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terça-feira, janeiro 13, 2015

DEUSES LAMINARES DEGOLAM MUNDO GLOBAL




os mortos, depois de mortos, 
nem sequer ficam sós


Ninguém sabe se Deus existe e de que morte padece o homem, o crente do nada. As fantasias que tecemos à volta das nossas percepções, a qualquer hora do dia, são apenas um enquadramento do visível a tornar-se real. Tudo é tanto que precisamos baixar a guarda, deixando mergulhar as mãos, a sua prece, a sua espera. Mas as coisas em geral são reanimadas, um jornal aparece na mesa, os dedos enfim tocando na notícia, inquietos, ou daí a pouco voltando essa primeira página, fazendo aparecer a seguinte, quase sempre o olhar a deixar-se seduzir pelo rosto à direita, vendo os bocados da composição.
Hoje podemos fitar longamente aquela fotografia: quatrocentos e cinquenta mil curdos em fuga, atravessando a fronteira da Turquia, deixando atrás de si um rasto de corpos decapitados e crianças esmagadas, cemitério ao sol e sob o brilho das adagas dos islamitas radicais — um Estado absurdo, religiosamente alucinado em pleno século XXI, contra velhas fronteiras, outras etnias, o Ocidente inteiro. As novas tecnologias abriram para todo mundo a realidade em tempo real, as explosões e as ruínas, as guerras em efeito dominó, metade do Iraque em estilhaços, a Síria destruída, o Irão vigilante, a Ucrânia violada por ímpias invasões de rebeldes de carnaval, Putin sorrindo entre as enormes portas douradas que se abrem à sua passagem. A Rússia anexou a Crimeia, acompanhou mais dois roubos de território  a leste. Combate-se por lá, de forma estúpida e logística encerrada em camiões humanitários mandados por Moscovo, filas deles, todos forrados com lona branca. Sem letras. Sem números. Sem nota de origem nem títulos de guarda.
Esta grave crise internacional, ricochete das várias bolas de neve que simbolizam as diversas promiscuidades da globalização, internacionalidades sem fronteiras, transportes de todos os tipos atravancando o espaço das vias, vem rodando a roda dos negócios ou negociatas, roendo o perfil dos princípios e ajudando a sepultar valores, vidas, indústrias, culturas. Tudo o que povoara o mundo nos anos 60, a Europa sobretudo, gente como Sartre, Camus, Huxley, Bergman, Tarkovsky, Antonioni, entre muitos outros, os poetas, os músicos, um solene respeito pelo grande património gerado nas épocas mais longínquas, tudo isso começou a desfazer-se em vagas silhuetas, obras descartáveis, novas tecnologias resvaláveis e sobretudo um abaixamento dos níveis avançados, em excelência, durante quase todo o século XX, desastres rasgando  os caminhos reais do futuro. E agora, à entrada desse futuro, as crises anunciam, cada vez com maior despudor, o insucesso dos grandes projectos e o valor de sustentação vindo das metas superadas pela ciência ou pelas artes. Podemos agora imaginar Picasso substituído através de aleatórios desenhos soprados em tinta pelas bocas de pequenos robots, de forma ocasional ou em telecomando. Tais alternativas, a par dos minimalismos obsessivamente radicais e outros inusitados modos de formar, abrem à criação plástica um verdadeiro universo imensamente tolerante para com o gesto e a mancha, instalações perecíveis, novos mitos, outros génios sem conta, tudo cada vez mais descartável ou preso a grandes cadeias produtivas focadas na indústria das artes, como conservas de raízes, marcas, sinais, coisas intercoláveis, capazes de tornar a variação do espaço habitado uma paisagem infinitamente massificada pelas escolhas do efémero.



    poder e ser sem ver? o futuro o dirá


Nenhuma civilização, desde que a História se tornou ciência, e no momento do seu ponto mais significativo, resistiu ao descontrolo daquelas relações, depois de ser e ter, ver e fazer; todas elas, em tais circunstâncias, após cumes de iluminação, entraram em falência, começando a desistir de grande parte dos seus objectivos, deixando-se seduzir por maneirismos prosaicos e preguiçosos, pensando cada vez menos na conservação das obras ou dos pensamentos fundamentais da sua génese. Foi sempre assim, genericamente, fragmentando-se ou não, desinteressando-se das regras, do sonho e dos seus próprios contextos técnico-artísticos.
Essa terrível sinopse, além de apontar para longas análises e buscas sobre as mais importantes civilizações que nos precederam, corresponde afinal a uma grande parte dos desastres principais acontecidos na idade contemporânea. Desde as guerras mais remotas às duas grandes guerras mundiais do século XX, o desrespeito da entidade humana e dos seus direitos (hoje consagrados mas sem resposta), ultrapassou a medida, mesmo genérica, da vida em comunidade, abrindo processos de retrocesso um pouco por todo o planeta, entre latitudes muito diferentes, com dinheiros assimétricos, quase um século depois de terem sido destruídas em breves segundos, com apenas duas bombas atómicas, duas significativas cidades no Japão, país na altura ainda em guerra com as forças Aliadas, fundamentalmente os Estados Unidos da América.
Mas toda a cultura que se formara e condensara por volta do século XV, no benefício da expansão territorial e oceânica, salpicada das memórias antigas, conjugando tais imagens, tais ideias, tais benefícios do ver e da representação com outros planos de pesquisa e descoberta, atingiria o século XIX num plano de abertura ao planeta, aos utensílios e obras de arte, ou numa espécie de esboço para o que podemos chamar de primeira globalização. Isso fez-se na trajectória da ocupação de mais terras pelos novos impérios, contendas quanto aos direitos de chegada e usufruto, povos locais manietados à crença de um trabalho que lhes era retirado das mãos, rotas comerciais sinalizadas por fortalezas, interesses cruzados ou trocas que provocavam depois importantes circuitos por essa Europa fora, migrações de trabalho ou crença. As catedrais românicas foram passando ao gótico, entre configurações em altura, como se tais agulhas significassem a ligação a Deus e muitos soubessem que a fé católica, dominando as nações, precisava cada vez de maior presença, de maior fascínio, feita da raridade dos efeitos, talvez milagres — enquanto a submissão das massas de camponeses, a par dos artesãos, dos pedreiros, dos afeiçoadores da madeira, da pedra, do ferro, dominava a própria luz solar através de hábeis tratos de refracção pelos vidros de cor justapostos ao jeito das grelhas de chumbo, porventura na ambição de evocar os milagres dos santos representados ou estrelas, rosáceas, o movimento nos olhos de quem se imobilizava em contemplação.
Com o advento das comunicações à distância, por meios virtuais ou perto disso, essa época florescia de complexidade e de forças de tensão entre nações, entre os próprios continentes. Os génios voltaram então a ter nomes ligados à raridade do seu pensar e do seu fazer, pulsando imaginários acima dos generais que se recordassem das legiões de outrora, dos ocupantes e dos escravos que lhes preparavam sulcos de segurança pela terra fora. Agora, vencidas as distâncias marítimas e terrestres, aperfeiçoados os meios de comunicação à distância, tudo se estende em rede; tudo o que nasceu com a revolução industrial,  cujo doloroso parto perante muita da sua rusticidade nos meios mecânicos foi bem dolorosa, apesar da sua rápida abertura aos automatismos, às cadeias de montagem, à invenção de outras necessidades, umas após outras em ordem aos comércios, às trocas em massa. Falava-se em evolução tecnológica, depois de novas correlações, construção urbana, vias férreas e estradas asfaltadas, domínio dos ares, ainda maior que todos os outros quanto à velocidade, as máquinas futuristas, as armas propriamente ditas rondando fronteiras e grandes espaços onde se adensara a população, as classes sociais, a luta de interesses numa vasta competição em que os sonhos da expansão globalizante pareciam ranger políticas de ruptura, sistemas políticos paralelamente diferentes e semelhantes. Os génios modernos, no pensamento das variadas disciplinas do fazer, questionavam também a vida humana, a condição humana, vigiados de perto pelos falcões ávidos de máquinas  militares, incluindo navios de guerra, meios aéreos de velocidade supersónica e mísseis inteligentes. Uma enorme força surda, do alargamento do poder, como durante os dois grandes conflitos mundiais, com dezenas de milhões de mortos, parecendo placas téctónicas em vias de choque. Tudo suspenso  como nos instantes que deverão preceder o apocalipse. Tudo assim, apesar da violência do clima na Terra, o Homem como que subordinado ao efeito de inferno que alienara no espaço, pelos céus, oceanos e recursos de sobrevivência, a esquecer os recursos naturais limpos, não os fósseis e outros de química bem perversa.
Se as tecnologias permitiram cuidar da saúde humana, os lixos que produziam eram veneno, alastrando do ponto de abandono às plantas e aos rios freáticos. Como tal, outros fornos de aquecimento, a obstrução da vida pelas metrópoles cada vez menos modernas pela multiplicação anárquica das obstruções mortais, produzindo nas pessoas em geral dependências recessivas: a arte morria entre décadas, os eventos massificantes, alucinatórios, ocupavam em grandeza e quantidade baldios onde já se habitara a céu aberto, como nas praças e colunatas do século XX. A multidão, representando-se por milhões de desempregados e a depender de sistemas financeiros sofisticados em termos de corrupção, o dinheiro a circular entre esconderijos e brotando nos jardins dos multimilionários que a indústria produzia, ano após ano, respostas a necessidades fúteis, imaginárias, sobretudo como método insensato de levar à decadência (profunda) a todos os excluídos do processo que caracterizava esta outra Idade Média. Não havia castelos feudais mas havia uma nova espécie de feudos. E cidades inteiras meio abandonadas, com milhares de prédios rasgados em altura, por fim vazios ou explorados por alguns vagabundos: assim foi Detroit, entre outras, depois de abrir falência, procurando reagir às ruinas da grandeza através de estranhos créditos a par de pequenos negócios, vendedores passivos, dois dólares por dia, trocas tristes, olhares baços. Nesse lugar, como noutros, a magia cultural descia ao nível do vandalismo, paredes pejadas de graffiti a iludir degradações, vãos abandonados, como se a técnica spray, amplificada, pop ou realista, pudesse apagar todas as grandes memórias, os grandes edifícios, a Renascença e os artistas da sua pintura amplamente consagrada aos valores da religião e aos mitos do espirito. Artesãos e artistas já velhos ou solitários perdiam-se na miniatura da sua produção, apesar do fascínio da ideia milenar que pareciam convocar.




O Médio Oriente incendeia-se numa espécie de Primavera do amanhã, rapidamente confundida por fracturas entre a irmandade muçulmana, os árabes das fortunas do petróleo, os talibãs que matam para que o seu império seja um espaço sem cor, sem artes, cego e surdo, sem nada, mulheres tapadas. Al Quaeda polariza-se em mortes de alguém. Os islamitas radicais querem terra, contradizem Alá e degolam os inimigos vencidos, enquanto a novidade de 2015 já nos conta que crianças de dez anos, cobertas de explosivos que se detonam à distância, desaparecem no horror entre multidões encharcadas de morte e sangue. Falta só clamar pelos novos profetas e crucificar um Cristo virtual.

quinta-feira, dezembro 25, 2014

O PAPA ENTREVISTADO: PALAVRAS SIMPLES



As palavras do Papa, palavras simples e que lavam.
para memória futura, em construpintar02 e Desenhamento


O papa Francisco concedeu uma entrevista na segunda-feira, 9 de Junho de 2014, ao jornalista português Henrique Cymerman, e foi transmitida na SIC no dia 13 de Junho.

Apresentamos excertos desta entrevista, em que o papa diz ao jornalista português que a ele se deve «boa parte» da realização da oração pela paz que no domingo reuniu no Vaticano o papa Francisco, os presidentes de Israel e da Palestina e o patriarca ecuménico Bartolomeu.
A perseguição aos cristãos, os fundamentalismos, a segurança pessoal, a pobreza e humildade, o dinheiro e a guerra, o judaísmo, a relação com as Igrejas ortodoxas, a relação entre fé, ciência e ateísmo, o pontificado de Pio XII e uma eventual renúncia são alguns dos temas da entrevista. Eis alguns excertos:

Cristãos perseguidos
«Os cristãos perseguidos são uma preocupação que me toca de perto como pastor. Sei muitas coisas sobre estas perseguições que não me parece prudente contar aqui, para não ofender ninguém. Mas há lugares nos quais é proibido ter uma Bíblia ou ensinar o catecismo ou andar com uma cruz. O que quero tornar mais claro é isto: estou convencido de que a perseguição contra os cristãos é hoje mais forte do que nos primeiros séculos da Igreja. Hoje há mais cristãos mártires do que naquele tempo. E não é fantasia, fantasia, os números o dizem-» O fundamentalismo «[A violência em nome de Deus] é uma contradição. Não corresponde ao nosso tempo, é algo de antigo. À luz da perspetiva histórica devemos dizer que nós, cristãos, por vezes, praticámo-la. Quando penso na Guerra dos Trinta Anos, era violência em nome de Deus. Hoje é inimaginável, certo? Por vezes chegamos, através da religião, a contradições muito sérias e muito graves. O fundamentalismo, por exemplo. Nas três religiões [monoteístas] temos os nossos grupos fundamentalistas, pequenos em relação a todo o resto. Um grupo fundamentalista, mesmo se não mata ninguém, mesmo se não atinge ninguém, é violento. A estrutura mental do fundamentalismo é violência em nome de Deus.»

Revolução
Para mim, a grande revolução é ir às raízes, reconhecê-las e ver o que elas têm a dizer ao dia de hoje. Não há contradição entre ser revolucionário e voltar às raízes. Mais ainda, creio que o modo de fazer verdadeiras mudanças é partir da identidade. Nunca se pode dar um passo na vida se não a partir do que o precede, sem saber de onde venho, que nome tenho, que nome cultural ou religioso tenho.»

Segurança                                                                                                                     
Sei que me pode acontecer alguma coisa, mas está tudo nas mãos de Deus. Recordo que no Brasil me prepararam um papamóvel fechado, com vidro, mas eu não posso saudar um povo e dizer-lhe que o amo dentro de uma lata de sardinhas, mesmo que seja de vidro. Para mim isso é um muro. É verdade que me pode acontecer alguma coisa, mas sejamos realistas: na minha idade não tenho muito a perder.»



Igreja pobre e humilde
«A pobreza e a humildade estão no centro do Evangelho, e digo-o no sentido teológico, não sociológico. Não se pode entender o Evangelho sem a pobreza, que  no  entanto é diferente do pauperismo. Acredito que Jesus queira que os bispos não sejam príncipes, mas servidores.»

Idolatria do dinheiro ---------------------------------------
«Está provado que com a comida que sobra poderíamos dar de comer a quem têm fome. Quando vê a fotografia de crianças desnutridas em diversas partes do mundo, mete as mãos entre a cabeça, não se percebe. Creio que vivemos num sistema mundial que não é bom, No centro de todo o sistema económico deve estar o homem, o homem e a mulher, e tudo o mais deve estar ao serviço do homem. Mas nós pusemos o dinheiro no centro, o deus dinheiro. Caímos num pecado de idolatria, a idolatria do dinheiro.
A economia move-se pelo afã de ter mais e, paradoxalmente, alimenta-se uma cultura do descartável. Descartam-se os jovens quando se limita a natalidade. Descartam-se também os idosos porque deixaram de servir, não produzem, são uma classe passiva... E descartando os jovens e os idosos, descarta-se o futuro de um povo porque os jovens impulsionam fortemente para a frente e porque os idosos nos dão a sabedoria, têm a memória desse povo e devem transmiti-la aos jovens. E agora também está na moda descartar os jovens com o desemprego. Preocupa-me muito o índice de desemprego dos jovens, que em alguns países ultrapassa os 50 por cento. Alguém me disse que 75 milhões de jovens europeus com menos de 25 anos estão sem trabalho. É uma barbárie. Nós descartamos toda uma geração para manter um sistema económico que já não se aguenta, um sistema que para sobreviver deve fazer a guerra, como sempre fizeram os grandes impérios. Mas como não se pode fazer a terceira guerra mundial, fazem-se guerras regionais. O que é que significa isto? Significa que se fabricam e vendem armas, e assim as contas das economias idólatras, as grandes economias mundiais que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente              que se recuperam.. Este pensamento único tira-nos a riqueza da diversidade de pensamento e, portanto, de um diálogo entre as pessoas. A globalização bem entendida é uma riqueza. Uma globalização mal entendida é aquela que anula as diferenças. É como uma esfera, com todos os pontos equidistantes do centro. Uma globalização que enriquece é como um poliedro, todos unidos para cada um conserva a sua particularidade, a sua riqueza, a sua identidade. E isto não acontece.»

Divisões entre Catalunha e Espanha-----------------------
«Todas as divisões me preocupam. Há a independência por emancipação e há a  independência por secessão. As independências por emancipação, por  exemplo, são as americanas, que se emanciparam dos estados europeus.
As independências dos povos por secessão são um desmembramento por vezes muito óbvio. Pensemos na antiga Jugoslávia. Obviamente, há povos com culturas tão díspares que nem com cola se podem unir. O caso jugoslavo é muito claro, mas eu pergunto-me se é assim tão claro para outros casos, para outros povos que até agora têm estado unidos. É preciso estudar caso a caso. A Escócia, a Jordânia, a Catalunha. Haverá casos em que serão justas, outras em que não serão. Mas é preciso que a secessão de uma nação sem que tenha havido um antecedente de união forçada seja considerada com pinças e analisada caso a caso.»

A oração pela paz______________________________
 «Sabe que não foi fácil, porque tinha as mãos na massa e a si se deve grande parte do êxito. Sentia que era algo que nos escapava a todos. Aqui, no Vaticano, 99 por cento das pessoas dizia que não se iria concretizar, e depois aquele 1 por centro foi crescendo. Sentia que estávamos a ser impelidos para uma coisa que não nos tinha ocorrido e que, aos poucos, foi tomando corpo. Não era, de todo, um ato político - e isso eu percebi-o desde logo -, mas um ato religioso: abrir uma janela e dizer: "A oração também é um ato político com maiúscula".» .«Decidi ir porque o presidente Peres [de Israel] me convidou. Eu sabia que o seu mandato terminava esta primavera, e assim vi-me, de alguma forma, obrigado a ir antes. O seu convite precipitou a viagem, não tinha pensado fazê-la.»

Judeus e cristãos_____________________________    
«Não se pode viver o seu cristianismo, não se pode ser um verdadeiro cristão se não se reconhece a sua raiz judaica. Não falo de judaísmo no sentido semita de raça, mas em sentido religioso. Creio que o diálogo inter-religioso deve aprofundar isto, as raízes judaicas do cristianismo e o florescer cristão do judaísmo. Percebo que é um desafio, uma batata quente, mas pode fazer-se como irmãos. Eu rezo todos os dias o Ofício Divino [Liturgia das Horas] com os salmos de David. A minha oração é judaica, e depois tenho a Eucaristia, que é cristã.»

Antissemitismo______________________________
«Não saberei explicar porque acontece, mas creio que está muito unido, em geral, e sem que haja uma regra fixa, à direita. O antissemitismo aninha-se solidamente melhor nas correntes políticas de direita do que de esquerda, não é? E ainda continua. Inclusive, temos quem negue o Holocausto, uma loucura.»

Arquivos do Vaticano e Pio XII------------------------
«[A abertura dos arquivos] trará muita luz. Sobre este assunto o que me preocupa é a figura do papa Pio XII, o papa que liderou a Igreja durante a Segunda Guerra Mundial. Há que recordar que antes ele era visto como o grande defensor dos judeus. Escondeu muitos nos conventos de Roma e de outras cidades italianas, e também na residência de verão de Castel Gandolfo. Aí, no quarto do papa, na sua própria cama, nasceram 42 bebés, filhos de judeus e de outros perseguidos lá refugiados.
Não quero dizer que Pio XII não tenha cometido erros - também eu cometo muitos -, mas o seu papel deve ser lido no contexto daquele tempo. Teria sido melhor, por exemplo, que não falasse, para que não fossem mortos mais judeus, ou que o fizesse?
Quero também dizer que por vezes fico com alguma urticária existencial quando vejo que todos atacam a Igreja e Pio XII, esquecendo-se as grandes potências. Sabe que conheciam perfeitamente a rede ferroviária dos nazis para transportar os judeus aos campos de concentração? Tinham as fotografias. Mas não bombardearam estas linhas ferroviárias. Porquê? Seria bom falar de tudo um pouco.»

Pároco ou chefe da Igreja?--------------------------------
«A dimensão do pároco é a que mais mostra a minha vocação. Servir as pessoas sai-me de dentro. Apago as luzes para não gastar demasiado dinheiro, por exemplo. São coisas de pároco. Mas sinto-me também papa. Ajuda-me a fazer as coisas com seriedade. Os meus colaboradores são muito sérios e profissionais. Tenho as ajudas necessárias para cumprir o meu dever. Não se deve jogar ao papa pároco; seria imaturo. Quando chega um chefe de Estado, tenho de recebê-lo com a dignidade e o protocolo que merece. É verdade que tenho os meus problemas com o protocolo, mas é preciso respeitá-lo.»

Mudanças e projectos--------------------------------------
«Não sou nenhum iluminado. Não tenho nenhum projeto pessoal, simplesmente porque nunca pensei que ficaria aqui, no Vaticano. Todos o sabem. Cheguei com uma pequena mala para voltar logo para Buenos Aires. O que estou a fazer é cumprir o que os cardeais reflectiram nas congregações gerais, isto é, nas reuniões que antes do conclave tínhamos todos os dias para discutir os problemas da Igreja. De lá saem reflexões e recomendações.
Uma muito concreta foi de que o futuro papa deveria poder contar com um conselho externo, ou seja, um grupo de conselheiros que não vivesse no Vaticano. O conselho dos oito cardeais é composto por membros de todos os continentes e tem um coordenador. Reúne-se aqui a cada três meses. Agora, a 1 de Julho, teremos quatro dias de reuniões, e vamos fazendo as mudanças que os próprios cardeais nos pediram. Não é obrigatório que o façamos, mas seria pouco prudente não escutar aqueles que conhecem as situações.»

«A ida a Jerusalém do meu irmão Bartolomeu I foi para comemorar o encontro de há 50 anos entre Paulo VI e Atenágoras. Foi um encontro após mil anos de separação. A partir do Concílio Vaticano II a Igreja católica fez esforços para se aproximar, e o mesmo da parte da Igreja ortodoxa. Com algumas Igrejas ortodoxas há mais proximidade do que com outras. Desejei que Bartolomeu estivesse comigo em Jerusalém, e lá nasceu o projeto para que estivesse presente também na oração no Vaticano. Para ele foi um passo arriscado, porque lho podiam atirar à cara, mas havia que abraçar este gesto de humildade, e para nós é necessário porque é inconcebível que estejamos divididos como cristãos, é um pecado histórico que temos de reparar.»

Fé, ciência e ateísmo___________________________
«Houve um aumento no ateísmo no período mais existencial, talvez por influência de Sartre. Mas depois deu-se um passo à frente, em direção à procura espiritual, o encontro com Deus de mil maneiras diferentes, e não necessariamente ligadas às formas religiosas tradicionais.
O confronto entre ciência e fé atingiu o auge no Iluminismo, mas hoje não está tão na moda, graças a Deus, porque todos nos demos conta da proximidade que existe entre uma coisa e outra. O papa Bento XVI tem um bom magistério sobre a relação entre ciência e fé. Em geral, a maior parte dos cientistas são muitos respeitosos da fé e o cientista agnóstico ou ateu diz: "Não ouso entrar nesse campo".»
«Vêm muitos chefes de estado e é interessante a variedade. Cada um tem a sua personalidade. Chamou a minha atenção um elemento transversal entre os políticos jovens, sejam do centro, de esquerda ou de direita. Talvez falem dos mesmos problemas, mas com uma nova música, e agrada-me, dá-me esperança porque a política é uma das mais altas formas de amor, de caridade. Porquê? Porque conduz ao bem comum, e uma pessoa que, podendo fazê-lo, não entra na política para servir o bem comum, é egoísmo. Quem usa a política para o bem próprio, é corrupção. Há cerca de 15 anos os bispos franceses escrevera, uma carta pastoral, uma reflexão com o título "Réhabiliter la politique" ("Reabilitar a política"). É um belo texto, faz compreender todas estas coisas.»
«O papa Bento realizou um gesto muito grande. Abriu uma porta, criou uma instituição, a dos eventuais papas eméritos. Há 70 anos não havia bispos eméritos. Hoje, quantos há? Bom, como vivemos mais tempo, chegamos a uma idade em que não podemos andar para a frente com as coisas. Eu farei o mesmo que ele, pedirei ao Senhor que me ilumine quando chegar o momento e me diga o que devo fazer. Ele certamente mo dirá.»

Retiro-para-repouso---------------------------------
O Papa tem um espaço reservado numa casa de retiros em Buenos Aires (diz o jornalista)]. 
«Eu teria deixado o arcebispado no fim do ano passado e havia já apresentado a renúncia ao papa Bento XVI quando atingi os 75 anos. Escolhi um quarto e disse: quero vir viver aqui. Trabalharei como padre, ajudando nas paróquias.

Como gostaria de ser recordado-------------------
«Não pensei nisso, mas agrada-me quando alguém recorda outra pessoa e diz: "Era um bom homem, fez o que podia, não foi assim tão mau". Com isso me conformo.»

sexta-feira, dezembro 19, 2014

BELAS ARTES E OS SEGREDOS CONVENTUAIS











As Escolas de Arte, desde as últimas décadas do século anterior, foram sobretudo aliciadas pela invenção e desenvolvimento das chamadas tecnologias de ponta, máquinas que pareciam anunciar um distante mundo do futuro, aparelhos e próteses cujas funções permitiam, com efeito, abrir múltiplos espaços à criatividade. As teses que desbravaram tais domínios, estudando as virtudes tradicionais da pintura, por exemplo, em jeito de simbiose com os modernos instrumentos, transferiram para as velhas oficinas dos velhos mestres vários patamares apropriados aos novos modos de formar. Em bom dizer, no entanto, esses entrosamentos de tecnologias híbridas, e outras, não passaram, durante muito tempo, de meras somas de crescimento. O desenvolvimento das aptidões humanas, ou da sociedade na sua amplitude maior, realiza-se noutro comprimento de onda (digamos) e apesar das interferências. Terá de ser sempre enquadrado numa perspectiva filosófica, no âmbito de um espírito produtivo e vocacionado para a descoberta de sucessivas verdades. No século XX, por exemplo, o advento da fotografia alterou a problemática da relação entre diferentes tipos de imagens e novas funcionalidades. Mas a máquina fotográfica, sofisticando-se a breve prazo, estava sujeita, a despeito dos usos, ao mundo das somas e das «regras» de mercado. Perante as apontadas tecnologias tradicionais da representação, a fotografia conquistou rapidamente território — por dispor, com menos esforço e outra agilidade de processos inconfundíveis ao registar, num apreciável rigor, pessoas ou objectos. Para lá dos seus aspectos lúdicos (ou seduções de consumo), a câmara fotográfica, entre muitos outros meios de maior complexidade, veio contribuir, com efeito, para clarificar a mobilidade das percepções, o próprio alargamento da consciência numa certa concepção do saber superior do Homem. É esta, porventura, a perspectiva que importa à criação artística. Seja como for, o encontro dos nossos talentos com a diversidade dos meios instrumentais, embora já anuncie uma frutuosa viagem em direcção ao futuro, dificilmente pode suportar a demora das esperas por cada especialização. E a terrível pressa em gastar, no provável  direito de possuir, bem como no de achar o novo mas sem nunca esperar pelas terapêuticas revolucionárias, acaba por contribuir e para a regular massificação das ofertas, desbaratando o gosto, o apelo das ideias sobre o mundo, a própria ficção do amanhã. Esta crise cada vez mais descontrolada tornou redutor o projecto, misturou fugas em frente ocorridas pelo medo encoberto dos limites e da morte. Um sonho de utopia, na linha da cibernética em que o tempo dos replicantes já se encontra  programado, como acontece na trágica beleza do filme «Blade Runner». Essa obra alerta-nos para um antigo temor: cada replicante do modelo mais avançado, quase clone do Homem, seu inventor, carregando capacidades em certo sentido bem mais concertantes do que as humanas, está destinado, talvez como segurança contra o florescer de afectos ou dotes individuais, a uma vida de apenas quatro anos, lembrando as borboletas que sobrevivem quatro horas. Metáfora aterradora, sem dúvida, pela qual nem se vislumbram significativas melhorias bio-tecnológicas capazes de dilatar o destino do Homem contra a absurda proximidade da morte.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

CARTA PARA TI ESQUECIDA AO FUNDO DA CAMA



Foi muito difícil ver-te partir. A tua cabeça afastava-se para o elevador e eu tinha a sensação de que já não voltavas a fim de te ajudar, revoltado com Deus, obreiro da tua doença e daquelas cansativas noites em que o teu corpo se imobilizava. Ralhavas. Querias mover o que já mal se movia e eu chorava a olhar para a tua cabeça cansada. E à noite, o Miguel e a Daniela partiam, todos os dias a começar o que nós já quase acabámos. Nestes momentos é que tudo se torna claro: eu olhava para a televisão, para aquele terrível Eixo do Mal, mas a minha cabeça voltava-se para o teu maple, onde já não estavas. Nunca soubeste verdadeiramente como gosto de ti e sobretudo como me fazes falta, mesmo tocando aqui e ali para ajudares as tuas pernas em perda. E de repente tudo me fazia falta: os jantarinhos à noite, o fecho da Casa dos Segredos, o sono puxado a letras de romance. Agora escrevo-te sem pretensão nenhuma, apenas para te dizer que faremos todos os possíveis para estares ao pé de mim, a olhar para o canal 14 e para a Duquesa de Alba. As tuas botas ali alinhadas lembram-me tudo e o tempo dos teus passos ainda bem direitos a caminho do Cataplana.
Ali atrás estão as tuas coisas, não quero imaginar o que sofreste ao ser analisada, mas essa era a esperança possível que nos restava explorar. Reza por mim e por ti, eu acredito nessas rezas, porque são da nossa vida e não de Deus nem dos anjos. Num mundo tão conturbado perto do nosso fim, todos os instantes que restarem, copiados daqueles em que as pernas nos levavam a sítios diversos, devem ser aproveitados, com ou sem lágrimas.

Beijo
João

segunda-feira, novembro 24, 2014

CONSIDERAÇÕES SOBRE INTERSTELLAR




As razões da crítica de cinema, relativamente à qualidade deste filme, são dúbias; onde me foi possível investigar encontrei o seguinte balanço através dos símbolos das estrelas: Jorge Mourinha ●●●● Luis Oliveira ●● Vasco Câmara ●● Todos os outros intervenientes desta área dividiram os pontos nesta mesma proporção. E isso significa, pelo menos, que o filme não atinge nunca os cinco pontos e desce igual e frequentemente até às duas sinalizações. Nada que se pareça com o efeito desencadeado, a todos os níveis, pelo idêntico trabalho de Kubrick com o inesquecível «2001, Odisseia no Espaço».

A sinopse do filme pode resumir-se à seguinte situação: o planeta terra começa  a perder as suas características vitais de sustentação da vida, isolando as pessoas em culturas do âmbito agrícola, devido aos problemas originados pelo vento, o pó e a fraqueza solar. Secretamente a Nasa estuda a alternativa de lançar para uma próxima galáxia, contornando a relatividade de Einstein, expedições em busca da planetas capazes de permitirem a emigração para lá da Humanidade, em fases de abertura a dados de se integrar nesses espaços e prolongar a sua persistência contra o desaparecimento.

Jorge Mourinha (crítico do “Público”) aponta desde o início que a qualidade de relojoeiro marca desde logo a natureza da obra, porque tudo tem que ser feito depressa mas a tempo e com tempo, no domínio da própria vertente do tempo, da mobilidade acima do controverso limite da velocidade da luz e da realidade do próprio espaço. A ideia de atravessar o espaço usando as potencialidades de um "buraco negro" permitirá encurtar o tempo e aproximar o espaço, emergindo numa galáxia onde, com risco, será possível estudar três planetas para lograr o transplante dos humanos para um novo habitat. Esta controversa viagem baseia-se na dinâmica propulsiva e na relação entre a matemática gravitacional e a física quântica, permitindo arriscadíssimos retornos, mesmo enfrentando a diferença dos tempos (das idades) entre quem retornasse e quem ainda pudesse estar vivo na Terra, numa diferença de cerca de 80 anos.

Todas as cenas iniciais do filme têm um acertado clima das planícies americanas, casas rasteiras em madeira castanha, pó e vento envolvendo enormes plantações de milho. Está bem climatizado, um fazendeiro que já andara pela NASA parece afrontado pela filha na ideia de participar na primeira viagem ao cosmos. Mas estas sequências, com tempestades de areia, pecam por falta de uma segunda dimensão das coisas em risco e por uma óbvia banalidade narrativa. Mas não deixa de esboçar alguma inquietude porque se pressente que o mundo vai ser, daqui para a frente, sempre assim, perdendo inclusive a capacidade de produzir os meios de subsistência.

É então, já não sei bem como, que o fazendeiro americano, lembrando um cowboy, descobre sinais de uma instalação vedada (o suspense é breve) e acabará por ser metido numas instalações secretas da NASA, onde afinal alguém o conhecia e se calhar o esperava. O cenário parece pertencer a um Thriller cujo orçamento obrigou a filmagens num armazém pardacento.●● Não há elementos de fascínio. Claro que, atrás de um portão que se abre se pode ver um foguetão Saturno, à escala, sem se ver a  fuselagem  superior,  espirrando  os fogozitos de ralenti. O  fazendeiro  troca impressões com o grande cientista que dirige aquilo (estereótipo de sábio velho e quem sabe se maníaco quanto à sua tese), que desvenda as novas formas de trabalhar com a gravidade, numa relação de tempo e espaço. O movimento de propulsão organiza-se em  função da gravidade e das travessias pelo "buracos negros". As reuniões em torno do segredo da viagem e da sua tecnologia são a cópia de qualquer conselho do FBI na iminência de um ataque à URSS. 
















Só depois desta mediania  se começa a ver a azáfama de carros de aeroporto, coisas de astrofísica, entrevistas. O fazendeiro acaba, a princípio com relutância (pela sua inteligente filha, pela sua inquieta mulher), de aceitar entrar na aventura. Volta a casa (como se vê, a instalação secreta da NASA estava ali à mão se semear) e defende a sua intervenção — drama sentimental e paternal, a impossível promessa à filha de que voltará.

Daqui para a frente é o levantamento real do foguetão e da separação dos seus fragmentos, além da ejecção do módulo para a viagem. É pouco crível, e forma imagística, a súbita existência deste módulo, dentro do qual os astronautas se preparam para viajar durante dois anos até perto de Saturno, Júpiter. O arranque faz-nos passar de um silêncio espacial para o troar dos motores: o ruído é tanto que nos obriga a proteger os tímpanos. Não há proporcionalidades entre o que terá acontecido e a representação disso para uma escala mil vezes menor (espectadores).É um erro da incultura actual.●●
Para esta primeira fase os astronautas, incluindo uma mulher que nos distrai da leitura dos materiais alumínicos, espaços surdos, tubos, quase nenhum tablier ligado, os personagens metem-se nuns tanques de líquido (amniótico?) e lá ficam no nirvana, separados da vida e do tempo. Quando acordam (dois anos depois) erguem o tronco de súbito, atordoados, fingindo exactamente aquilo que acontece a quem quase se afoga no mar e tosse para expelir a água dos pulmões.●● São pormenores. Mas tais pormenores desdizem centenas de coisas em volta. Os cenários interiores das naves (parece que estamos sempre na mesma) são realistas, a imitar de forma mais pobre a balbúrdia do que acontece, por exemplo, nos salões cilíndricos da actual estação espacial. O ponto de vista para o exterior é-nos dado n vezes de um só ângulo, com o focinho da nave (o capot) apontado à frente, só por vezes assim mas a andar de lado perante uma turbulência de nuvens ou superfície planetária. E quando estes desgraçados se aproximam do «seu» planeta a  explorar, com alguma peripécias visuais mas sempre dentro de uma montagem cinematográfica em planos curtos, planos que não justificam (na soma final) as três horas do filme. Este planeta, que aparece após a travessia das nuvens, é todo um oceano. É um falhanço. «Perdemos», diz alguém. Amaravam: e nesse caso surge a primeira verdadeira imagem em que o realizador percebe que à escala do além tudo parece maior. A nave é um ponto no grande oceano; e, em homenagem aos actuais surfistas, uma grande onda, à frente de outras, pressupõe-se, obriga os homens a sair dali. A onda parece parada e, segundo as escalas, teria certamente mais de 200 metros de altura.  ●●●

A legendagem portuguesa é quase ilegível para quem vê o filme da última fila, único lugar adequado para ver uma imagem com aquela escala (arquitectónica, não fílmica). Mas lá ficamos a saber que era urgente contactar com os outros módulos da missão Lázaro. Os planetas visados são o Miller, Edmunds e Mann.
Nós seguimos na nave Endurance, seguindo o sinal deixado pela missão Miller. Só que, por essa via, procura-se um planeta muito próximo do "buraco negro" Gargantua, em rotação. Essa rotação, por causa da força gravitacional, torna o tempo do planeta de destino mais lento que o da Terra. Miller, um só oceano, e incidentes, a perda de um companheiro, o encontro do que fora primeiro (Romilly). Os dados dizem que na Terra o tempo decorrido já atingira os 23 anos. Pobre Einstein. Na Terra a menina Murphy é entretanto adulta e trabalha na NASA, procurando resolver a equação do professor Brand. O homem trabalhara nisso toda a vida. Segundo se pode ler nos arquivos da Internet, ele achava que resolveria o problema de como os humanos poderiam manipular a gravidade. Ao morrer, percebeu que se enganara, que faltava um dado para achar uma singularidade gravitacional. A humanidade estava perdida. A ideia de um plano B consistia em integrar embriões humanos num outro planeta propício. Só uma bola e preta.
Na Endurance, dado a excessiva demora da missão, a malta escolhe ir a Mann ou Edmunds. Amélia (grande plano) ●●● prefere ir a Edmunds porque está apaixonada pelo astronauta. Discute com Cooper, o fazendeiro, dizendo que ele só quer voltar à terra. (Pode?●) Cooper vence e vão para Mann. Mas os dados emitidos por Mann eram manipulados: o astronauta lá chegado procurava assim um resgate por parte dos outros. Belas imagens gélidas deste planeta, com o nome do astronauta lá chegado (Mann). Este desgraçado tenta acoplar a nave de Cooper. Embora estas imagens superem a habitual monotonia dos interiores não digitalizados, ganhando palpitação e engenho, sendo interessante o  móvel  de acoplagem, não passam, pela falta de uma melhor «encenação», de algo já visto. Aliás o «mau» que forçara o resgate, comprometendo muita coisa, explode. Os outros percebem tudo, sobretudo o facto daquele planeta ser mais virtual do que real. Na fuga, e para superar o efeito de Gargantua, Cooper pensa em aliviar-se de lastro e, como bom fazendeiro, descola a fase lateral onde viajava Amelia, deixando-a no maldito Mann de montanhas que flutuam sobre algo como um oceano não estável. Nesta altura, os espectadores na sala tapam os ouvidos porque o ruído da Endurance deve atingir 120 decibéis.●●

Não vale a pena ir muito mais longe. Uma entidade extraterrestre, de cinco dimensões, ajuda Cooper a aparecer em casa de espaço aburdo. Se ali há uma quinta dimensão, porque carga de água tudo aparece, com largueza, em termos ortogonais? Cooper tenta comunicar com a filha mas flutua entre esse tempo e o tempo da sua morte. Consegue chegar à cama da figura, ambos conversam e ela manda-o embora, quando antes de partir, 80 anos atrás, lhe pedira para ficar.  A cama é uma grotesca citação do filme de Kubrick, mas rodeada de uma enorme família, o que nos deixa perplexos porque estava prevista o cadenciado apagamento da humanidade. Cooper percebe que o dado faltoso na equação de Brand era o amor. O espectador pergunta-se em que termos um sentimento sem determinação quantitativa pode fechar as quantidades relacionáveis de movimento, gravidade, espaço e tempo?●●

sexta-feira, novembro 21, 2014

SEM CABEÇA, SÉCULO XXI, EM NOME DE NADA



as horas do lamento pela memória dos desastres iniciais



as horas da criança a lembrar-se como os outros
                                       

quinta-feira, novembro 06, 2014

DESERTO, SOLIDÃO, VELHICE EM POBREZA








Estive a ver um documentário sobre o interior de Portugal, passando por estradas modernas e antigas, povoações breves, electrificadas, e cada vez mais, de sul a norte, quase avistando a fronteira de Espanha, terras e terras abandonadas, despidas de fauna, de floresta e cuidado. Tudo se tornava mais surdo e pedregoso para norte, entre vales imensos, serras brutais, salpicadas de árvores meio tombadas pelo constante sopro do vento. 
E então comecei a descortinar casas de adobe, em ruinas, outras de granito bem talhado, sem telhado, com dentes de pedra apontados ao céu. Não há gente nestas covas, nestas antigas culturas dedicadas à agricultura. Depois sim, aparecem casas perto umas das outras, ainda cobertas de telhas, fechadas, tudo fechado, ruas secas e sem o menor sinal de qualquer uso pedestre ou de carros de tracção animal. Animais também não havia, as cabras, as ovelhas, nem um sinal decisivo, ainda que breve, de vida humana. A câmara desliza pelo estranho silêncio, rasando paredes cinzentas ou apertando as fendas de algumas paredes, flores secas, restos de copas de árvores já mortas, tornando bela a sua sepultura, no próprio lugar em que haviam nascido, hastes em cruz, cruzadas, subindo ao alto, batidas pelo vento, pela luz, ou silenciosamente apagadas pelo avanço da noite.

Mas acabei por ver gente: um homem metido em casa, ouvindo músicas através de velhos aparelhos sobrepostos numa espécie de bancada. «Não faço mais nada, não tenho forças físicas e psíquicas para me chegar à rua. Agradeço à Junta ter-me fornecido esta baixada para a electricidade.» Perguntaram-lhe pela família mas ele abanou primeiro a cabeça para dizer depois que já não tinha ninguém; ou, se tinha, há muito que não diziam nada lá do fundo da Austrália para onde tinham emigrado.
Uns quilómetros acima, após uma deriva por ruinas belas e comoventes, dentro das quais ainda se vislumbravam restos de mesas, baldes, velhos engenhos para tratar a terra e as plantas rasteiras, lá estava a terceira povoação, alcandorada numa colina florestada, aliás também ferida de tons abertos de impossíveis flores que só sobrevivem com o trato de alguém. Um homem vestido de escuro, magro, sem dentes e um chapéu acabado de ter sido enterrado na cabeça, saíu da porta e parou, ao ver-me, nos dois degraus que ligavam o piso à terra e às pedras da vereda serpenteante. Era o único habitante da aldeia, empenhava-se com as flores e a conservação exterior de algumas casas ainda em bom estado, das quais, aliás, conhecia os donos, também fora do país.
Num outro lugar só povoado de mulheres, duas delas com mais de cem anos, foi possível ouvir histórias do tempo em que ali se festejavam várias datas e havia crianças e uma escola por perto. E Agora? «Agora somos apenas nós. Só ali a Ermelinda ainda recebe no verão a visita de um filho que foi há muitos anos para França». Perguntei: «E Não lhes pesa esta solidão, a subsistência?» Uma sorriu com amargura, outra gargalhou em três sopros, as outras pareciam de pedra. «A gente cá se arranja e ainda tratamos dos nossos mortos. Estamos aqui porque é o nosso lugar, é onde nos criámos, casámos e tivemos os nossos filhos. Para quê ir para as grandes cidades, onde já não somos ninguém, se calhar nem pessoas.» Rápido: «Não, não diga isso». Ela: «Não é por mal. É o que tem de ser. Até  as  terras  de  África  se  afogaram. Lá  ficaram dois filhos meus, na guerra. Que Deus os tenha em paz porque os de cá nem os restos nos resgataram. Mas não deixa de ser esquisito que ninguém se chegue aqui, a estes montes tão lindos. Aqui a minha amiga Floripes não se conforma. Não é por ter ficado e nem cartas receber. É porque, como ela diz, estas regiões abandonadas e tristes podiam produzir grande riqueza. Muita gente podia viver aqui com desafogo e paz.» A Floripes, esganiçada, acusou: «Eles querem escritórios e coisas ricas, o mar, as praias que a gente nunca viu. O estado já rachou todo o país em dois, de norte a sul, mais ou menos a meio, um risco azul  desumano e já desbotado. Ainda na semana passada, ali em baixo, no Pé de Galo, morreu a mulher do pobre Sebastião. E ele ainda não acabou de chorar. Então não acha tudo isto uma selvajaria? A Linda perdeu os dentes e uma perna, faz tudo sozinha, vestida de negro, com uma touca até ao fim das orelhas. Em  certas alturas do ano, com sol, andam por aí  uns moços e moças de Inglaterra. Tiram retratos a tudo e dizem, quando arranham o português, que nada como isto há na Terra inteira. Pode haver gente pobre e em pouca quantidade mas nunca numa metade inteira de um país, longe uns dos outros, morrendo devagar, todos e poucos perdidos das vozes amigas, o avô António, a Maria em pequena, o Zé, o cão maricas, tão meigo: de cada vez que alguém morria, de cada vez ele lá ía parar, como qualquer de nós. O cansaço e a fome, isso que ninguém sabe o que é, atenuamos nós cavando a terra e plantando tudo o que é fresco e serve para sopa, saladas, tapar  buracos da noitinha. Tá vendo? A gente ficou a viver num país vazio, ao lado da última grande estrada que fizeram à pala dos capitães. Vieram de África, fugindo, e empurraram só as pessoas para essa coisa das cidades, rasgando o que puderam e chamando aos seus irmãos de cá «tuga», «tuga», que era o que os outros diziam de nós a eles, lá, na mata. Aqui o mais difícil não é o trabalho nem as dores do lumbago ou dos pés: o mais difícil é saber ler os sinais da morte.»