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terça-feira, julho 24, 2012

CIDADE MORRENDO DE SILÊNCIO E AUTOMÓVEIS


Cheguei tarde, pela tarde, à cidade ainda iluminada pela luz dourada do sol que acendia as paredes e os vidros das janelas. Era, por vezes, um fogo escondido no horizonte, claridade a lamber o empedrado das ruas que apontavam ao poente, silenciosamente.
O Verão caíra sobre os telhados de cerâmica em cana, abas reconstruídas depois dos anos setenta, salpicadas, para dentro de outras casas térreas, de telhas carcomidas e velhas, acinzentadas, breves, por vezes juntando remendos de alumínio moldável ou restos de cal escorrida.


Abri a porta, entrei na sombra, atirei as bolsas para cima da cama e abri devagar uma fresta das portadas interiores da janela, linha de luz ao alto, e confiando no meu ainda escondimento naquele entardecer de fantasia, oco e silencioso, vazio de gente, só portas e persianas fechadas um pouco por toda a parte, os carros estacionados como bichos abandonados e dormindo.
Cheirava a pano, parecia de algodão, a mobília continuava escura, estranha, monacal ou como cenário absurdo da morte de alguém àquela mesma hora, ali mesmo. O soalho rangia, estalava breve e sem alarme, passando pelos espelhos sombras de mim no imprevisto dos ângulos e da lenta virtude dos passos.
Fui passar água pela cara e senti a barba já incómoda, o tempo na pele desalinhada pelos dias. Dias secos. Dias quentes, abafados pela noite dentro, um Agosto parado, vazio de chamamentos. A porta que ligava o corredor ao quintal apresentava um quadrado de luz ou de parede no seu terço superior. Mas dispensei esse percurso da curiosidade, sobravam horas, uma semana, talvez, o corredor serviria para outras viagens de amanhecer. Decidi dar uns passos pela rua fingidamente medieval, colhendo a hipótese de tomar um café no bar ali perto, que tantas vezes me torturava de música metálica pelas festas de Julho. Fechada a porta carregada de publicidade e um letreiro oferecendo o estabelecimento para venda, sale.



Tudo isto me surpreendia cada vez mais, a imobilidade das coisas, as janelas e as portas como que definitivamente encerradas sobre a incerta memória dos mortos, ou gente ausente, ou meninos por nascer. Velhos dedicados, nenhuns. Gente porventura deslocada, pessoas que haviam partido de férias ou desempregados cujo destino se apresentara de novo na emigração, sem retoma das origens, homens laterais e sem nome. Como a cidade ainda se apresentava lavada e pintada dos anos de glória revolucionária, após se terem deitado fora as colónias e os haveres que nem lhes pertenciam, tudo amarelecia com esta luz cada vez mais baça, perdido o fulgor do ouro e da cintilação arabizante. Ninguém espreitava dos lugares de espreitar, vidros, esquinas, jardins de bancos pintados mas completamente abandonados, talvez aceitando a monotonia do pó dos outros dias de isolamento e ausência. Cafés e esplanadas tinham fechado. As esplanadas mostravam alguns toldos abertos, mas levemente tocados de brisa, exactamente como se vê no cinema depois de uma evacuação de qualquer pequena cidade californiana após um risco de desastre natural.

  

Não acendem as luzes, o rio espelha a noite próxima, os pequenos barcos de madeira estão mal tratados e parecem agrilhoados nos ancoradores de margem ou de esguelha, sem cordame, fundados na lama da maré baixa. E nem os velhos, que conversavam num grande banco de ferro junto ao alto muro de uma fábrica corticeira há muito destruída, se veêm. No ano passado, havia menos velhos, mas estavam por lá meia dúzia deles, cacarejando as dores e as lembranças. 

 

Resigno-me a saber, algum dia, qualquer notícia com verosimilhança. Vou dormir cedo. Junto da minha casa dou de perto com uma parede alta inteiramente coberta pela sombra e pelo cheiro de plantas que sopram o seu sono dos dormitórios como aqui parece estar a acontecer. Valerá a pena voltar para a casinha de Lisboa, na inércia de tudo por outro lado, à espera que o SNS me deixe morrer?

terça-feira, julho 17, 2012

A EDUCAÇÃO SUJEITA A NORMAS INOMINÁVEIS


AO SENHOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO DEVE DIZER-SE 
QUE AS REFORMAS DA EDUCAÇÃO NÃO SE RESOLVEM
COM CIRURGIAS AMALGAMANTES  NEM COM
ZEROS DE HEMOGLOBINA EM SERVIÇO

Quem é que compreende que um professor com 24 anos de serviço, um mestrado apropriado, efectivo desde 1990, trabalhador empenhado em tudo o que faz, seja notificado que vai ficar em "horário zero", tendo ainda sido obrigado a concorrer e plasmado a uma vinculação de degradação inominável?
Parece que se vive no mais radical teatro do absurdo, nada disto é justo, e o que fazem a seres humanos largamente entregues a este difícil campo profissional não tem o menor sentido. Alguém contou em lágrimas esta situação e outras, de colegas (pais e filhos) atirados para a mesma condição com trinta anos de serviço efectivo. Um casal de filosofia, cuja mulher é jurista e pediu transferência de serviço de Coimbra para as Caldas, visto o marido se ter efectivado aí, teve como resultado a negativa, um famoso zero entre assimetrias sem valor de qualquer espécie, normas no mínimo estranhas. Há escolas  que foram compelidas a não contabilizar nem o serviço nocturno recorrente, nem o profissional. E, contudo, muitas escolas, algumas com duzentos alunos menores já inscritos, vêem-se na contingência (pelo menos ética) de receber e distribuir trabalho, visto que o seu mundo está pleno de apelos e correspondência docente e não se desertificaram nem à força.
Aqui se pede desculpa de qualquer impropriedade técnica, mas o que importa é que o país tenha um Ministério da Educação comunicante e esclarecedor: este trajecto não é o da austeridade, antes se assemelha a uma contabilidade cega ou a um jogo de xadrez onde alguém sofre de cegueira e move as peças sem rigor nem objectivo.
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Metáfora fotográfica de Rocha de Sousa

quarta-feira, julho 04, 2012

QUEM GANHA O QUÊ NA VIL TRAGÉDIA DA SÍRIA?

uma lembrança de Homs

O rumor sobre a Síria adensou-se. E os que esperavam  por um erro dos rebeldes, desculpavam (como se falassem de mentiras) todo o avanço bélico de Assad. Havia quem rejubilasse com as explosões provocadas com carros armadilhados,
vejam, vejam, não passam de terroristas.
Mas, sem nada perceberem do horror instalado, mais apontaram  dedos e slogans à oposição do regime por haver capturado soldados fiéis ao poder, exercendo sobre eles actos de tortura, ou por vingança ou para a obtenção de certos dados estratégicos sobre a guerra.
O Presidente Sírio, sem oratória de relevo, limitou-se a dizer, já tarde, que o país estava a ser atacado por uma conspiração internacional. A propósito do que foi a história, e dos príncipes e dos seus desastres principais na área da actual Europa, o Conselho Nacional Sírio, principal plataforma da oposição a Bashar al-Assad, deu uma conferência de imprensa no dia 1 de Abril (2012). Foi com base nesse acontecimento, em parte falhado, que Bassma Kodmani, admitindo que o tempo de Assad se estava a esgotar, disse que, nesse caso, os «amigos da Síria» tinham toda a legitimidade para decidir avançar com uma intervenção militar e «resgatar os  sírios» da ditadura. O jornal Público, no dia seguinte àquelas afirmações, avançou com um título no mínimo perturbador: «Se o mundo não fizer nada, vai ver uma guerra civil transformar-se num conflito regional.»
Contudo, depois deste tempo todo e da destruição impiedosa de cidades sírias inteiras, a começar por Homs, o que resta, entre desertores e o êxodo do povo para a Turquia, é um país praticamente arrasado, milhares de mortos, paralisia e lixos dantescos onde os corpos se perdem e decompõem.
Quem é que responderá por isto?
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texto inspirado num tratamento dos problemas daquela área no livro narrativas da suprema ausência,
de Rocha de Sousa, em revisão.

sexta-feira, junho 08, 2012

VALOR NA EDUCAÇÃO DA CULTURA E DAS ARTES

da capa sobre Didáctica da Educação Visual, U.A.    
imagem de ROCHA DE SOUSA

Quase ninguém soube quem acabou com as «velhas» Escolas Técnicas, normalizando tudo por um único eixo oferecido às elites liceais a caminho da Universidade. E assim se perdeu um pólo formativo técnico-profissional que nenhum liceu saberia enfrentar, pelo que se atirou para o buraco negro do oportunismo montes de ferramentas e máquinas preciosas capazes, inclusive, de estabelecer muitos e diferentes canais de interacção daquelas escolas, algumas delas exemplares a vários títulos, com a própria indústria. Tive oportunidade de assistir a uma experiência assim entre a Escola Técnica e Comercial de Silves e uma Metalurgia da terra, do senhor Carlos Pinto. O apetrechamento da Escola era moderno e chegou a desenvolver a produção de uma peça que a fábrica tinha em falta, por espera do equipamento encomendado ao Japão. Por outro lado, sem contar com as Escolas de Orientação profissional e artística do secundário (António Arroio e Soares dos Reis) muitas dessas instituições eram acertadamente dirigidas por profissionais da Escultura ou da Pintura, com formação qualificada em certas tecnologias pluralmente dirigidas à edificação do património urbano e das artes em geral — área do conhecimento que, no dizer do José-Augusto França, era nuclear para que uma civilização o fosse de facto.
A modernidade trouxe muitos equívocos, mesmo nas artes, mas neste caso a liberdade tinha um estatuto especial e é por isso que a revolução estética ocorrida no século XX continua a alimentar o entendimento da inovação e a própria reforma das Faculdades de Belas Artes de Lisboa e do Porto (UL e UP), acção abandonada pela sobranceria dos arquitectos (como comadres no bairro) e que não prejudicou a instauração de licenciaturas em Design de Comunicação e Design de Equipamento, além de uma licenciatura em Multimédia. Claro que os arquitectos mais abertos sabiam do interesse em reunir-se e relacionar-se didacticamente numa gande área dos seus saberes com outros, o que aconteceria com as artes plásticas e o design. Beliscaduras do PREC e do desentendimento com o director (escultor) precipitaram as coisas, não por motivos científicos, como se vê, mas por descoordenação cívica e cultural, um abismo mal remediado.

o velho eduquês e a negação das artes 
no fundamento da formação global do indivíduo
O primeiro conceito foi reactivado, no Diário de Notícias de hoje, por José Manuel Pureza, professor universitário. No seu texto, Pureza mostra sinteticamente como o Ministério da Educação continua a julgar que a formação actual tem de ir a montante refundar-se no «rigor», na «eficiência», no «pragmatismo». E entende que esta perspectiva, ligada a condições da escassez envolvente, assenta afinal na «mais ideológica» das cartilhas políticas esgaravatadas por este e outros responsáveis governamentais. Pureza também observa, e com pertinência, que os ministros que foram chegando a esta estrutura complexa da administração do país, todos amigos da flexibilização, deixaram, de uns para todos, o Ministério como o mais pastoso dos pântanos. A jusante, antes de colocarem o chão à mostra, trataram de cortar, anular direitos, concentrar, abater as escolas de proximidade. O actual Ministro, prof. Nuno Crato, que ainda acenou na televisão sob os eternos diagnósticos do prof. Medina Carreira, chegou ao lugar e mostra como o «eduquês» «está a produzir gente ignorante e a transigir com a incompetência. E, numa cruzada contra esse apodrecimento (algo sempre sedutor para os leitores de tablóides) ele não propõe nada menos que a regeneração da educação nacional.» E aqui o articulista conclui que a regeneração não é outra coisa senão a transformação do conservadorismo ideológico em política pública». Pureza conta entretanto uma história relativa ao gosto de Crato pela educação antiga, visto que a de hoje está pior do que nunca. 
Esta não é, globalmente, a minha praia, mas sei de originalidades de contenção política (coisa que cada vez menos se percebe o que é, tão autónoma se afirma) relativamente à abertura (desde o prof. Delfim Santos) do curriculum às áreas artísticas (musical, visual e tecnológica) — desentendimento que me foi dado observar na altura em que Espanha já integrara o estudo das Artes nas Universidades e a lição anglo-saxónica tinha devotos partidários. O caso das artes, essencial,  já era marginalizado nos velhos liceus, morfologicamente ineptos: nesse tempo, um professor de Educação Visual só tinha um colega abaixo dele, o professor de Educação Física.
Lisboa, no contexto da Comissão e da documentação que trabalhava o Ensino Superior Artístico, dava entrada ao que apontavam os materiais que já a reforma de 1957 indicava; e as personalidades da nossa inteligência esclareciam todos, bebendo as esquisitas mistelas que o colonialismo  cultural, mesmo tóxico, lhes impingia. O que não era verdadeiro nem moderno.
                                                                                 








 A mobilidade visual é um conceito que envolve mobilidade no real e mobilidade intrínseca: a que corresponde à experiência cognitiva e suas linhas de relação durante os níveis de aprendizagem e vontade de  representação /expressão.










A circulação quotidiana dos olhares, segundo actos deliberados de observação orientada e segundo pesquisa na memória dos mapas de muitas outras sondagens entre contraste, associação, sobreposição, vários caminhos do ser e do ver, percursos, colocações, diversos níveis de nitidez e de eficácia conceptual, tudo isso indica ou faz parte da apropriação plural das sucessivas imagens do visível.

Quando trabalhei para a Universidade Aberta, criando unidades multimédia e gerindo a cadeira de tecnologia do Vídeo (audio-visuais), vi a abertura de muitos professores para os modos de formar que ali se indagavam e a mais valia que isso implicava em vários estratos da formação do indivíduo: cívico, criativo, destreza visual e papel da visão no espaço urbano ou com novos instrumentos. Muitos ministros da Educação ficaram ligados a desvios e facilidades comprometedoras, já no período dos governos constitucionais. Crato não merecia resvalar nesse sentido, uma vez que o problema não se resolve com cortes concentrados na Educação Visual ou anorexia para a Educação Física. E quando um governo constitucional, tarde na hora, pediu desculpa a uma comissão de professores de Belas Artes por um Director Geral lhes ter afirmado que o país não precisava de artistas para nada e que o uso denominativo do design em novas licenciaturas não passava de um desenquadrado anglicanismo, as coisas tremeram. E houve mesmo a nomeação de uma Comissão, com membros das Belas Artes e das Universidades para estudar as reformas, entretanto desenvolvidas, e saber se elas teriam qualidade científica e de formação artística para serem transferidas para o domínio universitário. Depois de 13 anos de maus tratos e incompreensões, a decisão foi tomada pela Universidade do Porto e pela Universidade de Lisboa.
No secundário, se houver consonância com esta já nítida realidade, o que se pede não são ressurreições  descontextualizadas, incluindo certos exames. Mas a formação do olhar e do ver, para além das «ciências da educação», consolida-se sobretudo na excelência da capacidade de ver e reformular assim a relação codificada do espaço ou com outra estrutura numeral das coisas. Há papás inquietos com os desenhos borrados dos filhos (o que tem primeiramente  muito que ver com a idade) e os engenheiros a dar aulas no secundário não sabem o que hão-de fazer com uma jarra. Há ideias erradas, aos montes, sobre tudo isso. Porque tudo isso se relaciona profundamente com o ver, com a passagem bem aprendida dos sinais do quotidiano, com os instrumentos que manejamos, com a sua representação mental e física. Tem que ver com as artes do tempo, não só com as do espaço bidimensional, mas também com o teatro, a literatura, a música, a dança, o cinema. E menos, curiosamente, com a televisão  que nos sobra. 
Esperemos que o senhor ministro alinhe por esta via: a educação do espírito (da consciência, da memória, do imaginário) não é coisa só para sucesso em gestão. Leonardo da Vinci era mais sábio do que qualquer dos nossos maiores  gestores de meios, os que ganham centenas de milhares de euros por ano e poucas alternativas podem manipular. Claro que o português é uma das prioridades (como a Educação Visual), mas a nossa língua, assaz rica, tem operações narrativas ou inventivas para dizer a imagem ou, com ela, resolver um melhor entendimento do que os linguistas e os escritores apontam para a vitalização do português. Deixemo-nos das vagas como a que nos enxameou de pedagogos, ou a que nos fez reféns das ciências da educação numa perspectiva afinal conservadora, ou ainda o cerco dos psicólogos, que olham para a violência dos alunos em relação a um professor e debitam modos de actuar bidimensionais e logo mortos na sua escassez quanto ao entendimento espesso e líquido da realidade.
Ver criativamente a realidade é prioritário para a formação do indivíduo.

sábado, junho 02, 2012

APESAR DAS VOZES, SÍRIA VOLTA A MASSACRAR

                          Rocha de Sousa, foto: massacres na Síria

A Síria, acometida pela mesma vontade que trouxe a Primavera Árabe, viu parte da sua população manifestar-se contra o regime de Bashar al-Assad. As pessoas manifestavam-se contra a ditadura, contra a falta de liberdade, contra a precariedade. Foram mal toleradas tais expressões de vitalidade: muito em breve, Assad deu ordens para que a vida pública voltasse ao normal. Mas forças do regime agiram com excesso de Zelo e desencadearam formas de repressão muito violentas, prolongando o cerco das cidades e recorrendo ao seu sistemático bombardeamento. O património urbano desfazia-se, ganhava simbologia, tudo se tornou inabitável. As primeiras vítimas contavam-se pelas dezenas, mas os prisioneiros foram encerrados em quartéis-prisão e submetidos, segundo testemunhos insofismáveis, a torturas de assombro, que geravam muitas vezes a morte.
Apesar das vozes da comunidade internacional, o avanço dos bombardeamentos tornou-se cada vez mais violento. Os rebeldes cobriram frequentemente a retirada das populações, a longa fuga para campos montados na Turquia. Os massacres continuaram e a Rússia e a China, que tinha impedido no Conselho de Segurança da ONU sanções contra a Síria (a brutalidade destruidora das forças do regime, cada vez provocando mais vítimas e degradando um imenso património urbano) associaram-se então ao voto punitivo, a estudar consoante as circunstâncias. Kofi Annan foi à Síria e tentou negociações de paz, a análise dos pedidos e o recurso às soluções consensuais. Foi instaurado um cessar fogo. Era urgente começar a resolução do problema. Mas o exército Sírio não respeitou o cessar fogo e incrementou mesmo alguns ataques arrasantes. Tinham desaparecido os pássaros, os próprios bichos domésticos, o silêncio tardio era fustigado, de quando em quando, pelo exército «regular». E há dois dias, cercando a cidade de Houla, usou bombardeamentos  assassinos e entrou pelas casas, matando famílias inteiras, numa condenação sumária que foi estendida às crianças com tiros na cabeça e, noutros casos, recorrendo à degolação. A comunidade internacional reagiu, tentando evitar uma guerra civil e a hipótese de que todo o Médio Oriente se incendiasse. Só naquele dia houve 100 mortos e 300 feridos graves. Tudo tarda. Os governos ocidentais temem, mais do que as memórias do Afeganistão, Iraque/Irão, conflitos com Israel. Temem a importação de um estranho Vietnam e olham cansadamente para os efeitos da crise financeira actual e para os emigrantes e os fantasmas onde gritam sérvios e a fragmentação de todo esse nó em plena Europa.

quinta-feira, abril 26, 2012

O SOLDADO MORTO E A LAMENTAÇÃO DA AVÓ


Eu não sabia nada de ti. Não gostei nada de te ver partir assim. Disseste que escrevias e eu fiquei à espera. Dias e dias de espera e saudade. Um dia sempre chegou o teu postal em que me dizias ter feito boa viagem e que tudo estava como devia estar. Escreveste tão pouco, meu querido neto. E no fundo das letras vinha uma espécie de carimbo, só com a palavra Afeganistão. Isso é terra ou é gente ou coisa pior? Ninguém me sabe dizer nada e eu vou ficar aqui, esperando por mais notícias. Uma vizinha deu-me a entender que essa coisa do Afeganistão não lhe parecia boa coisa. E então chegou a malvada carta da tropa em que me diziam ter morrido em combate, honrando o país. Qual país? Eu bem sabia que aquilo de África já acabara e que aquele Afeganistão não era boa coisa, não, bem dizia a pobre vizinha. Agora é isto. Agora tu sem seres tu. Veio cá um correio da tropa e trazia a urna de metal,  pequena, de criança. Peguntou-me o homem se queria que deixasse aqui o corpo ou na Igreja. E eu perguntei num grito «Qual corpo?» E ele disse, levando a mão à testa: «O corpo do seu neto, morto em combate no Afeganistão.
Foi para dentro, fui ver como cabias ali, e não havia senão as tuas pernas  dentro das calças e os sapatos calçados. Isto não se faz nem a um combatente. Vou fazer um velório florido, os teus restos repousarão numa urna como as outras, de madeira. E será nesse caixão que descerás à terra do nosso pequeno cemitério, honrado na morte e no gesto, como os demais.

domingo, abril 08, 2012

O REFLEXO SUBMERSO

fotografia de Alexandre Baganha

A mão não é asa, é parte de um olhar que desce, não se sabe de onde nem a quem pertence. A luz transforma-se, tanto é corpo diáfano como um sonho acordado na capela Sixtina, o sopro de Miguel Ângelo no ponto exacto de toda a criação, dele ou de Deus, é igual. Mas tudo isto se passa com o olhar pendido, mão meio suspensa, reflexiva, quase a tocar a água deste espaço sacro, arredondado, do qual, numa espécie de meia-lua antes de o ser, parece emergir a mão — a mesma, talvez outra, quem sabe? — dedos quase toscos, humanos, aspirando a livrar-se do fundo como caverna alagada pela chuva. Dedos em sombra, breves, mortais, no atrapalhado gesto de subir em nome da salvação. A sombra da mão que desce, que parece querer afagar o espaço ou a própria água, curva-se e aponta as hastes para cima, agrestes, não doces nem etéreas como a aparição na direita alta do campo. Então poderemos pensar que a mão, suspensa mas pulsante, projecta na pedra a forma oposta à sua beleza que indicia bondade. Se estamos a falar do real, o paradoxo é o seu modo de ser — e aqui vemos um dos triângulos da sua equação a duas incógnitas e um sujeito: os dedos naufragados podem ser, com mais probabilidade, imagem virtual dos dedos concretos, asa descendo, corpórea, para uma água de que não temos a certeza de existir e que o lado esquerdo do campo, obscuro, sempre nos sugere, entre a sombra e a humidade latente do visível. Nunca há conclusão para nada, mas sabemos que se houver água dentro da sombra e se os dedos da mão mergulharem nela, logo destruirão todo este equilíbrio, cantata de Bach, e os dedos submersos, transformados em manchas ondulantes, logo serão absorvidos pela sua verdade carnal quando a mão acabar aquela sucinta prece e voar para fora de campo. A fotografia que restasse dum olhar assim, teria um lado esquerdo sombrio, agitando a meia-lua antes de o ser, luz sobre pedra e água, tudo imóvel, por fim, uma certa claridade material à direita.

ROCHA DE SOUSA

quinta-feira, março 15, 2012

LANÇAMENTO DE «LÍRICA DO DESASSOSSEGO»


PÓRTICO


Ainda se lê muitas vezes, em prefácios de certas obras, a propósito texto, história, aparente correspondência de factos, a seguinte nota: qualquer semelhança entre a realidade e esta obra é pura coincidência.


Eis o que acontece com o livro «Lírica do desassossego». Para muitos, contudo, nestes e noutros casos, a coincidência, citada de tal forma, não passa de um aviso furtivo, encobrimento de diferentes veracidades. Há quem a entenda, por exemplo, como previdência cautelar, antecipação da desculpa ou alteração decisiva da cor de um novelo que se desenrola sem montagem.

«Lírica do desassossego», assegura o autor, coincide no título e na crise de um vídeo que realizou, há largos anos, com alguém que estava de passagem por Lisboa. E acrescenta, por sua vez, que a coincidência dos títulos das duas obras é sobretudo um modo de registar de igual maneira um romance e um filme, apesar da diferença de conteúdos formais. Haveria problema se o filme estivesse publicado e pertencesse a outro autor.


Rocha de Sousa tem insistido numa espécie de paradoxo a propósito de alguns dos seus trabalhos, procurando tornar clara a ideia, para a mesma peça, da diferença na semelhança. De facto, no caso do filme, convivemos com uma situação residual da memória a despertar, na personagem, um comportamento paroxístico cuja fase inicial se enovela, em semelhança, com uma espécie de performance alucinatória em que as imagens resgatadas da memória vêm ganhar semelhança na cena em que a mulher voyeurista acaba por cortar com grande esforço o cabo que a envolve.


No livro, a personagem é acompanhada desde a adolescência, mostrando-se desenquadrada em muitas situações, pacífica noutras, insinuante ou caprichosa ainda, como se o seu meio não fosse mais do que uma porta de entrada para espaços de devaneio, desce cedo de natureza erótica e sexual, uma ideia transgressiva e inconsequente da pintura. Ela casa cedo e é breve no desempenho. Volta a casar, traindo as normas das festas e delírios. Os folhos quase não existem. O seu cordão umbilical não é transformado em corda mas em auto-sequestros e libertações durante viagens. Após o último casamento, ou união de facto, assistimos ao desmoronamento desta mulher, de África para Portugal, entregue ao zelo contingente de outros homens, presa do álcool e de uma inteligência que descobria o impossível e nada propunha para realizar. A solidão vem desvendar essa mulher na indigência; e, como sempre, invejando e amando os outros, já sem a mini-saia de outrora, afeita a opas lineares nas quais escondia a mutação do corpo e talvez da alma, sempre voltaria a vários vinhos consumíveis. Entidade do mundo contemporâneo, moldada um colonialismo disfarçado, destinada ao luxo e à lassidão, esta figura passando por situações abjectas e entregas surdas, pintando coisas absurdas por e saturadas na cor, vai perder a sua própria história: o que fazer da comida seca, que verdade ainda lhe poderá caber por semelhança a todos os difusos vínculos genealógicos?

Os poços de fealdade nesta vida, confrontada com as seduções actuais, é uma beleza lírica apesar de todo o desassossego.


Sousa Carneiro

domingo, fevereiro 19, 2012

QUEM É ESTA GENTE QUE MORRE ASSIM,TÃO SÓ?


composição fotográfica de Rocha de Sousa

Dantes ninguém morria assim. Mortos de morte solitária, sequestrados em casas onde já sorriram meninos netos e filhas acabadas de casar, ele na fábrica, ela na senhora Rosa, para onde, em seu devido tempo, os filhos recentes tinham lugar acompanhado. Agora, num tempo de abandonos, os velhos mais velhos ficam em casa, os homens enterram as mulheres, ou as mulheres enterram os homens, e ficam umas flores que murcham num instante e partem os parentes de longe e de perto e nunca mais ninguém diz nada, a reforma chega tarde e é cada vez mais pequena. Esta gente que morre tão só e assim, dias e meses sem sopa nem pão, o pó gemendo pelas fendas das janelas. E quanto tempo resistem, sem abrir portas ou janelas, porque têm vergonha do mundo? Vem o sono e descansam do silêncio, já acabou a luz, já acabou a rádio, ninguem arranjou a velha televisão. Deixam roupas pelo chão, sombras de fantasmas no escuro e ficam à espera. Ou caiem para o chão e já não acordam do desmaio. Metem-se na cama, em vigília, a lembrar coisas do tempo das imagens e dos sons e das primaveras. Depois são sombras e a dor no estômago de uma fome. Mas até a água cortaram e para que é que precisam de água para morrer em silêncio, e assim? Os vizinhos, que nunca existem, têm contudo uma espécie de faro; e quando lhe cheira a carne podre, dali ou daqui, lembram-se da velha ou do velho, ela nunca mais abrira a janela, ele deixara de ir ao café da esquina beber o mata-bicho. Então chamam a guarda, apontam as fechadas poeirentas — «nunca mais ouvimos rumor». Lá estão os corpos, um deles muito decomposto, moro havia mais de dois anos. É tudo nas vielas de cidades envolventes, em casas parasitadas e velhas cedo demais, como os apartamentos de luxo que as construtoras semeiam, ao acaso, nos lugares dos grandes centros, mal feitas e com lareira, apodrecendo depressa e agora nem sequer compradas, casas a mais, serviço social a menos. Quantos velhos podiam ser acompanhados pelas verbas enormes e absurdas de tais casarões com escadas de marmorite e três casas de banho.
Os velhos não morrem de pé, como as árvores. Os filhos estão longe, emigrados. E já não há força para mudar para a aldeia, para morrer num tempo de pássaros a cantar e de vizinhos entrando e saindo, cozinhando uma sopa, oferecendo uma manta, alumiando a mesa de cabeceira. E tratando do enterro, com a ajuda da Junta de Freguesia.
Afinal, que civilização é esta? Para que serve viver nela, mendigando um lugar ao sol, perdendo o trabalho aos quarenta anos, muita gente tratada por pig, sofrida na distância, abandonada pelos senhores da chamada arquitectura social. Em vez de sopa rala e de centros com almoços de massa, seria melhor que assistissem a morte, tornando-a menos dura e menos longa.
No ano passado, sobretudo nos grandes centros humanos, foram encontrados mais de doze mortos solitários, uns estendidos no chão, outros enrodilhados na cama, como se fossem nascer.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

OLHAR, PERCEPCIONAR E REINVENTAR O VISÍVEL

reinventado por Rocha de Sousa

Habitualmente maquinal, indagando em acaso e decisão, o nosso olhar serve por vezes de forma capciosa o processo da percepção visual. Passos em volta, coisas rodando, paredes e janelas graves de muita vida, tudo isso pertence à «dança» da nossa mobilidade visual, algo que nos é inerente e que deveria ser atentamente considerado desde os primeiros anos de escola. Porque, em boa verdade, os governos têm dado pouca atenção a esta disciplina (Educação Visual) e até já a misturaram com a tecnologia (Educação Visual e Tecnológica) ao sabor dos ilusionismos de dois professores. Perante a miopia ou cegueira cultural dos governos, realidade que sempre atrasou decisões de fundo sobre as artes e o ensino para elas, só agora há, em Portugal, Ensino Artístico Universitário. Ora começa a ser evidente que há mais ver para além da Alemanha e da crise financeira da Europa. A vida não é feita de dinheiro: o dinheiro é uma invenção prática e acabou deificado e usado em termos altamente complexos e falaciosos. Quando não havia dinheiro já havia vida. E até vida inteligente, sabedoria do olhar e do ver, mesmo que instrumentalmente tudo fosse elementar. O que os homens primitivos pintaram em tectos de cavernas onde se recolhiam é um milagre da visão e da inteligência expressiva. Por isso nunca deixei de me sentir desconfortável quando gente dos governos afirmava que essa coisa das belas artes não servia para nada. E diziam eles, logo após 74, que o país estava em revolução, em mudança, havia outras prioridades que nada deviam à cultura, muito menos à educação visual e artística. Eram provisórios, os governos, ficaram sempre provisórios na História, mas a sabedoria que a Arte introduz no ser e no processo civilizacional continuou a acontecer e Portugal não é hoje muito deficitário nesse campo. Fazem mal os lobies, o tráfico de influências, os transgénicos da arte internacional, súbitos, enormes, imperdíveis. Os artistas não devem deixar-se institucionalizar, mas têm pleno direito a emprestar a sua visão mutável das coisas aos engenheiros civis, aos matemáticos, aos feitores de arrecadações e até aos homens, todos, daquela justiça parda que nos injustifica no seu próprio pântano. Não basta dar ao pobre a cana para pescar. E se ele não sabe trabalhar com a cana, fio, carreto, isco, essas coisas lindas na paisagem? É preciso dar os meios e ensinar a usá-los com eficácia e sem ganância. Por isso é que a Educação Visual (que já teve a sua moda, como os pedagogos e os psicólogos da morte) tem de ser retomada em si e num adequado caldo de cultura. Não se trata apenas de ensinar a ver para se copiar o que se vê. Isso é quase nada. A Educação visual é transversal a todas as outras disciplinas: porque a matemática tem que ter, antes de tudo, uma aprendizagem específica do ver, números, símbolos, linhas, concordâncias com o real, relação com os objectos comuns, lápis e canetas, tintas e cores, electrónica e formas em redor, cadeiras, mesas, património secular e de hoje, ruínas, paisagens, a vida de tudo isso e dos bichos igualmente. Saber processar as máquinas automáticas. Saber ver os códigos e manejá-los através dos iscos que os reorganizam. Nunca ensinaram uma velhinha a levantar dinheiro no multibanco? Sabem porque é que ela, que sabe ler, não sabe usar o multibanco? Porque, embora saiba fazer crochet e fritar peixe, coisas que se baseiam em olhares específicos e percepções que passam pela visão, pelo gosto e pelo cheiro, ela não acompanhou os usos da visão no quotidiano actual. Há um mar de coisas a dizer sobre estas coisas.
Estas considerações talvez fossem dispensáveis. Vá directo ao assunto. Mas a verdade é que não há caminhos directos para os assuntos. A nossa vida corre numa rede complexa de sustentações físicas e psicológicas, pensantes e inventivas.
Emblemática do que fui dizendo é a imagem aqui publicada. Eu próprio, à distância, julguei que fosse uma obra menos conhecida do Rauschenberg. Olha-se e não se percebe logo. Olha-se e julga-se primeiro o espectáculo, o valor plástico das formas ruidosas, imitação vertebrada de uma qualquer ruína, paisagem sem horizonte, abstracção do mundo em decadência.
Mas basta olhar, percepcionar e reinventar o visível: dar à imagem o nome de um interior de certa casa que um dia foi desfeita, sobrando o reverso de uma parede. É o que lá está. Mas é o que lá está se nós quisermos. Todos nós somos os reinventores do mundo e do visível.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

A TRAGÉDIA DE MANUEL DE SOUSA SEPÚLVEDA


O São João era comandado por D. Manuel de Sousa Sepúlveda, nobre fidalgo, bom cavaleiro, bom amigo a amparar os necessitados. O galeão vinha da Índia e nele viajavam também D. Leonor, esposa de Manuel de Sousa, dois filhos ainda pequenos e mais um, bastardo. A bordo seguiam também os fidalgos Pantaleão de Sá (cunhado do comandante), Tristão de Sousa, Diogo Mendes Dourado de Setúbal e Amador de Sousa. Entre os embarcados contavam-se ainda soldados de torna-viagem, o mestre, o contramestre e o piloto da nave, carpinteiros, calafates e guardiães, mulheres, aias e crianças, para além de muitos marinheiros e dos escravos em maior número. A partida verificou.se a 3 de Fevereiro de 1552, data já tardia para melhor navegação.
Por causa dos ventos ponteiros e das ruins velas que traziam, só tarde avistaram o Cabo da Boa Esperança. Manuel de Sousa pediu ao piloto, André Vaz, que se aproximasse mais de terra. A manobra foi cumprida e a perdição parecia anunciada. Foram apanhados por ventos instáveis, muito rudes, e o capitão, conferenciando com o mestre e o piloto, decide, pelos pareceres dados, seguir o conselho de arribar. Tudo se complicou, sem tempo de agir contra, a tempestade soprou furiosa, rasgando e levando velas enquanto uma vaga quebrou o leme apodrecido. Foram tomadas todas as disposições e tarefas, com as madeiras existentes a bordo procuraram fazer um novo leme. E de alguma roupa que traziam nas mercadorias tentaram remendar velas, no maior dos empenhos em chegar a Moçambique. Mas o mastro da proa estava abrindo a nau.
No dia 8 de Junho a ventania, implacável, e também a correnteza, começaram a empurrar para terra a nau já meio desgovernada, aberta e metendo água. Através de uma manchua, remadores exploram a costa e voltam para avisar da existência de uma única praia. Na deriva, quando o galeão passou em frente da praia indicada, foi lançada a âncora e baixado um batel.
Quando o vento amainou, Manuel de Sousa pediu ao mestre e ao piloto que colocassem em terra, juntamente com a sua mulher e filhos e mais vinte homens, o que foi realizado, varando as ondas e alcançando por fim a praia. Esta operação e outras mais acabaram, na réplica, por ser desmanteladas em consequência de um recrudescimento brutal dos ventos e tempestade, perdendo-se outras manchuas e com elas os marinheiros. A nau corre perigo de ser arrastada para o pego e André Vaz embarca gente num batel, salvando quarenta pessoas. Mas a confusão e os destroços lavravam tudo, arrastando náufragos e coisas e meios logísticos. Nesse meio tempo, andava Manuel de Sousa a correr pela praia, a acudir aos náufragos e a encaminhá-los para junto de uma grande fogueira que acendera, tendo em conta o muito frio próprio das terras do Natal.
Quatro horas depois, e a despeito de muitos salvados, o galeão estava desfeito e dele o mar devolvia apenas os destroços.
Tudo é feito então para manter a sobrevivência e planear os meios de arrancar em direcção a Moçambique. Era preciso ficar ali, no entanto, alguns dias. Há cafres vigiando de longe e mais tarde alguns deles aparecem por perto no intuito de trocar uma vaca por pregos. Entre eles, à distância, a recusa instala-se e acaba por gorar a troca.
Manuel de Sousa exorta os homens, pede que não o desamparem, e propõe a marcha pela costa até alcançarem o rio da aguada da Boa Paz, em direcção a Lourenço Marques.
A caminhada, durante cerca de 180 milhas, foi um grande gesto e uma terrível tragédia. Escaramuças com grupos de cafres tornam tudo mais difícil, bem como o achamento e troca de mantimentos. Portugueses e escravos, muitos eram os que morriam, por exaustão, grupos arrastados e perdendo-se, vitimados pelas feras. O filho bastardo de Manuel de Sousa também se perde, vinha às costas de um escravo, mas ninguém ousou meter-se pelo matagal e o comandante começa a desgastar-se, do corpo, da alma e do juízo. Durante dois meses e meio, ora aquela gente se metia pelo sertão em busca de comer, ora varavam rios e se fizeram ao longo do mar, subindo e descendo serras, homens e mulheres e crianças perdidos de fome e de sede. Pausas ensandecidas e compra, com dinheiro do comandante, de vasilhas com água a homens que se arriscavam as perigosas buscas. Há muitos que não voltam, talvez mortos pelos cafres e feras em deriva.
Apesar dos favores de um pequeno rei ali encontrado com o seu povo, Manuel de Sousa não acede aos conselhos de marcha, às incertezas apontadas, ameaçando os camaradas com a espada, o que nada tinha a ver com o seu habitual comportamento, compreensivo e bom.
Atacados e perdidos, os homens de Sepúlveda têm de entregar as armas aos cafres, portugueses e cafres apartados por aldeias, até ao mais grave assalto, cafres querendo as roupas. D. Leonor não se deixa despir, não quer sobreviver assim. Mas quando se vê nua, desamparada, atira-se ao
chão, coberta pelos cabelos, e cava uma cova na areia onde se mete até à cintura. Manuel de Sousa, com a mantilha que arranca a uma velha aia cobre D. Leonor. Daí ela nunca mais sairá. Contudo, instado por ela, André Vaz aceita, com alguns homens, rumar na direcção de Moçambique e promete, se tanto conseguir, narrar esta história e alcançar recursos de socorro.

Embora meio destroçado do juízo, Manuel de Sousa ainda cuida de ir ao mato colher frutos para alimentar a esposa e os filhos. Um dia regressa e um dos meninos está morto. Enterra-o. No dia seguinte, ao regressar, encontra morta a sua esposa e o outro filho. Afasta as três escravas que choram sobre o corpo de D.Leonor e senta-se a seu lado. Com o rosto apoiado numa das mãos, sem dizer nada nem chorar, queda-se durante meia hora com os olhos postos na esposa. Depois, com a ajuda das escravas, abre uma cova na areia onde enterra D. Leonor e o filho. Levanta-se, não diz uma palavra, abala, mete-se pelos matagais adentro. Nunca mais ninguém o vê.

Esta narrativa foi colhida, abreviada e adaptada da História Trágico-Marítima, segundo a versão de Fernando Correia da Silva, em memória de uma realidade portuguesa que a bruma dos esquecimentos tem esbatido da nossa cultura. As ilustrações foram feitas digitalmente pelo autor deste blogue.