Tuesday, November 10, 2009

TRANSPARÊNCIA E UM RELÓGIO DE HORAS



Água verde mas límpida.
Translúcido espelho amarrado
ao muro de pedra já ferida.
Velho espelho em casa da avó,
tão velho como o relógio centenário
preso à parede, rachado e só,
sempre a bater as horas
sobre um obtuso relicário
no qual se eflectia
o arrastado ranger da corda,
essa espécie de coração
cujo rumor de concavidade
se faz sentir no quarto exíguo
pelo frio de pedra
ou pelo circular rigor do tempo

Saturday, October 31, 2009

PRESENÇA E APARÊNCIA NA FORMA DO VISÍVEL


pintura | técnica híbrida | rocha de sousa

Achei aquela frase num simples livro de Educação Visual. Acharia outro, se tivesse vontade para procurar, entre as imagens quotidianas da metamorfose do mundo: gente e coisas, o lixo disfarçado no desvão dos cafés ou das vielas irreparáveis. O livro era pequeno, pouco ilustrado, falando de Kandinsky e Paul Klee, como não podia deixar de ser. Os exercícios de pintura de Paul Klee pareciam lições práticas, sustentadas no olhar, ensinavam entretanto a ver a ordem das formas e das cores no espaço, os valores, os ritmos, a textura de uma simples mancha aguada. Em certo sentido, era quase tudo o que havia para aprender, começando no ponto e na linha e na sua diversa multiplicação. Do visível até à pintura que dele em parte se apropria vai uma grande distância, mesmo quando não parece: quando, por exemplo, os olhos de um retrato realista destilam lágrimas ou alguma viscosidade emergente. Coloquei este pequeno trabalho aqui, sustentado por meios electrónicos, mais como uma espécie de electrocardiograma, folha de registo, linhas e fundos, formas e figuras, desenho do que me faz pulsar, qual o estado em que se encontra a minha capacidade de ordenar a desordem, de chamar imagem ao real transformado, a um espaço sobrecarregado, em suma, de sucata inominável. Vou e venho, vejo as marcas consistentes e embrulhadas nesta maneira de ver as coisas. E penso sempre: talvez fosse bom que uma anunciação deste tipo se fizesse a cru, breve e secamente, aberta em pontos, duas linhas, a mancha do mar ou a imitação esboçada de três pequenas nuvens. Mas eu gosto de adjectivar, não sei porquê. O problema pode estar na própria língua, atrás de semânticas austeras, em textos exemplares e sintéticos. Na pintura as coisas seguem também, por outro lado, o bater do coração, o deslizamento das tintas, riscos reais e virtuais, dores de quem não chega ao ponto exemplar com que sonhava, fechando-se como um bicho de conta, a espreitar milagrosamente a primeira figura do que deveria ser uma multidão, os crentes gemendo passos circulares em Meca, os peregrinos amontoados em Fátima, pés a sangrar, iguais aos de todas as batalhas, e a praça do Vaticano coalhada de cabeças, só cabeças e sobretudo escuras, pontos brancos aqui e além, o marulhar das ondas distorcido à escala tímbrica das rezas e das canções menos ásperas que se ouvem nos grandes espaços do espectáculo de massas. Não era disso que eu queria falar aqui. Queria apenas lembrar, pela suave sabedoria de Klee, que todas as vertentes da sua geometria plástica podem ganhar outra configuração, perdendo a transparência em nome da opacidade fracturada, fósseis aqui e além, ferros, peças sem contexto, armadilha de asas pela frente de uma atmosfera em azul forte, nenhum realismo na realidade alcançada, porventura legível aqui e além, presumível como resto, espaço onírico, reinventável através da análise ou do sonho, verdadeira porque sim, operática também, pânica igualmente, algo daquilo que sou em mim e nos outros, vazio às dez horas da noite. De madrugada a mesma coisa será diferente. E haverá no céu três pequenas nuvens.

Tuesday, October 27, 2009

A DEVASTAÇÃO DO IMOBILIÁRIO QUALIFICADO


Aqui ficam para memória futura os primeiros sinais de devastação de um prédio urbano das primeiras décadas do século XX, recoberto de azulejos, cerâmica de muito boa qualidade estética e funcional. Foram longos anos de ataque a esta fachada, zelo para hecatombes sociais, icrementado a partir da altura em que um velho chefe de família, rodeado pela mulher, duas filhas e um filho de maior idade, sucumbiu inesperadamente. Vieram outros anos, outros ventos, uma das filhas morreu ao arrepio do destino e a senhora viúva ponderava como gerir a cada vez mais dramática ausência de meios. Havia gente nas águas furtados, creio que um casal jovem e uma avó vigilante, recortada por vezes nas janelinhas alcandoradas, simultaneamente devolvida da sombra pelo seu reflexo num espelho ao fundo. No piso junto à rua, à direita, nunca percebi quem aí habitava: porque, embora as janelas estivessem tratadas e com cortinados de renda, ficavam sempre fechadas. Percebi uma vez que havia lá alguém, porque estava perto e o carteiro bateu para lá e esperou muito tempo. Depois, no vão da escada, foi um murmúrio surdo e uma tosse rápida. De resto, o lado esquerdo esteve quase sempre ocupado por uma loja de ferragens, à qual se seguiram lojas de artesanato e biscatos em papelão, colagens, animais afectuosos, de cartolina, para meninos da escola.
Em cima, a desertificação começou pelo uso que o filho mais velho da família destroçada foi dando aos quartos, sala e saletas, um quintal que nunca vi, com ramagens de aguarela. O ataque continuava, nenhuma classificação fora conseguida, ou critério de bem público (que o era) e muito menos quando a avó das águas furtadas morreu, dias no quarto, depois um funeral esquisito, acompanhado por gente jovem, mal vestida, duas moças magras, crianças recentes, de olhares já indiferentes e breves.
Tudo pronto: os homens dos papéis e da ganância lá conseguiram a licença de demolição. Nem uma meia dúzia de azulejos, para amostra, sobrou da insanidade vandalizante. Deitar abaixo é uma coisa. Arrasar a arte e a nobreza dos adereços é outra. Ninguém veio ao funeral da amável moradia que conheci durante quarenta anos. Vim eu, olhando da minha própria janela.
As duas imagens seguintes, muito belas à sua maneira, corresponem ao fundo da casa, já esburacado até às traseiras da garagem da outra rua. Oiço as miúdas de antigamente e lembro-me do senhor de cabelos brancos e olhos claros mas avermelhados. A menina mais nova, magríssima, a comer um gelado. E o gato. E aquela moça angular, de camisola sem mangas, que aparecia na janelinha direita, assente no telhado. Costumava passar discos dos Ping Floy e cuidava de um cato arrumado no canto do pequeno varandim.
Nunca mais recebi sinais dali, da menina e do rapaz, da mãe dele que acabara por casar com um engenheiro civil, longe daqui. Mas quem sabe da folha de serviços do engenheiro?



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Máquina trituradora, ficção na sua forma e no seu roncar. Racha tudo, parte, arrasta para a direita e para a esquerda, entulho a sobrar. Quando vem a noite, o braço de ferro tomba. O monstro acomoda-se, silencioso, sobre o entulho. Dorme.














Janelas partidas, vidros estilhaçados, uma geometria suspensa, abanando em melancolia e já no patamar do desaparecimento. Há muitas inexistências entre as novas velhas existências que fazem chão sobre o chão desaparecido.













A pata da máquina sobre os destroços. Nem o menor sinal da história humana aqui contada. Nem um simples resto de livros, cadernos, uma jarra partida. Madeiramentos soltos, já sem origem e de destino eventualmente incerto. Os homens não sabem como crescer, porventura como olhar cada paisagem devastada, coisas e espaços que podiam ser futuro de outra morte.

Monday, October 12, 2009

ORFANDADES E SOLIDÕES, O DESERTO


Donde vieste? De longe, da Fragura, é da praça que a gente vive. Vives como, assim, e os teus pais? Já se foram, o pó de pedra deu cabo deles. Mas vives sozinha? Não, nada disso, cuido das minhas irmãs e trato da casa e arranjo a terra. Duas irmãs? Sim, a Esmeralda, que é bem mais, nova do que eu, e a Bendita, fez há pouco dez anos. Vão à escola, as tuas irmãs? E tu? Só a Bandita é que anda na primária, vai de manhã cedo e volta pela tardinha. Ainda nos ajuda um pouco, mas tem de fazer as contas e as letras, adivinhar coisas. E ela tem transporte para a escola? Ainda houve tempo que usámos o burro até meio caminho. Mas no Inverno ainda era pior e o burro, coitado, acabou por morrer. Ela vai assim, a pé, tem umas botas de borracha, roupa, o chapéu de chuva que era do meu avô. Já se habituou e gosta de professora. São muitos alunos? Já foram, já foram. Agora são onze e por isso não acabaram com a escola, como no Carrascal ou na Azinheira de Baixo. E tu, tu nunca estudaste? Aprendi a ler enquanto o meu avô foi vivo, ele tinha a quarta classe e gostava de ler jornais, mesmo atrasados, e havia um que era da freguesia, todo sobre as sementeiras, o estado das terras, os mortos. E a Esmeralda? Essa não tem nada, não pode, nasceu com pouco tino, com os olhos em bico. Mas é boa menina e sabe limpar, lavar, ajudar na cozinha. Então tu é que fazes o papel de mãe? Papel não, mãe tal e qual. As minhas irmãs precisam de mim. E têm que ser orientadas nas coisas, na rega, no cuidado com o transporte da água, na comida. A Esmeralda sabe os caminhos aqui em volta, os mais próximos, e vai buscar pão ao Forno do senhor Estorninho. Ele é nosso amigo. Por causa dele é que temos galinhas e sabemos de outros amanhos. Que é que tu estás roendo? Não sou rato, isto é oferecido pelo senhor Estorninho, parecem bolachas, pãezinhos, algum chouriço, é um grande amigo. Já levou a minha irmã Bendita ao médico, na Azinheira de Cima. E aonde arranjam dinheiro para o sustento? Pois então, como há-de ser, é das coisas que tiramos da terra e vendemos aqui, os ovos, alguns serviços que nos pedem, e de uma pensão que os senhores da Segurança Social nos mandam. É pouco, mas é o que resta da doença do pó que matou os nossos pais. E afinal tu, não me disseste o teu nome. Eu sou a Esperança.

Tuesday, September 29, 2009

METAMORFOSES DE UM VELHO MURO LATERAL

foto montagem com colagem de rocha de sousa

Tu já viveste menino na calha de pedra onde subsiste este muro. Um branco sujo, cal outrora, encobria ruínas de edifícios obscuros, sem rosto nem fim. Esse branco, através do qual muitos ossos pareciam emergir fantasmas, enquanto a chuva descarnava areias, tornava visíveis veladas figuras de meninos e meninas, velhos encolhidos, ferros ou próteses oxidadas pela intemporal carga das argamassas. Armaduras de Ucello, pareciam e talvez fossem, guernicas depois, recortes de patas de cavalo e urros durante a morte, apesar da lâmpada suspensa do tecto do mundo, porventura o céu iluminado pelos últimos gritos, o olhar dos mortos. Tu vias essas coisas como? E fotografavas o quê, além das rugas e fracturas da superfície do muro? Eu sei: foi no tempo em que repintaram aquela longa empena de vermelho saguíneo, visão de todas as batalhas, borbulhas submersas nas novas toalhas deslavando-se, coisa de tanta areia imprópria, em breve feridas explodindo sem que ninguém reparasse na hora. Sim, claro que podes redizer: surgiam também órbitas como buracos escuros pelos quais se podia espreitar a suspeita presença, no fundo, de ossos, tíbias, mãos de alumínio, uma espécie de revelação do enterro de guerreiros biomecânicos, sem origem nem vitória visível, mesmo quando tudo não passasse, em sonho, de ortopedia superior, articulações ligadas a hipotéticos nervos e músculos de cetra gente, talvez vagos indícios de seres impossíveis ou míticos, esmagados no impiedoso emparedamento. Nada disso pode ser real, tu bem sabes, nem o próprio Universo, nem o fim nem o princípio dele. Alguém, em todo o caso, tinha medo de que se desnudasse o manto que encobria origens difusas e memórias insustentáveis: o muro voltou a receber baldes de tinta vermelha, menos definida, mas nenhuma sombra sobrou. Não se ouviu nenhum grito, nada de nada maculava a tinta ainda fresca. Todos os cavaleiros de Ucello haviam desaparecido sob aquela lisura afinal quente, não restavam sinais de ossos ou cabeças escondidas em elmos tapados de ferrugem. O muro imenso, cada vez mais tosco e anos depois abrindo outras fendas, é apenas visitado, nas tardes de verão, por pardais que ali fazem curtas escalas em direcção às árvores, ninho da noite. Hoje só podes fotografar esta última ambiguidade, brancos e argamassas enfim emergindo definitivamente por sua conta, cinzentos inexplicáveis, polpa orgânica fingida e meio apodrecida, natureza morta assim, inteira, sem vestígios além do que parece velho ou de configuração abstracta.
É outra escrita, mas igualmente uma escrita indecifrável.

Wednesday, September 23, 2009

MEMÓRIA REVIVIDA DE UM TANGO PERDIDO


f0tos obtidas da internet

A esquina, o canto, o ângulo recto de um chão enviesado, o vermelho e o negro, como em Stendhal,
talvez a pena de ferro fino crispada sobre o papel poroso, todo o ruído num só fio rasurado - e a dança procurada dos dedos invisíveis, apenas o aparo em jeito de lança antiga, preto, branco e vermelho, memória revivida de um tango perdido, aqui encoberto pelos fragmentos minimalistas das suas cores emblemáticas, românticas, a prumo ou na horizontal, a escrita cursiva, itálica, bordando aluns limites escuros, lisos ou texturados, e ainda os panos dos teatrinhos de zarzuela, flamengo em Granada, as praças de Buenos Aires, desertas sob a bota militar, gente desaparecida, assassinada, corpos cinzentos atirados para as valas comuns que só há pouco as mães dilaceradas desobriram, impossibilitadas de encontrar nas fardas e nos ossos, o rosto forte dos seus filhos. Praças amplas como as de Chirico, atravessadas por sombras negras, oblíquas, ameaça visual que uma menina, inocente, não conhece, fazendo rolar o arco sob os contrastes da luz branca, solar, e a sombra côncava debaixo das arcadas, como acontece na Lua que já sabemos como é, nem plácida nem escura: os poetas cantavam-na, em tabernas e espaços nocturnos, ouvindo os sapatos das mulheres, vendo as blusas vermelhas, os seus folhos negros, uma coxa avançando, branca, e logo se escondendo, enquanto as botas dos homens, pretas e luzidias, traçavam o espaço e batiam no chão, num rodopio do sonho e do desejo, e em tudo isso afinal, uma geometria secreta como a que se expõe e se oculta nestes planos negros, nestas faixas vermelhas, no brilho branco das camisas, equilíbrio ternário que submete o nosso olhar à vertigem das curvas, à doce violência de um enlace pela dinâmica, corpos em contra-luz, negro partilhado com o vermelho, branco com o apagamento do gesto petrificado. Também nestas telas o mundo se petrifica e as diagonais sugerem a ordem pelo absoluto, são igualmente absurdas na inutilidade do seu espectáculo mínimo, só elas fingindo uma rasura textural em certas arestas, espaço do silêncio entretanto, a completa imobilidade, o completo esquecimento das grandes bandeiras totalitárias.
Se Chirico ressuscitasse e viessa visitar estes espaços, na dureza de quase nada, haveria de desenhar uma menina que ele criou e ali costumava passar, o aro de metal barulhando devagar no empedrado de outrora.
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texto de Rocha de Sousa, partilhado com duas pinturas de Miguel Baganha na exposição em Setembro, galeria Prova de Artista, e uma sessão de Tango, 2009

Thursday, September 10, 2009

UMA VIDA ESCASSA PARA TANTA MELANCOLIA



Já não tenho fotografias tuas na velha casa do sul, a não ser esta em que pareces muito novo. Era o teu rosto na altura em que casaste com a mãe. Sempre me disseram isso, desde os meus primeiros passos pela escola. Que fizeram das tuas fotografias, aquelas de corpo inteiro, com uma bengalinha a fingir e polainas de camurça nos sapatos envernizados? Não vi nada dessa época, ao vivo, só achei para meu consolo as fotografias de família, belíssimas, aquela rapariga ao mesmo tempo singela e notável, meias de lã, sapatos de fivela lateral, um vestido muito fino, de cintura descaída, em cores esplendorosamente diluídas. E tu, mais tarde, com ela já mudada para senhora, um inverno cinzento por cima das cabeças, um chapéu de fita em ti, uma gola de pele nos ombros dela. Havia, cobrindo as vossas silhuetas, uma ligeiríssima velatura sépia, jeito do fotógrafo assaz famoso ou sinal da passagem do tempo que tem essa propriedade mágica e branda de queimar os ingredientes da representação assim.
Muitos anos depois, lembras-te?, a tua fabriqueta de rolhas ficou a viver das sobras, entre farmácias leais que produziam alguns remédios e a protecção daquele homem silencioso, trabalhador sem mácula, que se chamava Juiz, José Juiz, e tinha de facto uma surpreendente noção dos valores da amizade, da partilha, da beleza dos caminhos campestres, embora não soubesse ler nem escrever. Foi uma época triste mas votada à esperança pela poética lírica dos teus versos. Era, na humilhação da perda, a possível sobrevivência do espírito, os passos pisando veredas junto ao rio, papéis escritos e guardados na albibeira do casaco, um chapéu mais moderno e mais feio na cabeça, com a tal fita no tom próprio apesar de indevidamente baça, cinzenta como os altos muros das velhas fábricas corticeiras, mortas pelo fogo que a crise financeira espalhava pelo país, sombra, aliás, da política e exportação da cortiça em prancha, portanto sem a manufactura portuguesa, ao acaso de quem herdara milhares de sobreiros, assim enriquecendo mais depressa, delfins prosaicos, caçadores arrogante a fingir nobreza genealógica.
Agora posso ver-te daqui, através da derradeira imagem, sentado nos muros baixos a montante da lagoa que o rio nos emprestava em certas épocas do ano para um repouso tardio, as lágrimas dos chorões quase tocando o espelho móvel da maré baixa. O sol batia no teu rosto, enchendo-o de luz, olhavas em frente, na direcção da foz ou daquele horizonte que recebia a queda do balão redondo e luminoso, alaranjado, ao ritmo da temperatura lenta do começo e do fim de cada Verão. Toda a paisagem vista nessa atitude contemplativa, descomplicada como a voz de um poeta guardador de rebanhos, Alberto Caeiro, ou como a de um outro artista de ninguém que dizia sentir a sua alma voando de mundo em mundo e o coração preso à terra, bem lá no fundo.
José Juiz tinha um cão que o acompanhava pela cidade. O homem levava as encomendas ao correio e o cão deslocava-se a seu lado, numa agitação das pernas em frente, para acompanhar a grandeza plácida do seu senhor, passos maiores. E num desses dias, já imprevistos, José Juiz, grave, aproximou-se de mim, tratou-me por menino, como sempre, e disse apenas: «menino, olhe bem para o seu pai».
Foi só desta maneira, nada antes, nem com os sonhos premonitórios da mãe. Não me fora apresentada uma sentença, parecia um aviso apropriado, e logo a cabeça do José a baixar, a mão acenando pendida, o corpo a enfiar-se na viela a que chamavam rua Nova. Então olhei para ti, pai. De manhã cedo, estavas a sair da casa de banho, com uma toalha em volta do pescoço, e disseste «olá, tão cedo» e eu percebi o teu sorriso, esbocei um «bom dia,pai», enquanto tu fixavas os olhos nos meus, boca entreaberta de haver falado, boca tão pouco enviesada mas enviesada no canto esquerdo, expressão de súbito tímida, de desconforto ou pudor -- «menino, olhe bem para o seu pai». Foi o dia em que soube que ias morrer.



eu sei, era com este objecto que tu espreitavas as rimas
dos teus versos, as facturas de pequenas encomendas e
a pureza das rolhas, quando a sua matéria se dizia sexta.