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domingo, outubro 26, 2008

A REINVENÇÃO DA LENDA DAS AMENDOEIRAS


____Antes de entrarmos para um lugar de morte, ainda que branca, levemos flores desta árvore ser imóvel mas carregado de vida, na sua beleza homogénea, restos de uma primavera algures. Fotografei esta planta, sentado numa esplanada, no sul, à beira de um rio plácido que reflectia um canavial e uma antiga ponte romana. A árvore estava a poucos metros de mim, mas era o único ser que sorria, fresco, contra a apatia de meia dúzia de pessoas rodeadas de sumos e cervejas. Já tinha olhado para esta figura mondrianesca, na fase básica da primeira representação, mas não dera pela singularidade do seu espectáculo, vendo o que parece mais imperativo ver na normal decorrência do quotidiano, quase nada do que, no fundo, era a única metamorfose significativa (e até simbólica) que se abria, clara, a uma verdadeira precisão selectiva e comparativa do ver, ali. Então disparei a máquina fotográfica, para que aquele momento não se perdesse, e, sem mais vazios ou imagens recorrentes, deixei-me passear pela copa florida da árvore plantada por engano na orla daquela esplanada. É nesses casos, como noutros, que a nossa imaginação, sustentada pela memória e pelas contínuas dinâmicas do nosso cérebro, desagua no largo espaço da consciência e reinventa jardins em volta, por exemplo, ou quadros impressionistas, ou as lendas da cidade, da sua princesa sequestrada por um rei mouro, apaixonado, que plantava um pouco por toda a parte milhares de árvores capazes de florescerem em branco, assim, para que a sua amada lembrasse a neve do país donde viera. Mesmo assim, ao que se crê, a outra lenda trágica de certa mulher fugindo da almedina da cidade e embrenhando-se nos campos numa corrida paroxística, parece, para muitos estudiosos ou visionários, duas notícias da mesma história: a princesa nórdica não teria morrido de saudade, teria apenas enlouquecido quando descobriu que as flores brancas não eram neve e que a pedra avermelhada da fortaleza (sua morada, seu cativeiro) pareciam anunciar a conquista da praça pelos cristãos. E assim foi, com efeito, mas a mulher amada pelo comandante mouro, evadiu-se por uma porta secreta, correndo para Ocidente até mais não suportar. Os soldados que a perseguiam clamavam de longe, olhando em redor: «Ó da louca! Ó da louca!» E então, com a passagem dos anos e o desvanecimento da presença árabe naquela paisagem, os camponeses foram consolidando o baptismo do lugar em que desaparecera a fugitiva:chamaram-lhe ODELOUCA. Ainda existe. É bordado por um pequeno rio. E, curiosamante, esse rio engrossou e vai agora, com uma barragam que controla os benefícos da sua força hídrica, fornecer mais luz às populações locais, na época da tecnologia. As tochas dos soldados que perseguiram a mulher pintável como no «Grito», de Munch, nunca chegaram a ser encontradas.

terça-feira, outubro 21, 2008

RESTOS DE UMA CERTA LITURGIA DA MORTE




Está aí alguém? A quem pertencem estes objectos? O silêncio em redor parece uma leve e lenta cantata dedicada ao homem, à mulher ou à criança que já passaram vivos nesta catedral a céu aberto, feita de terra revolvida por algum vandalismo nunca identificado. Vidro fosco, vaso de barro, o oleiro quando? E as fotografias? E os retratos desfocados difusamente, outrora naquela redoma?
Eu conto, eu conto: eles vinham pelo domingo, domingueiros, grandes ramos de flores ainda orvalhadas, roupas negras, a criancinha enfiando os pés, a mão pendurada dos dedos crespos da mãe, passos pequenos, arrastados, e um medo da noite em pleno dia, manhã cedo, domingo de cada vez. Curvas de ferro lá atrás, já ninguém as imita, o ferreiro desdisse há muito a sua arte sem procura e nem sequer se aproximou dos mármores de Lagos, quando a moda chegou, andavam todos a fazer de finos, pedra polida, molduras como nas abas dos palácios, cruzes meio rendadas, o nome afundado em desenho inciso e letra preta. Já não sei quem era, não. Ó daí? Não há guarda, nem coveiro, nem operário de lajes? Mas eles vinham. Os que não morreram pela pneumónica vinham aqui, de lenço no nariz, enterrar cinco ou seis pessoas por dia, largar a terra, fechar o ferro ou as redomas com os retratinhos, flores de seda branca, alguns a aparelhar calcáreos trazidos de longe, tudo sem voz, nem ordens, as famílias ao portão lavadas em lágrimas. Ó da guarda? Ó porteiro? É um desalento deixar tudo assim, com montes de flores mortas atiradas para o lixo. E essas ainda são dos vivos, alminhas do Senhor, crentes na sua último morada, lavada, branca em volta, rosmaninho no ar ao cair da cerimónia, após o ruído surdo da terra encarniçada atirada para a tampa da urna, barulho oco e rolado, como se as tábuas não contivessem ninguém. Senhor António, onde está o coveiro? Precisamos dele amanhã. Foram-se todos, parecem mortos incapazes de responder, foram para a vila beber o seu mata bicho, que é como diz o Jasmim coveiro, três bgaços antes de cada cova, são vacinas, travam os bichos invisíveis atravessando a terra para o vazio onde ele cava, bichos de outras covas onde apenas sobram ossadas, pêlos, pedaços de roupa. Três bagaços por cada cova, incluindo os amanhos das cruzes e os potes das flores e o afeiçoamento dos grãos do terreno. E olhe lá, é que tudo ficava bonito depois desse trabalho, os jarros no vidro ou no barro, o chão elevado, alisado, alinhado, lembrando os velórios em torno das camas de ferro pintado, mas branco, velhas avós esticadinhas, metidas por inteiro nas roupas, um lenço de renda na cara. A urna esperava no chão, em baixo, ordeira, até ao amanhecer quando o Joaquim da funerária vinha acomodar a falecida na cova de madeira, sem tinta no fundo, ora cheirando a pinho, ora cheirando a nogueira, um Cristo de metal cinzelado jazendo no tampo, quatro pegas do mesmo jeito, duas a duas de cada lado. Vejam lá como as coisas são: eu sou ajudante do Joaquim há mais de trinta anos, já vi as mudas, os modos, tudo perfeito e engalanado. Mas quando estes ferros enferrujaram e nos disseram que os deixássemos assim. mesmo caídos, o tempo passou até esquecermos tudo. Já não se vê o nome desta gente, nem nas montras redondas, tudo baço, tudo amarelado, cheirando a terra e óxidos. Que raio de coisa. Mas vamos lá, vamos até lá cima, à capela, pode ser que os apontamentos do senhor Matias estejam contados e o lugar das ossadas também; isto é como tudo, somos uns para os outros, eu posso ver e perguntar porque vivo nesta viva há muito tempo, e é preciso que as coisas estejam aprontadas quando as famílias descerem da igreja, ali pelas pimenteiras. Ora aqui está uma cruz de pobre, abandonada, era do José do Nascimento, já não se percebe a data porque eles juntavam números e letras de outra maneira, assim como aquelas que tenho na matrícula da minha motoreta. Bem, tristezas não pagam dívidas. O José jé deve ter aí companhia, vejo muitas letras . Também não há mais ninguém dessa gente, nem os tipos que vinham sempre do barrocal, ao domingo, como se trouxessem água para encher os bebedores dos pássaros. Ora, ora a verdade é que nem pássaros voam por estas bandas, o que dá que pensar. Mas de dia, numa manhã assim, cheia de luz, as paredes brancas de cal em redor, porquê? Eu gosto de ver, gosto de me sentar nas pedras, deixando passar até aos meus olhos a sombra que se estende depois do sol ter estado a prumo sobre aqueles mausoléus. Parece mentira, parece mesmo, mas a verdade é que a morte é branca.
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texto e fotos do autor deste blog

quarta-feira, outubro 15, 2008

NOTÍCIA DO SANGUE ROUBADO, PRAÇA MAIOR


A rapariga estava deitada num divã estreito, a um canto de uma cave de paredes sujas e cartazes rasgados. Havia papéis no chão, roupas salpicadas de sangue, uma mesa rolante, de esmalte falhado, com o tabuleiro superior cheio de instrumentos cirúrgicos, em monte, entre bocados de algodão molhado numa espécie de tinta azul. Metais a revelar cortes no corpo de alguém, fios vermelhos escorridos, compressas, um suporte junto da parede com o seu gancho e o depósito para o soro ou transfusões, um tubo descendente, a terminar numa entrada de torneira na artéria principal, junto da dobra do cotovelo do braço direito. Mas o vaso do líquido não tinha soro nem sangue, estava municiado até meio por um líquido estranho, azul, matéria não muito fluida, na aparência, e que se podia ver a deslizar pelo tubo. A rapariga tinha uma máscara ou aparelho de respiração, toda a sua cara perto da boca parecia trucidada e transitoriamente comprimida com adesivo branco. Tendo as pálpebras fechadas, a pele parecia também azulada, ou suja de carvão, dos olhos até às maçãs do rosto. E o braço esquerdo, arroxeado, estendia-se ao lado do corpo, agulhas presas como no outro membro superior, dois tubos caídos, a breve trecho cravados num recipiente de vidro, o qual se mostrava como receptor de sangue da jovem mulher, aliás o que já acontecera com outro objecto semelhante, cheio de líquido vermelho, escuro, um pouco de espuma à altura do garagalo fortemente tapado, tranca e arame em volta.
Os meus olhos ardiam. Sentia ardor no peito enquanto fixava tudo isto, ainda sem perceber o que via, como via, porque via. A mão esquerda da paciente, roxa, esverdeada, parecia ter-se ani-mado um pouco. Era isso, movia-se devagar, tacteando a bata verde claro, parecia uma aranha trôpega a querer subir, enrolada nos tubos. Assombrado, reparei que a outra mão, essa apoiada sobre o peito coberto de tubos, se movia também, aflita, tremente, como se procurasse desfazer-se da agulha e dos apertos, metida e empeçada nos outros tubos sobre o peito. As mãos, parecendo rumar à zona do coração, fechando e abrindo os dedos, espasmos lentos, encontravam-se enfim no peito raso, desacertando os dispostivos de recolha de sangue e da tranfusão do composto azul forte. Havia agora derrames de das duas matérias, tanto no peito como no lençol da cama, mãos como gritos, tubos crescendo, arrastados da obscuridade pela subida dos braços, pelos movimentos em desencontro e trajectos cruzados, linhas azuis, outras de maior calibre, deixando passar bolhas de sangue. Tudo era já um motor cheio de próteses, plástico enrolado, sujo, arrastando panos, bolas azuis de algodão, outras encharcadas de vermelho, mais tubos, mais braços esguios que pareciam ter vida própria e prendiam cada vez mais as mãos cobertas de próteses, nem vida nem morte, galáxia de dor e máquina de roubar vidas, sei lá, eu via, via, a boca seca, o grito calado, um arfar não sei onde, todo o peito da mulher rasgado em buraco, buraco escuro donde emergiam outras formas, metais de afastamento e prisão de partes de orgãos, as mãos numa só, dedos rectos, quebrados, todos os tubos como vermes, vermes que subiam, que desciam, que entravam na cova descosida - cova onde as mãos se afundaram de súbito, soltas, sem vida, ao acaso, por fim num gesto doce, docemente, até à imobilidade.
Na praça, junto ao rio, os barcos acabam de ancorar. Deles começa a jorrar uma multidão de gente em contra luz, lesta, escura, abrindo-se depois no patamar onde passavam os transportes públicos. Sentado na esplanada, sentia-me dorido, culpado não sei de quê. Rostos pálidos, amarelados ou anémicos, passavam em fila, ali bem perto. E havia jornais, um jornaleiro à antiga,
transportando uma tonelada de papel. Comprei um qualquer. Falava-se da crise global, do fim da ditadura dos coronéis, das mães que se juntavam na Praça Maior para resgatar entes familiares, maridos e filhos. Gritavam palavras de ordem. Queriam acabar com a urgência, o medo, a ausência das famílias.

Uma pequena nota no jornal, à esquerda, em baixo, dizia apenas: Ana Orwell, jornalista, desparecida há dois meses, foi ontem encontrada no subúrbio sul, morta, aparentemente por lhe terem feito o transvaso de todo o seu sangue e desinfectado o corpo por injecção de uma mistura anti-decomposição. A polícia investiga este caso singular na mesma hora em que as mães da capital exigem a abertura das valas comuns, na esperança de encontrarem os restos mortais dos seus familiares e amigos.

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Sinopse do filme «A morte de Ana Orwell», do autor deste blog,
sob eventos trágicos do fim de uma ditadura na América do Sul

domingo, outubro 12, 2008

ALUCINAÇÃO: COR, METAMORFOSE E MEDO


Estás com um tubo na boca, isso já entendeste. Tens seis agulhas espetadas no pescoço. Urinas sem perceber, um ardor que desaparece por baixo da cama. Se calhar começaste a ter medo. Mas medo a propósito de quê? Lembras-te daquela voz feminina que informou alguém de que estavam no «piso do bloco»? Havia mármores, tubos ao longo das paredes, perto do tecto, mas a luz era escassa, vias mal, tinhas a cabeça entalada entre almofadas industriais e só podias espreitar, pelo canto do olho, um canal fino, transparente, pelo quel escorria, leitosamente, o que poderia tratar-se de soro. Soro fisiológico, com produtos adicionados, invisíveis. Sim, claro que o espaço em volta havia escurecido, tornara-se azulado, e havia enfermeiras lendo fichas, cabeças coroadas de claridade, pendidas sobre o branco da mesa. Tudo parecia tranquilo mas o ruídos das vozes, apesar de trocadas em murmúrio, era insuportável, ensurdecedor. E a parede já sem tubos transformara-se naqueles tabiques interiores, antigos, revestidos por uma pintura ornamenteal dita escaiola. Havia pedreiros e pintores especializados nesse efeito aristocratizante, a fingir superfícies marmóreas, assaz raras. Depois apareceu aquela mulher. Tinha um pequeno véu na aba do chapéu estilizado e leve, vestia como nos anos 30, fato diáfano, rosa velho, uma cinta da mesma natureza, azul cinza, delineando a anca emergente. Orosto ficara em sombra, uns lábios pintados com suavidade, numa cor também rosada, a pele pálida, as feições inertes, tudo inerte na sua pose ao fundo. E, no entanto, a sua nitidez era maior do que o recorte das pessoas próprias daquele contexto. Pensei num fantasma. Numa visão do Além.
As alucinações em estado pós operatório são aparentemente mais reais do que a realidade.
Um bom tema para estudar as questões da nossa percepção do mundo.
A pintura aqui exposta, surgiu das mãos de um amigo que não reconheci. Ele disse que entregava a pasta à minha família. Antes de se despedir disse devagar: «olha, usei vermelhos, pretos e alguns cinzas. Sei que são as cores tuas preferidas e aliás ajudam a perceber os tons em volta.» O homem sorriu, parecia irónico, e eu não podia falar nem perguntar-lhe de onde nos conhecíamos.
Quando me foi possível libertar a boca, dois dias após aquela tarde, falei com a enfermeira e perguntei se estivera ali um colega meu, com uma pasta de cartão. «Não esteve cá ninguém, excepto a sua família. Mas tem aí, junto da mesa de cabeceira, uma pasta de cartão. Não sei quem a deixou assim, nem do que se trata. Quer que abra?» Atordoado, ainda consegui dizer: Não, deixe estar assim. Vejo quando estiver melhor».

quinta-feira, setembro 25, 2008

MEMÓRIA DOS MORTOS INSEPULTOS NA CHINA


Chamei por ti, chamei durante horas, onde estás? Quem és tu? Meu filho não, mas isso não importa. Podes ser também meu filho, ajuda-me, que é feito daquela criança de blusa azul? Não sabes? Abre caminho por esse lado, mas tem cuidado, filho. Onde está ele? Onde estás tu? Não chego lá, meu Deus, que Deus faz uma coisa destas, sacrificar crianças. Claro que me falta a mão esquerda. Claro que foi a trave. Põe-se um trapo, tu, meu novo filho, ajuda-me a rasgar a camisa. Ainda não viste um menino de blusa azul? Não viste? Como é que tu queres que eu saiba onde tombou a minha mão? Esta é forte, estás comigo. Mas temos de correr, a mão fica para quem a quiser. Olha a lama, já me chega aos joelhos, agarra a mão que sobrou, agarra a saia pesada. Preciso de ti e dos meus pais e do meu filho. Vestia uma blusa azul. Não há nenhum azul assim. Olha em volta, sobre para as minhas costas, bem agarrado, espreita para a frente, para trás, para os lados. Ele estava mesmo ao meu lado, puxando pelo braço, foi fácil, desprendeu-se dos restos da mão. Vinha comigo, agarrado à roupa e eu a selar contra o peito o sangue que escorria do braço. Não, filho, não tenho dores, nunca tive dores, a única dor é não saber do menino, é perdê-lo para sempre. Talvez amanhã. Talvez com o trabalho dos resgates. Talvez ainda respire. Talvez ainda se perceba que veste uma camisola azul. Talvez Deus ainda tenha compaixão por todos nós, vivos e mortos

quinta-feira, setembro 18, 2008

MEMÓRIA DAS FÁBRICAS CORTIÇEIRAS: FOGOS



Ceus de brandura e fogo,
crostas cortadas
no atraso das noites acordadas.
E o que sobrava em rios de lava
lavrando os mapas da insónia
abria sulcos de incerteza carbonizada,
faces furtivas, ainda vivas,
os pássaros fugindo avisadamente
na luz da hora intermitente.


Soavam gritos nasais ou roucos,
gritos sujos, loucos,
afinal previsíveis e terminais,
graves também,
cada vez menos audíveis
na distância de todas as fugas,
gente partindo ao contrário do medo.

Ficavam as janelas desdentadas.
Sobravam grandes nuvens de fumo
sem rumo,
puxadas pelas velas do vento.
Vidros partidos ou espelhos
na inconstância das folhas rasgadas
sobre alcatrão e pedras fracturadas,
os pássaros longe,
os barcos vazios, à espera,
paredes de lata,
velhos de pano sacudindo as feridas
das roupas desfibradas,
quase invisíveis, já perdidas.

Uma janela horizontal,
morta,
vitimada outrora
na fábrica ardida antes da hora.

Rocha de Sousa

terça-feira, setembro 16, 2008

AS APARÊNCIAS DO REAL OU DA PINTURA


O homem é dotado de um aparelho visual altamente sofisticado e capaz de aperfeiçoamentos operativos consideráveis. Mas já temos equacionado aqui as limitações que o cérebro tem de cobrir, transformando um paralelogramo e rectângulo ou uma oval num círculo, isto é: o que a retina transmite para o grupo de neurónios que elabora a visão corresponde a apropriações enviesadas do real, linhas convergentes quando são paralelas, espectáculo plástico, como na pintura abstracta, quando o referente não passa de ruínas de um prédio. A estrada que parece afunilar-se não é lida dessa maneira pelo cérebro: a elaboração dos dados remetidos pela retina faz com que deduzamos a configuração real das coisas. Estas palavras podem associar-se a uma observação pouco cuidada da imagem aqui publicada, aparência cuja escala desconhecemos e que nos pode calhar relacionarmos com uma obra do autor deste blog, o qual é de facto dedicado a dar a ver peças de ordem plástica, fotografias, referências a cinema, arte digital e literatura, áreas em de facto tenho trabalhado, profissional ou amadoritiscamente, e que ofereço ao conhecimento dos outros e ao próprio debate. Assim, ocorreu-me trabalhar esta imagem, cuja base é fotográfica, de um fotojornalista, e cujo resultado, semelhante a uma pintura, seria quase irreconhecível junto da fotografia de base, com muito mais material em torno deste fragmento.

segunda-feira, setembro 01, 2008

MUTAÇÃO: UMA FOTOGRAFIA E DUAS TINTAS


Muitas das obras de arte do nosso tempo, nomeadamente nas últimas décadas do século XX, emergiram das mais diversas experiências, sobretudo pelo desenvolvimento instrumental dos meios no justo recurso às ciências, artesanatos, pensamento plástico, liberdade de inventar, superando convenções e atavismos aprisionantes. Toda a liberdade, bem o sabemos pela História e pelas revoluções entretanto sustentadas entre guerras, é um campo armadilhado, susceptível de tornar perigosas muitas escolhas aventureiras e implacáveis competições de ordem estética e de ordem mercantil. Neste caso, desde há muito que se fala em indústrias de arte, uma cultura salsicheira que a classe intelectual se encarregou de encobrir ou enobrecer como superior produto do pensamento. Não muito tempo antes, Umberto Eco, entre outros, atacara os males intrínsecos da arte de massas (ou para as massas), sublinhando a ideia de que certos valores recorrentes não significavam nem a socialização, nem a democratização da arte. A despeito dos muitos escolhos que o acesso à cultura superior coloca às sociedades, a verdade é que, para tratar pelas formas artísticas o pensamento ontológico mais consistente, a obra de cunho estético é inevitavelmente elitista, não no sentido comum, mas no sentido de um saber de grande sustentação e de uma visão do mundo capaz de o suportar.
E dirão alguns visitantes: pois sim, mas que tem isso a ver com estes dois bonecos que aqui nos oferece? Eles equacionam essa transcendência? Em resposta, eu não diria tanto. Mas, na base, a raiz comum dos bonecos está na fotografia, a partir da qual foram ensaiadas técnicas informáticas básicas a fim de conferir dois rostos a uma única identidade. Isso não constitui, a bem dizer, nenhum feito extraordinário. Mas já é extraordinário o que se pode extrair de uma reflexão abrangente sobre o que parece um fenómeno ludicamente comum. Talvez Greenaway tenha pensado nisso quando imaginou uma entidade humana, de anatomia reconhecível, vestindo um só fato apesar de sustentar duas cabeças sobre os ombros, ambas saindo da mesma camisa e das mesmas abas do vestuário. Essa ideia, bizarra na forma, do outro que sempre nos habita, siamês ou não, sugere a complexa via pela qual talvez possamos ultrapassar certos limites, a tridimensionalidade, a unidade na diversidade, o envelhecimento parcelar, a interacção dos elementos sobre sensação, percepção, repretesentação. O que, bem vistas as coisas, não é tão pouco assim.

DO MAR AO AQUÁRIO CORREDOR DA MORTE



No mês de Agosto, no Algarve e um pouco por todo o país,
não há português de qualquer condição que não corra
às marisqueiras a fim de encherem a boca de mariscos,
os mais diversos, vício antigo que já teve estatuto de
classe, o dos ricos, mas que hoje é mitomania de todos,
haja crise ou vacas gordas.
Vemos, em Silves, no principal restaurante deste
culto, filas de gente à espera de lugar,
outros sentados no chão e em cadeiras,
horas a fio, alta noite, a fábrica de comer
cheia por dentro e por fora, numa alucinação
de cascas, cerveja, vinho branco, manteiga, pão,
restos inenarráveis pelas duas horas da
madrugada.

sexta-feira, agosto 29, 2008

O SOPRO DA BRISA E A MORTE DAS ÁRVORES


















Liso, seco, translúcido,
o tecido sobre a janela ainda se deixa atravessar
assim,
entre a luz e a palavra cujo sentido
nomeia a cortina, no balanço breve da brisa
a descer sobre o tapete copiado dos persas
aqui,
no lugar procurado pelo cão,
passos leves encobertos, dispersos,
cão que vem dormir vagos sonhos
no chão feito de flores e fios diversos.

Dorme, cão, respira devagar como as plantas,
sonha que é natural e verdadeira a relva desse tapete
e deixa que o teu pêlo se pareça com a lã do chão,
mal reflectindo a luz amarelada que desce da janela,
ou das cortinas e dos panos laterais,
ou do teu próprio sonho,
dessa lassidão lateral, de cão,
as pernas estendidas e a cabeça de orelhas caídas,
tombada e já sonhando novas saídas.

Nem tu sabes, cão, quantas vezes estive assim,
dormindo pela tarde fora, fingindo o real,
mal acordado depois pela cortina contra a cal,
outros panos laterais, igualmente teatrais,
pesados do sol a queimar e dos anos mais.

Morte anunciada, a deles,
dos troncos seculares, sem canais,
gigantescos e abandonados pelos pardais,
seiva seca, ramos quebrados,
jardim de bairro, recantos abafados,
dois patos, lentos e sós,
e um lago breve onde eles deslizavam, perto de nós.
Olhares divagando, doridos,
enquanto as serras cortavam os troncos feridos.

Troncos mortos antes de feridos.
Pardais mortos antes de perdidos













quarta-feira, agosto 27, 2008

APRENDER AS HORAS COM O RELÓGIO DA AVÓ


Eu era menino, já formava palavras e fazia contas. Foi há muito tempo, sem brinquedos nem prendas soberbas, a casa velha e fria, uma avó santa que me ajudava nas pequenas redacções e me oferecia, quando regressava de Aljezur, caixas com regimentos inteiros de soldadinhos de chumbo. Chamava-se Angélica, a avó, e fazia lindas rendas em crochet, costurava camisas e vestidos singelos de senhora. Cozinhava petiscos de galinha do campo e por vezes mandava ao forno público tabuleiros de folares. Em certos dias, quando não falava e nos dirigia olhares saudosos, era fácil perceber que tipo de sentimentos a povoavam e as saudades adiantadas para depois da morte. Tinha 90 anos e uma saúde de ferro. Escapara à pneumónica e tivera seis filhas.
O meu padrinho era um senhor farmaceutico, que emigrara para França e lá casara com uma senhora de boas famílias, madame Renée, que ainda conheci largos anos depois da guerra. Tinha um flho da minha idade e acabara por ser igualmente minha madrinha.
Quase no fim da guerra, o meu padrinho veio a Portugal para se tratar de uma doença dos pulmões e trouxe-me duas ofertas de sonho: um carro descapotável, pequeno, que andava a corda e no qual podíamos rodar o volante, mudando a direcção das rodas, e ainda um relógio de pulso, à prova de água, com ponteiros luminosos, segundo creio de muito boa marca.
Foi rápida a minha adaptação ao automóvel, em metal e com rodas de borracha, um luxo que nunca vira nas feiras onde só havia tralha de lata, de madeira e arame, coisas pitorescas mas que sucumbiam junto do meu peugot. Os meus dedos finos, de criança, manejavam o volante com facilidade e em bom acompanhamento de marcha.
O relógio, lindíssimo, grande de mais para a minha idade, é que era o pior. Pior porque eu não sabia ver as horas e não queria revelar a ninguém essa falha. Nem sequer me ocorria pedir a um dos amigos do meu pai, na Havaneza, que me ensinasse. Isso não seria estranho, pensava eu, tanto pela minha idade, como pela minha relação com a pessoa, o senhor Costa. Mas tive vergonha, de uma timidez congénita, e fiquei sem poder usar o relógio, embora o visitasse muita vez e lhe tivesse dado corda.
Eu ouvia as pessoas falarem das horas: «Maria? Que horas são?» E a voz dela, lá do fundo: «São dez e trinta e cinco». Depois percebi, quando a avó alimentava de corda o seu velho relógio de parede, acertando logo as horas, que o ponteiro mais pequeno correspondia aos números, aos doze números, o sinal das horas, sendo o maior um instrumento das tais partes ou minutos. Cada vez, neste jogo de espionagem, sabia mais sobre o funcionamento dos relógios e a marcação das horas.

Um dia, estava a minha avó a fazer a cama, perguntei-lhe: «Vó? Que horas são no seu relógio? Não vejo bem daqui.» E ela: «Pois claro, filho, és tão pequeno. São nove e dez». «Ah, está bem». E logo corri para o meu quarto com o intuito de colocar os ponteiros do meu relógio na posição em que vira os dela. Depois fui espreitando o andamento dos relógios. Por volta das cinco da tarde, decidido a aprender a ler as horas, meti-me na casa de banho e com um papel apontei aquele famoso «nove e dez». Percebi depressa que poderia, logo a seguir áquela hora, haver uma outra, no caso das dez. Se o ponteiro pequeno fosse colocado nas dez e o grande na posição das nove e dez, o resultado só podia ser «dez e dez». A partir daí começei a fazer experiências diferentes, rinventando o tempo que os outros apregoavam durante o dia. Eram seis horas quando descobri tudo, com uma alegria interior brutal. Quase a tremer, rodei o meu ponteiro das horas para as seis; e o maior para o número três. Segundo a minha descoberta seriam seis horas e 15. Corri para o corredor, onde a minha avó se sentava e vigiava o seu próprio quarto, mas, para disfarçar, desandei para o quintal. Um pouco depois clamei: «Vó?» E ela: «O que é, menino?» E eu:«Que horas são no seu relógio?» Ela inclinou-se para ver e disse: «São seis e vinte». Estremeci. Esperei. Acrescentei cinco aos 15, porque o seis já eu lobrigara do corredor. Fui, enfim, com ar distraído e sonso olhar a renda da avó e, logo que me foi possível pôr a jeito, olhei para o relógio dela: os velhos e rendados ponteiros estavam na posição dos meus: seis e vinte e quatro.
Nesse dia, até à noite, andei pela rua e pelo café a perguntar as horas. Quando mas diziam, eu pensava. O ponteiro pequeno está nas sete e o grando está nos 30, que eles chamam de meia hora.
E assim, longamente, tudo foi batendo certo. Não esperei por mais idade para colocar o relógio. De manhã coloquei-o no pulso, antes de ir para a Escola, e quando parti eram sete e trinta e cinco: sete horas e trinta e cinco minutos.
Rocha de Sousa

sexta-feira, agosto 15, 2008

PENSADOS DE ONTEM, CONSUMIDOS HOJE


A seguir a este conjunto de imagens, captadas na Feira Medieval de Silves, poderemos ver mais coisas próximas da sedução pela bugiganga. Estamos em Agosto de 2008 e a ideia dos dos organizadores cestes eventos é chamarem as massas que devoram tudo o que seja espectáculo , obstruindo a cidade e chamando os milhares de mirones que devoram tudo o que seja erspectáculo e bens (mesmo menores) consumíveis. Aqui olharemos pulseiras «iguais» e tecidos porventura trabalhados em teares eléctricos, informatizados, nos quais ninguém procura efeitos especiais capazes de sugerirem a espessura dos panos medievais, obtidos em grandes aparelhos horizontais, rudes e produzindo por vezes delicadas tramas de linho. Teares de quatro pentes e correpondente número de pedais, que separavam as teias umas das outras, aos pares.


quinta-feira, agosto 14, 2008

SILVES: FEIRA MEDIEVAL OU A ILUSÃO CÉNICA

OS ESPELHOS MÁGICOS

A Feira Medieval de Silves é uma tradição recente. Uma cenografia mágica, com espelhos milagrosos e milhares de bugigangas que não servem para nada mas que, na sua anarquia de multidão, se espetam nos nossos olhos e tornam-se estranhos sucedâneos dos nossos desejos. A população, sobretudo jovem, veste os trajes da época, por vezes cortejando as almas do clima, circulando em marchas dançantes, acompanhado a célebre dança do ventre, olhando de longe as lutas dos cavaleiros,--combates de lança e a cavalo, combates rancorosos a pé, com grandes espadas cerimoniais. A rainha não sei donde vem ao largo das memórias poéticas e navega brevemente no rio engalanado. Este ano imaginou-se o tempo do domínio árabe e a conquista da cidade por D. Sancho I, apoiado numa armada de Cruzados. Mas tudo se reduz ao mesmo do ano passado, a Idade Média são fantasmas de várias épocas, enquanto nas barracas sem idade e luzes bruxeliantes, instalam-se marroquinos, ciganos, espanhóis e até lordes ingleses, louros, com mulheres e filhos, estilo baile de máscaras, a vender candeias de lata e colares de vidrinhos. É uma boa brincadeira, cercada de grandes espaços toscos, onde se comem leitões e as mais esquisitas iguarias Essas sim, lembram mais de perto a Idade Média. Sem querer ser desmancha prazeres, acho que era mais honesto chamar ao ecento apenas Feira de Outros Tempos. Ficava tudo mais integrado, sem medo dos erros históricos e sem as joalharias de lata e vidro em barracas de lona vanguardista. Em paralelo podia fazer-se história, lembrar acções dos séculos XI, ou XIII, ou mesmo XIV.





terça-feira, agosto 12, 2008

A LENTA SUBMERSÃO DOS HOMENS | A CASA

Livro de 2006. Em preparação de saída
CÍRCULO DOS LEITORES
extracto
A irmã Mariazinha andava de volta, o braço direito a balançar como numa saudação, sugerindo a impossível distribuição de hóstias fora da hora litúrgica que as ligava ao Senhor. Francisca arrastara a Dona Feliciana para uma esquina diante do janelão, tratava das bolachas com geleia, espalhando toda essa anunciada felicidade pela bandeja que depois sabia ajustar nos braços da cadeira de rodas. Feliciana tinha alguns haveres preciosos e a serventia voluntária daquela mulher que ficara marcada pelo gosto beato de assumir estes trabalhos e outros similares, sempre na dependência de alguém, sempre em obediência ao poder instituído. Na sua passagem fiscalizadora, Mariazinha soltava no ar certas palavras de ordem: «despache a senhora, tia Francisca, isto não é serviço para mimos e rezas mururadas». Mariazinha vinha zelando pelo equilíbrado decorrer da refeição, sem alienar as palavras próprias e os gestos indiciando ordem, entre roupas pardas e o aviso dos cheiros. Era necessariamente muito tolerante para com os velhos que usavam roupa da Casa, pijamas de flanela às riscas, largos, grotescos, ou fatos de cotim, tesos das lavagens completadas com ferro e goma. Ajudava no sentido de que tudo decorresse, por outro lado, dentro do horário previsto, inacessível aos velhos sem dentes ou outros males semelhantes, terminando a chamar de longe as auxiliares para que carregassem a louça, pilhas de louça. As auxiliares eram mocinhas de pouca idade, maminhas a despontar, rostos de porcelana e acabamentos a ouro, pernas já grossas e abauladas nas calças de ganga que traziam por baixo da bata curta. Bolinhos, mais bolinhos. «Que idade tens tu, minha querida?» As bocas luzidias da saliva e do chá abriam-se e fechavam-se umas após outras, comendo, falando, expondo a língua por acaso ou num maginário de luxúria. Mateus ia sempre para o mesmo lugar, de perna aberta, a mastigar bolinhos e a escarrar nos guardanapos de papel. Punha a mão no sexo quando as mocinhas passavam e gostava de vê-las rir, como se elas lhe viessem prestar outros serviços, daqui a pouco ou de madrugada, entre aventuras cheias de lascívia. «Deixe as moças em paz, compadre Mateus, olhe que ainda o mandam para o olho da rua». Gargalhadas, murmúrios de desaprovação. E ele: «Mas que faço eu às miúdas, ó merda? Olho para elas com um olhar sem malícia, saudoso dos borrachos de outras épocas, nem mais nem menos». O senhor José tinha recebido a visita da irmã Mariazinha porque deixara cair uma chávena e esta partira-se. Ela dedicou-lhe palavras atordoantes, como setas nos alvos de cortiça pintada em círculos, o dourado ao centro. «Ah sim? Está tudo apertado ou os senhores é que se apertam como pardais no cimo das árvores?» José era um velhote de estatura meã, torrado pelo sol dos campos, que a Junta de Freguesia da sua aldeia cobrira de alguns favores em troca das culturas dele, da casa em ruínas e da pensão de miséria que o Marcelo lhe inventara. «Eu pago a chávena, foi sem querer, as minhas mãos ficaram trémulas logo que deixei de cavar».
Excerto do capítulo 13, livro A Casa, de Rocha de Sousa

terça-feira, julho 29, 2008

VELHAS PORTAS, A BELEZA DO APODRECER


Quando a indústria de transformação da cortiça entrou em colapso no seu maior centro, Silves, já muitas portas de armazéns e de acesso a depósitos da matéria prima, tinham, junto ao chão, este aspecto arruinado, com buracos que facilitavam a entrada das águas das chuvas e os ventos de pó que atacavam a cidade em certas alturas do ano. Estas imagens são actuais (2008), são restos de arranjos inutilizados, fósseis, fibras secas, ferros de aperto afinal inúteis. Se nos alhearmos do chão, que nestes enquadramentos não se vê, o que nos é oferecido pode merecer o nome de paisagens, algo que soçobrou e adquriu o eterno estatuto de ruína. Há formas de morrer assim, como tantas vezes a arqueologia nos dá a ver, conciliando aparência e conservação.



Pela tardinha, num dia nada próprio do verão, divaguei por estes sítios e mais uma vez convencido da beleza difícil destas imagens, coisas, memórias, rostos velhos escondendo buracos negros ou vazios de armazéns outrora floridos, cheirando a frutos secos, amêndoa, coberturas retorcidas do milho. Por vezes quase me sentava no chão, entre os carros estacionados e a porta a enquadrar no ponto escolhido.
A certa altura, uma jovem fresca e bem aprimada de corpo, parou e perguntou-me:
«Mas que raio, o senhor acha isso bonito?
Eu levantei-me, sem ter perdido o disparo, e perguntei, por minha conta, à rapariga:
«Gosta de crianças, acha-as em geral bonitas?»
«Sim, claro que sim», respondeu ela.
«Conhece gente idosa, velhos, alguns como aqueles que se sentam debaixo das alfarrobeiras? Haverá, entre essa gente, o exemplo de uma beleza na velhice?»
«Sim, claro que sim» voltou ela a responder.
E eu:
«Pois saiba a menina que ando por aqui a fotografar estes belos velhos, velhos e silenciosos»
E ela:
«Ah, que giro. Giro mesmo. Visto assim, tem toda a razão».
Até esta porta ardida ganha, em beleza e despojamento,
os plásticos queimados do italiano Burri

fotografias de Rocha de Sousa

domingo, julho 27, 2008

APETRECHOS DE FÉRIAS: RESPIRAR E LAVAR

Em pleno século XXI, retornar a meados do século XX, num lugar diferente do habitual, para exercitar os neurónios do repouso, pode acontecer usarmos este apetrecho, com ele regando as flores e tomando, pelas seis da tarde, um copioso banho, os pés nus sobre as lajes do quintal.

Estas plantas, que rodeiam o quintal, têm uma duração de vida maior do que a minha, vão sobrar para os outros, e espero que os outros, mesmo retraídos pela escassa cultura da globalização, ainda tenham à sua disposição aquela mangueira, ou similar, e sobretudo que ainda exista água para usos domésticos indiscriminados.

Com máquina de lavar roupa ou não, conservo sempre este cabo, já lasso, onde gosto de ver roupa lavada, íntima, descomprimida, a dormir na espera do seu modo de vida sobre a pele humana. Parece que estou a ver imagens dos anos 40 e do tempo da guerra, em que se fazia sabão em casa, numas lindas caixas de madeira de pinho. Toda a gente devia aprender isso na Escola. Toda a gente devia treinar a lavar roupa nas pedras que marginalizam o rio, em pleno açude.

quinta-feira, julho 17, 2008

AS COISAS QUE NOS PASSAM PELA CABEÇA


As coisas que nos passam pela cabeça
quando um aviso de bala
crava no céu o primeiro estampido
e é depressa alarme de morte.
Logo o capim se quebra na queda
e todos em volta subitamente gritam,
todos e ninguém,
ali e além,
a vomitar mil chamamentos,
em brados imensos, de ferro ao acaso,
tudo no ar, entre ventos, por alguém,
tudo por nós, em suma,
contra o inferno inteiro e raso.
*
Cheira a urina no cheiro do capim quebrado
assombrando o resto de nós.
Pétalas no chão já esmagadas
e talvez, em murmúrio, ainda perfumadas,
sangradas,
morrendo com o peso do nosso medo
que nos queima os dedos
ao acaso dos outros dedos cravados no gatilho,
até a arma, ela própria, se calar.
*
As coisas que nos passam pela cabeça
quando o ar se torna límpido, de súbito calado,
devagar a sombra das árvores
no absurdo silêncio da guerra,
e os homens além, ou ali, riscados pela terra,
impossivelmente a chorar sobre o capim,
dizendo num sopro, baixinho, sim, sim,
Eu sei que sim, mãe.
*
Rocha de Sousa
memórias de Angola

quarta-feira, julho 09, 2008

OS ODORES IRREPARÁVEIS DA VELHA CIDADE

O problema não se resume ao facto destas imagens revelarem aspectos de duas portas, situadas, de frente uma para a outra, na mesma rua. O problema decorre do cheiro pestilento que se sente junto delas, quer na proximidade da velha porta de madeira, quer diante da inutilizada porta de ferro, outrora forrada, na parte superior, por uma grelha envidraçada.
A porta de ferro correspondia a um daqueles lugares que se chamavam justamente «lugares» e nos quais, além de frutas e vegetais frescos, se vediam também mercearias, desde o petróleo para o fogão até ao jurássico «sabão macaco». O cheiro que vinha do fundo, da contraloja, não era muito próprio de uma loja com este perfil: porque se tratava de um «cheiro a canos», como explicavam as vizinhas, apesar do senhor António, dono do «Lugar», garantir a toda a gente que se estafava a limpar a casa de banho e a grelha que havia na cerâmica do pátio, zona a céu aberto onde se acumulavam velhos móveis, cadeiras partidas, alguidares, a casota do gato. E lixo para evacuar à noite.
A porta de madeira, muito velha, talvez mais velha do que a sua vizinha da frente, em ferro pintado, corresponde a um daquelas prédios tocados de ornatos nas cantarias, janelas simétricas, ao alto, paredes revestidas de azulejos da boa época desse gosto. Havia duas residências, simétricas relativamente à porta, e ambas, naturalmente, situadas no rés do chão. A residêndia da esquerda ficara devoluta dez anos atrás, pela morte da sua locatária, e nunca mais foi reabilitada. Do lado direito, havia também uma única locatária, com mais de oitenta anos. Embora desta outra porta, no lado oposto da rua, também cheirasse a canos, sobretudo quando era aberta, a Dona Clementina garantia, a quem a interpelasse, que podiam entrar na sua casa, estava toda lavada e não pairava por lá nenhum mau cheiro.
Durante muitos anos, como á habitual entre nós, este problema ganhou a importância de catástrofe urbana, meteu delegados de saúde, polícia, tribunal, e nada se provou. O «Lugar» foi definhando e o Senhor António faliu. Desactivada a casa, sem produtos nem pessoas, continuava a contaminar a rua nas suas redondezas, pelo que foi entaipada com tijolos. Obviamente, morta a a Dona Ricardina, os netos entregaram as chaves e tudo ficou encerrado durante anos e anos. Por estranho que pareça, quando se passa ali, o cheiro é determinante na mesma e obriga-nos a ensaiar círculos de afastamento.
Hoje, diga-se o que se disser, na maior parte de prédios como estes, em várias zonas da cidade de Lisboa, o cheiro pestilento já ultrapassa esta ou aquela porta, mas na maior parte delas, imensamente, eternamente, sem a menor das compensações

sexta-feira, julho 04, 2008

VOLTAR AO REFÚGIO DÁ-NOS DE NOVO A PAZ

Somos feitos de memórias e sem elas, sem a sua grandeza e a sua qualidade, não seríamos capazes de projectar verdadeiramente o futuro. No sonho ou na convicção das somas consistentes. Os nossos hábitos, no fundo, consolidam-se da mesma forma, ordenando-se pela colagem a coisas que nos lembram outras coisas,mudanças, estabilidades, rotinas, a dedicação a lugares remotos, doce aprisionamento, dia a dia nos sítios onde vivemos e onde acumulamos objectos, adereços, livros, roupas, fotografias, aí sim, entre retiros exíguos servindo para pensarmos ou rever as imagens do mundo, interioridades estranhas, conlitos, possíveis lutas de reunificação das energias. O presente é fugaz, em todo o caso, ponte que nos afasta dos factos a montante do nosso percurso, sobre o rio da existência, aproximando-mos assim de reconstruções possíveis, do real e do sonho a jusante.