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quinta-feira, março 15, 2012

LANÇAMENTO DE «LÍRICA DO DESASSOSSEGO»


PÓRTICO


Ainda se lê muitas vezes, em prefácios de certas obras, a propósito texto, história, aparente correspondência de factos, a seguinte nota: qualquer semelhança entre a realidade e esta obra é pura coincidência.


Eis o que acontece com o livro «Lírica do desassossego». Para muitos, contudo, nestes e noutros casos, a coincidência, citada de tal forma, não passa de um aviso furtivo, encobrimento de diferentes veracidades. Há quem a entenda, por exemplo, como previdência cautelar, antecipação da desculpa ou alteração decisiva da cor de um novelo que se desenrola sem montagem.

«Lírica do desassossego», assegura o autor, coincide no título e na crise de um vídeo que realizou, há largos anos, com alguém que estava de passagem por Lisboa. E acrescenta, por sua vez, que a coincidência dos títulos das duas obras é sobretudo um modo de registar de igual maneira um romance e um filme, apesar da diferença de conteúdos formais. Haveria problema se o filme estivesse publicado e pertencesse a outro autor.


Rocha de Sousa tem insistido numa espécie de paradoxo a propósito de alguns dos seus trabalhos, procurando tornar clara a ideia, para a mesma peça, da diferença na semelhança. De facto, no caso do filme, convivemos com uma situação residual da memória a despertar, na personagem, um comportamento paroxístico cuja fase inicial se enovela, em semelhança, com uma espécie de performance alucinatória em que as imagens resgatadas da memória vêm ganhar semelhança na cena em que a mulher voyeurista acaba por cortar com grande esforço o cabo que a envolve.


No livro, a personagem é acompanhada desde a adolescência, mostrando-se desenquadrada em muitas situações, pacífica noutras, insinuante ou caprichosa ainda, como se o seu meio não fosse mais do que uma porta de entrada para espaços de devaneio, desce cedo de natureza erótica e sexual, uma ideia transgressiva e inconsequente da pintura. Ela casa cedo e é breve no desempenho. Volta a casar, traindo as normas das festas e delírios. Os folhos quase não existem. O seu cordão umbilical não é transformado em corda mas em auto-sequestros e libertações durante viagens. Após o último casamento, ou união de facto, assistimos ao desmoronamento desta mulher, de África para Portugal, entregue ao zelo contingente de outros homens, presa do álcool e de uma inteligência que descobria o impossível e nada propunha para realizar. A solidão vem desvendar essa mulher na indigência; e, como sempre, invejando e amando os outros, já sem a mini-saia de outrora, afeita a opas lineares nas quais escondia a mutação do corpo e talvez da alma, sempre voltaria a vários vinhos consumíveis. Entidade do mundo contemporâneo, moldada um colonialismo disfarçado, destinada ao luxo e à lassidão, esta figura passando por situações abjectas e entregas surdas, pintando coisas absurdas por e saturadas na cor, vai perder a sua própria história: o que fazer da comida seca, que verdade ainda lhe poderá caber por semelhança a todos os difusos vínculos genealógicos?

Os poços de fealdade nesta vida, confrontada com as seduções actuais, é uma beleza lírica apesar de todo o desassossego.


Sousa Carneiro

domingo, fevereiro 19, 2012

QUEM É ESTA GENTE QUE MORRE ASSIM,TÃO SÓ?


composição fotográfica de Rocha de Sousa

Dantes ninguém morria assim. Mortos de morte solitária, sequestrados em casas onde já sorriram meninos netos e filhas acabadas de casar, ele na fábrica, ela na senhora Rosa, para onde, em seu devido tempo, os filhos recentes tinham lugar acompanhado. Agora, num tempo de abandonos, os velhos mais velhos ficam em casa, os homens enterram as mulheres, ou as mulheres enterram os homens, e ficam umas flores que murcham num instante e partem os parentes de longe e de perto e nunca mais ninguém diz nada, a reforma chega tarde e é cada vez mais pequena. Esta gente que morre tão só e assim, dias e meses sem sopa nem pão, o pó gemendo pelas fendas das janelas. E quanto tempo resistem, sem abrir portas ou janelas, porque têm vergonha do mundo? Vem o sono e descansam do silêncio, já acabou a luz, já acabou a rádio, ninguem arranjou a velha televisão. Deixam roupas pelo chão, sombras de fantasmas no escuro e ficam à espera. Ou caiem para o chão e já não acordam do desmaio. Metem-se na cama, em vigília, a lembrar coisas do tempo das imagens e dos sons e das primaveras. Depois são sombras e a dor no estômago de uma fome. Mas até a água cortaram e para que é que precisam de água para morrer em silêncio, e assim? Os vizinhos, que nunca existem, têm contudo uma espécie de faro; e quando lhe cheira a carne podre, dali ou daqui, lembram-se da velha ou do velho, ela nunca mais abrira a janela, ele deixara de ir ao café da esquina beber o mata-bicho. Então chamam a guarda, apontam as fechadas poeirentas «nunca mais ouvimos rumor». Lá estão os corpos, um deles muito decomposto, moro havia mais de dois anos. É tudo nas vielas de cidades envolventes, em casas parasitadas e velhas cedo demais, como os apartamentos de luxo que as construtoras semeiam, ao acaso, nos lugares dos grandes centros, mal feitas e com lareira, apodrecendo depressa e agora nem sequer compradas, casas a mais, serviço social a menos. Quantos velhos podiam ser acompanhados pelas verbas enormes e absurdas de tais casarões com escadas de marmorite e três casas de banho.
Os velhos não morrem de pé, como as árvores. Os filhos estão longe, emigrados. E já não há força para mudar para a aldeia, para morrer num tempo de pássaros a cantar e de vizinhos entrando e saindo, cozinhando uma sopa, oferecendo uma manta, alumiando a mesa de cabeceira. E tratando do enterro, com a ajuda da Junta de Freguesia.
Afinal, que civilização é esta? Para que serve viver nela, mendigando um lugar ao sol, perdendo o trabalho aos quarenta anos, muita gente tratada por pig, sofrida na distância, abandonada pelos senhores da chamada arquitectura social. Em vez de sopa rala e de centros com almoços de massa, seria melhor que assistissem a morte, tornando-a menos dura e menos longa.
No ano passado, sobretudo nos grandes centros humanos, foram encontrados mais de doze mortos solitários, uns estendidos no chão, outros enrodilhados na cama, como se fossem nascer.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

OLHAR, PERCEPCIONAR E REINVENTAR O VISÍVEL

reinventado por Rocha de Sousa

Habitualmente maquinal, indagando em acaso e decisão, o nosso olhar serve por vezes de forma capciosa o processo da percepção visual. Passos em volta, coisas rodando, paredes e janelas graves de muita vida, tudo isso pertence à «dança» da nossa mobilidade visual, algo que nos é inerente e que deveria ser atentamente considerado desde os primeiros anos de escola. Porque, em boa verdade, os governos têm dado pouca atenção a esta disciplina (Educação Visual) e até já a misturaram com a tecnologia (Educação Visual e Tecnológica) ao sabor dos ilusionismos de dois professores. Perante a miopia ou cegueira cultural dos governos, realidade que sempre atrasou decisões de fundo sobre as artes e o ensino para elas, só agora há, em Portugal, Ensino Artístico Universitário. Ora começa a ser evidente que há mais ver para além da Alemanha e da crise financeira da Europa. A vida não é feita de dinheiro: o dinheiro é uma invenção prática e acabou deificado e usado em termos altamente complexos e falaciosos. Quando não havia dinheiro já havia vida. E até vida inteligente, sabedoria do olhar e do ver, mesmo que instrumentalmente tudo fosse elementar. O que os homens primitivos pintaram em tectos de cavernas onde se recolhiam é um milagre da visão e da inteligência expressiva. Por isso nunca deixei de me sentir desconfortável quando gente dos governos afirmava que essa coisa das belas artes não servia para nada. E diziam eles, logo após 74, que o país estava em revolução, em mudança, havia outras prioridades que nada deviam à cultura, muito menos à educação visual e artística. Eram provisórios, os governos, ficaram sempre provisórios na História, mas a sabedoria que a Arte introduz no ser e no processo civilizacional continuou a acontecer e Portugal não é hoje muito deficitário nesse campo. Fazem mal os lobies, o tráfico de influências, os transgénicos da arte internacional, súbitos, enormes, imperdíveis. Os artistas não devem deixar-se institucionalizar, mas têm pleno direito a emprestar a sua visão mutável das coisas aos engenheiros civis, aos matemáticos, aos feitores de arrecadações e até aos homens, todos, daquela justiça parda que nos injustifica no seu próprio pântano. Não basta dar ao pobre a cana para pescar. E se ele não sabe trabalhar com a cana, fio, carreto, isco, essas coisas lindas na paisagem? É preciso dar os meios e ensinar a usá-los com eficácia e sem ganância. Por isso é que a Educação Visual (que já teve a sua moda, como os pedagogos e os psicólogos da morte) tem de ser retomada em si e num adequado caldo de cultura. Não se trata apenas de ensinar a ver para se copiar o que se vê. Isso é quase nada. A Educação visual é transversal a todas as outras disciplinas: porque a matemática tem que ter, antes de tudo, uma aprendizagem específica do ver, números, símbolos, linhas, concordâncias com o real, relação com os objectos comuns, lápis e canetas, tintas e cores, electrónica e formas em redor, cadeiras, mesas, património secular e de hoje, ruínas, paisagens, a vida de tudo isso e dos bichos igualmente. Saber processar as máquinas automáticas. Saber ver os códigos e manejá-los através dos iscos que os reorganizam. Nunca ensinaram uma velhinha a levantar dinheiro no multibanco? Sabem porque é que ela, que sabe ler, não sabe usar o multibanco? Porque, embora saiba fazer crochet e fritar peixe, coisas que se baseiam em olhares específicos e percepções que passam pela visão, pelo gosto e pelo cheiro, ela não acompanhou os usos da visão no quotidiano actual. Há um mar de coisas a dizer sobre estas coisas.
Estas considerações talvez fossem dispensáveis. Vá directo ao assunto. Mas a verdade é que não há caminhos directos para os assuntos. A nossa vida corre numa rede complexa de sustentações físicas e psicológicas, pensantes e inventivas.
Emblemática do que fui dizendo é a imagem aqui publicada. Eu próprio, à distância, julguei que fosse uma obra menos conhecida do Rauschenberg. Olha-se e não se percebe logo. Olha-se e julga-se primeiro o espectáculo, o valor plástico das formas ruidosas, imitação vertebrada de uma qualquer ruína, paisagem sem horizonte, abstracção do mundo em decadência.
Mas basta olhar, percepcionar e reinventar o visível: dar à imagem o nome de um interior de certa casa que um dia foi desfeita, sobrando o reverso de uma parede. É o que lá está. Mas é o que lá está se nós quisermos. Todos nós somos os reinventores do mundo e do visível.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

A TRAGÉDIA DE MANUEL DE SOUSA SEPÚLVEDA


O São João era comandado por D. Manuel de Sousa Sepúlveda, nobre fidalgo, bom cavaleiro, bom amigo a amparar os necessitados. O galeão vinha da Índia e nele viajavam também D. Leonor, esposa de Manuel de Sousa, dois filhos ainda pequenos e mais um, bastardo. A bordo seguiam também os fidalgos Pantaleão de Sá (cunhado do comandante), Tristão de Sousa, Diogo Mendes Dourado de Setúbal e Amador de Sousa. Entre os embarcados contavam-se ainda soldados de torna-viagem, o mestre, o contramestre e o piloto da nave, carpinteiros, calafates e guardiães, mulheres, aias e crianças, para além de muitos marinheiros e dos escravos em maior número. A partida verificou.se a 3 de Fevereiro de 1552, data já tardia para melhor navegação.
Por causa dos ventos ponteiros e das ruins velas que traziam, só tarde avistaram o Cabo da Boa Esperança. Manuel de Sousa pediu ao piloto, André Vaz, que se aproximasse mais de terra. A manobra foi cumprida e a perdição parecia anunciada. Foram apanhados por ventos instáveis, muito rudes, e o capitão, conferenciando com o mestre e o piloto, decide, pelos pareceres dados, seguir o conselho de arribar. Tudo se complicou, sem tempo de agir contra, a tempestade soprou furiosa, rasgando e levando velas enquanto uma vaga quebrou o leme apodrecido. Foram tomadas todas as disposições e tarefas, com as madeiras existentes a bordo procuraram fazer um novo leme. E de alguma roupa que traziam nas mercadorias tentaram remendar velas, no maior dos empenhos em chegar a Moçambique. Mas o mastro da proa estava abrindo a nau.
No dia 8 de Junho a ventania, implacável, e também a correnteza, começaram a empurrar para terra a nau já meio desgovernada, aberta e metendo água. Através de uma manchua, remadores exploram a costa e voltam para avisar da existência de uma única praia. Na deriva, quando o galeão passou em frente da praia indicada, foi lançada a âncora e baixado um batel.
Quando o vento amainou, Manuel de Sousa pediu ao mestre e ao piloto que colocassem em terra, juntamente com a sua mulher e filhos e mais vinte homens, o que foi realizado, varando as ondas e alcançando por fim a praia. Esta operação e outras mais acabaram, na réplica, por ser desmanteladas em consequência de um recrudescimento brutal dos ventos e tempestade, perdendo-se outras manchuas e com elas os marinheiros. A nau corre perigo de ser arrastada para o pego e André Vaz embarca gente num batel, salvando quarenta pessoas. Mas a confusão e os destroços lavravam tudo, arrastando náufragos e coisas e meios logísticos. Nesse meio tempo, andava Manuel de Sousa a correr pela praia, a acudir aos náufragos e a encaminhá-los para junto de uma grande fogueira que acendera, tendo em conta o muito frio próprio das terras do Natal.
Quatro horas depois, e a despeito de muitos salvados, o galeão estava desfeito e dele o mar devolvia apenas os destroços.
Tudo é feito então para manter a sobrevivência e planear os meios de arrancar em direcção a Moçambique. Era preciso ficar ali, no entanto, alguns dias. Há cafres vigiando de longe e mais tarde alguns deles aparecem por perto no intuito de trocar uma vaca por pregos. Entre eles, à distância, a recusa instala-se e acaba por gorar a troca.
Manuel de Sousa exorta os homens, pede que não o desamparem, e propõe a marcha pela costa até alcançarem o rio da aguada da Boa Paz, em direcção a Lourenço Marques.
A caminhada, durante cerca de 180 milhas, foi um grande gesto e uma terrível tragédia. Escaramuças com grupos de cafres tornam tudo mais difícil, bem como o achamento e troca de mantimentos. Portugueses e escravos, muitos eram os que morriam, por exaustão, grupos arrastados e perdendo-se, vitimados pelas feras. O filho bastardo de Manuel de Sousa também se perde, vinha às costas de um escravo, mas ninguém ousou meter-se pelo matagal e o comandante começa a desgastar-se, do corpo, da alma e do juízo. Durante dois meses e meio, ora aquela gente se metia pelo sertão em busca de comer, ora varavam rios e se fizeram ao longo do mar, subindo e descendo serras, homens e mulheres e crianças perdidos de fome e de sede. Pausas ensandecidas e compra, com dinheiro do comandante, de vasilhas com água a homens que se arriscavam as perigosas buscas. Há muitos que não voltam, talvez mortos pelos cafres e feras em deriva.
Apesar dos favores de um pequeno rei ali encontrado com o seu povo, Manuel de Sousa não acede aos conselhos de marcha, às incertezas apontadas, ameaçando os camaradas com a espada, o que nada tinha a ver com o seu habitual comportamento, compreensivo e bom.
Atacados e perdidos, os homens de Sepúlveda têm de entregar as armas aos cafres, portugueses e cafres apartados por aldeias, até ao mais grave assalto, cafres querendo as roupas. D. Leonor não se deixa despir, não quer sobreviver assim. Mas quando se vê nua, desamparada, atira-se ao
chão, coberta pelos cabelos, e cava uma cova na areia onde se mete até à cintura. Manuel de Sousa, com a mantilha que arranca a uma velha aia cobre D. Leonor. Daí ela nunca mais sairá. Contudo, instado por ela, André Vaz aceita, com alguns homens, rumar na direcção de Moçambique e promete, se tanto conseguir, narrar esta história e alcançar recursos de socorro.

Embora meio destroçado do juízo, Manuel de Sousa ainda cuida de ir ao mato colher frutos para alimentar a esposa e os filhos. Um dia regressa e um dos meninos está morto. Enterra-o. No dia seguinte, ao regressar, encontra morta a sua esposa e o outro filho. Afasta as três escravas que choram sobre o corpo de D.Leonor e senta-se a seu lado. Com o rosto apoiado numa das mãos, sem dizer nada nem chorar, queda-se durante meia hora com os olhos postos na esposa. Depois, com a ajuda das escravas, abre uma cova na areia onde enterra D. Leonor e o filho. Levanta-se, não diz uma palavra, abala, mete-se pelos matagais adentro. Nunca mais ninguém o vê.

Esta narrativa foi colhida, abreviada e adaptada da História Trágico-Marítima, segundo a versão de Fernando Correia da Silva, em memória de uma realidade portuguesa que a bruma dos esquecimentos tem esbatido da nossa cultura. As ilustrações foram feitas digitalmente pelo autor deste blogue.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

DERIVA ENTRE CARTAZES URBANOS, DESDE UM CERTO RUÍDO A ALGUMA PROVA MINIMALISTA







Se começarmos a olhar vulgares cartazes do meio urbano (em cima) sabemos logo que tais obras são comunicação corrente de coisas ou factos acessíveis, em geral, ao nosso reconhecimento. Se mudarmos do olhar para um nível de percepção mais indagador, explorando o ver em consonância com o nosso entendimento da cor e da forma (factores já experimentados através da pintura) a paisagem das formas pode começar a ser trabalhada por norma em sucessivos registos, cortes, reenquadramentos. Esta deriva nesse sentido, de cima para baixo, mostra-nos, a começar, um fragmento de cartaz rasgado sem grande fervor, reenquadrado e aproveitado nas suas maiores potencialidades plásticas, inclusive após uma rotação de 90º. É um começo que abre janelas operativas que nos permitem, pela contracção ou expansão, obter surpreendentes composições, nas quais é possível instaurar mais ou menos informação, insistir no efeito do ruído, tornar o «quadro» menos prolixo, em aproximação a um certo minimalismo de significação em parte guardada, em parte revelada.

sábado, janeiro 07, 2012

MORREU O PINTOR JOSÉ CÂNDIDO, HOMENAGEM

pintor e designer José Cândido

Faleceu hoje, a 7 de JAN de 2012, o pintor e designer José Cãndido, figura de importante perfil nas artes plásticas e no design de comunicação, área em que desenvolveu um trabalho notável, em simbiose com o desenho e a fotografia, não apenas na prática profissional como no âmbito pedagógico, ao assumir a cadeira nuclear da licenciatura em design na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. José Cândido era sobretudo um operador de grande domínio gráfico e de clara inclinação, além da pintura, para o domínio que ajudou a implantar no nosso país (colaborando na reforma artística de 76/79) e onde desenvolveu soluções inovadoras. Combateu, com Rogério Ribeiro, Luis Filipe de Abreu e o autor deste blogue, entre outros, pelo desenvolvimento e actualização do Ensino Superior Artístico, em particular na área do design de comunicação e na sua implementação em Portugal partindo da base «nula» em que nos encontrávamos, mesmo depois do 25 de Abril e contra sucessivos governos em que, nos próprios departamentos do Ministério da Educação, se desconhecia tudo sobre esta disciplina do conhecimento e se combatia mesmo a formação a nível superior de designers, como já acontecera há muito por toda a Europa.




José Cândido abriu, com Rogério Ribeiro, o caminho a um Instituto do Design no país e procurou estudar as questões ligadas ao design e a diversos níveis de formação ou de relação técnica, científica e artística com problemáticas afins. Foi das primeiras pessoas a denunciar os preconceitos que as próprias Escolas de Arte cultivavam, na esteira de uma caduca concepção sobre a natureza da arte, alimentada até longe no século XX (entre nós) e só desfeita com alguns institutos privados e a criação de Faculdades de Belas Artes em Universidades de Lisboa e do Porto, nas quais se articularam licenciaturas do domínio das artes plásticas com as ligadas às disciplinas de índole artístico e científico do design.
Interrogado por Victor de Almeida acerca destas questões considerou fecunda a relação do design com a pintura e a escultura, sobretudo pela metodologia. «O design - disse - tem uma filosofia muito própria. Aliás a minha definição de design passa por ser ele como que a filosofia no projecto. Vem da tomada de consciência até ao utilizador». A consciência do espaço e dos seus objectos. A sabedoria de os projectar adequadamente e de os utilizar de forma idêntica, com propriedade.
José Cândido desenvolveu mais as suas capacidades gráficas, pela escrita do desenho e pelo projecto de design do que o trabalho da sua formação inicial, na pintura. Mas a a sua pintura, ultimamente, tinha vindo a crescer, a renascer, associando em si diversos modos de formar, à luz da cultura contemporânea.
Além do mais, José Cândido era um espírito aberto e tolerante, colega leal e pessoa serena, de bom humor. Nunca me senti iludido pela sua amizade.

terça-feira, janeiro 03, 2012

EM MEMÓRIA DA NATUREZA MORTA ENTRETANTO

pintura digital de rocha de sousa

A natureza morta que entretanto se cultiva é a que lembra muitas das grandes mutações verificadas no século XX ao nível dos meios de exprimir e dos géneros revisitados a partir das épocas passadas. A imagem aqui reproduzida, referente a uma pintura digital de pequenas dimensões, inscreve-se na linha estética da modernidade e no sentido global da arte entretanto produzida, tendo como referente objectos e composição das naturezas mortas que evoluíram pelo século XX. Não se trata de imitar frutos e objectos, entre jogos compositivos sobre uma mesa ornamentada por outros elementos, toalhas, vidros, artefactos de certo quotidiano. Na linha da mobilidade visual em parte instaurada com o cubismo, os artistas daquele tempo revolucionaram as formas tradicionais da pintura sem as negar por completo e criaram novos pontos de vista para a dinâmica das composições. Os tampos das mesas, na natureza morta comum, sofreram diversos tipos de rebatimento, tudo se reconfigurava em função de um olhar movente e até à mistura, no mesmo quadro, de aspectos do visível captados de diferentes olhares.
Aqui há mais do que um rebatimento, tendo em vista projecções no plano horizontal e viragens parciais ou completas de objectos que tanto se podem decifrar em autonomia como assentes no suporte, vistos em plongé, tomados e lado ou colocados sobre a paisagem dos suportes verticais. Penas ou perdiz suspensos à esquerda, ao alto, ou logo caroço de corpo de ave, lembrança da música, bem como as carnes porcinas, à direita. Uma vasilha exposta, panejamentos, as sombras verdes de vários tipos de folhagem, dentro ou fora do domínio da culinária. Não é muito mais do que isto, apesar da surdez tonal e da vida lumínica das coisas em volta de um negro que sobra das várias operações no trato pictórico: pode tratar-se de uma ideia de expansão ou de compressão, o tempo faz suspeitar o movimento.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

CORPOS DESCONHECIDOS DENTRO DA PAISAGEM

pintura digital sobre papel | Rocha de Sousa

Não há diabo que chegue às paredes de pedra desta paisagem nem mestres do espaço que saibam como chegar bem perto dos montes, estes corpos sem nome. Então como se olha para uma pintura assim e se desenrola as suas aparências na complexidade do ver? Muitas vezes, no sonho da consciência, o apropriação de cada olhar tende a não desaparecer da mobilidade envolvente, tende a fixar-se na percepção visual, coisificando ou corporizando a imagem vista. É por isso que obras como esta, pintadas ao computador, e parecendo integralmente peças de cavalete, sobre tela, nos convocam para estranhas viagens no subconsciente, puxando fios e trajectos estranhos, atravessando duas dimensões para o domínio da perspectiva, para a distância impossível que desafia os nossos passos, o tempo, a distância sem marcas, apesar das duas partes que nos avisam de um céu terroso, com nuvens de pedra, e montes em baixo, talvez menhires, talvez afinal um sopro de certa gente de outrora, modelações empíricas como na Ilha da Páscoa ou aproximações megalíticas, de grande escala, aos deuses obscuros que povoavam um céu rastejante e pousavam por ali, devagar, ao jeito dos gigantescos mamíferos alados do tempo em que o homem ainda rastejava numa procura incerta da sobrevivência. Um dia chegou a dominar o território, esta estranha simulação de montanhas, expressão ou arte de alguém anterior ao próprio tempo após o primeiro glaciar, chuvas diluvianas a modelar rochas e lamas, lodos e lagos com margens curvas, máquinas de ninguém atravessando o céu por cima da rocha enfim modelada, musgos surgindo, a brisa e a luz dourada, depois a sombra e uma noite meio castanha, blocos rolando e tombando como velhos balões rasgados e cada vez mais amolecidos antes de atingirem o chão com um fragor explosivo, factos de outras visitas os planetas no acaso de trajectórias impensáveis. Esperem, monstros amigos, pelas máquinas: faltam milhões de anos para elas atravessarem as montanhas com túneis rangentes. Esse será o tempo cego das civilizações, ou aquelas que moviam pedras de 14 toneladas pelo encantamento de um simples dedo, erguendo pirâmides avassaladoras, ou as que se faziam entre guerras imensas, que tudo devastavam em largos espaços onde a vida acabaria convertida à grave pausa dos mais remotos insectos.

domingo, outubro 23, 2011

UMA EUROPA SEM GUERNICA NEM SENTIMENTO


nem Guernica nem sentimento | Rocha de Sousa

Não, de facto este desenho não se inspirou na Guernica, de Picasso, mas também não foi pensado num total esquecimento dela. A povoação que ajudou a gerar aquela famosa pintura sofreu um ataque brutal, em formação geométrica, pela força aérea da Alemanha de então, a Lufthansa, tendo ficado arrasada. Uma tal tragédia ocorreu sob o signo do treino e da geometria da quadrícula. Nada restou. Ou melhor: restou a memória da vida anterior e do próprio silêncio de gemidos ao fim do bombardeamento, os destroços, os rostos devastados. Seja como for, e depois da guerra que Hitler perdeu às mãos dos Aliados, num farrapo de doença e teimosia, porventura suicidando-se, a Alemanha, ajudada pelos próprios recém-inimigos, lambeu metodicamente as suas feridas e logrou reconstruir o seu corpo e organizar o seu território. A despeito do muro, o Muro de Berlim, que a União Soviética, descontente com a brandura e o poder do Ocidente, ergueu naquela cidade, atravessando-a com a mais simbólica das fronteiras, a fronteira intransponível, dois blocos gigantescos e adversos. Assim fraccionada, Berlim ofuscou as mentes do desenvolvimento e do consumo, a Ocidente, e tornou-se escassa e dominada a Oriente era aí chamada República Democrática Alemã, ironia das palavras, metamorfose dos conceitos, talvez dos princípios, determinação dos russos. E assim o mundo foi vivendo, de um lado e do outro, num medo paranoico à medida que ambos os blocos se municiavam de bombas atómicas e mísseis intercontinentais. Ninguém, afinal, era capaz de minimizar Hiroshima e Nagasaki.
O século XX foi a época em que tudo isso aconteceu e em que os países se organizaram como democracias, sob o chapéu capitalista e a social-democracia, vivendo, em todo o caso, risonhas esperanças de futuro: assim, uma reconstruída Alemanha acabou por absorver a RDA, integrando-a e reunificando-se. Aconteceu depois a queda do Muro de Berlim (durante a Perestroika) e a Alemanha intensificou decisivamente a sua influência a todo o espaço do continente.
As crises do crescimento, embora encobertas ou disfarçadas, foram absorvendo a melodia doce daquela Primavera que até a Portugal chegou. Acabara a guerra colonial e o triunfo do 25 de Abril de 74 abriu o país ao manejamento dos Estados Unidos da América e da própria Europa, sobretudo quando se criou a ideia da união nesse último espaço, outrora tão torturado, império falhado no projecto de Hitler, e se instituíu outra força, uma força monetária, a moeda euro, extensível progressivamente a toda a Europa. Os grandes organismos institucionais, Parlamento Europeu, Comissão, entre outros, tudo foi posto a funcionar com um febril pragmatismo de medidas e reorganização das próprias configurações produtivas dos países aderentes. Portugal empolgou-se e lá foi arrecadar os euros dos subsídios compensatórios, tendo, nessa mesma linha, perdido sectores tradicionais e tão importantes como parte das pescas, quase toda a agricultura, muita indústria que afinal nos completava em definição.
Não está de boa saúde, esta Europa a que pertencemos, com euro e tudo. Apesar das boas esperanças de Jacques Delors, o prosseguimento do novo, grande poder, alinhado pela globalização, suas virtudes e seus defeitos, não se consolidou no século XXI com a devida consistência, solidariedade e plural sentido de coesão. Uma crise financeira internacional, com génese numa derrocada no interior do capitalismo americano, encheu o tal mundo global de vários tsunamis. Os países que se tinham endividado na base de confiança que a a União Europeia parecia suscitar, bem depressa se viram cercados por avisos à navegação e medidas ou ameaças de derrocada. Portugal ensandeceu. No meio do oceano agitado, e com a queda de países como a Irlanda e a Grécia, Potugal, já ensandecido, continuou a viver na ilusão libertária do país das maravilhas, enchendo-se de casas, iates, carros de alta cilindrada, autoestradas em detrimento da via férrea, camiões Tir fumegando como lagartas de sul a norte, ao largo do mar salgado que nos defendera de tanta escassez e menoridade territorial. Os partidos políticos ainda não passaram da fase de aprendizagem da democracia e enchem o parlamento de gritaria e diversos tipos de insulto: estar na oposição é estar cegamente contra, estar no poder é ter cegamente razão. Tendo pedido a ajuda do FMI, uma, duas, três vezes, o país acabou agrilhoado à mais feroz das austeridades, método (dizem os entendidos) que permitirá equilibrar as finanças e relançar a economia. A Grécia, em pior situação, encheu-se de conflitualidades de rua, e os grandes da Europa (Alemanha e França, cujas dívidas iniciais foram engolidas) desataram a descrever ameaças de expulsão do euro, embora alguma parte dos parlamentares de Bruxelas se inclinassem para medidas estruturais e de fundo, capazes de reverem em parte os tratados, redimensionando as dívidas soberanas, reforçando um fundo de ajuda e meios de recapitalização do enviesado sistema bancário. Isto estava ontem na forja, depois de um namoro tempestuoso de Sarkozy e Angela Merkel, sempre feito de reuniões a dois e decisões de fundo, absurdas, sem consulta nem do Parlamento Europeu nem da Comissão. Merkel passeia em todos os cenários dessa Utopia enquanto Delors sorri com amargura. Portugal, primeiro tratado como lixo periférico, ganhou alguns pontos com a execução do Orçamento de Estado, com a resposta ao Memorando da Troika (FMI), recbendo alguns elogios. Elogios que o vento leva depressa. Elogios que soçobram ao azedume de Merkel que insiste em cacarejar pela necessidade imperiosa de punir todos os que prevariquem na dívida e na escassa resposta aos problemas entretanto criados. A Alemanha, que beneficiou de fundos internacionais para renascer da derrota na Última Grande Guerra, parece estar longe de ter uma visão abrangente e dinâmica da Europa, atropelando muita gente com a resistência que a França e outros copiam. Se a reunião dos G-20, na próxima quarta feira, não tiver proveitos determinantes, o euro entra na sombra e os tais países periféricos têm a miséria pela frente. Mas os males podem ser maiores e a agressividade dos desprotegidos, afundados pelos novos impérios, lentos impérios, pode acentuar-se. Que a Alemanha não beba a cicuta dessa taça e aceite que as culturas convivam, que a história seja possível, que a dignidade seja reconhecida aos humildes. Acabaram as Vanitas. As imagens emergentes são outras, bem as vimos em Atenas, Roma, Madrid e em mil cidades, num só dia, por todo o mundo.


sábado, outubro 15, 2011

OBRA LITERÁRIA E PLÁSTICA DADA EM LIVRO


AS COISAS

E AS PALAVRAS

autores
rocha de sousa
maria João gamito


Voltemos a Sísifo. É difícil fechar os olhos e decidir morrer. A lâmpada da Guernica continua acesa no tecto do mundo. E entre as pedras todas, amontoadas, sem que algumas delas nos pertençam por destino, há sempre o fragmento paradoxal do recomeço, o detalhe e o apelo que conduzem à escolha. Um resto de memória. A simulação da permanência.
Sísifo seremos nós, à espera da palavra?

Há a encosta, a planície, breves dunas, e a praia deserta. Viajando entre a espuma esponjosa da maré e do declive das areias além, olha-se na perpendicular, na direcção das nossas próprias marcas, e o que vemos são coisas. Estão ali desde o início do mundo, sem deuses nem homens, à espera de um rosto, de um nome. Ou da imagem da imagem delas (coisa sobre coisa) para que a palavra lhes dê sentido e as faça destino recomeço substantivado, ficção pelas memórias, o visível e o dizível inventando-se como amanhãs possíveis.

Esta exposição começa com uma escolha «ao acaso» e o encontro pensante (mas consciente de Sísifo) de duas pessoas diferentes, cujo trabalho por vezes reúne e as obriga à «semelhança» das conclusões. É um facto trivial, quotidiano, sem mistério nenhum, mas dificilmente determinável na assinatura individualista dos objectos/projectos que os operadores da cultura nos propõem à meditação e à posse.
Perante coisas sem nome tudo o que parte da planície chega ao cume do continente para regressar ao anonimato põe-se o problema da nomeação feita e partilhada colectivamente. As coisas, enquanto aparência absurda, desafiam a paixão solitária: na invenção de riscos, de símbolos gráficos, de símbolos fonéticos, princípio estrutural de quem somos no centro de um mundo que obviamente nos excede.
De facto, ao artista não basta a descoberta solitária. Há sempre um dia em que ele se interroga com os outros homens: «Estas são as minhas palavras. Quais são as palavras dos outros?» A meio da encosta, entre dois recomeços, a solidão pensa-se assim em termos de solidariedade e a aventura de cada nomeação, embora mais difícil, torna-se mais fecunda. A urgência da fala passa pela soma do esforço em conjunto (hoje sobretudo): trata-se de saber o valor das individualidades na consonância possível das reflexões, a par dos individualismos trágicos que a História nos aponta (esplendorosamente) após cada recomeço na ficção do futuro.

Que importa quem escreveu as imagens e quem desenhou os textos? É preciso dar o exemplo da humildade no acto de partilhar as memórias como o corpo de ficção. Eis o que se tenta aqui, através de um esforço de conjunto provavelmente pouco experimentado num espaço social onde, à escassez do risco e da convivência serena, se contrapõem rótulos e vulgares equívocos. Quando se pensa em conjunto, moderando para uma área comum (de nitidez) o apetite individual por afirmações definitivas, chega-se sempre a uma escolha nova. E é então que se entende melhor como nenhuma escolha é de «acaso»; ou que as coisas nomeadas, partindo da descoberta de um único objecto, se multiplicam em ferro, madeira, calcário, desertos e barcos, casas e cidades outra vez o lugar das marés, retorno por fim assumido como acto poético e não como derrota de solidões indizíveis.
Portanto ninguém assinará esta introdução: nenum dos dois autores dos objectos todos, nem uma terceira pessoa avalista institucional de méritos alheios. Se a pedra volta, de novo e apenas, para o lugar das marés, é talvez legítimo concluir que as vozes deste discurso, após a conquista de uma consonância ou de uma ideia comum, também têm no oceano da vida lugares próprios, entre a individualidade inalienável e a tarefa universal de Sísifo.

a pedra, entre textos e imagens

1+1

A todo o comprimento da praia, entre brandos rumores de espuma e vozes devolvidas pela falésia, um olhar preso à areia é um longo «travelling» sobre coisas sem valor concreto de uso por isso intemporais, por isso invariavelmente disponíveis. A maré dilata-se e encobre tudo, falsos cristais, restos de vida oceânica. Barcos de madeira esperam, com olhos egípcios imóveis. E os petroleiros passam silenciosamente nas rotas do mundo, colando-se ao horizonte da distância.
Pela manhã, a praia cresceu como os corpos vivos mas deserta de tão cedo, apenas o rumor da espuma e agora a imobilidade monumental da falésia. De novo a descoberto, sob o olhar lateral que se move, milhares de coisas diversas: conchas brilhantes de súbito raríssimas, pedras roladas que lentas sedimentações marcaram com faixas argilosas, desenhos impossivelmente naturais que o nosso imaginário reinventa todos os dias, sombras também. Olhar suspenso, paralelo ao solo, pedras e pedras e pedras deslizando, intervalos sem medida, pequenos cristais entretanto. Passam cintilações de carcaças frágeis onde já existiu vida invertebrada, nervuras de plantas aquáticas, rios de sal correndo nas fracturas abertas entre milhões de outras pedras em miniatura.
Dentro do mundo há sempre a maqueta do mundo.
Na distância, petroleiros laterais e longínquos sempre.
E então a pedra outra, vulgar, nem redonda nem facetada, acidente natural no espaço de todas as singularidades. Contudo, quando a retiramos do côncavo de areia onde permaneceu, o que resta do seu próprio rasto é um vazio indecifravelmente desconfortante. Coisa sem nome, só pedra, sedimento milenário de um pó a que não sabemos atribuir a palavra última. Coisa, antes de tudo, ou talvez primeiro instrumento de uma reconstrução: coisa de remeter (apenas e de novo) para o lugar das marés.
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Os textos publicados acima, e a fotografia e o desenho, constituem a abertura e o primeiro capítulo de um livro catálogo da exposição aqui referida. Há mais uma dezena de capítulos, sempre balanceados entre o texto e o desenho ou vice-versa, numa espécie de realismo gráfico que se reinventa na deriva da escrita. Ambos os autores reivindicam ambas as coisas. Muitos livros sobraram, leves, pequenos, graciosos e ponderados. Se alguém os quiser adquirir pode aceder a este blogue, solicitando, pelos meios usuais, a versão completa.

quinta-feira, outubro 06, 2011

ATRAVÉS DUM VER DIFUSO, A INVENÇÃO DO VER


fotografias de Rocha de Sousa

Não é a primeira fez que isto me acontece: um olhar súbito, difusa a sensação que resolve o ver, e logo uma coisa mudando para outra, sem que o espaço em volta se esclareça. De um lençol silencioso e branco, algo acontece no trajecto óptico até ao cérebro, difusamente, selecciona-me ruídos, manchas, um vago xadrez pendurado em contra-luz. Nada se passa depois disso: vejo as flores na varanda e os trabalhos no prédio do outro lado da rua, eternos. Então é tudo nítido, HD, mas os olhos parecem sensíveis a essa luz e acusam em ardor tal propriedade, as pálpebras ficam vermelhas no rebordo e as pestanas colam-se umas às outras. Não é um caso de cegueira, como alguns poderão pensar com o lençol branco e a branca cegueira do Saramago. É sobretudo a resposta ao excesso de real que me envolve, desde os velhos papéis que nunca mais conseguirei ler (porque são demais e amarelados) aos livros em pilha, depois de atravancarem a estante. Esse ciclorama de lombadas e de obras caídas, aparentemente mortas umas sobre as outras, eis a resposta da mobilidade visual, tarde na vida, quando os olhos são assaltados pelo excesso de experiências próximas, ruídos brandos e ruídos nenhuns, um sonho, uma vontade de entregar a face ao tecido branco, liso, silencioso e fresco. Talvez para dormir. Talvez para pensar melhor.

segunda-feira, setembro 12, 2011

AS SOMBRAS DEPOIS DE REVISITADA A CASA






















Cidade do sul, queimada pelos anos incandescentes, entra por aqui o vento inteiro, bandeiras esquecidas no tempo.











Janelas abertas para a rua,
tantos silêncios acesos na lembrança,
o vento devagar pela manhã pálida,
tristemente calados há muito os sinos das fábricas.





















Janelas abertas para a rua,
idade das flores e das casas,
ruínas de velhos quintais, cortiça ardida há quanto tempo...











Trabalh
a as agulhas e a lã,
malhas sobre malhas
ou evocação das antigas tecelagens em tear
Cidad
e das flores e da casa velha,
janelas abertas para a rua,
somas e somas de silêncios tantos.

Tudo para relembrar, ao contrário das horas,
os passos pensados em direcção à luz, a casa.











Tudo para relembrar ao contrário das horas.

Textos sem história, silêncio, penumbra.
Vidas a meio, devaneios, alegrias e filhos.











Gavetas cheias de coisas breves,
papéis rasgados, velhos casacos de malha,
belos artesanatos da vida em casa, serões, luares.











Silêncio.
As horas ao contrário, as agulhas e as lãs,
malhas sobre malhas.

Famílias inteiras fugindo para a distância
e o tempo visitando a casa toda
como se fosse pela primeira vez,
visita a visita,
ao contrário das horas

Fragmento, com evocação
de planos de
«A Casa Revisitada»
e recolha do texto da banda
sonora, que sublinha,
em murmúrio, por evocações
e falas de sopro, os sonhos
vividos ou construídos
na orla da consciência.