplar traziam em si uma inefável relação entre a morte e a beleza.
*
Associemos esta espécie de paradoxo à famosa sequência do fotógrafo, em Blow-Up: julgando ver e fotografar uma cena de amor, o seu dom operativo, na manipulação dos negativos, revelou-lhe que a sequência antecipava um crime. Uma hipotética cena de amor torna-se no grão fotográfico de uma cena de assassinato. Há algo de parecido com o mistério da piscina, nos anteriores trabalhos de Isabel Sabino e o seu actual jardim
*
«Aguarelando» sem rebuço através de tintas acrílicas, Isabel parece fazer aquilo que é recorrente nos ginásios, exercícios de aquecimento, coordenando a mancha, a gestualidade e a minúcia de uma aventura de ambíguo destino. Há mais experiências destas, por vezes paradoxais ou despojadas de algum assunto sustentando um tema.
Se olharmos para as obras que abrem o pano após estas (fotografia convocada para várias sustentabilidades) a luz é nitidamente m ais afirmativa, de uma poética fresca, apelando a todos os elementos figurativos para essa solidez matinal, entre plantas e leves construções, que podem lembrar composições cénicas, porventura mesmo cinematográficas, de certas escritas da arte britânica, diluições brumosas, quase sem sombras, onde tudo parece recuperado de um património cultural já aberto, lúdico, sem crispações. São, além do mais, um belíssimo uso da pintura representativa para investigar todos os géneros dela. A embriaguez expositiva do século XX tem tudo a ver com isto: porque, quanto mais se desmanchava por dentro e por fora de si própria, aproximando-se do seu motor invisível, mais espectáculo produzia, sem título, mas ruidosamente, ou elegendo estruturas mínimas, tintas solitárias, sempre em volta de uma descoberta verdadeiramente decisiva, por implosão ou imagem minimalista. O facto é que, sempre depois das contas, nada que mudasse o mundo aconteceu de facto sob a brutalidade dos experimentalismos todos, mega suportes, rias singelas.
Voltemos a Isabel Sabino no País das Maravilhas. Os lugares para os quais ela nos convida são imediatamente admiráveis: são paisagens de sítio nenhum. A autora quer aspirar ao aprazível e ao jogo de encenar figuras e objectos naquela paz silenciosa. Há aqui uma pintura representativa mas não mimética nem académica. Então, damo-nos conta de que o tempo já passou por ali, nódoas, rachas nas paredes, chão fino de quase nada, partes de um puzzle que Isabel, pensando o lugar, o ser e o ver, reboca para um tempo humanista que tende a recuperar o céu. Brincando. Numa leve e clara argumentação do sensível. Um mundo narrado assim, enquanto a pintora aponta atmosferas brancas, líricas, e «debaixo das folhas das árvores voando pétalas amarelas e verdes ou violetas», as flores do nosso imaginário.
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Do artigo «Sem paisagem, na paisagem» cuja publicação no JL falhou por um incidente técnico.

terça-feira, julho 12, 2011

QUADRO ENQUADRADO NO QUADRO DO ERÓTICO

veja depois de ver

As obras de arte, respeitados os direitos de autor, são por vezes material para novas derivas. O conceito de remake
integra a resolução de uma obra inspirada de perto noutra, por vezes muito perto da fonte, noutros casos distanciando-se para o domínio da metáfora, do simbolismo, agarrando na forma e no conteúdo uma parte do fio condutor do que terá sido apenas uma boa narrativa, mais ou menos despojada de valores ontológicos e na prática das escritas óbvias.
Esta imagem, foi publicada com outra função nas revistas, sobretudo em termos de publicidade, perto de uma fragrância corporal ou erótica. Podemos reparar que o que o aquecequecimento da cor e de um aperto do enquadramento, são factos que sublinham o sentido e a ideia de corpos que se enlaçam e sentem para além da sua aparência. Se esta ligeira metamorfose permitiu alterar contexto e conteúdo, aprofundando com alguma nitidez e plasticidade o clima erótico, há casos em que o proceocedimento representativo, meio oculto, torna o apelo da imagem nos levam mais longe ao limbo do desejo, porventura reconfigurando os estímulos do imaginário.

segunda-feira, julho 11, 2011

ORA DEUS NÃO PARTE PEDRA, O HOMEM SIM


Exemplo de calçada à portuguesa

Esta velha arte, que alguns associam a inspirações espirituais, é estruturalmente uma forma de tratar o ambiente, de fazer arte, como vemos em certos desenhos de Paula Prates. E nós mesmos temos ensaiado. Prates desenha de forma quase naturalista e sintetiza composições pictóricas com uma base semelhante.

ONTEM AO ENTARDECER, O CÉU ROMPEU-SE


Não esperava nada, suponho que no fundo do meu inconsciente se formava a imagem de um céu a romper-se, vazio de nada depois. Hei-de cogitar sobre esta percepção.

sexta-feira, junho 17, 2011

ARTE PODE DIZER A VERDADE PELO EMBUSTE

fotografia de Miguel Baganha


Digamos que a arte não é uma coisa nem um conjunto de coisas. Mas o que serão as coisas sem a arte para as sonhar ou dizer, aceitando nomes, silhuetas, desperdícios?

Em boa verdade, essas junções, corpos nomeados e mortos por uma simples alcunha, nada disso nos escapa, entre paradoxos e cataratas da memória, um fio de nostalgia, um sentimento de surpresa. Vou pela rua e deixo que o meu olhar se assuma voyeur, aconchegado aos reflexos das montras e aos riscos de uma vandalização pueril. Foi por isso que tive de parar, fazendo uma volta de pequenos passos, da direita para a esquerda, a fim de reconstruir o que as minhas sensações mal haviam indagado no campo tão contingente de percepção visual.

Retocado o ponto de vista, acertei o vértice das lajes que formavam o passeio: os botins de senhora, azuis pardo, tacões bem esguios, jaziam, bem perto da parede mas arrumadamente quase em ângulos rectos através da orientação dos canos, um adoçado à parede, pouco erudita, e o outro, descendo na minha direcção, lado esquerdo, paralelo ao primeiro, ou quase, e o outro, descendo na minha direcção, lado esquerdo, paralelo ao primeiro, ou quase, enquanto as pontas das botas, cada uma para seu lado, naturalmente à esquerda e à direita alta, garantiam a saúde do design proposto, mas não tinham alcançado um perfeito e oriental alinhamento, fosse ele qual fosse, com o desenho dos ângulos das lajes, rectos, de bicos voltados para nós, dois completos e um pequeno triângulo sobejamente atrás da bota mais além. Sinais curtos, de cima para baixo (doze, pelo menos) eram a modernidade instrumental do sopro, assim, cadilhos breves, chovendo sobre a irónica composição instaladora que se completava em baixo. Ali, no ponto de vista que resgatou uma particular imagem do devaneio quotidiano.

Mas isto não é nada disto, obviamente, ou pode não ser. Primeiro, porque as botas de senhora não são restos sarcasticamente abandonáveis. Segundo, porque o desenho angular ou modular do chão em pedra está longe de formar um suporte irreparável para as coisas «abandonadas». Terceiro, há uma distância mais ou menis previsível entre o tempo do lançamento dos sprays e o resto.Assim, podemos admitir dois aproveitamentos transitórios das coisas como coisa em si. Donde a fotografia passa ao nível do fait-divers e as botas terão em breve o seu dono. Sociologi- camente, podemos citar, nesta instalação, um retrato do quotidiano do século XX (ou mesmo XXI), ocasional ou propositado, que acabará por reflectir, conforme o nosso juízo, o despudor do consumo e a visão redutora da utilidade dos equipamentos urbanos.

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Com base em excertos de obras de Foucault, este pequeno ensaio de indagação sobre a coisa vista repõe o problema da percepção, do real e do visível, da representação e da aparência, da instalação e do embuste.

quinta-feira, junho 02, 2011

IMAGENS DE GENOCÍDIOS CONTEMPORÂNEOS

entre os conflitos que ainda hoje estão a começar um pouco por todo o mundo, evocam-se genocídios que marcaram o século XX e que nos despertam para o futuro, tendo em vista o que há bem pouco tempo ocorreu em vártios pontos do globo, a fragmentação do que foi a juguslávia e o horror em certos países africanos
como aconteceu no Burundi, 800.000 mortos que não tiraram o sono aos europeus, nem perto da linha que tanto atrai a NATO para a Líbia.




Ontem, ao entardecer, entre coisas indevidas por todo o chão, havia gente no passeio, entardecendo, murmúrios de gente que nem movia os lábios, gente curvada, pisando as folhas, passos lentos. Ao entardecer, ontem, eram velhos aliviados do peso da vida sem rumor nem temor por isso. Eles ladeavam, em deriva, a ideia da morte e os lugares dos mortos para sempre. Lugar negro. Passo a passo. Perdidas as sandálias no chão invisível, e nem sequer se dava por um fio de matéria pisada, passo a passo, pés descalços entretanto, as pernas nuas sob o manto das horas acabadas. Horas acadas assim, até a brisa se confundir com o bafo das meias palavras no curto pisar das folhas, passos quase longe, um riso curto de si mesmo. Chegaram então as luzes. Ou surgiram miniaturais no horizonte crispado. Era um cerco de luzes parando os passos, retorno torneando os que estavam ficando, temor no urmor vindo dos lados todos. Os que vinham em silhueta, vinham sem olhos, todos cegos entra a venda contra as pálpebras e a mordaça nas bocas, porque as falas também dão a ver, ver sobretudo por cima daquele rumor abrangente, a crescer, vasto círculo aumentando o seu espaço para negar a natureza do seu centro onde se viam, finalmente as populações emigradas. desatentas, temendo coisas estranhas e muito mais inquietantes do que o relento das noites. Ouviam-se ordens rápidas e ríuspidas, de longe, de perto, em volta, luzes afinal cegando quem estava livre de ver. De súbito, uma imensa e rangente trovoada rompeu o espaço, rente às cabeças apertas pelas mãos. Era um som a rolar atrás de uma chuva de estilhaços ou mais de cem mil tiros soltando-se em rajadas sem parar, rente, laminatmente, como a grande foice do Apocalipse. E a luz começou então a tremer, com tanto fogo e tantas sombras, gente de súbito irreconhecível, parecia tropeçar, desistir da corrida, ferida, e já ali perto montes e montes de mortos, atirados sem ordem no acaso dos casos, sobre moribundos que procuravam renascer, clamado, impróprios, pelas mães que já ninguém sabia quem eram. Que foi isto? Quem nos quer tanto mal? Arcanjos de asas pretas, diziam duas velhas já de luto.


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Rocha de Sousa

sexta-feira, maio 13, 2011

O MANDANTE E O MATADOR, AO ANOITECER

Tenho ordem para matar

Engoli uma pedra esta manhã.
Pão de pedra, passos na hora.
Achei coisa de engolir depressa,
os passos partindo, nocturnos.
Mas depressa a coisa ficou presa na garganta,
nem pão nem pedra.
Falta-me o ar,
bebo água que logo retorna, inútil.

Meto os dedos na boca,
empurro o pão para o estômago,
pão ou talvez pedra.
É pedra, certamente,
mas incha como pão
e eu julgo estar prestes a vomitar,
entre pausas.
Deixo-me cair de joelhos,
apoiando o queixo no cano da arma engatilhada.

Que vem por aí, que respiração é esta?



A arma engatilhada,
os meus pés já enviesados
arrastados pelo chão.
De joelhos, sobre calhaus redondos e pretos,
a lua acesa por cima
da minha cabeça tombada.

Tenho ordem para matar,

Duros, os calhaus nos joelhos.
Dura, e já imensa, a pedra
tomando conta das minhas entranhas.
É urgente, raios, partir a pedra seja como for
e vomita-la.
Agoniado como nunca,
curvo a espinha
forçando o vómito
num urro interminável
como se me rasgasse em sangue
e a pedra solta-se, de súbito, ao contrário:
na avidez de me salvar accionara o gatilho,
e centenas de mais pedras entraram-me pela boca aberta
num estoiro imenso:
o tiro a que eu estava mandado
cumpria-se assim, invertido,
num brutal desmando.


versos de rocha de sousa e fotografias de maria jawaa

terça-feira, abril 26, 2011

UM MILAGRE INDUZIDO COM SAPOS E RATOS







Desandavam os céus no início da tarde.
Um sapo fora arrastado até ao tampo da mesa.
Deixou-se esticar e crucificar na madeira seca
e adormecer com o perfume do clorofórmio.
Cortaram-lhe o peito, fazem ranger a matriz do osso,
e várias pinças puxaram, em simetria, o manto da pele,
afastando para cada lado as duas abas da caixa torácica,
e daí a pouco jé se via o pequeno coração a bater,
grande pulga arroxeada, aos saltos, viva,
e ninguém sabia dizer donde vinha aquela energia,
quem segurava o ritmo e reforçava magias
com o fim de o observar vivo.
O olho do saber,violando a sua privacidade,
recebera apenas orientações para observar o pulsar da vida.

Quando o coração parou
e ninguém mais o conseguiu reanimar,
alguém disse, sem a menor compaixão:
podemos estudar na mesma,
mal se imagina quantos ratos cobaia falecem por dia,
carregados de tumores implantados,
intoxicados por vacinas em análise,
as fémeas esventradas aré ao seu pequeno útero,
sós como nunca,
e assim sempre usadas, para, entre outras veleidades,
permitirem ulteriores trabalhos, não para confirmar a morte,
mas para que deles se refaça, à escala dos homens,
o milagre da ressurreição.

domingo, abril 10, 2011

VIAGENS E GENTE NUM INQUIETO ACONTECER


LANÇAMENTO DO LIVRO: DIA 16, 18 h, Hotel Real Palácio,

rua Tomás Ribeiro,115 LISBOA


Os meus apelos sempre foram de orientação pluridisciplinar, quer quando lia semanalmente «O Mundo de Aventuras», riscando, pelas horas de silêncio, perturbadoras bandas desenhadas, quer quando escrevia, numa velha remington de meu pai, histórias mais ou menos tristes, entre postais ilustrados de palácios em ruínas. Fui, desde cedo, um amador de paixões e um fabricante de brinquedos alternativos. Haverá em breve oportunidade de ler este livro e reflectir sobre os modos diversos através dos quais a vida de certa gente (uma família inteira, por exemplo) se concentra e dissolve em planos de imagens inquietantes, a maior das nossas aprendizagens, sem métrica, matemática ou redutores automatimos. Há aqui, de certa maneira, histórias de vida, o enlace da nossa falsa inocência (em meninos) com a palpitação do desenho e do sonho, a chegada da razão e da consciência. Fio de escolhas, aliás, entre a infinidade das percepções enganadoras e os encobrimentos de uma privacidade inalienável.

Todos me foram dizendo, desde a adolescência, que os meus talentos apontavam para a pintura, embora eu soubesse que essa indiciação se confundia concretamente com outras viagens, outras famílias, um gostoso artesanato de escritas e leituras na base de Júlio Verne e Flamarion. Marte tinha canais, sim senhor, a Lua vivera um tempo de mares e continentes. Mal sabia eu que os telescópios desse tempo estavam apetrechados com grossas lentes para congénitas miopias. Não reparem no alinhavo destas notas. E devo dizer-vos que a fala deste texto, ao iniciá-lo, voa por uma sugestão mansa — Vá devagar, mãe, como naqueles dias em que tudo parece lento, a chuva, até os sonhos, os seus passos. Ora esta tentativa de começar um filme doméstico, porventura tocado de impressivas memórias, acontece cerca de trinta anos depois dos longínquos dias dedicados à praia, solidões arenosas e gente ainda rara. O tempo, nesta obra, ocorre a quem escreve em termos de descontinuidade, porque, em idades adiantadas, só se pode calcular maturidades dedilhando comovidamente os laços antigos, sob a memória das equações ainda erradas mas já fascinantes. Por isso é que a mãe Maria morre numa data absurda, já a guerra se aproximava do fim e já a pastosa aprendizagem do desenho com paus de carvão, diante de cabeças em gesso, me segredava que esse deixara de ser o caminho do futuro. E um dia, perdido num comboio quase vazio, em que o tempo parecia lento e dissipado, a melancolia que Angola me cravara no peito atravessou comigo todo o Alentejo meio deserto, apesar de sinalizado, de longe em longe, por casinhas espalmadas no alto das colinas, donde os cães desatavam a ladrar contra a grande «anomalia» da máquina a vapor, fumegante, porventura ameaçadora, rolando majestática.


Uma simples frase retirada do corpo deste livro, pode gerar sentimentos, gritos para nada, sentimentos que atravessavam a história e pareciam decidir por ordem os devaneios festivos ou vidas e mortes ao acaso: Maria, descida à terra, abraçando os ossos que diziam ter sido retirados da urna já pôdre onde meu pai fora colocado e na qual se desfizera como no poema em que ele dizia ter o corpo preso à terra e via a sua alma voando de mundo em mundo. Como se vê, este livro é sobre um acontecer inquieto, arrancado à terra, à vida e à morte da família, onde se convoca pela arte os desentendidos destinos humanos, entre grandezas efémeras e gente mastigando desordenadamente, no limite do absurdo, a sua difícil condição humana.


Incapaz de perceber e viver a cidade grande, a verdade é que nas Belas Artes, ao contrário do que diziam vozes iníquas, nada nem ninguém me furou os olhos.

quinta-feira, março 17, 2011

POR UM LIVRO QUE SE ENCOBRE A SI MESMO

Este é um livro de desencanto

Palavras convocadas pela autora deste livro e com quem mantenho uma correspondência de reflexão e partilha de experiências, assim mesmo, num longo encontro que se tem mantido sempre no espaço virtual de uma distância carregada de viagens imaginárias, cada um de nós fazendo o impossível puzzle de nos conhecermos sem nos olharmos face a face. É um caso de reflexão. E a leitura desta obra fez-me sonhar com espaços e nostalgias que tantas vezes me assaltaram quando estive em Angola, numa guerra destituída da verdadeira história e à qual dediquei um livro. O afecto que partilhamos tem uma parte da sua natureza nesta revelação de um ao outro, contemprâneos e desconhecidos, fábula entretanto desenvolvida na obra escrita de cada um de nós. Todos os meus livros destes últimos têm sido lidos e avaliados pela Jawaa, uma voz certa e melódica tanto no seu blog como na passagem pelo sentido daquilo que escrevo, artigos, textos para livros, livros e ilustrações, memória da pintura que fui fazendo e através da qual trocamos opiniões sobre o mundo, o homem, a consistência ou inconsistência do ser.
Iria Augusta Cardoso é uma daquelas pessoas que se viram forçadas a abandonar Angola, em Setembro de 1975, na ponte aérea pela qual se garantiu o transporte de milhares de potugueses de Luanda para Lisboa.
Escrevi algumas linhas sobre o livro «Memória do Esquecimento» na impossibilidade de ir ao seu lançamento. Olhei muitas vezes para este desenho a cores, uma memória de outras narrações, fruto sensível e conceptual de alguns trechos que Iria me concedeu sobre a sua vida em Angola. O livro tinha sido terminado e eu, num repentismo encantatório, desenhei digitalmente aquela imagem, tanto quanto poderia parecer-se com a outra, com a verdadeira, e porventura numa África menos azul e mais baça pela humidade no ar quente, atrás de florestas e anharas, bichos supostos que assumem o mito, pois a pureza e a secularidade das famílias passa mais pelos pássaros, plantas, flores, borboletas, lentos rios a perder-se no horizonte.
«Se o tempo é o nosso pior inimigo, frase bem conhecida de Albert Camus, talvez se possa compreender melhor como qualquer esquecimento só acontece ao certo quando nos for possível ou inevitável dissipar partes da memória, ou toda ela. Mas, tanto quanto podemos avaliar, os acontecimentos narrados neste livro situam-se num tempo e num espaço onde, além da memória do real, há também, ou sobretudo, referências a factos verdadeiros.
A beleza desta obra, a sua força poética e a memória dos próprios sonhos, vogam acima dos espaços, por cima do mundo, resulta de olhares que olham aqui e além, e nos traduzem a voz interior de uma espécie de omnisciência — narração sem contornos aritméticos, ou lógicos, ou sequenciais.
Os factos, as imagens, podem esfumar-se mas não perdem, contudo, o contorno da verdade. Nem eles se apagam na sua condição histórica, passando apaziguadoramente à condição de perda, nem as eventuais fracturas de algumas cenas já brancas impedem a nossa travessia pelo sentido das coisas e dos seres.
do amigo, outra vez, João Rocha de Sousa

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

QUANDO DEUS USA A EUTANÁSIA EM SOLIDÃO

oito anos de morte em profunda solidão
O país dorme no cansaço da crise. Como já envelhecera em famílias ordeiras sob o eufemístico rigor de Salazar. A morte era tratada em litúrgica beleza, triste ou trágica, por famílias que acompanhavam as floridas encenações em horas de espera ou marcha, velando os defuntos como se ainda estivessem dormindo, daí a pouco prontos para uma espécie de ressurreição pacificante. Os velhos morriam a tempo e horas, após os últimos martírios, por vezes inconscientes sob os efeitos da morfina, aplicada sempre que possível e aconselhável, líquido administrado no instante mais terminal de todos, ou na espera dura, derradeira, para que o fim concreto do acamado pudesse depender apenas da decisão divina.
Com o avanço da medicina e a ordem pública do Serviço Nacional de Saúde, os idosos tornaram-se cada vez mais velhos, embora alguns ganhem o benefício de passar os cem anos, juntando a memória do tempo monárquico aos ventos da República, ao 25 de Abril e a estranhas inovações entre as escolas e os hospitais, entre as finanças e as esmolas do Estado aos mais deprimidos.
Mas há bons sinais que antecedem as marcas da perda, crises nacionais e internacionais, entre as tinyas sujas mas niveladoras da globalização, algo que um dia acabará com os países, as histórias, as culturas, apenas para dar forma a um enorme bingo, sem rosto nem identidade verdadeira.
E falando nocamente em sinais, devemos reflectir o mais possível nos mortos solitários, casos de outrora mas também, impensavelmente, de agora, achados aqui e além, por vezes nove anos depois de se haver partido o fio da vida. Quem é esta gente? Que anunciação pode atingir-nos desta maneira, ao lado das estradas e dos carros de luxo, das cidades atulhadas, das emigrações aterradoras, reinventando por mar aquelas, nos anos 60, as que os portugueses assumiam a salto, sonretudo para França. Alguns morriam por lá, mas não, apesar de tudo, ao abandono. E deixavam em Portugal uma casa de bonecas, todas parecidas umas com as outras, simbiose de culturas, o gado recolhido em baixo, a escada exterior, a ben-aventurança no piso superior.
Na fotografia aqui inserida, em baixo e depois de um corpo morto (pintura), corpo descomposto de uma pobre avó sem pertences nem filhos nem netos.

lugar e apoio aos solitários idosos foto de Adriano Miranda

Um jornalista sádico legendou a fotografia, na base de uma citação institucional, esta frase: o ideal é que os idosos se mantenham no seu ambiente, desde que acompanhados por estruturas de apoio. É como falar na defesa do inquietante património destes fantasmas. Alguns responsáveis desta área da organização social falam de idosos que se encontram autónomos e a viver nas suas casas, tristes e sós. Perto de 40% dos idosos sobrevivem nessa condição um resto de vida, em casa, com mais de 65 anos de idade e auito-sequestrados (ou doentes) durante mais de oito horas por dia, admitindo, em certos momentos e de viva voz, que se sentem todo o tempo tristes e deprimidos.
Villaverde Cabral, do Instituto de Envelhecimento da Universidade de Lisboa, fala da «urgência» (talvez uma urgência imanente que vai escapando cada vez mais aos gritos mutilados do género humano) e aponta a necessidade de meios e métodos para amparar este fenómeno.
«É pena que tenha de haver casos trágicos como este para que a opinião pública tome consciência do problema cada vez mais frequente do isolamento em que vive uma grande parte dos idosos.»
O Sistema, ao contrário, é que criou condições geradoras do mo do como estas mortes acontecem. Porque os vizinhos (opinião pública) sempre e depressa ajudaram os lugares habitados e a narrativa da vida não acontecia apenas e por acaso na televisão. A solidão que leva a estas mortes sem qualquer chamamento é o ramo perverso do abandono sistemático das pessoas sem meios que talvez se entreguem, exangues, ao último prato de fome. Lá fora, depois do deserto do país, saltita a cultura meridional do consumo e do crescimento. Qual crescimento. Que indecência é essa de imaginar tampões da apoio antes que os cães desatem a correr pelos quintais e venham devorar os próprios humanos seus companheiros?
Fechem depressa as catedrais do consumo, em papelão e publicidade interminável. Visitem os que não precisam de prémios nem de descontos.
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Entre as notícias sobre este assunto, destam-se seis casos de descobertas de pessoas mortas em casa, sozinhas, algumas («desaparecidas») há muito tempo. Augusta Martins, 95 anos, Rinchoa, Sintra, foi encontrada morta após 9 anos. Em Matosinhos, um homem morto assim, só foi encontrado após instantes protestos dos vizinhos. Cantanhede: um reformado do Exército, 71 anos, esteve morto, durante três meses, em casa. Amadora: Ex.PSP, Ernesto Henriques. esteve morto em casa dez dias. Ourém: Corpo de homem de 67 anos encontrado em Ourém. O laconismo da notícia começa a ser significativo. Faro: Um homem de 65 anos morreu sozinho na sua habitação.
Quantos mais casos haverá por este país fora, fruto de uma sociedade onde ascmunidades se desfizeram e a pressa de antecipar o futuro conduz as pessoas a comportamentos alucinatórios e a esquecimentos como estes. Há sítios onde muitas portas fechadas desde há anos, habitação de vizinhos que foram perdendo o rosto, vão certamente ser abertas com mais frequência. É que uma decente organização civilista pode passar a encontrar, em casas e lugares, mais vivos do que mortos.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

A PARTILHAR COM NOZOLINO UM VER DORIDO



fotografias de Paulo Nozolino

Tocado pela excelente entrevista de Clara Ferreira Alves ao fotógrafo português Paulo Nozolino, revendo alguns nocturnos de minha autoria, fiquei submetido a esta escrita da imagem fixa e sabendo, mais uma vez, que tudo isto se desmorona com a indiferença geral e as soluções recreativas proliferando um pouco por toda a parte, forma de abortar todos os renascimentos da lucidez e do gosto, banalizando às liturgias do consumo as grandes formas de pensar que marcaram o século XX. «Nozolino, como acentua Clara a propósito deste artista, é um dos mais inteligentes e lúcidos fotógrafos do mundo e do mundo que ele escolheu fotografar. Não é um lugar poético e terminal que nos é descrito numa linguagem de secura e beleza perigosas.»
CFA, contornando a brevidade de um almoço com Paulo Nozolino, preferiu falar com o artista na casa dele, «uma conversa no estúdio feita de cigarros e um copo de água. Paulo Nozolino é como a fotografia que faz. Não há desperdício nem erro. Não há indolências»
Tendo em conta o seu prestígio internacional e o extraordinário currículo de Nozolino, gerado em muitos lugares e partes do mundo, CFA indaga: Porque é que voltaste?
«Porque estamos condenados a padecer aqui.»
Porquê padecer? Isto é a tua casa.
«Não, isto é o lugar em que eu nasci. Calhou. Uma pessoa só se apercebe onde está por volta dos 15 anos. Antes, é a infância. Filho único, a falar sozinho, a brincar sozinho. Cromos, normal. Liceu Francês, Liceu Camões.
A bela e simples viagem ao longo da vida deste homem cujo olhar tem produzido excepcionais percepções do mundo, felizmente «aprisionadas» na fotografia, é-nos dada pelo texto exacto de CFA. Ali ficamos a saber que Nozolino, descendente de portugueses, tem italianos na sua genealogia, e houve também piratas genoveses que faziam tráfico de escravos para Cabo Verde O avô era de Cabo Verde. Era militar. Tenho sangue italiano, sangue negro, sangue judeu»
«Ouvia música. Dylan. Quando ouvi "Like a Rolling Stone" (tinha uns 10 anos) foi um choque brutal.» Nozolino fala da voz de Dylan, o som mono, um som fabuloso. Diz que ouviu aquilo sem saber como se chamava. Depois dessa primeira vez, só encontrou essa referência três anos depois. Era uma descoberta marcante. Em redor, naquele tempo, havia pouca informação sobre todas essas coisas, literatura, poesia, artes plásticas, cinema. Tudo tão pouco que não podia ser só isso.
«Política? Era tabu em casa. Só sabia que não queria estar na Mocidade. Tinha um grande amigo no liceu Camões, o único que parecia interessado nas coisas de que eu gostava.»
CFA: e a ameaça do serviço militar? A guerra de África?
«Apanhei um período de grande turbulência e mal-estar com a minha vida em Lisboa. Como é que se pode ver o "Easy Rider" no Império e vir para a rua e ver a Fonte Luminosa? Eu queria aquela estrada. Sair.» Paulo Nozolino confessa que começou a beber e decidiu estudar pintura, fazendo um curso rápido nas Belas Artes. Mas é então que escolhe a fotografia. Uma namorada fotografada com a primeira máquina. Um corte na relação dela. Acabou por perdê-la na Almirante Reis. Nunca mais a viu. Não estava tudo perdido. «Não se perder tudo, pode guardar-se alguma coisa do que se viveu. Não estava tudo perdido.»
Londres?
«Eu queria sair daqui. Quanto antes. O meu pai ajudou-me muito. No London College of Printing aprendia-se tudo, desde as artes gráficas à impressão. Apesar das ajudas, sobreviver fez de mim porteiro de noite, "sex shops», imensas coisas, andam por aí. Mas acho que sim, que foram os melhores anos.»
Partilha casa com Sic Vicious.
Paulo Nozolino numa experiência terminal. O grupo. Ambiente insalubre. Era um squat. Mudavam de um lado para o outro. Partiam objectos de casas abandonadas em King's Road, mesas e cadeiras, para alimentar a sua própria lareira. Paulo declara que nunca fotografou esse espaço inominável. A droga segurava as pontas. E a primeira máquina que teve, a sério, foi uma Nikon.
«Na escola aprendi coisas técnicas e nas galerias aprendi o resto. A fotografia americana encheu os olhos e a mente de muitos de nós. Mas pensei em coisas diferentes. E entretanto a fotografia imperava, os meios americanos também. Abundavam os estímulos e as contradições de gosto.»
Apesar da importante tradição inglesa, das modalidades praticadas pelos americanos, além do fotojornalismo, a verdade, reconhece Nozolino que nessa altura - «Eu não sabia o que queria fotografar. Nos primeiros cinco anos andei à deriva. Muitas horas de câmara escura. A realidade não existe, o que existe é o que fica no filme». (aqui devia haver um link para o Blow-Up). «Da nota à frase final, o mais importante é a edição. Não queria que ficassem coisas que já tinha visto. E queria coisas que fossem um bocado eu, ou mesmo muito eu».
CFA, a fotografia como espelho?
«Sempre achei que a fotografia é muito pessoal. Na escola era empurrado para coisas concretas. Jornalismo, moda, publicidade.» Era como uma recruta em que a mínima ordem se tem de cumprir. Mas quem se prepara como um soldado ganha alguma coisa com isso.
«O McCullin regressou sempre à guerra. Até poder. Agora fotografa paisagem. Fico arrepiado
quando penso nele e no seu carisma. Ainda me passou pela cabeça ir para o Vietnam».
CFA, Tens vivido em movimento, mas a fotografia tem, em ti, uma qualidade de quietação inquietante. Mas não pode haver silêncio. E como se recusa, entre as explosões que nos cercam, o movimento?
«Isso já tinha sido tão bem feito pelo Cartier-Bresson. O instante decisivo. Eu queria um anti-instante decisivo. O momento da contemplação. (...) O movimento que nos atira ao contrário do real, obriga-nos a desejar, até ao desespero, parar e contemplar. Compreendi que havia coisas que não podiam ser fotografadas em movimento». Ele diz: é preciso sentar no passeio, pousar as máquinas e ficar a olhar para a mesma coisa durante meia hora. A contemplação. A mobilidade de que me falam é outra coisa: é saber que isto está aqui e estará aqui para sempre.»

fotografia de Rocha de Sousa

Aqui, e antes de tudo, preciso pedir desculpa por assumir esta partilha, na semelhança e na diferença. Nozolino é um fotógrafo altamente reportado, experimentado, e que se deslocou por esse inquietante território a que se chama internacionalidade. Eu sou um professor universitário aposentado, crente no valor do esforço e da prática multidisciplinar. A pintura seca depressa e imobiliza-se, mas pode ficar com indícios de uma decisiva e descobridora mobilidade visual. Trata-se de uma arte absorvente e que o século XX desmultiplicou, recriou, dividiu em breves e grandes certezas. Mas isto não faz com que rejeitemos a coisa pressentida, um rosto que passa por nós à janela de um autocarro e sobre o qual logo ficamos cientes da sua perda para sempre. Há fotógrafos que são caçadores desse instante suspenso ou do que resta dele, desfocado. O mundo é muitas vezes impróprio para a contemplação, mas tornar contemplável um instantâneo daquele rosto são milagres da fotografia e do cinema. Por vezes, na fotografia, o rosto olha-nos, incisivo, e mal percebemos que ele ia em movimento. A mobilidade visual serve-se das artes do espaço e do tempo para conceptualizar o real, para lhe arrancar os ângulos secretos e as impossibilidades da percepção. Que fazia o fotógrafo, em «Blow-Up»? Movia-se silenciosamente como os caçadores que esperam enquadrar uma figura na mira ou os fotógrafos tornar eterno um instante, reabrir as formas avassaladoras e justamente pela edição. A provável descoberta do fotógrafo no filme de Antonioni tem a ver com a desmontagem do real para o contemplar, entre partes, o que nunca vemos com os olhos. O espelho é um breve engano. O cachimbo de Magritte é a declaração peremptória de que o real é impossível, ou melhor, é sempre mais, é sempre outra coisa, escapa-nos perante a obliquidade das distâncias.

fotografia de Rocha de Sousa

Oiçamos de novo Paulo Nozolino:
Tudo é perecível, a coisa e a imagem, a pessoa e o suporte. Não fases fotografia digital?
«Não existe. Justamente, existe a contemplação e haver uma prova de contactos, com 36 fotografias que contam uma história, eu andei aqui, dobrei esta esquina, almocei aqui, dormi aqui, isso fica.»

Controvérsia pode gerar linhas divergentes, paralelas, cruzadas, sobrepostas. Nesse caso, uma delas é invisível, deixa de existir. Mas a linha recta, precisa, ao longo do papel, pode ser uma figura contemplável ou a fortuita aparência de algo que esconde o próprio tempo. A menos que nos movamos para a esquerda e para a direita, encontrando todas as linhas anteriores. Esse tempo cinematográfico, gráfico também, não se gera por completo no olho nem na objectiva da câmara fotográfica: é um conhecimento, através da mobilidade visual, dos equívocos da percepção e da representação. A alma de uma fotografia (um retrato, por exemplo) ressuscita de memórias anteriores, pode revelar dinâmicas ou colocar-nos a olhar para o fundo dela. Foi assim que descobri o ser dos meus pais num retrato institucional de família. Desse quase impen
sável resgate resultou um livro: «Talvez Imagens e Gente de um Inquieto Acontecer» Essa também é uma forma de ultrapassar o perecível e alcançar no futuro um testemunho da verdade.

fotografia de Rocha de Sousa

Os restos de um registo centenário são, apesar de tudo, uma permanência. E a mudança de enquadramento de uma mesma coisa, torna-a outra, sendo esse um dos pontos base da mobilidade visual. A fotografia que vemos aqui já esteve na nossa retina de outro modo. E parecia diferente ou mesmo outra coisa. As nossas bases para esta relação com o real são um ponto essencial da nossa formação, do nosso saber e do nosso ser. Os pontos que assinalam olhares nossos por esse espaço fora são muitas coisas. Um gesto. O amor na memória. A casa onde vivemos é uma base indispensável à nossa estabilidade mental: viajamos até ao Oriente e, quando voltamos, a casa é como um ser vivo e comovente, sentamo-nos e (eventualmente) choramos. Nozolino conta a sua experiência em Berlim. «Há lugares no nosso trajecto pelas coisa que nos deixam feridos. A descoberta do Holocausto levou-me para trás. É então que se compreende o que significa essa coisa terrível de invadir, ocupar, matar pessoas, conquistar. Arrumar tais realidades, ultrapassar o horror que deixaram entre nós, essa é uma tarefa importante da literatura.» Com ela e o cinema, Tarkovski faz-nos ouvir os poemas do pai. É isso a vida. «A verdade é o modo como eu interpreto o mundo. Essa experiência é essencial, o nosso sofrimento, a vida». _______________________________________________

Este post decorre da entrevista assinalada acima, da acutilância de Clara Ferreira Alves e das próprias experiências do autor na pintura, literatura, cinema e acção docente. Só conheci Paulo Nosolino muito tarde, mas as nossas vidas, diferentes, foram contudo paralelas no tempo, no espaço, em certos padecimentos da alma, na espera, enfim, de não ser preciso desfechar um tiro na cabeça.

RSousa

quinta-feira, janeiro 06, 2011

LONGA TRAVESSIA ENTRE A MORTE E A VIDA

fotogramas de NOSTALGIA, de Andrei Tarkovsky

Estas duas imagens pertencem a dois instantes do longo e belíssimo travelling do filme NOSTALGIA, de Andrei Tarkovsky, num lugar vazio de banhos, lugar que o autor transfigura para uma sequência quase ritual ou litúrgica, a prece por alguém, a promessa de alguém, terrível travessia sobre pedras, restos de água, detritos de lata, na condição processional que é, só por si, e também, figuração do sacrifício e da esperança que a chama de uma vela transportada pelo personagem se mantenha contra a brisa do tempo indefinido. Duas vezes a chama se apaga, três vezes o penitente recomeça. Ele ainda nos explica, com os dedos, que à terceira é de vez, superstição das pessoas, propiciação da esperança e da perpetuidade do fogo em partilha com a água.
Num silêncio nem absoluto nem puro, o homem mostra-se o grande inventor de todos os ritos e todos os mitos, com os quais procura exprimir-se para melhor se conhecer. A grandeza desta cena de Tarkovsky é, só por si, um filme completo, talvez a história de um Sísifo triunfador, exactamente quando consegue atravessar todo o espaço inominável, sempre com a chama acesa, numa delicadeza difícil de sustentar, e cujo sentido ontológico nos vem declarar a permanência dos elementos vitais, o fogo e a água.
É porventura trágico viver-se numa época em que o objectivo deste inabalável discurso da travessia entre a morte e a vida, um renascer construído com tal metáfora, não voltará a ter equivalente no cinema de amanhã, aquele que se aproxima, tecnológico e autista, lúdico e impensável, como uma grande onda capaz de engolir cidades inteiras, sem direito a restos, algo que talvez aponte um futuro onde a beleza ensurdecedora das obras de Tarkovsky não passará de património arqueológico, devoradoramente investigado por alguns sábios cujo interesse reside, com efeito, em demonstrar que o Homem do século XX já era um ser pensante, para o qual a filosofia vogava nas palavras e nas imagens, apenas tornando visível a profundidade confusa de todos os genocídios. Os cientistas que procuram o passado e as suas grandezas, talvez antecipações do futuro, indicações da morte irrevogável, saberão concluir que nunca mais haverá as "Grécias" de um tempo restrito, o silêncio significante de NOSTALGIA, porque se terão fechado as fábricas onde o pão se fazia contra o silêncio, à superfície e no abandono. A verdadeira performance do homem não está em Deus, está, como Tarkovsky nos mostra, nele mesmo, pela Arte. Toda a transparência do ser está na singeleza ímpar deste rito, feito para lá do vazio, sempre através da água e do fogo, que muito poucos meditarão com esta exacta grandeza, daqui a cem anos, já sem arte nem sonhos, apenas de frente para a orgia espectacular, no crepúsculo da imagem do fogo bruxuleante e no pântano onde a água desaparece. Será um tempo em que, inexplicavelmente, cada vez mais, milhares de pássaros caiem do céu, sem razão nem ruído.

foto de Rocha de Sousa

segunda-feira, dezembro 20, 2010

DECIDIR O LIMITE TERMINAL DO SOFRIMENTO

foto de rocha de sousa

A questão da vida é questão da morte. Só a morte significa a vida. Albert Camus, em O MITO DE SÍSIFO, escreve: «Só há um problema filosófico. o suicídio.» Se estivermos perante um suicídio por nada, só porque sim, porque basta, mais nos interrogamos sobre o sentido da vida. E muito dificilmente aceitamos que o sentido da vida é ela não ter sentido nenhum. Que o próprio homem pode decidir contra a vontade de Deus. Pode pensar: estou em sofrimento e não sei porquê nem para quê. O absurdo desse sofrimento pode iluminar-se com as minhas próprias mãos, pelo livre arbítrio, através da porta de um suicídio dignificante. O problema de decidir sobre a morte, dignifica a indignidade de um sofrimento sem fim, como o de Prometeu agrilhoado, é um problema que respeita à consciência e ao poder que Deus nos legou. A eutanásia, como forma de superar uma dor ignóbil, o prolongamento de uma falsa vida vegetativa, atravessada por breves instantes de consciência no horror da total dissolução da carne, é verdade iluminada, é escolha do limite no limite, é o acto supremo da solidariedade. Só as situações extremas, tantas vezes ilustradas pela guerra, podem explicar o apelo o apelo à morte ajudada. Há situações de combate em que uma baixa súbita, completa, coexiste com a baixa por ferimento não imediatamente mortal mas sem a menor possibilidade de retorno: coloca-se um garrote na perna esfacellada e o que resta dela morre em poucos minutos, fora da consciência. Ao longo de uma hora, o garrote já não trava o fim e há no interior do corpo hemorragias irreversíveis, submetendo o paciente a dores insanáveis, à perda da fala, à proximidade da morte minuto a minuto. Restam dois companheiros com confortam o moribundo, com risco da própria vida e com as comunicações rádio cortadas, incapazes de administrar o tempo e o tempo de aproximação das forças contrárias. O vivo quase morto atravessa um brevíssimo instante de consciência e exprime aos outros, com os olhos, que lhe cerrem as pálpebras. Carregados de ideias feitas, a força inibitória de certos lugares comuns, ainda hesitam muito tempo. Há duas opções neste caso anti-natura: eles acaam com o sopro de vida do companheiro claramente condenado ou eles esperam, procurando perceber se o companheiro já morreu ou ainda não, dúvida que os mata aos três com o rebentamento de um morteiro ali mesmo, dentro desta mistificação da vida, do heroísmo, em pleno espaço do absurdo. Em muitas situações em que o dilema se coloca, em casa, nos hospitais, na solidão, a eutanásia tem o sentido da bem-aventurança dignificante. Quando alguém se encarniça sobre um semi-morto, administrando-lhe fluidos de efeito curto, não eternizável nem curador, esse alguém renega a força da razão e o sentido da medida, do tempo, do limite moral