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quinta-feira, agosto 21, 2014

ESTAÇÕES PORTUGUESAS DE TELEVISÃO C-LIXO


PÚBLICAS BANALIDADES E HORAS DE LIXO PUBLICITÁRIO





Coloquei-me em frente do televisor, onde tantas horas já perdi de tédio e revolta, liguei a máquina de fotografar. Depois de uma fita de registos, apontei a objectiva ao ecrã e decidi esperar o tempo que fosse preciso. Num programa de balelas pela tarde fora, por esse país longe e deprimido, a televisão em directo, com apresentadoras, garotas fingindo que dançam e cantores de grau C, dizem a Portugal o que é Portugal -- e muita gente  das redondezas ali fica ao sol, de pé, embasbacada e capaz de sorrir, ou rir, ou gritar, ou concorrer a um prémio de mil euros. Aqui vem uma senhora com o menino (de pequenino é que se torce o pepino,  não é, ó Goucha?), toda contente, enquanto os frames seguintes,  pirosos até  mais, feitos à mão (popularmente) anunciam outra rodada e onde e a que horas.


senhora da CASA SUJA

Fui fotografando o que me agitava desde logo a alma: podem reparar no bom gosto desta composição anunciando o elenco dos artistas e dos técnicos. Claro que muita gente acha isto piroso, mas que raio, as coisas são como são: não há ali muita gente que cola assim as fotografias nos álbuns de família, embora se limitem a apontar, numa escrita manual, os nomes dos elementos da Casa, o Joaquim corta e cola, a Maria acha mal porque a senhora professora de Educação Visual indicou maneiras mais giras e sérias de conferir equlíbrio à composição das imagens e dos textos numa folha A4. Coitada da miúda, então não queriam ver que ela se achava mais apta do que os senhores da televisão?



as séries de nível C-lixo

As novas teconologias já nos metem nas mãos ecrãs pequenos, A4 (porque não), com tudo lá dentro: a publicidade antes do mais, as séries de acção (ali está o rapaz tocado por Deus para não disparar a pistola), coisas assim SYFY, MGM, internet, mensagens a cada minuto, entre o Terreiro do Paço já cosmopolita e um lugarejo da Ucrânia, massacrada pelos russos e ajudada diplomaticamente pela sonsa Europa e os caças americanos. Mas não julguem que a televisão assombra as pessoas com coisas dessas. As piores guerras são nos canais de notícias, horas seguidas, com uns marretas a falar de futebol, sempre de cátedra, com médicos e tudo, homens que medem o tempo, economicistas, políticos. Tudo pára, até as eleições, porque começou o Chelsea com o Benfica e em Espanha o Ronaldo fez um golo, que é preciso repetir três vezes e em ângulos diferentes. Esta mobilidade visual já foi estudada na Universidade, em teses de doutoramento. O futebol é uma das religiões mundo. A virilidade dá para enormes cenas de pancadaria cínica, no corpo a corpo, coisa que nunca se vê em coisas como Jardins Proibidos, novela que vem somar-se a mais cinco e repetições que os canais passam à noite, de manhã e de tarde, claramente acima das nossas possibilidades de percepção, sobretudo depois do debate político de ontem: já apareceram ténues sinais de desenvolvimento e o BES vai ser lavado da hemorragia que teve na sua própria sede. O INEM chegou outra vez tarde. Portugal não sabe onde estão os verdadeiros torcionários e já nem pode garantir a quem o BESI (Angola) emprestou cinco ou seis milhões de euros. Uns quanzas é que deviam calhar. Mudem de canal, mudem depressa, vai falar o professor Marcelo Rebelo de Sousa. Gravem, amanhã decifra-se a embrulhada.

como livrar as universidades do C-lixo

É preciso abreviar isto porque os minutos, na televisão portuguesa, são contados aos minutos, excepto quando se trata do futebol: dois canais, cinquenta minutos cada, com prolongamento, e jogos eternos, a oitenta milhões por contrato de jogador, o que não os impede de puxarem pelas camisolas, rasteirarem o parceiro, partirem maléolos e coisas assim. As fases em câmara lenta, repetidas com o seu ênfase próprio, mostram algo de semelhante a uma carnificina a cores -- e que nos lembra os escassos minutos das guerras em curso no Médio Oriente.
Este plano tratava, sucintamente dos cortes nos orçamentos de ESTADO para as Universidades. É claro que o Estado aforra muitos milhões populares com concursos como o euro-milhões certas taxas que mal se notam, das quais surgem poupanças que davam para o nosso primeiro-ministro não dizer aquelas coisas por causa do Tribunal Constitucional: então agora fez birra no discurso do Pontal e, porque lhe cortaram a CES, subiu a voz, garantindo que, se era assim, então não proporia mais reformas para a Segurança Social. É que ele pensa que a tal taxa era uma Reforma. Cortar nos salários é reconfigurar tudo, funções, projectos, interacção entre serviços, campos financeiros, económicos, justicialistas e de balanço.
Voltando aos reitores. Os homens têm razão: então o governo adianta 60 milhões de subsídio aos colégios privados e, este ano, ao Ensino Superior carregou com mais 14 milhões? Eu duvido destes números que li num jornal controlado por dinheiros de África. Mas é certo que aumentou, isso sei, e sei também que devia parar ou descer.

o «belo gosto» dos gráficos

Aqui têm uma grelha sobre desporto que prima pelo contraste e elegância das manchas gráficas. Isto é o pão nosso de cada dia: insersores de caracteres que se imobilizam no tema e não repetem o nome do convidado, letras de macarrão, simbolos desalinhados, rótulos  entre maneirismos de canal e de tema, por vezes a bonecama invadindo cenas inteiras, para que ninguém se esqueça que está vendo AMOR e VENTO (em cima, à direita do ecrã) e que está sintonizando o canal TUF1, e em breve terá acesso aos bonecos que invadiram por momentos o campo, com momices e dejectos, além do nome Rei Pirata. Isto é tudo ilegal, contra os direitos do espectador e os direitos dos autores, já pensaram. Aproveitam para olhar para baixo: é mais um troféu que tem esta cara e esta expressão, aspectos grotescos em nada ligados ao humor, nem à comédia, nem ao circo, nem à  revista à portuguesa, mesmo aquela que conquistou Lisboa, pelo génio de La Féria, no Politeama.


O cinema é coisa me!!!!!!nor: vamos às novelas


actores bons* argumentos rotineiros e de pacote

Tenho o maior respeito pelos nossos actores e acho que, se houvesse gente capaz do lado conceptual, argumento, inovação expressiva, fuga às convenções cariocas, poderíamos chegar a um ponto superior da arte de criar em televisão; no caso de configurações derivadas do cinema e mesmo do experimentalismo arrancado da era do vídeo.
É talvez altura para, lembrando a desmontagem crítica do saudoso Mário Castrim, apontar algumas coisas sobre as telenovelas. É verdade que os actores evoluiram de forma notável e chega a haver mesmo sequências com cenas muito bem pensadas, contextos cénicos bem favoráveis à relação das cenas e dos tempos, num grau de verosimilhança decisivo. Mas, curiosamente, um dos principais problemas começa nas angulares e na permanência irreal do estereótipo de cada lugar, do próprio guarda-roupa, de certas marcas psicológicas a que o «boneco» é forçado, em nome, porventura do reconhecimento existencial.
No caso da novela que está a terminar («Belmonte»), aliás mais ou menos bem urdida e com momentos apreciáveis de escrita (palavras e qualidade dos planos), há, como em todas, uma absurda geografia quanto a lugares e aspectos gerais, sobretudo os aéreos.
As instalações do grupo Belmonte são muito bem achadas e os interiores cénicos, em racord com o clima da Quinta, funcionam com muito interesse. O espaço sala do casarão Belmonte, onde a família comcentra refeições, troca de palavras e mesmo cenas de desconfiança de bom recorte, tem uma escala que permitiria encenações mais ricas e intencionais, quer ao nível do movimento dos actores quer do lado da câmara, circulando, subindo e descendo, por exemplo, na medida em que esse investimento no cenário implicaria a emergência das diferenças e das sombras.
Depois pensamos assim: só à o café da Beatriz em Estremoz, assaz munida de uma estalagem
que só perda por saídas e entradas parecerem demasiado teatro. É preciso que o espectador aprenda, mas isso não deixa de acontecer com recursos diferentes à tomada de vistas. Quase sempre, tudo está tão previamente fixado, que levanta a ideia das câmaras estarem coladas ao chão, desde o início e nos mesmos pontos. Tudo, aliás, acontece assim: a distância a que se entra no sala dos Belmonte, a falta de uma parede no café da Beatriz , a fixidez da sala dos Milheiros. E assim por diante, em todo o lado. Não me parece nada descabido combinar com certas lojas e cafés a captação de cenas curtas, uma compra, uma conversa com alguém dali. Os habitantes não podem ser só meia dúzia de figurantes. E a luz que se aplica aos cenários, se é de dia, tem de o parecer (neste tipo de registo), tal como à noite. Os espectadores seguem um fio em cortes da meada e não sabem a quantas horas. E não se fale nos calções e minisaias de todas as miúdas e raparigas. É bonito, dizia-me um velho, ver as pernas. Pois sim. Talvez seja por isso que está sempre sol, há sempre praia (nas novelas em geral) e ainda não aprenderam a iniciar uma relação amorosa despindo-se primeiro por baixo e só depois, ou entretanto, a roupa de cima. Os esterótipos das cenas de cama são risíveis: não é nada difícil melhorar essas encenações, marcando-as pelo que sucede psicologicamente com as personagens. Toda a gente salta sobre uma secretária, raramente sobre uma cama e desatam a despir-se um ao outro SEMPRE DA MESMA MANEIRA. E não estou a referir os actos de encosto à parede: o que se podia dizer a esse respeito (e à chuva, rara) poderia dar uma sequência jocosa.
Os fazedores de telenovelas (diz-se que por causa do turismo) aprenderam a filmar paisagens cidades ou aldeias através de vista aérea. Muito bem Dá jeito e, em muitos casos, dá a ver o outro lado da beleza. Mas isso não tem que ser feito sempre da mesma maneira, com o mesmo movimento de aproximação, os mesmos cavalos correndo, os mesmos toiros na margem. Pode haver uma questão económica. Há um parágrafo, sai plano aéreo inserido e a musiquinha assaz demasiado alta e quase sempre desapropriada do lima geral do enredo. Este recurso, ensopadamente repetitivo não tem sentido. Como aquela de os personagens, após uma troca rude de palavras, apanharem com um que resolve sair: vão quase sempre a quase correr. Será expressão? Sempre?
Um dos horrores de quem vê novelas é ter que chupar, por todo o lado e em todas as cenas, a música por vezes espantando os diálogos ou, na mesma altura, perante uma cena dramática, de murmúrios, entre um qualquer casal solitário, porventura ao fim do dia. Tudo o que se aponta aqui deveria ser revista, sem ceder a brasileiros e a batidas de cão. E também «proibir» os inserts com planos da rua em que o trânsito e as pessoas se deslocam à velocidade da luz. É aberrante e não acrescentam retira nada a nada. É apenas um erro grosseiro.
Era urgente escrever um livro sobre estas coisas. 
Mas termino. E termino dizendo que as novelas não precisam de rótulos aos cantos e de interupções para publicidade de outras e de produtos, com uma marca decrescente dos segundos que vão permitir retomar a acção. Uma cena é interrompida: vê-se no ecrã 30 s, e começa o relógio a  andar para trás. Isto várias vezes e com tempos diferentes. Para não falar nos intervalos onde já cheguei a contar 28 minutos de salada de anúncios. Depois é entre programas. E sempre assim. Se não há, falta legislação sobre isto: há países que regulam tudo e não permitem interromper um filme (já falo nos de qualidade) para passar durante 40s uma pasta dentífrica. Um amigo meu, disse-me: não ligam aos direitos, especiais e gerais, querem o dinheiro e usam 24 horas de televisão para, durante o dia, a impressão de que vimos mais publicidade do que formas de outra cultura,,cinema, teatro, novela, debates, palestras ilustradas, desporto com conta peso e medida, música séria, etc.
Ajuda aí na parte política, amigo Castrim.
Do Além ouve-se: eles mataram um dos maiores engenhos do século XX. E até o cinema, com os monstros do imaginário americano vão tragar a terra. Volta ao Kazan e ao Tarkosky, entre outros. Em suma, escolhe.




                                                 intervalos e cortes de publicidade proibitivos     


       Mário Soares, Presidente da República no início do processo de Abril  74, irrita-se com  as coisas de agora e diz o que lhe apetece. Está velho mas intervém. O seu mal não é a televisão, mas ainda sabe quem dorme por cima da sua cabeça: pode ser um sono  de amor ou um vulgar  simples  reclame  ao   perfume  da  agenda. Depois  tudo  corre  na  mesma:  o  ecrã mostra  a uma  hora,  sinal  de  que  vai  acontecer  um  programa:  mas  claro   que  uns  segundozinhos vêm mesmo a calhar  para  a  publicidade  ao  carrinho. Sempre. A  toda a  hora.  As  estações cartelizam  a  publicidade.  Quando  um   programa  mal  acaba,  antes  do  seguinte  lá vem  a cascata   da publicidade.  E  o  espectador  sem  licenciatura  de  chantageado  por  outro: está a dar publicidade. Só quando um termina, terminam todos. Que bela liberdade de comunicar, que bela ética: todos escondem todos.
Olhem para cima, mais publicidade, mais sport, e ali não dizem que, na televisão portuguesa, desporto coorresponde a futebol. Uma das maiores invenções da moderna tecnologia é hoje prisioneira da forma como se transmite e se paga a si mesma: quase não serve para nada, prende os velhos às cadeiras, trabalha absurdamente 24 horas sobre 24 horas, esmaga o mundo sob o seu peso, esquemas de contrato, concorrências que implicam horrores de mau gosto e massificações em pós modernismo do humor, reles, reles até se morrer em solidão diante do «vidro» à cores e muito barulho. Os mais crentes no Além já se convenceram que preferem ouvir música celestial do que ter televisão com mil canais no quartinho de nuvens.


CONTINUAREMOS: SOBRETUDO DEPOIS DAS PRÓXIMAS GREVES DO PÚBLICO 
À TELEVISÃO PORTUGUESA, BEM COMO A GREVE DE ANUNCIANTES 

segunda-feira, agosto 18, 2014

HAMAS*GAZA*ISRAEL*LÍBIA*SÍRIA*UCRÂNIA* E A PESTE


                                 
Talvez não haja título nem para as «ilustrações» nem para os indícios da sua turbulência, a fragmentação dos edifícios, os seres cortados ou desfeitos em  imagens de  espelho ao  correr do olhar. São as guerras que merecemos ou o resultado de civilizações que erraram os planos da sua história, entre os medos, os mitos e os deuses a fazer de pais omnipotentes, a exigir mortandades para serviço da sua discisplina e ordem e ocultos desejos de grandeza. Veio tudo a acantonar-se num só Deus com vários nomes. Alá está hoje zangado e o livro que o serve é decorado pelas meninas que os talibã sequestram em estranhas escolas. Deus, dos cristãos, já aparecera no livro Sagrado dividido em vários ou num disfarce de cólera única para reger um mundo convulsivo, apesar dos anteriores,  Buda, o  senhor  oferecido ao Todo ou ao Nirvana, para onde convergem os mortos vazios do que foram em vida. Agora as religiões repetem os horrores milenares e despedaçam as nações: outrora as Cruzadas, entretanto as guerras santas, sob o mesmo Alá, numa pavorosa explosão de grupos, seitas, sacerdotes feitos generais, presidentes gritando para as tempestades como os Papas medievais sussurravam a usura e os equívocos entre mortos e vivos, casando e descasando, até à luz daquele Lutero que ainda nos ilumina apesar das suaves iluminações de Francisco, arranchado perto do Vaticano e pronto a dizer as prontas palavras até há pouco ocultas nas catequeses.
Estas palavras, descosidamente, procuram chamar a atenção para as crises sistémicas actuais e para os fenómenos de desmembramento das culturas em nome das novas Cruzadas de todos contra todos, povos, etnias, seitas, religiões, grupos económicos e políticos, em perda como a ONU, a UE, a própria UNESCO, sem falar nos federações e outros regimentos de interesses e de memória colonial.

Assim, aqui ficam, para memória futura, duas imagens riscadas, a morte de alguém, as cidades devastadas, em ruínas.    

quarta-feira, junho 11, 2014

OBRA DE NINGUÉM pensar o ver


questões de conceito| 1

         Então ele disse: «as artes não servem para ornamentar o mundo, mesmo quando alguém as orienta nesse sentido. Não parecem ter esse fim, sem nada que desvende o seu eventual enigma, entre suportes técnicos e culturais. Mas já ninguém duvida de que elas sejam o rosto sensível da própria civilização.»
Os alunos, compactos e impacientes, julgaram que estas palavras seriam, provavelmente, o termo da lição: porque eles conheciam razoavelmente as tonalidades retóricas do professor e a maneira como teatralizava, em síntese, o fim das suas lições. Mas o docente mudou de agulha e prosseguiu:
— Se hoje nos encontramos aqui, na circunstância de trabalho que dispensa a pompa e os paramentos, é porque o pensamento plástico apontou de vez para a autonomia das nossas escolhas neste âmbito. Podemos agora falar delas sem qualquer obrigação ritual que nos torne reféns de todas as antigas cerimónias do aprender inicial, entre  cabeças  gregas, de gesso, e humildes   placas  de  cartão  sobre 
as quais tudo tinha de ser resolvido com preto, branco e ocre, porventura  superando o disfarçado valor da pele. Com efeito, o nosso labor já consistiu em obedecer a um longo processo de manipular pequenas misturas de tintas, esbatendo-as no cinza do suporte, testando assim uma habilidade artesanal, milagrosa, como a desses actos monásticos dos iluministas cuja meticulosa vocação se tornaria afinal insustentável, entretanto desaconselhada pelas ciências da arte.
      Os frades, castrados e frios desde meninos, aprendiam a fazer fazendo, pouco mais, ignorando a verdadeira noção de projecto e a própria ideologia que informava e formava todas as nossas urgências. Contudo, e ao contrário do que muitos ainda pensam, não foram os artesãos os culpados da posterior teoria, nem são os elefantes brancos da vanguarda a empurrarem os artistas para a exclusão, quebrando preciosidades em volta, indiscutíveis, como as antigas porcelanas da longínqua dinastia  Ming, na velha China, ou  as peças de Limoges,  na França, bem mais recentes. O saber teórico, aliado ao campo instrumental da praxis, tem o mérito de fundamentar descobertas, sem negar instintos e intuições, em sucessivos espaços da criação consistente. Espera-se desse encontro o achamento de uma forma de  facto inovadora, capaz de ajudar, tanto virtual como presencialmente, o avanço da grande arquitectura do ser. Poderemos então falar, com mais justeza, da rede que multiplica o sentido universal de todas as disciplinas cujo elenco de conteúdos abrirá novas conexões à própria razão. Poderemos também referir o papel da razão e da emoção nos decisivos alinhamentos da consciência. Todo o saber ontológico passa por aí.
      As Escolas de Arte, desde as últimas décadas do século anterior, foram sobretudo aliciadas pela invenção e desenvolvimento das chamadas tecnologias de ponta, máquinas que pareciam anunciar um distante mundo do futuro, aparelhos e próteses cujas funções permitiam, com efeito, abrir múltiplos espaços à criatividade. As teses que desbravaram tais domínios, estudando as virtudes tradicionais da pintura, por exemplo, em jeito de simbiose com os modernos instrumentos, transferiram para as velhas oficinas dos velhos mestres vários patamares apropriados aos novos modos de formar. Em bom dizer, no entanto, esses entrosamentos de tecnologias híbridas, e outras, não passaram, durante muito tempo, de meras somas de crescimento. O desenvolvimento das aptidões humanas, ou da sociedade na sua amplitude maior, realiza-se noutro comprimento de onda (digamos) e apesar das interferências. Terá de ser sempre enquadrado numa perspectiva filosófica, no âmbito de um espírito produtivo e vocacionado para a descoberta de sucessivas verdades.  No século XX, por exemplo, o advento da fotografia alterou a problemática da relação entre diferentes tipos de imagens e novas funcionalidades. Mas a máquina fotográfica, sofisticando-se a breve prazo, estava sujeita, a despeito dos usos, ao mundo das somas e das «regras» de mercado. Perante as apontadas tecnologias tradicionais da representação, a fotografia conquistou rapidamente território —  por dispor, com menos esforço e outra agilidade de processos inconfundíveis ao registar, num apreciável rigor, pessoas ou objectos. Para lá dos seus aspectos lúdicos (ou seduções de consumo), a câmara fotográfica, entre muitos outros meios de maior complexidade, veio contribuir, com efeito, para clarificar a mobilidade das percepções,     o próprio alargamento da consciência numa certa concepção               do saber superior do homem. É esta, porventura, a perspectiva que importa à criação artística. Seja como for, o encontro dos nossos talentos com a diversidade dos meios instrumentais, embora já anuncie uma frutuosa viagem em direcção ao futuro, dificilmente pode suportar  a  demora  das  esperas  por  cada  especialização.                                                                                                                                                                        
                                                                                                                                                       2                                                                                      _________________________________________________________      
E a   massificação das  ofertas, desbaratando o gosto, o apelo das ideias sobre o mundo, a própria ficção do amanhã. Esta crise cada vez mais descontrolada tornou redutor o projecto, misturou fugas em frente ocorridas pelo medo encoberto dos  limites  e  da  morte. Um  sonho de utopia, na linha  da cibernética em que o tempo dos replicantes já se encontra  programado, como acontece na trágica beleza do filme «Blade Runner». Essa obra alerta-nos para  um antigo temor: cada replicante do modelo mais avançado, quase clone do homem, seu inventor, carregando capacidades em certo sentido bem mais concertantes do que as humanas, está destinado, talvez como segurança contra o florescer de afectos ou dotes individuais, a uma vida de apenas quatro anos, lembrando as borboletas que sobrevivem quatro horas. Metáfora aterradora, sem dúvida, pela qual nem se vislumbram significativas melhorias bio-tecnológicas capazes de dilatar o destino do homem contra a absurda proximidade da morte.
O Professor olhou em volta, com as mãos metidas nos bolsos do casaco. Folheou depois uns papéis que estavam sobre a secretária e retomou a redundância do seu discurso – conceitos ou propostas meio desfocados pelo denso véu das palavras.
         —Quando estivemos rendidos à gestualidade liberta — ponderou o docente  —  e nos sentimos cercados por um deserto minimalista, portanto sem título, houve quem começasse a sentir medo pela dissolução do verdadeiro processo do ver. E enquanto o mundo se tornava globalmente pantanoso para muita gente, cidades inteiras submersas no fumo, outros protagonistas pareciam presos à nostalgia de certas imagens, murmurando coisas breves acerca das que haviam conservado desde a infância. Pensavam num mundo poético de figuras até há pouco impensáveis, talvez na deriva cinzenta do sonho, singular estado de alma através do qual julgavam pressentir uma estranha necessidade do realismo, talvez próximo daquele realismo  novo  aprendido com o caos e os desertos sem marcas.
Ouviram-se tosses. O Professor esperou. Voltou aos papéis, pousados sobre a secretária, parecendo não saber o que fazer com eles:
—No fundo, apesar das incandescências que nos irritam ou  apaixonam, a verdade é que não sabemos como trabalhar essa necessidade, a do realismo, ou do realismo reinventado numa dimensão nova, talvez o próprio hiperrealismo, eventualmente a experimentação recuperadora do anacronismo. Dorfles queria que a arte tivesse acabado na mais decisiva das abstracções, para ele não havia qualquer retorno a partir desse ponto de chegada. Enganou-se redondamente na espuma das marés, afinal cercado pelo novo expressionismo, por exemplo, ou de olhos olhando ao alto os retratos de Chuck Close, rostos comuns representados em suportes de vários metros na perpendicular. Ainda mal se experimentara essa espécie de desumanidade própria das máquinas, longe da pintura digital, robótica, um caminho que viria promover a partilha entre o homem e a funcionalidade da lógica informática. E o que aconteceu  depois do veredicto de Dorfles  nada  teve  a  ver com a insustentável descoberta

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do absoluto, entre linguagens que, em última instância, não aspiram à sagração mítica nem ao aprisionamento pelo dogma: trata-se apenas de continuar, entre todos os horizontes, a marcha do homem. Sabemos que isso comporta muitos paradoxos e belas invenções do sonho, resgatando do fundo desse espaço velhos painéis e a secreta geometria da arte de compor. Embora ninguém tivesse advogado verdadeiramente, no limite da nossa pequenez, a avaliação entre o pincel e o computador, apesar de murmúrios que pareciam vaticinar arranjos futuros muito mais consequentes do que a interacção da fotografia com a pintura. Também somos tomados, no curto prazo,  pela intuição sobre os processos que transformam as  coisas  em volta, assombro  do primeiro   homem   na   Lua,  fruto de  ciências    e    tecnologias   de   ponta,    alucinaç     que parecia introduzir alterações profundas no mundo. O artista de hoje é uma espécie de operador generalista ou especializado no seu mister, ombro a ombro com parceiros de áreas afins, e não um mero produtor de artefactos secundários. O que ele realiza, com arquitectos, designers, engenheiros, além de mais e mais operadores, são indubitavelmente objectos de civilização. Sobra um problema bem complexo: como gerir essa civilização



 O que o Professor vê, junto da janela, com o rio por perto,  lembra a anunciação da verdade, entre sonhos ébrios e festins de gente ensandecida, ornamentada com esplendor, talvez a grande tela das pulsações rítmicas e do desejo. É um cenário em ruínas, cercado de casas de adobe, movimentos larvares de homens nus, alguns procurando trepar os degraus do palco, num ginga-ginga absurdo e viral, a sugerir histórias escabrosas, lendas ou visões ao jeito de Georg Grosz. E por isso, na dor, é de presumir que se esteja simultaneamente diante do espectáculo da linguagem, na sua belíssima esquizofrenia, própria da transição do século, ou         num adivinhado Apocalipse de chamas que devoram tudo à sua passagem. É estranho poder desvendar-se, por cada monte de cinzas, um espaço de ópera diferente das outras óperas de outro tempo. Talvez o quadro queira ser o espectáculo de um realismo contraditório, mostrando irreparáveis fomes à beira dos pântanos, lamas e répteis, actores carregados de plumas luxuosas, a miséria afinal obesa e caricatural. É gente indecifrável, alcandorada, lenta, como plantas tropicais em varandins suspensos de um palácio imaginário, surreal naquele limite do mundo.



         Outros varandins enchem-se também de velhos olhando acasos à sua volta, eles mesmos improváveis mas sujos de uma espécie de argila ou leite derramado, anciãos cujos olhos húmidos, ainda carregados de nostalgias, acabam por tornar algumas mulheres  por ali  sentadas  em notáveis figurantes.  Outras, soltas, lavam de forma ostensiva as suas carnes cor de chocolate, grandes seios, bolsas flutuantes na água apanhada da chuva tropical, entretanto barrenta, lenta, cheirando a terra — ou a mortos e a flores ocasionais.
        Há grupos insinuados, por outro lado, elevando ao alto os cânticos espirituais de antigas negritudes, em volta outra gente marcada pela magreza ou mutilações a lembrar Brueghel. Tudo sonho ou realidade antiga. Tudo em espaços com parapeitos mal aparelhados. Tudo como lugares entretanto vividos por mulheres afeitas ao duríssimo trato de crianças rangendo, surpreendentes surpreendidas. Meninas sem nome mas gentis na sua beleza lavada. Festa nobre da pintura. Mistura de tempos, lugares e personagens. Roupas e cerimónias,  a lembrar a libertação da terra ou as recentes catástrofes naturais, não longe dos dias em que os mortos descem à superfície do rio e por vezes acabam perdidos, às moscas, nas margens baixas. A festa ou o paradoxo da vida. A presença estranha de uma ópera sem data, talvez a lembrar Manaus, híbrida, com figurantes a exprimir outras gentes, outras terras, lugares arrancados à selva. Paragens, enfim, capazes de receber emigrantes de povos exóticos, rostos do mundo longe.
O professor senta-se, ofuscado com tais exercícios, entre meios, referências e belíssimas contradições. Ainda não lhe ocorreu nada sobre o que procura. Os tempos e o espaço dos espaços não parecem fazer sentido.
           A miséria surge aqui e ali no interior florestas colossais,   num rumor de bichos e febres. Pode imaginar-se que essa gente,     a mais magra, a mais desidratada, enchendo a boca de fuba uma vez por dia, esteja no limite da vida, aguardando a morte, silenciosa e sem caprichos. Acaba a luz mas o povo não sabe nada da luz, nem da morte, porque só lhe falam disso como direito ao mistério, consolação na forma de flores atiradas sobre as urnas. É um  confuso destino que começa, em todo o caso, na viagem obscena da
             maternidade e do início da vida.
         O professor pensa no limite, a Oriente e a Ocidente, para sul, pensa nos grandes continentes carregados endemicamente de pestes. Mas ninguém trata de ninguém, os genocídios misturam-se com as festinhas de senzala, latas que batem, rebatem, quase apagando a lassidão das vozes na maior das escuridões, choros e murmúrios nas horas diversamente terminais.
        








Breves excertos, de capítulos diferentes, do livro do autor do blogue,
intitulado
             OBRA DE NINGUÉM
              pensar o ver






sexta-feira, abril 18, 2014

NASCER NÃO É COMEÇAR, NEM AQUI, MÃE



A memória remota é um conjunto de reaparecimentos, por vezes muito bem encadeados, um pouco como se tudo tivesse acontecido há poucos dias. Nunca te conheci nesse tempo distante, nem aqui, mãe. Sabes? Esse menino que tu seguras com naturalidade e ternura não é quem vejo nesta descoberta, e suspeito assim que que seja eu. A tua bela imagem, nesse jeito, também nunca a conheci, porque os anos passaram depressa, a fotografia aqui reproduzida veio do fundo de caixas meio esquecidas, tu ressuscitaste nessa idade, e o menino acompanhou-te. Quando entrei na idade da razão comecei a arrumar na cabeça imagens tuas, talvez do meu irmão e do pai e da avó. Mas foram enchendo o fundo das gavetinhas do meu cérebro como aconteceu com as velhas gavetas do móvel principal, cor de nogueira. Eram volumes amarelados, uns maiores do que os outros, e em certos casos com provas enroladas umas nas outras, donde saíam tios e tias, primos magricelas, vindos até duma vaga praia não sei donde.
Se este menino não for eu, está escrito atrás o teu nome: Maria com o filho. Qual deles se esta mulher, ou rapariga, ou senhora, não apareceu durante mais de sessenta anos nos arquivos familiares sem ordem nem verdadeira memória? Quando te encontrei e soube que eras tu, lembrei-me como as famílias se perdem antes de se perderem, assim guardadas, quase como aquele jeito com que te guardaram para viajares, morta, para junto do pai.
Já não sei o significado destas coisas. Mas há dias ouvi e vi o testemunho de uma rapariga que se salvou de um brutal tsunami, tinha treze anos, fugiu da enorme onda com todas as forças que tinha, a água desabou sobre ela, a menina nadou, ergueu os braços ao alto, suportou a dor no peito -- e pensou com persistência, «não posso morrer agora, tenho só treze anos, darei a mim mesma todas as forças da resistência.
A menina salvou-se, perdeu os pais como eu te perdi a ti. Mas o que ela nos disse é que esse tempo (e a própria tragédia) não devem ser esquecidos, devem ser conservados no lugar próprio da memória e revisitados ao longo dos anos. Essa é a melhor forma de conservarmos a vida no equilíbrio entre fases, alegrias e saudades. Ela lembra-se dos próprios pais correndo um pouco atrás mas não os chora. E tem razão. Depois de conseguir fazer-te renascer visualmente de um tempo perdido, a minha própria morte terá mais sentido. Quem se habita com o passado, além da vida normal que desaparece dia a dia, mais profundamente se conhece e alcança o que pode haver, no futuro, além do seu próprio esquecimento.

sábado, fevereiro 08, 2014

40 ANOS DE & ETC, EDITORA NO SUBTERRÂNEO

 
   primeira capa da revista &etc | Rocha de Sousa
a editora underground apareceu depois
com um primeiro livro intitulado coisas

Um novo livro da & etc, desta vez para comemorar os seus 40 anos de presença e resistência, no qual se fazem balanços, testamentos e outras coisas mais, sem exclusões, sem esquecimentos, grande acontecimento de um vulgar já histórico trajecto que, embora colectivo e sem investimentos especiais, se deve muito sobretudo, a Vitor Silva Tavares, um editor não tanto underground como se "intitulou" para efeitos de encenação, mas também de verdade, porque nenhuma das editoras que pululam por aí estaria aberta aos temas e assuntos tratados na &etc e a fazer esta diferença, a viver esta aventura, a sonhar desta forma, a testemunhar e intervir neste sentido. Lembro-me (com a conhecida saudade meridional) da primeira montagem do primeiro número da revista, no meu próprio ateliê e naqueles dias de última hora em que eu me escapava pelo trânsito, enquanto o Vitor fazia caretas de «medo» a meu lado, numa viagem e pantomina até ao fecho da oficina que imprimia o &etc. Bom trabalho do EXPRESSO (revista A) ao publicar, sobretudo visualmente, a invulgar viagem desta editora e o seu rosto gráfico inconfundível. Registo esta acontecimento aqui, não no Desenhamento, porque me sinto indelevelmente ligado à criação deste projecto, onde trabalhei desde o suplemento &etc do Jornal do Fundão, com desenho e crítica de arte.  Parabéns para todos os amigos.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

NEM AMOR NEM CRUELDADE, SÓ ASPIRAÇÃO

afirmação do ser

Nunca desenhei desenhos destes e tenho pena por isso. No dia em que me ofereceram uma caixa de lápis de cor, quando já era capaz de sonhar outras coisas além das coisas, fui para uma arrecadação no quintal, abri a caixa e puxei pelo lápis preto. Era mais negro do que os da Escola, fiquei vagamente contente e abri o cadcrno de papel cavalinho e piquei o branco do papel com o bico afiado do lápis. Piquei várias  vezes a superfície branca a lembrar-me do bico das galinhas picando a terra onde não havia nada ou apenas restavam pequenas sombras por cada ataque da ave tonta. No papel, de cada vez que eu batia o branco horizontal, depressa ou devagar, também produzia sombras  exíguas. Não me ocorria nada, nem das coisas lembradas nem dos objectos próximos. E foi então que ergui a cabeça, havia canas lá em cima, troncos suportando as canas, deixando ver vagamente as telhas do telhado. Ao baixar a cabeça, olhando sempre para ver o que estaria preso às paredes, lembro-me de haver reparado numa máquina escangalhada, cheia de  ferrugem,  pedaços de esmalte dobrados em tortura, tubos ou canos retorcidos como troncos de qualquer planta morta. Fiquei deslumbrado. Nunca desenhara senão pequenas flores e gatos lustrosos nas revistas, tudo igual ao que julgava ver e que os adultos diziam estar muito bem feito, imensamente parecido com os originais. Não sei bem porquê. Mas, ao contemplar o esquentador destruído, velho, sujo, feito de cinzentos e brancos e castanhos, achei tudo aquilo, em feio como todos falavam de coisas semelhantes, intensamente  mais bonito do que outras imagens tantas vezes por mim imitadas e que os outros reconheciam sem hesitar.
Foi então que começei a desenhar com verdadeira convicção e perto daquele encanto que nos invade completamente quando vemos certas coisas inexplicáveis, sentindo temor e fascínio perante elas. Percebi logo que já não estava a imitar, nem um rosto nem os tubos tortos, e que a beleza do meu desenho a preto, cinza e branco, depois aparelhado com alguns pedaços a castanho, tendo escolhido para isso o lápis castanho, vinha de um ver ao contrário dos olhares focados sobre cada pormenor, vinha de dentro do peito e não da cabeça, podia adiantar-se entre as mãos e o papel sem que os olhos fossem obrigados a repetir instante a instante a fixar o já visto e sempre procurado entre inícios.
Foi então, também, que  passei a perceber o que significava desfazer o já feito, como isso é preciso para trazer para o papel volumes e partes escondidas, o futuro e o passado de todas as coisas vistas, revistas, imaginadas entre outras, construídas numa espécie de acaso após várias destruições. E achei, mais tarde, o sentido dos destroços de aviões em fotografias da Life, durante a última guerra, além de perceber a importância da idade das coisas e das ruínas para me saber por dentro, olhando muito para além dos olhares maquinais de todas as rotinas.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

NOJO AOS VELHOS OU O LIMITE DA MENSAGEM


As folhas secas, amareladas e mortas, lembram, em tão grande quantidade, um chão juncado de velhos mortos após um imenso genocídio. Mas não é nada de tão feio, como se pode ver e cheirar: ver sob a luz matinal, algumas caídas sobre um carrinho de transporte manual e talvez sugerindo que todas as outras vieram em transportes deste género para serem espalhadas em redor e ornamentar um pátio qualquer, tornando-o fofo aos passos perto do jardim -- em particular o dos velhos internados no Centro de Saúde atrás da própria imagem. Daqui a dias, seja como for, o ancião que costuma, com outros colegas e amigos, varrer as folhas pisadas, virá transportá-las num dos velhos carrinhos de mão, semelhantes aos outros todos, procedendo devagar ao esvaziamento das folhas, seres indefesos e meio mortos, caídos das árvores e já cheirando à sua breve morte, coisas enfim derramadas derramando-se no lixo da Natureza.


O nojo aos velhos é uma expressão abusiva, talvez ligada a certas analogias de outros domínios, mas corresponde de algum modo a diversas situações fracturantes das sociedades humanas sobretudo nas geografias da fome, das doenças avassaladoras, perante a marcha dos indiferentes não muito longe e das grandes congregações de países ricos e de territórios vastos.
Estes pacientes mais idosos chegam ao hospital muito tarde, em especial quando transitam para a unidade de estudo e diagnóstico. Mas hoje, enquanto lá fora as folhas tombam e os pássaros cantam sem melancolia, os médicos trabalham gente como vemos aqui, na espera inexplicável de tudo: analisam os dados da sua investigação, tanto aqueles que abordam questões neurológicas como os que se dedicam, eventualmente em consequência de tais exames, aos regimes comportamentais aprisionados. Não há aqui, nem lá fora, um sentido apologético que indique estarmos num mundo de apologia técnica, ou, ao contrário, de sedução panteísta.
O tratamento de patologias comportamentais não se compadece (penso) de recolhas ao ar livre, vendo pássaros, camponeses, árvores de diversas raças. Ou simplesmente a relva e o sol, os carros correndo ao longe. Também não se julga conveniente recorrer ao sequestro dos doentes, técnicas de reclusão durante horas intermináveis -- segundo alguns puristas excessivos coagindo o paciente ao desenho de uma ideia ou de um tecido, coisas gráficas, sem nenhuma outra relação de memória ou valor lúdico como noutras conquistas prévias a outras propostas de enquadramento urbano ou em ligação ligeira com imagens presumíveis de bosques, montanhas e rios.


O lixo dos humanos ou o lixo da própria Natureza, aqui e além, são por vezes paisagens diferentes e até fascinantes. Mas ou costumam ser remetidas para a reciclagem ou acabam por matar tudo em volta, não servindo para mais nada. Qualquer reformatação do ser-humano, para perto da sua coerência orgânica, não deve basear-se, em todo o caso, na mais secreta e muito isolada das aprendizagens nem nas totalidades do método libertador de Montessori,

O paciente disse: do outro lado, longe mas dentro de água, vi com toda a evidência o rosto de minha mãe. Não percebi se sorria, pois já começava a perder-se no lixo.