terça-feira, julho 24, 2012
CIDADE MORRENDO DE SILÊNCIO E AUTOMÓVEIS
terça-feira, julho 17, 2012
A EDUCAÇÃO SUJEITA A NORMAS INOMINÁVEIS
AO SENHOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO DEVE DIZER-SE
quarta-feira, julho 04, 2012
QUEM GANHA O QUÊ NA VIL TRAGÉDIA DA SÍRIA?
vejam, vejam, não passam de terroristas.
Mas, sem nada perceberem do horror instalado, mais apontaram dedos e slogans à oposição do regime por haver capturado soldados fiéis ao poder, exercendo sobre eles actos de tortura, ou por vingança ou para a obtenção de certos dados estratégicos sobre a guerra.
O Presidente Sírio, sem oratória de relevo, limitou-se a dizer, já tarde, que o país estava a ser atacado por uma conspiração internacional. A propósito do que foi a história, e dos príncipes e dos seus desastres principais na área da actual Europa, o Conselho Nacional Sírio, principal plataforma da oposição a Bashar al-Assad, deu uma conferência de imprensa no dia 1 de Abril (2012). Foi com base nesse acontecimento, em parte falhado, que Bassma Kodmani, admitindo que o tempo de Assad se estava a esgotar, disse que, nesse caso, os «amigos da Síria» tinham toda a legitimidade para decidir avançar com uma intervenção militar e «resgatar os sírios» da ditadura. O jornal Público, no dia seguinte àquelas afirmações, avançou com um título no mínimo perturbador: «Se o mundo não fizer nada, vai ver uma guerra civil transformar-se num conflito regional.»
Contudo, depois deste tempo todo e da destruição impiedosa de cidades sírias inteiras, a começar por Homs, o que resta, entre desertores e o êxodo do povo para a Turquia, é um país praticamente arrasado, milhares de mortos, paralisia e lixos dantescos onde os corpos se perdem e decompõem.
Quem é que responderá por isto?
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texto inspirado num tratamento dos problemas daquela área no livro narrativas da suprema ausência,
de Rocha de Sousa, em revisão.
sexta-feira, junho 08, 2012
VALOR NA EDUCAÇÃO DA CULTURA E DAS ARTES
Esta não é, globalmente, a minha praia, mas sei de originalidades de contenção política (coisa que cada vez menos se percebe o que é, tão autónoma se afirma) relativamente à abertura (desde o prof. Delfim Santos) do curriculum às áreas artísticas (musical, visual e tecnológica) — desentendimento que me foi dado observar na altura em que Espanha já integrara o estudo das Artes nas Universidades e a lição anglo-saxónica tinha devotos partidários. O caso das artes, essencial, já era marginalizado nos velhos liceus, morfologicamente ineptos: nesse tempo, um professor de Educação Visual só tinha um colega abaixo dele, o professor de Educação Física.
Lisboa, no contexto da Comissão e da documentação que trabalhava o Ensino Superior Artístico, dava entrada ao que apontavam os materiais que já a reforma de 1957 indicava; e as personalidades da nossa inteligência esclareciam todos, bebendo as esquisitas mistelas que o colonialismo cultural, mesmo tóxico, lhes impingia. O que não era verdadeiro nem moderno.
A mobilidade visual é um conceito que envolve mobilidade no real e mobilidade intrínseca: a que corresponde à experiência cognitiva e suas linhas de relação durante os níveis de aprendizagem e vontade de representação /expressão.
A circulação quotidiana dos olhares, segundo actos deliberados de observação orientada e segundo pesquisa na memória dos mapas de muitas outras sondagens entre contraste, associação, sobreposição, vários caminhos do ser e do ver, percursos, colocações, diversos níveis de nitidez e de eficácia conceptual, tudo isso indica ou faz parte da apropriação plural das sucessivas imagens do visível.
Esperemos que o senhor ministro alinhe por esta via: a educação do espírito (da consciência, da memória, do imaginário) não é coisa só para sucesso em gestão. Leonardo da Vinci era mais sábio do que qualquer dos nossos maiores gestores de meios, os que ganham centenas de milhares de euros por ano e poucas alternativas podem manipular. Claro que o português é uma das prioridades (como a Educação Visual), mas a nossa língua, assaz rica, tem operações narrativas ou inventivas para dizer a imagem ou, com ela, resolver um melhor entendimento do que os linguistas e os escritores apontam para a vitalização do português. Deixemo-nos das vagas como a que nos enxameou de pedagogos, ou a que nos fez reféns das ciências da educação numa perspectiva afinal conservadora, ou ainda o cerco dos psicólogos, que olham para a violência dos alunos em relação a um professor e debitam modos de actuar bidimensionais e logo mortos na sua escassez quanto ao entendimento espesso e líquido da realidade.
sábado, junho 02, 2012
APESAR DAS VOZES, SÍRIA VOLTA A MASSACRAR
quinta-feira, abril 26, 2012
O SOLDADO MORTO E A LAMENTAÇÃO DA AVÓ
domingo, abril 08, 2012
O REFLEXO SUBMERSO
ROCHA DE SOUSA
quinta-feira, março 15, 2012
LANÇAMENTO DE «LÍRICA DO DESASSOSSEGO»
Ainda se lê muitas vezes, em prefácios de certas obras, a propósito texto, história, aparente correspondência de factos, a seguinte nota: qualquer semelhança entre a realidade e esta obra é pura coincidência.
Eis o que acontece com o livro «Lírica do desassossego». Para muitos, contudo, nestes e noutros casos, a coincidência, citada de tal forma, não passa de um aviso furtivo, encobrimento de diferentes veracidades. Há quem a entenda, por exemplo, como previdência cautelar, antecipação da desculpa ou alteração decisiva da cor de um novelo que se desenrola sem montagem.
«Lírica do desassossego», assegura o autor, coincide no título e na crise de um vídeo que realizou, há largos anos, com alguém que estava de passagem por Lisboa. E acrescenta, por sua vez, que a coincidência dos títulos das duas obras é sobretudo um modo de registar de igual maneira um romance e um filme, apesar da diferença de conteúdos formais. Haveria problema se o filme estivesse publicado e pertencesse a outro autor.
Rocha de Sousa tem insistido numa espécie de paradoxo a propósito de alguns dos seus trabalhos, procurando tornar clara a ideia, para a mesma peça, da diferença na semelhança. De facto, no caso do filme, convivemos com uma situação residual da memória a despertar, na personagem, um comportamento paroxístico cuja fase inicial se enovela, em semelhança, com uma espécie de performance alucinatória em que as imagens resgatadas da memória vêm ganhar semelhança na cena em que a mulher voyeurista acaba por cortar com grande esforço o cabo que a envolve.
No livro, a personagem é acompanhada desde a adolescência, mostrando-se desenquadrada em muitas situações, pacífica noutras, insinuante ou caprichosa ainda, como se o seu meio não fosse mais do que uma porta de entrada para espaços de devaneio, desce cedo de natureza erótica e sexual, uma ideia transgressiva e inconsequente da pintura. Ela casa cedo e é breve no desempenho. Volta a casar, traindo as normas das festas e delírios. Os folhos quase não existem. O seu cordão umbilical não é transformado em corda mas em auto-sequestros e libertações durante viagens. Após o último casamento, ou união de facto, assistimos ao desmoronamento desta mulher, de África para Portugal, entregue ao zelo contingente de outros homens, presa do álcool e de uma inteligência que descobria o impossível e nada propunha para realizar. A solidão vem desvendar essa mulher na indigência; e, como sempre, invejando e amando os outros, já sem a mini-saia de outrora, afeita a opas lineares nas quais escondia a mutação do corpo e talvez da alma, sempre voltaria a vários vinhos consumíveis. Entidade do mundo contemporâneo, moldada um colonialismo disfarçado, destinada ao luxo e à lassidão, esta figura passando por situações abjectas e entregas surdas, pintando coisas absurdas por e saturadas na cor, vai perder a sua própria história: o que fazer da comida seca, que verdade ainda lhe poderá caber por semelhança a todos os difusos vínculos genealógicos?
Os poços de fealdade nesta vida, confrontada com as seduções actuais, é uma beleza lírica apesar de todo o desassossego.
Sousa Carneiro
domingo, fevereiro 19, 2012
QUEM É ESTA GENTE QUE MORRE ASSIM,TÃO SÓ?
composição fotográfica de Rocha de Sousa
Os velhos não morrem de pé, como as árvores. Os filhos estão longe, emigrados. E já não há força para mudar para a aldeia, para morrer num tempo de pássaros a cantar e de vizinhos entrando e saindo, cozinhando uma sopa, oferecendo uma manta, alumiando a mesa de cabeceira. E tratando do enterro, com a ajuda da Junta de Freguesia.
Afinal, que civilização é esta? Para que serve viver nela, mendigando um lugar ao sol, perdendo o trabalho aos quarenta anos, muita gente tratada por pig, sofrida na distância, abandonada pelos senhores da chamada arquitectura social. Em vez de sopa rala e de centros com almoços de massa, seria melhor que assistissem a morte, tornando-a menos dura e menos longa.
No ano passado, sobretudo nos grandes centros humanos, foram encontrados mais de doze mortos solitários, uns estendidos no chão, outros enrodilhados na cama, como se fossem nascer.
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
OLHAR, PERCEPCIONAR E REINVENTAR O VISÍVEL
Estas considerações talvez fossem dispensáveis. Vá directo ao assunto. Mas a verdade é que não há caminhos directos para os assuntos. A nossa vida corre numa rede complexa de sustentações físicas e psicológicas, pensantes e inventivas.
Emblemática do que fui dizendo é a imagem aqui publicada. Eu próprio, à distância, julguei que fosse uma obra menos conhecida do Rauschenberg. Olha-se e não se percebe logo. Olha-se e julga-se primeiro o espectáculo, o valor plástico das formas ruidosas, imitação vertebrada de uma qualquer ruína, paisagem sem horizonte, abstracção do mundo em decadência.
Mas basta olhar, percepcionar e reinventar o visível: dar à imagem o nome de um interior de certa casa que um dia foi desfeita, sobrando o reverso de uma parede. É o que lá está. Mas é o que lá está se nós quisermos. Todos nós somos os reinventores do mundo e do visível.
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
A TRAGÉDIA DE MANUEL DE SOUSA SEPÚLVEDA
Por causa dos ventos ponteiros e das ruins velas que traziam, só tarde avistaram o Cabo da Boa Esperança. Manuel de Sousa pediu ao piloto, André Vaz, que se aproximasse mais de terra. A manobra foi cumprida e a perdição parecia anunciada. Foram apanhados por ventos instáveis, muito rudes, e o capitão, conferenciando com o mestre e o piloto, decide, pelos pareceres dados, seguir o conselho de arribar. Tudo se complicou, sem tempo de agir contra, a tempestade soprou furiosa, rasgando e levando velas enquanto uma vaga quebrou o leme apodrecido. Foram tomadas todas as disposições e tarefas, com as madeiras existentes a bordo procuraram fazer um novo leme. E de alguma roupa que traziam nas mercadorias tentaram remendar velas, no maior dos empenhos em chegar a Moçambique. Mas o mastro da proa estava abrindo a nau.
No dia 8 de Junho a ventania, implacável, e também a correnteza, começaram a empurrar para terra a nau já meio desgovernada, aberta e metendo água. Através de uma manchua, remadores exploram a costa e voltam para avisar da existência de uma única praia. Na deriva, quando o galeão passou em frente da praia indicada, foi lançada a âncora e baixado um batel.
Quando o vento amainou, Manuel de Sousa pediu ao mestre e ao piloto que colocassem em terra, juntamente com a sua mulher e filhos e mais vinte homens, o que foi realizado, varando as ondas e alcançando por fim a praia. Esta operação e outras mais acabaram, na réplica, por ser desmanteladas em consequência de um recrudescimento brutal dos ventos e tempestade, perdendo-se outras manchuas e com elas os marinheiros. A nau corre perigo de ser arrastada para o pego e André Vaz embarca gente num batel, salvando quarenta pessoas. Mas a confusão e os destroços lavravam tudo, arrastando náufragos e coisas e meios logísticos. Nesse meio tempo, andava Manuel de Sousa a correr pela praia, a acudir aos náufragos e a encaminhá-los para junto de uma grande fogueira que acendera, tendo em conta o muito frio próprio das terras do Natal.
Quatro horas depois, e a despeito de muitos salvados, o galeão estava desfeito e dele o mar devolvia apenas os destroços.
Manuel de Sousa exorta os homens, pede que não o desamparem, e propõe a marcha pela costa até alcançarem o rio da aguada da Boa Paz, em direcção a Lourenço Marques.
A caminhada, durante cerca de 180 milhas, foi um grande gesto e uma terrível tragédia. Escaramuças com grupos de cafres tornam tudo mais difícil, bem como o achamento e troca de mantimentos. Portugueses e escravos, muitos eram os que morriam, por exaustão, grupos arrastados e perdendo-se, vitimados pelas feras. O filho bastardo de Manuel de Sousa também se perde, vinha às costas de um escravo, mas ninguém ousou meter-se pelo matagal e o comandante começa a desgastar-se, do corpo, da alma e do juízo. Durante dois meses e meio, ora aquela gente se metia pelo sertão em busca de comer, ora varavam rios e se fizeram ao longo do mar, subindo e descendo serras, homens e mulheres e crianças perdidos de fome e de sede. Pausas ensandecidas e compra, com dinheiro do comandante, de vasilhas com água a homens que se arriscavam as perigosas buscas. Há muitos que não voltam, talvez mortos pelos cafres e feras em deriva.
Apesar dos favores de um pequeno rei ali encontrado com o seu povo, Manuel de Sousa não acede aos conselhos de marcha, às incertezas apontadas, ameaçando os camaradas com a espada, o que nada tinha a ver com o seu habitual comportamento, compreensivo e bom.
Atacados e perdidos, os homens de Sepúlveda têm de entregar as armas aos cafres, portugueses e cafres apartados por aldeias, até ao mais grave assalto, cafres querendo as roupas. D. Leonor não se deixa despir, não quer sobreviver assim. Mas quando se vê nua, desamparada, atira-se ao
