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terça-feira, fevereiro 16, 2010

IMPOSITIVA IDENTIDADE DO FAZER PICTÓRICO

oração póstuma

Tomei agora conhecimento de uma série de cartas (textos de criação literária) que são actuais e de origem judaica. Imaginemos a edição de um livro cujos capítulos correspondem à urgência do homem se entender, de forma enfim consistente, com as divindades dos diversos polos religosos. Um dos capítulos integra uma carta dirigida por alguém sem identidade e que se dirige a Deus, com endereço em Jerusalém. Os outros capítulos são igalmente dirigidos a divindades de religiões activas e vastas na actualidade. Cada carta, dirigindo-se à divindade, abre-se a uma relação clara, explica-se com humildade e grandeza, mostrando-se depositária de importantes estruturas formais, supremas no seu valor literário. O texto, ou fala, ou prece, percorre o sentido da condição humana interligada ao perfil, poder e natureza da divindade. O humano que escreve mostra-se inquieto com o mundo em que vive, com a origem desse mundo e dele mesmo, ser falante, tendo por certos os propósitos superiores, inimagináveis, que terão sido encarados pela divindade como suportes da Sua obra, todo o Universo, as suas imagens e seres, os seus movimentos e massas animadas por milhares de forças, começando pelas gravitacionais, implicitamente aquelas que surgiram da enorme energia libertada no espaço, entre biliões de partículas, em choque e multiplicação, até às imensas concentrações de astros (explícitos) e outros corpos (invisíveis ou implícitos) cuja trajectória e formação de vida se encontram por toda uma infinidade de dimensões, sempre a fazer-se, a desdobrar-se, povoando-se de realidades biológicas, como a humana, nas quais a consciência se partilha com a razão, as emoções, a inteligência e a memória, sem limites palpáveis. Quem escreve vai colocando questões sobre a marcha da humanidade, dos seus ramos e crenças, em vastas manchas civilizacionais cuja história se afirma marcada por acontecimentos extraordinários, por obras eternizáveis, por tratados sobre a vida e a morte, entre guerras de difícil relato, ou genocídios, ou crimes e abatimentos os mais diversos. Quanto mais a carta se humaniza (objectiva) e trata do lugar dos homens e do seu apagamento depois da morte, cada texto torna-se comovente, como que feito de folhas meio secas que sobram pelo chão, imagem de qualidades iventadas pelo ser humano, talvez em partilha inominável com os poderes igualmente indizíveis de alguma consciência inserida no próprio universo. A utilidade disso inquieta as frases, a passagem e o vazio também, os cemitérios e grandes monumentos necrológicos relevando de todas as solidões no mundo, gente que migra, sobrevive, consolida família logo destinada à perda, ausências de sempre, presenças mitigadas e absurdas. Que farão os outros, amanhã, que destinos estão prometidos e são verdadeiros, para que servem, enfim, as partículas invisíveis em que se transformará, na morte local, o Sol, a Terra, o simples rosto desfocado de uma criança atravessada pela tempestade?

Quando passava na ponte sobre o rio, Senhor, toda a margem que os meus pés pisaram estava juncada de mortos, uma inteira paisagem de cadáveres, gente de todas as origens e raças, incluindo militares e sacerdotes, fragmentos de fragmentos, rios de sangue enchendo algumas clareiras ensombradas. Este braço que vem junto das minhas coisas parece ter pertencido a algum irmão do Norte de África, só é observável do ombro ao pulso, visto que a mão lhe foi decepada. Não sei se é devido e se o meu pensamento tem préstimo para quem me ouça, mas recomendei ao Senhor a minha prece de compaixão por este homem infinitamente sem nome nem corpo.

2 comentários:

Miguel Baganha disse...

o excerto dessa carta, «fala ou prece», e o texto que o antecede, ilustram perfeitamente a condição humana. Este anónimo orador, revela acima de tudo a mais velha pergunta feita pelo Homem desde os promórdios:
"o que existirá depois?"

Talvez que, a única forma de o saber seja esperar pela existência de "algo depois disto", algo que desvende o mistério do nascimento das coisas e com uma razão suficientemente capaz de compensar as amputações do mundo.

Porém, esperar, é apenas mais uma forma de desistir. Eu prefiro continuar a procurar pela verdade nas palavras. Elas, são-me fieis.

Sei que irão continuar a falar por si, das coisas, e delas mesmas.

jawaa disse...

A condição humana. A procura sem resposta. Mas procurar sempre;
os que estão e os que vierem depois.