quarta-feira, fevereiro 18, 2009
CARTAS SÉRIAS, CASAMENTOS RIDÍCULOS
domingo, janeiro 25, 2009
DESTITUIÇÃO DE DOGMAS NA PINTURA
sábado, janeiro 17, 2009
EXERCÍCIO SOBRE OBSTRUÇÃO DO REAL

Agora até me ocorre misturar as vielas de Lisboa, e o lixo, e as paredes descascadas, com a visão em negativo daqueles quadros. Quadros, alucinações, todo esse surdo amontoado de ruínas e cenas diversas que vieram não sei bem donde. Gente escura, oleada, e as meninas leitosas, fora de época. Cabeças penduradas de janelas, entre flores. Como certas lendas de 1900, varandas coloniais e cemitérios de automóveis. Terra em volta, ferros e coisas de que se pode ainda falar com alguma propriedade, outras emergindo dos buracos da história e as mornas, um arrastar de pés descalços, os muceques. Umas vezes tudo parece tolerável, apesar do cheiro imaginado e da náusea, essa agonia que escorre dentro de nós ou molha a nossa pele num clima opaco. A argamassa intercalar, que separa cenas, que apodrece ilustrações, fizeram isso por ela, trataram-na como cartilagens e carne. Isso perturba-me, confesso. Procuro borboletas, aquelas que via na margem do rio Loge, no sentido de reinventar a beleza sobre o feio, saio de campo, penso numa certa rua de Ambriz, ou mais velha, em Lisboa, e consigo por vezes ficar preso num fogo de deslumbramento inquisidor, códigos e segerdos em cada porta, nas esquinas, nas sepulpturas dos militares entre paísagens ásperas, lugares como os morros de Nambuangongo. Eu sei, aquela pintura não anuncia nenhuma cartografia. A memória africana vem de outra latitude, desaba constantemente sobre muitos trechos de cada composição, entre cubatas, colunas de betão e toscas balaustradas de velhos senhores bem disfarçadas sob as grandes abas dos telhados, ciência benigna de perceber as intempéries. Pé direito muito alto, por outro lado, a parede amarela, até no primeiro andar entre janelas com portadas e ripas, pássaros em gaiolas brancas, fogo aqui e além, vozes antes do sono, nenhum bicho de porte aflitivo ali chega, sem perceber as chamas e as saltar por conta de tanto espaço. Nem mesmo os elefantes com insónias se aproximam das fazendas, deambulam pelas lagoas, nós estamos confinados aos charcos de lama onde deslizam, numa chiadeira, os machibombos da Carris, daqueles que costumavam atravessar-se na Estefânia, encurralando o trânsito, ali como em dezenas de praças da cidade. Autocarros, eléctricos, pardais à solta em Sete Rios e os carros das distribuições, a qualquer hora, entalados na rua do Sol ao Rato ou lá para os lados da Madalena. Acabaram com as docas podres do Poço do Bispo, os ferros, as areias, as barcaças oxidadas. Crescem casas. A multidão de um daqueles quadros guardados na Embaixada de Moçambique pode muito bem ser a malta dos concertos que ensurdecem meia cidade, árvores morrendo de pé, sobreiros decepados no Alentejo, nem jardins, nem Feira Popular. Tenho quase a certeza de que os ratos vão aparecer nesta Oran, cidade que também fora despida de árvores e já não albergava pombos. É a peste. Estes autarcas são duros de roer quando querem, na sua incompetência institucional, embelezar algum recanto de uma rotunda: acham logo palmeiras, africanizam calçadas em salpicos, contra o lado meridional da desaparecida cidade do pintor Botelho. Deixaram arder fragatas. Dizimaram milhares de jovens. Venderam mal as especiarias. Correram com os jesuítas e agora há por aí, entre arqueólogos e antropólogos, montes de santeiros alternando com fadistas.
Eventual trecho de um livro sobre o sentido da criação, Obra de Ninguém
sábado, dezembro 27, 2008
AS ÁRVORES MORREM DE PÉ, AS PEDRAS NÃO
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fotos de Rocha de Sousa
domingo, dezembro 21, 2008
ANALOGIA, CONOTAÇÃO, IMAGEM, SENTIDO

quinta-feira, dezembro 18, 2008
FOTOGRAFIA MENTE TANTO COMO A PINTURA

sexta-feira, novembro 28, 2008
O BAZAR LABIRÍNTICO DA VIZINHA PATRÍCIA
quarta-feira, novembro 26, 2008
RESGATE DE UMA PINTURA DOS ANOS 70

sexta-feira, novembro 21, 2008
TALVEZ UMA DESERTIFICAÇÃO ANUNCIADA

sábado, novembro 08, 2008
O DESTINO OU O QUEBRA-NOZES ESQUECIDO
domingo, outubro 26, 2008
A REINVENÇÃO DA LENDA DAS AMENDOEIRAS
terça-feira, outubro 21, 2008
RESTOS DE UMA CERTA LITURGIA DA MORTE
Está aí alguém? A quem pertencem estes objectos? O silêncio em redor parece uma leve e lenta cantata dedicada ao homem, à mulher ou à criança que já passaram vivos nesta catedral a céu aberto, feita de terra revolvida por algum vandalismo nunca identificado. Vidro fosco, vaso de barro, o oleiro quando? E as fotografias? E os retratos desfocados difusamente, outrora naquela redoma?
texto e fotos do autor deste blog
quarta-feira, outubro 15, 2008
NOTÍCIA DO SANGUE ROUBADO, PRAÇA MAIOR
domingo, outubro 12, 2008
ALUCINAÇÃO: COR, METAMORFOSE E MEDO
quinta-feira, setembro 25, 2008
MEMÓRIA DOS MORTOS INSEPULTOS NA CHINA
quinta-feira, setembro 18, 2008
MEMÓRIA DAS FÁBRICAS CORTIÇEIRAS: FOGOS
Soavam gritos nasais ou roucos,
gritos sujos, loucos,
afinal previsíveis e terminais,
graves também,
cada vez menos audíveis
na distância de todas as fugas,
gente partindo ao contrário do medo.
Ficavam as janelas desdentadas.
Sobravam grandes nuvens de fumo
sem rumo,
puxadas pelas velas do vento.
Vidros partidos ou espelhos
na inconstância das folhas rasgadas
sobre alcatrão e pedras fracturadas,
os pássaros longe,
os barcos vazios, à espera,
paredes de lata,
velhos de pano sacudindo as feridas
das roupas desfibradas,
quase invisíveis, já perdidas.
Uma janela horizontal,
morta,
vitimada outrora
na fábrica ardida antes da hora.
Rocha de Sousa
terça-feira, setembro 16, 2008
AS APARÊNCIAS DO REAL OU DA PINTURA
segunda-feira, setembro 01, 2008
MUTAÇÃO: UMA FOTOGRAFIA E DUAS TINTAS

DO MAR AO AQUÁRIO CORREDOR DA MORTE
sexta-feira, agosto 29, 2008
O SOPRO DA BRISA E A MORTE DAS ÁRVORES
Liso, seco, translúcido,
o tecido sobre a janela ainda se deixa atravessar
assim,
entre a luz e a palavra cujo sentido
nomeia a cortina, no balanço breve da brisa
a descer sobre o tapete copiado dos persas
aqui,
no lugar procurado pelo cão,
passos leves encobertos, dispersos,
cão que vem dormir vagos sonhos
no chão feito de flores e fios diversos.
Dorme, cão, respira devagar como as plantas,
sonha que é natural e verdadeira a relva desse tapete
e deixa que o teu pêlo se pareça com a lã do chão,
mal reflectindo a luz amarelada que desce da janela,
ou das cortinas e dos panos laterais,
ou do teu próprio sonho,
dessa lassidão lateral, de cão,
as pernas estendidas e a cabeça de orelhas caídas,
tombada e já sonhando novas saídas.
Nem tu sabes, cão, quantas vezes estive assim,
dormindo pela tarde fora, fingindo o real,
mal acordado depois pela cortina contra a cal,
outros panos laterais, igualmente teatrais,
pesados do sol a queimar e dos anos mais.
Morte anunciada, a deles,
dos troncos seculares, sem canais,
gigantescos e abandonados pelos pardais,
seiva seca, ramos quebrados,
jardim de bairro, recantos abafados,
dois patos, lentos e sós,
e um lago breve onde eles deslizavam, perto de nós.
Olhares divagando, doridos,
enquanto as serras cortavam os troncos feridos.
Troncos mortos antes de feridos.
Pardais mortos antes de perdidos
