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sábado, dezembro 15, 2012

CIRURGIAS DOS DESENHOS IMPONDERÁVEIS

Pode saber-se, debaixo para cima, após a cena do «rei morto», que as novas aparências gráficas, soma de registos electrónicos, em cima, não traduzem, na qualidade corrente da percepção, o claro efeito dos apartamentos orgânicos, miniaturais, a partir dos quais os cientistas puderam formar juízos porventura aproximados das lesões orgânicas verificadas no corpo de Sua Majestade, finalmente não raros nem coroados nem benzidos por nenhuma sagração. A parte de um olho, aberta sobre o quadro esquerdo, teria ainda registado imagens nos últimos segundos de vida. Provisoriamente, na altura da morte, com a animação curta do coração, segundo o estado conservado do aparelho auditivo em conexão com o cérebro, o rei terá ouvido dois batimentos cardíacos e o apito da morte, como terá, em hipótese mais rara, percepcionado o braço do médico premindo o seu peito, a cabeça logo tombada, um fio azul, horizontal, no espaço negro  e só negro depois, e só nada.
A vida pode ser ilustrada por processos semelhantes; a vida enquanto vida plena, vários ecrãs mostrando o ritmo cardíaco, em vários traçados, o espectro óptico, a rede vascular palpitando numa plenitude de circulação sanguínea, os patamares superiores e inferiores da acção multipolar, e assim por diante com a colheita de sangue e a avaliação da sua estrutura e dos ecos renais, do fígado, do pâncreas, dos níveis químicos, se estáveis, para que tudo decorra tal como parece ter-se desenvolvido a partir de quaisquer materiais básicos, incluindo a própria água, num bizarro de problemas que suscitaram outros e outros, complexificando tudo, um montão de formas e aparentes próteses, tudo em ordem à ordem multirrelacional do cérebro.
O Homem, apesar de tudo, nunca cresceu para além da sua formatação mecânica e psicológica, especulativa. Chegou à concepção de valores identitários e de somas de espécie ou de grupo. Mas, desde muito cedo, as etnias estilhaçaram aquelas maravilhas que viam e acertavam num ganso a cem metros. Mesmo quando chegaram ao séculos XX e ergueram cidades inúteis, em tamanho e custos a longo prazo, já as guerras tecnológicas haviam começado um pouco por toda a parte, afundando-se em dinheiro, e assimetrias civilizacionais absurdas. O futuro não parece melhor e os chineses são mais que muitos. Talvez aconteça, antes do fim do universo e antes da morte do sistema solar, uma catástrofe planetária, gerada pelos tumores que fazem desabar, no interior dos corpos e na Natureza, os ilusórios equilíbrios sistémicos. Se sobreviverem os membros de uma família equilibrada haverá tempo para sustentar, ao fim de um século, uma nova colónia humana no velho planeta terra, a caminhar para desertificações semelhantes às de Marte. Após a catástrofe na Terra, autopsiados os génios, aparelhos automáticos continuavam a enviar sinais apavorantes da  realidade que desaparecera em Marte. Mas os humanos restantes já não dominavam essa tecnologia e os dados monitorizados no cosmos eram tão absurdos como outrora as pirâmides do Egipto.

segunda-feira, outubro 29, 2012

ANOS 60, PORTUGAL, MILHARES DE EMIGRANTES

O EMIGRANTE
Pintura de Rocha de Sousa

Sou um mau curador da minha obra, como se pode deduzir por este blog, no qual eu desejei publicar quase tudo o que fiz em termos de artes plásticas. A verdade é que nunca entendi a arte (a pintura, neste caso) como um campo isolável da vida, das pausas, das derivas, de outras linguagens. Por isso tornei a pesquisa plástica em ponte para outros campos, na fotografia e no cinema, na crítica de arte e na literatura, campo a que me tenho dedicado nos últimos tempos por razões multidisciplinares e de mobilidade condicionada. 
Desta forma, o blog construpintar02 absorveu muitas obras do meu percurso, mas ao ritmo das inevitáveis idiossincrasias, oportunidades, insertos de reflexão e artigos a propósito, aberturas ao processo do olhar e do ver, a problemática da percepção. Por isso o tempo e os factos abordados não respeitam cronologias, antes e sim pluralidades.
Desta vez, com uma viagem no tempo, proponho a publicação de um quadro meu de há décadas, comprado na galeria Judite Da Cruz por um coleccionador americano que vivia em Inglaterra, anos 70, portanto. Este quadro, de técnica mista, fazia parte de uma série sobre personagens do mundo quotidiano, desde os emigrantes que partiam, sobretudo para França, até aos banqueiros, entre muitos outros. Daqui, aliás, é que surgiu a ideia, mais tarde, de realizar a série Personagens Ilustradas, anos 80. Durante muito tempo, procurei o sentido da mensagem, a qualidade dos fenómenos  da realidade humana, a sua condição, os seus Desastres Principais. Tendo um eixo, em todas as hipóteses formais, que ligava o percurso ao longo dos anos, as variações para os restos da catástrofe das guerras e o seu significado político-social, marcas de compromisso com os olhos cheios de imagens e propondo-se como denegação do minimalismo e da cegueira.
O quadro aqui presente (cujo documento eu perdera) foi-me enviado pelo comprador, tanto tempo depois, agora de Nova Iorque. Ele queria falar comigo, o que falhara em Lisboa, e queria, no arranjo da sua colecção e empréstimos a museus,  dispor dos dados curriculares do autor, natureza daquela fase e sentido do próprio quadro. A figura renasce de uma capa que fiz para um livro de Nuno Rocha, França, a emigração dolorosa. Por baixo do rosto e de restos de letras de imprensa, há um mix cinematográfico de mãos escondendo as cartas chegadas de longe ou apontando para a bruma das pontes vencidas até à Estação de Vitória. Na parte inferior da composição, a paisagem rasa e abandonada, sob um céu baço, do Alentejo mítico que também emigrava, embora naquele tempo as saídas (30.000 por mês) eram sobretudo do Norte de Portugal, Trás-os-Montes, Beira Alta, Minho.
Os quadros que são capazes de falar tanto tempo depois nunca morrem. Eles não são uma questão de estilo. São sobretudo expressão, voz, permanência de certas autenticidades.

sábado, setembro 08, 2012

FILOSOFAR TALVEZ COISA NENHUMA, À TARDE


 






















O pastor e o seu amigo de infância, deixando o rebanho a roer o pasto,
 decidem caminhar um pouco pela terra da vereda indecisa; mas em breve,
 ao encontrarem três grandes pedras arrumadas ao tronco de uma oliveira, 
 de comum acordo, e sem palavras, sentam-se os dois  nesse sítio, aliviando
--se de alguns adereços da  marcha e contra o sol. O pastor, que conhece bem
o amigo e gosta de o ouvir  falar, a propósito dos estudos, da impropriedade
das escolas, da solidão dos mestres entre tantos moços bravios, olha o perfil
do companheiro e corta o silêncio daquele repouso sem nexo, dizendo num 
bafo de som:

Tu és um verdadeiro filósofo.
Não digas isso.
E porquê?
Porque não consta do meu registo civil.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Claro que tem. Tem tudo a ver.
A qualificação de filósofo é a ideia que eu faço de ti.
Então não faças.
Mas porquê?
Primeiro porque eu não quero. Depois porque sou filho de um corticeiro. 
Os meus estudos não sustentam nem um fio desse estatuto.

Pausa.

Paira no ar um cheiro a laranjas. O outro insiste.Estudaste os teus livros 
e os livros dos outros. O teu avô paterno era professor.
Deixa lá o meu avô. Dos livros não sei nada. Mas gosto de alguns versos 
do Caeiro, as pedras roladas que ele conhece entre a terra, à beira do 
pasto.
O outro julga ter ali o seu primeiro argumento, nem sequer pesado:
Vês? Falas desse gosto como se filosofasses.
Que raio de coisa, amigo. Filosofar não é ser filósofo — e muito menos
verdadeiro.
O outro cala-se, fica pensativo — a filosofar. 

Assim estamos bem, aqui sentados. O fresco do entardecer. Este rumor 
das  folhas em redor, abanadas por uma brisa que só elas sentem.
Ao lado, o pastor esboça um sorriso
As cabras, uma a uma, duas a duas, começam  a descer do sítio onde
comeram longamente, esmagando ainda, em saliva, outra saliva ou 
baba, que escorre pastosa, indecisamente verde.





sábado, agosto 25, 2012

ROCHA DE SOUSA PINTAVA ASSIM NOS ANOS 60




Estas pinturas são obras de Rocha de Sousa numa faixa de tempo situada nos anos 60. Houve polémica na altura em que Paula Rego se apresentou na Galeria de Arte Moderna da SNBA. As afinidades estéticas pareciam relacionar os dois autores. Questão da história, Rocha de Sousa não tinha ainda a projecção que veio a ter, sendo hoje bem coerente com a morfologia desenvolvida naquela época, tal como se viu na FBAUL, numa exposição importante de antigos professores daquela instituição.

Sousa Carneiro
 

terça-feira, julho 24, 2012

CIDADE MORRENDO DE SILÊNCIO E AUTOMÓVEIS


Cheguei tarde, pela tarde, à cidade ainda iluminada pela luz dourada do sol que acendia as paredes e os vidros das janelas. Era, por vezes, um fogo escondido no horizonte, claridade a lamber o empedrado das ruas que apontavam ao poente, silenciosamente.
O Verão caíra sobre os telhados de cerâmica em cana, abas reconstruídas depois dos anos setenta, salpicadas, para dentro de outras casas térreas, de telhas carcomidas e velhas, acinzentadas, breves, por vezes juntando remendos de alumínio moldável ou restos de cal escorrida.


Abri a porta, entrei na sombra, atirei as bolsas para cima da cama e abri devagar uma fresta das portadas interiores da janela, linha de luz ao alto, e confiando no meu ainda escondimento naquele entardecer de fantasia, oco e silencioso, vazio de gente, só portas e persianas fechadas um pouco por toda a parte, os carros estacionados como bichos abandonados e dormindo.
Cheirava a pano, parecia de algodão, a mobília continuava escura, estranha, monacal ou como cenário absurdo da morte de alguém àquela mesma hora, ali mesmo. O soalho rangia, estalava breve e sem alarme, passando pelos espelhos sombras de mim no imprevisto dos ângulos e da lenta virtude dos passos.
Fui passar água pela cara e senti a barba já incómoda, o tempo na pele desalinhada pelos dias. Dias secos. Dias quentes, abafados pela noite dentro, um Agosto parado, vazio de chamamentos. A porta que ligava o corredor ao quintal apresentava um quadrado de luz ou de parede no seu terço superior. Mas dispensei esse percurso da curiosidade, sobravam horas, uma semana, talvez, o corredor serviria para outras viagens de amanhecer. Decidi dar uns passos pela rua fingidamente medieval, colhendo a hipótese de tomar um café no bar ali perto, que tantas vezes me torturava de música metálica pelas festas de Julho. Fechada a porta carregada de publicidade e um letreiro oferecendo o estabelecimento para venda, sale.



Tudo isto me surpreendia cada vez mais, a imobilidade das coisas, as janelas e as portas como que definitivamente encerradas sobre a incerta memória dos mortos, ou gente ausente, ou meninos por nascer. Velhos dedicados, nenhuns. Gente porventura deslocada, pessoas que haviam partido de férias ou desempregados cujo destino se apresentara de novo na emigração, sem retoma das origens, homens laterais e sem nome. Como a cidade ainda se apresentava lavada e pintada dos anos de glória revolucionária, após se terem deitado fora as colónias e os haveres que nem lhes pertenciam, tudo amarelecia com esta luz cada vez mais baça, perdido o fulgor do ouro e da cintilação arabizante. Ninguém espreitava dos lugares de espreitar, vidros, esquinas, jardins de bancos pintados mas completamente abandonados, talvez aceitando a monotonia do pó dos outros dias de isolamento e ausência. Cafés e esplanadas tinham fechado. As esplanadas mostravam alguns toldos abertos, mas levemente tocados de brisa, exactamente como se vê no cinema depois de uma evacuação de qualquer pequena cidade californiana após um risco de desastre natural.

  

Não acendem as luzes, o rio espelha a noite próxima, os pequenos barcos de madeira estão mal tratados e parecem agrilhoados nos ancoradores de margem ou de esguelha, sem cordame, fundados na lama da maré baixa. E nem os velhos, que conversavam num grande banco de ferro junto ao alto muro de uma fábrica corticeira há muito destruída, se veêm. No ano passado, havia menos velhos, mas estavam por lá meia dúzia deles, cacarejando as dores e as lembranças. 

 

Resigno-me a saber, algum dia, qualquer notícia com verosimilhança. Vou dormir cedo. Junto da minha casa dou de perto com uma parede alta inteiramente coberta pela sombra e pelo cheiro de plantas que sopram o seu sono dos dormitórios como aqui parece estar a acontecer. Valerá a pena voltar para a casinha de Lisboa, na inércia de tudo por outro lado, à espera que o SNS me deixe morrer?

terça-feira, julho 17, 2012

A EDUCAÇÃO SUJEITA A NORMAS INOMINÁVEIS


AO SENHOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO DEVE DIZER-SE 
QUE AS REFORMAS DA EDUCAÇÃO NÃO SE RESOLVEM
COM CIRURGIAS AMALGAMANTES  NEM COM
ZEROS DE HEMOGLOBINA EM SERVIÇO

Quem é que compreende que um professor com 24 anos de serviço, um mestrado apropriado, efectivo desde 1990, trabalhador empenhado em tudo o que faz, seja notificado que vai ficar em "horário zero", tendo ainda sido obrigado a concorrer e plasmado a uma vinculação de degradação inominável?
Parece que se vive no mais radical teatro do absurdo, nada disto é justo, e o que fazem a seres humanos largamente entregues a este difícil campo profissional não tem o menor sentido. Alguém contou em lágrimas esta situação e outras, de colegas (pais e filhos) atirados para a mesma condição com trinta anos de serviço efectivo. Um casal de filosofia, cuja mulher é jurista e pediu transferência de serviço de Coimbra para as Caldas, visto o marido se ter efectivado aí, teve como resultado a negativa, um famoso zero entre assimetrias sem valor de qualquer espécie, normas no mínimo estranhas. Há escolas  que foram compelidas a não contabilizar nem o serviço nocturno recorrente, nem o profissional. E, contudo, muitas escolas, algumas com duzentos alunos menores já inscritos, vêem-se na contingência (pelo menos ética) de receber e distribuir trabalho, visto que o seu mundo está pleno de apelos e correspondência docente e não se desertificaram nem à força.
Aqui se pede desculpa de qualquer impropriedade técnica, mas o que importa é que o país tenha um Ministério da Educação comunicante e esclarecedor: este trajecto não é o da austeridade, antes se assemelha a uma contabilidade cega ou a um jogo de xadrez onde alguém sofre de cegueira e move as peças sem rigor nem objectivo.
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Metáfora fotográfica de Rocha de Sousa

quarta-feira, julho 04, 2012

QUEM GANHA O QUÊ NA VIL TRAGÉDIA DA SÍRIA?

uma lembrança de Homs

O rumor sobre a Síria adensou-se. E os que esperavam  por um erro dos rebeldes, desculpavam (como se falassem de mentiras) todo o avanço bélico de Assad. Havia quem rejubilasse com as explosões provocadas com carros armadilhados,
vejam, vejam, não passam de terroristas.
Mas, sem nada perceberem do horror instalado, mais apontaram  dedos e slogans à oposição do regime por haver capturado soldados fiéis ao poder, exercendo sobre eles actos de tortura, ou por vingança ou para a obtenção de certos dados estratégicos sobre a guerra.
O Presidente Sírio, sem oratória de relevo, limitou-se a dizer, já tarde, que o país estava a ser atacado por uma conspiração internacional. A propósito do que foi a história, e dos príncipes e dos seus desastres principais na área da actual Europa, o Conselho Nacional Sírio, principal plataforma da oposição a Bashar al-Assad, deu uma conferência de imprensa no dia 1 de Abril (2012). Foi com base nesse acontecimento, em parte falhado, que Bassma Kodmani, admitindo que o tempo de Assad se estava a esgotar, disse que, nesse caso, os «amigos da Síria» tinham toda a legitimidade para decidir avançar com uma intervenção militar e «resgatar os  sírios» da ditadura. O jornal Público, no dia seguinte àquelas afirmações, avançou com um título no mínimo perturbador: «Se o mundo não fizer nada, vai ver uma guerra civil transformar-se num conflito regional.»
Contudo, depois deste tempo todo e da destruição impiedosa de cidades sírias inteiras, a começar por Homs, o que resta, entre desertores e o êxodo do povo para a Turquia, é um país praticamente arrasado, milhares de mortos, paralisia e lixos dantescos onde os corpos se perdem e decompõem.
Quem é que responderá por isto?
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texto inspirado num tratamento dos problemas daquela área no livro narrativas da suprema ausência,
de Rocha de Sousa, em revisão.

sexta-feira, junho 08, 2012

VALOR NA EDUCAÇÃO DA CULTURA E DAS ARTES

da capa sobre Didáctica da Educação Visual, U.A.    
imagem de ROCHA DE SOUSA

Quase ninguém soube quem acabou com as «velhas» Escolas Técnicas, normalizando tudo por um único eixo oferecido às elites liceais a caminho da Universidade. E assim se perdeu um pólo formativo técnico-profissional que nenhum liceu saberia enfrentar, pelo que se atirou para o buraco negro do oportunismo montes de ferramentas e máquinas preciosas capazes, inclusive, de estabelecer muitos e diferentes canais de interacção daquelas escolas, algumas delas exemplares a vários títulos, com a própria indústria. Tive oportunidade de assistir a uma experiência assim entre a Escola Técnica e Comercial de Silves e uma Metalurgia da terra, do senhor Carlos Pinto. O apetrechamento da Escola era moderno e chegou a desenvolver a produção de uma peça que a fábrica tinha em falta, por espera do equipamento encomendado ao Japão. Por outro lado, sem contar com as Escolas de Orientação profissional e artística do secundário (António Arroio e Soares dos Reis) muitas dessas instituições eram acertadamente dirigidas por profissionais da Escultura ou da Pintura, com formação qualificada em certas tecnologias pluralmente dirigidas à edificação do património urbano e das artes em geral área do conhecimento que, no dizer do José-Augusto França, era nuclear para que uma civilização o fosse de facto.
A modernidade trouxe muitos equívocos, mesmo nas artes, mas neste caso a liberdade tinha um estatuto especial e é por isso que a revolução estética ocorrida no século XX continua a alimentar o entendimento da inovação e a própria reforma das Faculdades de Belas Artes de Lisboa e do Porto (UL e UP), acção abandonada pela sobranceria dos arquitectos (como comadres no bairro) e que não prejudicou a instauração de licenciaturas em Design de Comunicação e Design de Equipamento, além de uma licenciatura em Multimédia. Claro que os arquitectos mais abertos sabiam do interesse em reunir-se e relacionar-se didacticamente numa gande área dos seus saberes com outros, o que aconteceria com as artes plásticas e o design. Beliscaduras do PREC e do desentendimento com o director (escultor) precipitaram as coisas, não por motivos científicos, como se vê, mas por descoordenação cívica e cultural, um abismo mal remediado.

o velho eduquês e a negação das artes 
no fundamento da formação global do indivíduo
O primeiro conceito foi reactivado, no Diário de Notícias de hoje, por José Manuel Pureza, professor universitário. No seu texto, Pureza mostra sinteticamente como o Ministério da Educação continua a julgar que a formação actual tem de ir a montante refundar-se no «rigor», na «eficiência», no «pragmatismo». E entende que esta perspectiva, ligada a condições da escassez envolvente, assenta afinal na «mais ideológica» das cartilhas políticas esgaravatadas por este e outros responsáveis governamentais. Pureza também observa, e com pertinência, que os ministros que foram chegando a esta estrutura complexa da administração do país, todos amigos da flexibilização, deixaram, de uns para todos, o Ministério como o mais pastoso dos pântanos. A jusante, antes de colocarem o chão à mostra, trataram de cortar, anular direitos, concentrar, abater as escolas de proximidade. O actual Ministro, prof. Nuno Crato, que ainda acenou na televisão sob os eternos diagnósticos do prof. Medina Carreira, chegou ao lugar e mostra como o «eduquês» «está a produzir gente ignorante e a transigir com a incompetência. E, numa cruzada contra esse apodrecimento (algo sempre sedutor para os leitores de tablóides) ele não propõe nada menos que a regeneração da educação nacional.» E aqui o articulista conclui que a regeneração não é outra coisa senão a transformação do conservadorismo ideológico em política pública». Pureza conta entretanto uma história relativa ao gosto de Crato pela educação antiga, visto que a de hoje está pior do que nunca. 
Esta não é, globalmente, a minha praia, mas sei de originalidades de contenção política (coisa que cada vez menos se percebe o que é, tão autónoma se afirma) relativamente à abertura (desde o prof. Delfim Santos) do curriculum às áreas artísticas (musical, visual e tecnológica) desentendimento que me foi dado observar na altura em que Espanha já integrara o estudo das Artes nas Universidades e a lição anglo-saxónica tinha devotos partidários. O caso das artes, essencial,  já era marginalizado nos velhos liceus, morfologicamente ineptos: nesse tempo, um professor de Educação Visual só tinha um colega abaixo dele, o professor de Educação Física.
Lisboa, no contexto da Comissão e da documentação que trabalhava o Ensino Superior Artístico, dava entrada ao que apontavam os materiais que já a reforma de 1957 indicava; e as personalidades da nossa inteligência esclareciam todos, bebendo as esquisitas mistelas que o colonialismo  cultural, mesmo tóxico, lhes impingia. O que não era verdadeiro nem moderno.
                                                                                 








 A mobilidade visual é um conceito que envolve mobilidade no real e mobilidade intrínseca: a que corresponde à experiência cognitiva e suas linhas de relação durante os níveis de aprendizagem e vontade de  representação /expressão.










A circulação quotidiana dos olhares, segundo actos deliberados de observação orientada e segundo pesquisa na memória dos mapas de muitas outras sondagens entre contraste, associação, sobreposição, vários caminhos do ser e do ver, percursos, colocações, diversos níveis de nitidez e de eficácia conceptual, tudo isso indica ou faz parte da apropriação plural das sucessivas imagens do visível.

Quando trabalhei para a Universidade Aberta, criando unidades multimédia e gerindo a cadeira de tecnologia do Vídeo (audio-visuais), vi a abertura de muitos professores para os modos de formar que ali se indagavam e a mais valia que isso implicava em vários estratos da formação do indivíduo: cívico, criativo, destreza visual e papel da visão no espaço urbano ou com novos instrumentos. Muitos ministros da Educação ficaram ligados a desvios e facilidades comprometedoras, já no período dos governos constitucionais. Crato não merecia resvalar nesse sentido, uma vez que o problema não se resolve com cortes concentrados na Educação Visual ou anorexia para a Educação Física. E quando um governo constitucional, tarde na hora, pediu desculpa a uma comissão de professores de Belas Artes por um Director Geral lhes ter afirmado que o país não precisava de artistas para nada e que o uso denominativo do design em novas licenciaturas não passava de um desenquadrado anglicanismo, as coisas tremeram. E houve mesmo a nomeação de uma Comissão, com membros das Belas Artes e das Universidades para estudar as reformas, entretanto desenvolvidas, e saber se elas teriam qualidade científica e de formação artística para serem transferidas para o domínio universitário. Depois de 13 anos de maus tratos e incompreensões, a decisão foi tomada pela Universidade do Porto e pela Universidade de Lisboa.
No secundário, se houver consonância com esta já nítida realidade, o que se pede não são ressurreições  descontextualizadas, incluindo certos exames. Mas a formação do olhar e do ver, para além das «ciências da educação», consolida-se sobretudo na excelência da capacidade de ver e reformular assim a relação codificada do espaço ou com outra estrutura numeral das coisas. Há papás inquietos com os desenhos borrados dos filhos (o que tem primeiramente  muito que ver com a idade) e os engenheiros a dar aulas no secundário não sabem o que hão-de fazer com uma jarra. Há ideias erradas, aos montes, sobre tudo isso. Porque tudo isso se relaciona profundamente com o ver, com a passagem bem aprendida dos sinais do quotidiano, com os instrumentos que manejamos, com a sua representação mental e física. Tem que ver com as artes do tempo, não só com as do espaço bidimensional, mas também com o teatro, a literatura, a música, a dança, o cinema. E menos, curiosamente, com a televisão  que nos sobra. 
Esperemos que o senhor ministro alinhe por esta via: a educação do espírito (da consciência, da memória, do imaginário) não é coisa só para sucesso em gestão. Leonardo da Vinci era mais sábio do que qualquer dos nossos maiores  gestores de meios, os que ganham centenas de milhares de euros por ano e poucas alternativas podem manipular. Claro que o português é uma das prioridades (como a Educação Visual), mas a nossa língua, assaz rica, tem operações narrativas ou inventivas para dizer a imagem ou, com ela, resolver um melhor entendimento do que os linguistas e os escritores apontam para a vitalização do português. Deixemo-nos das vagas como a que nos enxameou de pedagogos, ou a que nos fez reféns das ciências da educação numa perspectiva afinal conservadora, ou ainda o cerco dos psicólogos, que olham para a violência dos alunos em relação a um professor e debitam modos de actuar bidimensionais e logo mortos na sua escassez quanto ao entendimento espesso e líquido da realidade.
Ver criativamente a realidade é prioritário para a formação do indivíduo.

sábado, junho 02, 2012

APESAR DAS VOZES, SÍRIA VOLTA A MASSACRAR

                          Rocha de Sousa, foto: massacres na Síria

A Síria, acometida pela mesma vontade que trouxe a Primavera Árabe, viu parte da sua população manifestar-se contra o regime de Bashar al-Assad. As pessoas manifestavam-se contra a ditadura, contra a falta de liberdade, contra a precariedade. Foram mal toleradas tais expressões de vitalidade: muito em breve, Assad deu ordens para que a vida pública voltasse ao normal. Mas forças do regime agiram com excesso de Zelo e desencadearam formas de repressão muito violentas, prolongando o cerco das cidades e recorrendo ao seu sistemático bombardeamento. O património urbano desfazia-se, ganhava simbologia, tudo se tornou inabitável. As primeiras vítimas contavam-se pelas dezenas, mas os prisioneiros foram encerrados em quartéis-prisão e submetidos, segundo testemunhos insofismáveis, a torturas de assombro, que geravam muitas vezes a morte.
Apesar das vozes da comunidade internacional, o avanço dos bombardeamentos tornou-se cada vez mais violento. Os rebeldes cobriram frequentemente a retirada das populações, a longa fuga para campos montados na Turquia. Os massacres continuaram e a Rússia e a China, que tinha impedido no Conselho de Segurança da ONU sanções contra a Síria (a brutalidade destruidora das forças do regime, cada vez provocando mais vítimas e degradando um imenso património urbano) associaram-se então ao voto punitivo, a estudar consoante as circunstâncias. Kofi Annan foi à Síria e tentou negociações de paz, a análise dos pedidos e o recurso às soluções consensuais. Foi instaurado um cessar fogo. Era urgente começar a resolução do problema. Mas o exército Sírio não respeitou o cessar fogo e incrementou mesmo alguns ataques arrasantes. Tinham desaparecido os pássaros, os próprios bichos domésticos, o silêncio tardio era fustigado, de quando em quando, pelo exército «regular». E há dois dias, cercando a cidade de Houla, usou bombardeamentos  assassinos e entrou pelas casas, matando famílias inteiras, numa condenação sumária que foi estendida às crianças com tiros na cabeça e, noutros casos, recorrendo à degolação. A comunidade internacional reagiu, tentando evitar uma guerra civil e a hipótese de que todo o Médio Oriente se incendiasse. Só naquele dia houve 100 mortos e 300 feridos graves. Tudo tarda. Os governos ocidentais temem, mais do que as memórias do Afeganistão, Iraque/Irão, conflitos com Israel. Temem a importação de um estranho Vietnam e olham cansadamente para os efeitos da crise financeira actual e para os emigrantes e os fantasmas onde gritam sérvios e a fragmentação de todo esse nó em plena Europa.

quinta-feira, abril 26, 2012

O SOLDADO MORTO E A LAMENTAÇÃO DA AVÓ


Eu não sabia nada de ti. Não gostei nada de te ver partir assim. Disseste que escrevias e eu fiquei à espera. Dias e dias de espera e saudade. Um dia sempre chegou o teu postal em que me dizias ter feito boa viagem e que tudo estava como devia estar. Escreveste tão pouco, meu querido neto. E no fundo das letras vinha uma espécie de carimbo, só com a palavra Afeganistão. Isso é terra ou é gente ou coisa pior? Ninguém me sabe dizer nada e eu vou ficar aqui, esperando por mais notícias. Uma vizinha deu-me a entender que essa coisa do Afeganistão não lhe parecia boa coisa. E então chegou a malvada carta da tropa em que me diziam ter morrido em combate, honrando o país. Qual país? Eu bem sabia que aquilo de África já acabara e que aquele Afeganistão não era boa coisa, não, bem dizia a pobre vizinha. Agora é isto. Agora tu sem seres tu. Veio cá um correio da tropa e trazia a urna de metal,  pequena, de criança. Peguntou-me o homem se queria que deixasse aqui o corpo ou na Igreja. E eu perguntei num grito «Qual corpo?» E ele disse, levando a mão à testa: «O corpo do seu neto, morto em combate no Afeganistão.
Foi para dentro, fui ver como cabias ali, e não havia senão as tuas pernas  dentro das calças e os sapatos calçados. Isto não se faz nem a um combatente. Vou fazer um velório florido, os teus restos repousarão numa urna como as outras, de madeira. E será nesse caixão que descerás à terra do nosso pequeno cemitério, honrado na morte e no gesto, como os demais.

domingo, abril 08, 2012

O REFLEXO SUBMERSO

fotografia de Alexandre Baganha

A mão não é asa, é parte de um olhar que desce, não se sabe de onde nem a quem pertence. A luz transforma-se, tanto é corpo diáfano como um sonho acordado na capela Sixtina, o sopro de Miguel Ângelo no ponto exacto de toda a criação, dele ou de Deus, é igual. Mas tudo isto se passa com o olhar pendido, mão meio suspensa, reflexiva, quase a tocar a água deste espaço sacro, arredondado, do qual, numa espécie de meia-lua antes de o ser, parece emergir a mão — a mesma, talvez outra, quem sabe? — dedos quase toscos, humanos, aspirando a livrar-se do fundo como caverna alagada pela chuva. Dedos em sombra, breves, mortais, no atrapalhado gesto de subir em nome da salvação. A sombra da mão que desce, que parece querer afagar o espaço ou a própria água, curva-se e aponta as hastes para cima, agrestes, não doces nem etéreas como a aparição na direita alta do campo. Então poderemos pensar que a mão, suspensa mas pulsante, projecta na pedra a forma oposta à sua beleza que indicia bondade. Se estamos a falar do real, o paradoxo é o seu modo de ser — e aqui vemos um dos triângulos da sua equação a duas incógnitas e um sujeito: os dedos naufragados podem ser, com mais probabilidade, imagem virtual dos dedos concretos, asa descendo, corpórea, para uma água de que não temos a certeza de existir e que o lado esquerdo do campo, obscuro, sempre nos sugere, entre a sombra e a humidade latente do visível. Nunca há conclusão para nada, mas sabemos que se houver água dentro da sombra e se os dedos da mão mergulharem nela, logo destruirão todo este equilíbrio, cantata de Bach, e os dedos submersos, transformados em manchas ondulantes, logo serão absorvidos pela sua verdade carnal quando a mão acabar aquela sucinta prece e voar para fora de campo. A fotografia que restasse dum olhar assim, teria um lado esquerdo sombrio, agitando a meia-lua antes de o ser, luz sobre pedra e água, tudo imóvel, por fim, uma certa claridade material à direita.

ROCHA DE SOUSA