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quarta-feira, junho 11, 2014

OBRA DE NINGUÉM pensar o ver


questões de conceito| 1

         Então ele disse: «as artes não servem para ornamentar o mundo, mesmo quando alguém as orienta nesse sentido. Não parecem ter esse fim, sem nada que desvende o seu eventual enigma, entre suportes técnicos e culturais. Mas já ninguém duvida de que elas sejam o rosto sensível da própria civilização.»
Os alunos, compactos e impacientes, julgaram que estas palavras seriam, provavelmente, o termo da lição: porque eles conheciam razoavelmente as tonalidades retóricas do professor e a maneira como teatralizava, em síntese, o fim das suas lições. Mas o docente mudou de agulha e prosseguiu:
— Se hoje nos encontramos aqui, na circunstância de trabalho que dispensa a pompa e os paramentos, é porque o pensamento plástico apontou de vez para a autonomia das nossas escolhas neste âmbito. Podemos agora falar delas sem qualquer obrigação ritual que nos torne reféns de todas as antigas cerimónias do aprender inicial, entre  cabeças  gregas, de gesso, e humildes   placas  de  cartão  sobre 
as quais tudo tinha de ser resolvido com preto, branco e ocre, porventura  superando o disfarçado valor da pele. Com efeito, o nosso labor já consistiu em obedecer a um longo processo de manipular pequenas misturas de tintas, esbatendo-as no cinza do suporte, testando assim uma habilidade artesanal, milagrosa, como a desses actos monásticos dos iluministas cuja meticulosa vocação se tornaria afinal insustentável, entretanto desaconselhada pelas ciências da arte.
      Os frades, castrados e frios desde meninos, aprendiam a fazer fazendo, pouco mais, ignorando a verdadeira noção de projecto e a própria ideologia que informava e formava todas as nossas urgências. Contudo, e ao contrário do que muitos ainda pensam, não foram os artesãos os culpados da posterior teoria, nem são os elefantes brancos da vanguarda a empurrarem os artistas para a exclusão, quebrando preciosidades em volta, indiscutíveis, como as antigas porcelanas da longínqua dinastia  Ming, na velha China, ou  as peças de Limoges,  na França, bem mais recentes. O saber teórico, aliado ao campo instrumental da praxis, tem o mérito de fundamentar descobertas, sem negar instintos e intuições, em sucessivos espaços da criação consistente. Espera-se desse encontro o achamento de uma forma de  facto inovadora, capaz de ajudar, tanto virtual como presencialmente, o avanço da grande arquitectura do ser. Poderemos então falar, com mais justeza, da rede que multiplica o sentido universal de todas as disciplinas cujo elenco de conteúdos abrirá novas conexões à própria razão. Poderemos também referir o papel da razão e da emoção nos decisivos alinhamentos da consciência. Todo o saber ontológico passa por aí.
      As Escolas de Arte, desde as últimas décadas do século anterior, foram sobretudo aliciadas pela invenção e desenvolvimento das chamadas tecnologias de ponta, máquinas que pareciam anunciar um distante mundo do futuro, aparelhos e próteses cujas funções permitiam, com efeito, abrir múltiplos espaços à criatividade. As teses que desbravaram tais domínios, estudando as virtudes tradicionais da pintura, por exemplo, em jeito de simbiose com os modernos instrumentos, transferiram para as velhas oficinas dos velhos mestres vários patamares apropriados aos novos modos de formar. Em bom dizer, no entanto, esses entrosamentos de tecnologias híbridas, e outras, não passaram, durante muito tempo, de meras somas de crescimento. O desenvolvimento das aptidões humanas, ou da sociedade na sua amplitude maior, realiza-se noutro comprimento de onda (digamos) e apesar das interferências. Terá de ser sempre enquadrado numa perspectiva filosófica, no âmbito de um espírito produtivo e vocacionado para a descoberta de sucessivas verdades.  No século XX, por exemplo, o advento da fotografia alterou a problemática da relação entre diferentes tipos de imagens e novas funcionalidades. Mas a máquina fotográfica, sofisticando-se a breve prazo, estava sujeita, a despeito dos usos, ao mundo das somas e das «regras» de mercado. Perante as apontadas tecnologias tradicionais da representação, a fotografia conquistou rapidamente território —  por dispor, com menos esforço e outra agilidade de processos inconfundíveis ao registar, num apreciável rigor, pessoas ou objectos. Para lá dos seus aspectos lúdicos (ou seduções de consumo), a câmara fotográfica, entre muitos outros meios de maior complexidade, veio contribuir, com efeito, para clarificar a mobilidade das percepções,     o próprio alargamento da consciência numa certa concepção               do saber superior do homem. É esta, porventura, a perspectiva que importa à criação artística. Seja como for, o encontro dos nossos talentos com a diversidade dos meios instrumentais, embora já anuncie uma frutuosa viagem em direcção ao futuro, dificilmente pode suportar  a  demora  das  esperas  por  cada  especialização.                                                                                                                                                                        
                                                                                                                                                       2                                                                                      _________________________________________________________      
E a   massificação das  ofertas, desbaratando o gosto, o apelo das ideias sobre o mundo, a própria ficção do amanhã. Esta crise cada vez mais descontrolada tornou redutor o projecto, misturou fugas em frente ocorridas pelo medo encoberto dos  limites  e  da  morte. Um  sonho de utopia, na linha  da cibernética em que o tempo dos replicantes já se encontra  programado, como acontece na trágica beleza do filme «Blade Runner». Essa obra alerta-nos para  um antigo temor: cada replicante do modelo mais avançado, quase clone do homem, seu inventor, carregando capacidades em certo sentido bem mais concertantes do que as humanas, está destinado, talvez como segurança contra o florescer de afectos ou dotes individuais, a uma vida de apenas quatro anos, lembrando as borboletas que sobrevivem quatro horas. Metáfora aterradora, sem dúvida, pela qual nem se vislumbram significativas melhorias bio-tecnológicas capazes de dilatar o destino do homem contra a absurda proximidade da morte.
O Professor olhou em volta, com as mãos metidas nos bolsos do casaco. Folheou depois uns papéis que estavam sobre a secretária e retomou a redundância do seu discurso – conceitos ou propostas meio desfocados pelo denso véu das palavras.
         —Quando estivemos rendidos à gestualidade liberta — ponderou o docente  —  e nos sentimos cercados por um deserto minimalista, portanto sem título, houve quem começasse a sentir medo pela dissolução do verdadeiro processo do ver. E enquanto o mundo se tornava globalmente pantanoso para muita gente, cidades inteiras submersas no fumo, outros protagonistas pareciam presos à nostalgia de certas imagens, murmurando coisas breves acerca das que haviam conservado desde a infância. Pensavam num mundo poético de figuras até há pouco impensáveis, talvez na deriva cinzenta do sonho, singular estado de alma através do qual julgavam pressentir uma estranha necessidade do realismo, talvez próximo daquele realismo  novo  aprendido com o caos e os desertos sem marcas.
Ouviram-se tosses. O Professor esperou. Voltou aos papéis, pousados sobre a secretária, parecendo não saber o que fazer com eles:
—No fundo, apesar das incandescências que nos irritam ou  apaixonam, a verdade é que não sabemos como trabalhar essa necessidade, a do realismo, ou do realismo reinventado numa dimensão nova, talvez o próprio hiperrealismo, eventualmente a experimentação recuperadora do anacronismo. Dorfles queria que a arte tivesse acabado na mais decisiva das abstracções, para ele não havia qualquer retorno a partir desse ponto de chegada. Enganou-se redondamente na espuma das marés, afinal cercado pelo novo expressionismo, por exemplo, ou de olhos olhando ao alto os retratos de Chuck Close, rostos comuns representados em suportes de vários metros na perpendicular. Ainda mal se experimentara essa espécie de desumanidade própria das máquinas, longe da pintura digital, robótica, um caminho que viria promover a partilha entre o homem e a funcionalidade da lógica informática. E o que aconteceu  depois do veredicto de Dorfles  nada  teve  a  ver com a insustentável descoberta

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do absoluto, entre linguagens que, em última instância, não aspiram à sagração mítica nem ao aprisionamento pelo dogma: trata-se apenas de continuar, entre todos os horizontes, a marcha do homem. Sabemos que isso comporta muitos paradoxos e belas invenções do sonho, resgatando do fundo desse espaço velhos painéis e a secreta geometria da arte de compor. Embora ninguém tivesse advogado verdadeiramente, no limite da nossa pequenez, a avaliação entre o pincel e o computador, apesar de murmúrios que pareciam vaticinar arranjos futuros muito mais consequentes do que a interacção da fotografia com a pintura. Também somos tomados, no curto prazo,  pela intuição sobre os processos que transformam as  coisas  em volta, assombro  do primeiro   homem   na   Lua,  fruto de  ciências    e    tecnologias   de   ponta,    alucinaç     que parecia introduzir alterações profundas no mundo. O artista de hoje é uma espécie de operador generalista ou especializado no seu mister, ombro a ombro com parceiros de áreas afins, e não um mero produtor de artefactos secundários. O que ele realiza, com arquitectos, designers, engenheiros, além de mais e mais operadores, são indubitavelmente objectos de civilização. Sobra um problema bem complexo: como gerir essa civilização



 O que o Professor vê, junto da janela, com o rio por perto,  lembra a anunciação da verdade, entre sonhos ébrios e festins de gente ensandecida, ornamentada com esplendor, talvez a grande tela das pulsações rítmicas e do desejo. É um cenário em ruínas, cercado de casas de adobe, movimentos larvares de homens nus, alguns procurando trepar os degraus do palco, num ginga-ginga absurdo e viral, a sugerir histórias escabrosas, lendas ou visões ao jeito de Georg Grosz. E por isso, na dor, é de presumir que se esteja simultaneamente diante do espectáculo da linguagem, na sua belíssima esquizofrenia, própria da transição do século, ou         num adivinhado Apocalipse de chamas que devoram tudo à sua passagem. É estranho poder desvendar-se, por cada monte de cinzas, um espaço de ópera diferente das outras óperas de outro tempo. Talvez o quadro queira ser o espectáculo de um realismo contraditório, mostrando irreparáveis fomes à beira dos pântanos, lamas e répteis, actores carregados de plumas luxuosas, a miséria afinal obesa e caricatural. É gente indecifrável, alcandorada, lenta, como plantas tropicais em varandins suspensos de um palácio imaginário, surreal naquele limite do mundo.



         Outros varandins enchem-se também de velhos olhando acasos à sua volta, eles mesmos improváveis mas sujos de uma espécie de argila ou leite derramado, anciãos cujos olhos húmidos, ainda carregados de nostalgias, acabam por tornar algumas mulheres  por ali  sentadas  em notáveis figurantes.  Outras, soltas, lavam de forma ostensiva as suas carnes cor de chocolate, grandes seios, bolsas flutuantes na água apanhada da chuva tropical, entretanto barrenta, lenta, cheirando a terra — ou a mortos e a flores ocasionais.
        Há grupos insinuados, por outro lado, elevando ao alto os cânticos espirituais de antigas negritudes, em volta outra gente marcada pela magreza ou mutilações a lembrar Brueghel. Tudo sonho ou realidade antiga. Tudo em espaços com parapeitos mal aparelhados. Tudo como lugares entretanto vividos por mulheres afeitas ao duríssimo trato de crianças rangendo, surpreendentes surpreendidas. Meninas sem nome mas gentis na sua beleza lavada. Festa nobre da pintura. Mistura de tempos, lugares e personagens. Roupas e cerimónias,  a lembrar a libertação da terra ou as recentes catástrofes naturais, não longe dos dias em que os mortos descem à superfície do rio e por vezes acabam perdidos, às moscas, nas margens baixas. A festa ou o paradoxo da vida. A presença estranha de uma ópera sem data, talvez a lembrar Manaus, híbrida, com figurantes a exprimir outras gentes, outras terras, lugares arrancados à selva. Paragens, enfim, capazes de receber emigrantes de povos exóticos, rostos do mundo longe.
O professor senta-se, ofuscado com tais exercícios, entre meios, referências e belíssimas contradições. Ainda não lhe ocorreu nada sobre o que procura. Os tempos e o espaço dos espaços não parecem fazer sentido.
           A miséria surge aqui e ali no interior florestas colossais,   num rumor de bichos e febres. Pode imaginar-se que essa gente,     a mais magra, a mais desidratada, enchendo a boca de fuba uma vez por dia, esteja no limite da vida, aguardando a morte, silenciosa e sem caprichos. Acaba a luz mas o povo não sabe nada da luz, nem da morte, porque só lhe falam disso como direito ao mistério, consolação na forma de flores atiradas sobre as urnas. É um  confuso destino que começa, em todo o caso, na viagem obscena da
             maternidade e do início da vida.
         O professor pensa no limite, a Oriente e a Ocidente, para sul, pensa nos grandes continentes carregados endemicamente de pestes. Mas ninguém trata de ninguém, os genocídios misturam-se com as festinhas de senzala, latas que batem, rebatem, quase apagando a lassidão das vozes na maior das escuridões, choros e murmúrios nas horas diversamente terminais.
        








Breves excertos, de capítulos diferentes, do livro do autor do blogue,
intitulado
             OBRA DE NINGUÉM
              pensar o ver






sexta-feira, abril 18, 2014

NASCER NÃO É COMEÇAR, NEM AQUI, MÃE



A memória remota é um conjunto de reaparecimentos, por vezes muito bem encadeados, um pouco como se tudo tivesse acontecido há poucos dias. Nunca te conheci nesse tempo distante, nem aqui, mãe. Sabes? Esse menino que tu seguras com naturalidade e ternura não é quem vejo nesta descoberta, e suspeito assim que que seja eu. A tua bela imagem, nesse jeito, também nunca a conheci, porque os anos passaram depressa, a fotografia aqui reproduzida veio do fundo de caixas meio esquecidas, tu ressuscitaste nessa idade, e o menino acompanhou-te. Quando entrei na idade da razão comecei a arrumar na cabeça imagens tuas, talvez do meu irmão e do pai e da avó. Mas foram enchendo o fundo das gavetinhas do meu cérebro como aconteceu com as velhas gavetas do móvel principal, cor de nogueira. Eram volumes amarelados, uns maiores do que os outros, e em certos casos com provas enroladas umas nas outras, donde saíam tios e tias, primos magricelas, vindos até duma vaga praia não sei donde.
Se este menino não for eu, está escrito atrás o teu nome: Maria com o filho. Qual deles se esta mulher, ou rapariga, ou senhora, não apareceu durante mais de sessenta anos nos arquivos familiares sem ordem nem verdadeira memória? Quando te encontrei e soube que eras tu, lembrei-me como as famílias se perdem antes de se perderem, assim guardadas, quase como aquele jeito com que te guardaram para viajares, morta, para junto do pai.
Já não sei o significado destas coisas. Mas há dias ouvi e vi o testemunho de uma rapariga que se salvou de um brutal tsunami, tinha treze anos, fugiu da enorme onda com todas as forças que tinha, a água desabou sobre ela, a menina nadou, ergueu os braços ao alto, suportou a dor no peito -- e pensou com persistência, «não posso morrer agora, tenho só treze anos, darei a mim mesma todas as forças da resistência.
A menina salvou-se, perdeu os pais como eu te perdi a ti. Mas o que ela nos disse é que esse tempo (e a própria tragédia) não devem ser esquecidos, devem ser conservados no lugar próprio da memória e revisitados ao longo dos anos. Essa é a melhor forma de conservarmos a vida no equilíbrio entre fases, alegrias e saudades. Ela lembra-se dos próprios pais correndo um pouco atrás mas não os chora. E tem razão. Depois de conseguir fazer-te renascer visualmente de um tempo perdido, a minha própria morte terá mais sentido. Quem se habita com o passado, além da vida normal que desaparece dia a dia, mais profundamente se conhece e alcança o que pode haver, no futuro, além do seu próprio esquecimento.

sábado, fevereiro 08, 2014

40 ANOS DE & ETC, EDITORA NO SUBTERRÂNEO

 
   primeira capa da revista &etc | Rocha de Sousa
a editora underground apareceu depois
com um primeiro livro intitulado coisas

Um novo livro da & etc, desta vez para comemorar os seus 40 anos de presença e resistência, no qual se fazem balanços, testamentos e outras coisas mais, sem exclusões, sem esquecimentos, grande acontecimento de um vulgar já histórico trajecto que, embora colectivo e sem investimentos especiais, se deve muito sobretudo, a Vitor Silva Tavares, um editor não tanto underground como se "intitulou" para efeitos de encenação, mas também de verdade, porque nenhuma das editoras que pululam por aí estaria aberta aos temas e assuntos tratados na &etc e a fazer esta diferença, a viver esta aventura, a sonhar desta forma, a testemunhar e intervir neste sentido. Lembro-me (com a conhecida saudade meridional) da primeira montagem do primeiro número da revista, no meu próprio ateliê e naqueles dias de última hora em que eu me escapava pelo trânsito, enquanto o Vitor fazia caretas de «medo» a meu lado, numa viagem e pantomina até ao fecho da oficina que imprimia o &etc. Bom trabalho do EXPRESSO (revista A) ao publicar, sobretudo visualmente, a invulgar viagem desta editora e o seu rosto gráfico inconfundível. Registo esta acontecimento aqui, não no Desenhamento, porque me sinto indelevelmente ligado à criação deste projecto, onde trabalhei desde o suplemento &etc do Jornal do Fundão, com desenho e crítica de arte.  Parabéns para todos os amigos.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

NEM AMOR NEM CRUELDADE, SÓ ASPIRAÇÃO

afirmação do ser

Nunca desenhei desenhos destes e tenho pena por isso. No dia em que me ofereceram uma caixa de lápis de cor, quando já era capaz de sonhar outras coisas além das coisas, fui para uma arrecadação no quintal, abri a caixa e puxei pelo lápis preto. Era mais negro do que os da Escola, fiquei vagamente contente e abri o cadcrno de papel cavalinho e piquei o branco do papel com o bico afiado do lápis. Piquei várias  vezes a superfície branca a lembrar-me do bico das galinhas picando a terra onde não havia nada ou apenas restavam pequenas sombras por cada ataque da ave tonta. No papel, de cada vez que eu batia o branco horizontal, depressa ou devagar, também produzia sombras  exíguas. Não me ocorria nada, nem das coisas lembradas nem dos objectos próximos. E foi então que ergui a cabeça, havia canas lá em cima, troncos suportando as canas, deixando ver vagamente as telhas do telhado. Ao baixar a cabeça, olhando sempre para ver o que estaria preso às paredes, lembro-me de haver reparado numa máquina escangalhada, cheia de  ferrugem,  pedaços de esmalte dobrados em tortura, tubos ou canos retorcidos como troncos de qualquer planta morta. Fiquei deslumbrado. Nunca desenhara senão pequenas flores e gatos lustrosos nas revistas, tudo igual ao que julgava ver e que os adultos diziam estar muito bem feito, imensamente parecido com os originais. Não sei bem porquê. Mas, ao contemplar o esquentador destruído, velho, sujo, feito de cinzentos e brancos e castanhos, achei tudo aquilo, em feio como todos falavam de coisas semelhantes, intensamente  mais bonito do que outras imagens tantas vezes por mim imitadas e que os outros reconheciam sem hesitar.
Foi então que começei a desenhar com verdadeira convicção e perto daquele encanto que nos invade completamente quando vemos certas coisas inexplicáveis, sentindo temor e fascínio perante elas. Percebi logo que já não estava a imitar, nem um rosto nem os tubos tortos, e que a beleza do meu desenho a preto, cinza e branco, depois aparelhado com alguns pedaços a castanho, tendo escolhido para isso o lápis castanho, vinha de um ver ao contrário dos olhares focados sobre cada pormenor, vinha de dentro do peito e não da cabeça, podia adiantar-se entre as mãos e o papel sem que os olhos fossem obrigados a repetir instante a instante a fixar o já visto e sempre procurado entre inícios.
Foi então, também, que  passei a perceber o que significava desfazer o já feito, como isso é preciso para trazer para o papel volumes e partes escondidas, o futuro e o passado de todas as coisas vistas, revistas, imaginadas entre outras, construídas numa espécie de acaso após várias destruições. E achei, mais tarde, o sentido dos destroços de aviões em fotografias da Life, durante a última guerra, além de perceber a importância da idade das coisas e das ruínas para me saber por dentro, olhando muito para além dos olhares maquinais de todas as rotinas.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

NOJO AOS VELHOS OU O LIMITE DA MENSAGEM


As folhas secas, amareladas e mortas, lembram, em tão grande quantidade, um chão juncado de velhos mortos após um imenso genocídio. Mas não é nada de tão feio, como se pode ver e cheirar: ver sob a luz matinal, algumas caídas sobre um carrinho de transporte manual e talvez sugerindo que todas as outras vieram em transportes deste género para serem espalhadas em redor e ornamentar um pátio qualquer, tornando-o fofo aos passos perto do jardim -- em particular o dos velhos internados no Centro de Saúde atrás da própria imagem. Daqui a dias, seja como for, o ancião que costuma, com outros colegas e amigos, varrer as folhas pisadas, virá transportá-las num dos velhos carrinhos de mão, semelhantes aos outros todos, procedendo devagar ao esvaziamento das folhas, seres indefesos e meio mortos, caídos das árvores e já cheirando à sua breve morte, coisas enfim derramadas derramando-se no lixo da Natureza.


O nojo aos velhos é uma expressão abusiva, talvez ligada a certas analogias de outros domínios, mas corresponde de algum modo a diversas situações fracturantes das sociedades humanas sobretudo nas geografias da fome, das doenças avassaladoras, perante a marcha dos indiferentes não muito longe e das grandes congregações de países ricos e de territórios vastos.
Estes pacientes mais idosos chegam ao hospital muito tarde, em especial quando transitam para a unidade de estudo e diagnóstico. Mas hoje, enquanto lá fora as folhas tombam e os pássaros cantam sem melancolia, os médicos trabalham gente como vemos aqui, na espera inexplicável de tudo: analisam os dados da sua investigação, tanto aqueles que abordam questões neurológicas como os que se dedicam, eventualmente em consequência de tais exames, aos regimes comportamentais aprisionados. Não há aqui, nem lá fora, um sentido apologético que indique estarmos num mundo de apologia técnica, ou, ao contrário, de sedução panteísta.
O tratamento de patologias comportamentais não se compadece (penso) de recolhas ao ar livre, vendo pássaros, camponeses, árvores de diversas raças. Ou simplesmente a relva e o sol, os carros correndo ao longe. Também não se julga conveniente recorrer ao sequestro dos doentes, técnicas de reclusão durante horas intermináveis -- segundo alguns puristas excessivos coagindo o paciente ao desenho de uma ideia ou de um tecido, coisas gráficas, sem nenhuma outra relação de memória ou valor lúdico como noutras conquistas prévias a outras propostas de enquadramento urbano ou em ligação ligeira com imagens presumíveis de bosques, montanhas e rios.


O lixo dos humanos ou o lixo da própria Natureza, aqui e além, são por vezes paisagens diferentes e até fascinantes. Mas ou costumam ser remetidas para a reciclagem ou acabam por matar tudo em volta, não servindo para mais nada. Qualquer reformatação do ser-humano, para perto da sua coerência orgânica, não deve basear-se, em todo o caso, na mais secreta e muito isolada das aprendizagens nem nas totalidades do método libertador de Montessori,

O paciente disse: do outro lado, longe mas dentro de água, vi com toda a evidência o rosto de minha mãe. Não percebi se sorria, pois já começava a perder-se no lixo.



sexta-feira, dezembro 06, 2013

SÍSIFO LUSO SOB A PEDRA COM ARTE ABERTA

               Este pobre Sísifo,  que  tanto subiu e  desceu  a
               montanha,  carrega o  que até  há  pouco  ainda 
               não  se  descobrira:  o que  resta de um  menhir 
               visigodo estranhamente encravado numa  parte
               de certa rapsódia de obras de arte portuguesas, 
               abertas, pesadas como o  destino da nossa futu-
               ra indústria cultural nesse domínio.

Recomeçar como? Vendo no espelho, em vez do rosto, a nuca da personagem que tenho sido? Ana dir-me-á que essa questão é menor, mas ela própria dificilmente se reconhece em Cristina nas fotografias mais recentes, espelhos breves que passa entre os dedos e depressa rejeita. Pode não ser decisivo reivindicar a identificação da escrita, no verso de cada espelho que se quebra no caminho. Suponho que já não sustentarei essa atitude, pela minha parte, porque as palavras dos tios, das tias, de Cristina ou de Ana, dos avós suspensos em retratos graves, acabaram por se confundir com a identidade de quem sou, sem heterónimos, hoje pronto a reivindicar esse registo por inteiro, único, o meu nome embaciado pelos senhores da cultura e por muitos colegas da faculdade, entre outros. Claro que a grande cidade onde envelhecemos nos é cada vez mais estranha. Claro que somos nela, de ano para ano, mais cinzentos ou estrangeiros, o mundo a perder-se neste modo de ficar em casa, abarcando imagens rápidas, sem leitura, os destroços do Columbia ou as caravelas de chumbo que os Estados Unidas da América colocam no mar dos golfos, na curva marítima entre continentes. Que fiquem as marcas dos passos pela areia fresca das marés baixas, memórias de um destino sem distância, idas sem regresso, tragicamente as marés altas engolindo a maior parte dos vestígios.
Devaneios.
A ideia é recomeçar em todas as frentes possíveis,  sem alcunhas. No âmbito da pintura, será preciso procurar de outro modo o modo absoluto que não há e ter consciência dessa brevidade na sucessão das obras, com ou sem assinatura. Muitos oficiantes fazem-no pelas diagonais solitárias, na terrível preguiça das medianas, enleados nos mercados de circunstância, na fama de cada nome que, entre consumos, faz toda a diferença. Outros desfazem ideias, mudando de casaca, grandes passos de súbito espalhados pelo vazio, desfasados de toda a procura, entre descontinuidades por vezes ilusórias ou esplendorosas, luxos incongruentes nas tintas mal secas de modelos revivalistas. Ainda conheço razoavelmente muitos daqueles que passaram do extremo cuidado nas articulações geométricas ao domínio profano ou à penumbra do sagrado, alegorias com o anjo Gabriel sob luzes teatrais, céus bíblicos e a perfeição imitativa de um único quadro de cada vez, divino silêncio que procurava acompanhar o lado erudito da representação onde também florescia, enfática, errática, a candidatura ao mito museológico. Além do mais, vejo recomeços na continuidade dos mesmos riscos  de há trinta anos, talvez meio século, não sei bem, artistas que herdaram de Sísifo (mas com proveito) a repetição dos actos, as veredas na montanha do atelier, o estafeta da galeria à porta a fim de recolher as pedras de um rolar ocasional, vendáveis mediaticamente e às dúzias. 
Devaneios, Matilda, não deixes que a tua filha se perca.
Há um outro deus das artes que sobe arduamente a montanha, como Sísifo, parando, a espaços, num sopro duro e pintando dolorosamente os desastres principais, trajectórias de trajectórias, por vasta soma de intencionalidades  parecidas, na visão sempre retomada com mais fervor no caminho percorrido, perto da certeza de não haver o pico da montanha, a tela meio pintada e já a explicar-se simultaneamente, como presença e juizo, num destino que não é grego, nem romano, nem de qualquer outra nova renascença -- destino que não se sabe quando começou e  não se percebe como terminará. Em cada paragem, a evocar a alegoria do calvário, apura-se assim um testemunho, algo que foi repensado todos os dias, trabalho absurdo, inconclusivo, sobre-humano. Os caminhos na encosta são apenas semelhantes enquanto destino em desenho; nenhum deles repete, até ao milímetro, o anterior. Essa resistência, levada apesar de tudo à vontade de comunicação, com todos os sinais do seu arrastamento e das suas diferenças invisíveis, torna-se uma espécie de símbolo da própria natureza da arte (ou da vida, tanto faz) abrindo espaço, para muitos, à perplexidade e à revolta, apontando cada recomeço, sem mística, sem salvação, sem Deus, como a possível novidade de uma faixa de terreno nunca pisada de certa forma, na identidade (afinal) de qualquer coisa que não tem fim mas que vive dentro da própria morte e apesar do desencanto, com força, entre máscaras.
Já pensaste, Matilda? Não te lembras do teu nascimento nem sabes nada sobre  a tua morte. Imagino muitas vezes essa vida como um quadro de Picasso. Os quadros dele nunca começam de um modo previsível, à maneira de muitos outros começos conhecidos. Além disso e sobretudo, nunca acabam.
Filosoficamente, Sísifo é um artista: ele sabe relativas as diferenças entre viagens e faz dessa pequena fronteira, contra a estranheza para sempre, o fio  das suas sucessivas escolhas e num espaço do incontornável absurdo.

sábado, novembro 02, 2013

CAMUS, TERIA CEM ANOS, AINDA ESTRANGEIRO

Albert Camus teria hoje cem anos

No Expresso de hoje:
É recordado um dos mais importantes intelectuais do século XX. Hoje quase esquecido e pouco lido, lutou contra todas as formas de totalitarismo e contribuiu com os seus romances e peças de teatro para iluminar a condição humana num tempo de trevas mortais.
Quando recebeu o Prémio Nobel, Camus disse, em certa passagem do seu belo discurso:

«A arte não é para mim um prazer solitário. É uma maneira de comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e alegrias comuns» Discurso da Suécia.

«A pobreza e a velhice dos lugares irremediáveis, estações terminais de uma vida sem sentido nem escolha. Constitui aquilo que os intelectuais e o existencialismo empacotado gostam de chamar condição humana e que, no seu etéreo assento, desconhecem e temem.»
 Nos apontamentos autobiográficos dos Carnets, onde Camus demonstra o virtuosismo da escrita, lê-se o resumo da sua vida física e mental:

«Sempre pensei que aquele que espera alguma coisa da condição humana é um louco, mas o que desespera é um cobarde.»

Citado por Clara Ferreira Alves no Expresso de 2.11.1013

É hora de prestar de novo a nossa homenagem a esta personalidade de indizível grandeza, o escritor que nos deu a ler «O ESTRANGEIRO», obra que marcou para sempre uma consciência moderna da literatura e dos valores humanos.

«Não chegam vozes, nem anjos, nem milagres: a ausência da suprema ajuda é a revelação do embuste  em que nos fizeram conscientes, criadores quase insuperáveis, mas bem depressa condenados a se apagarem. Dizia uma tia minha, lavradora no sul, afagando o enorme saco cheio de milho: Deus? Nunca dei por nada. Por esta terra fora, só os homens e as mulheres estão iluminados até ao momento em que morrem. E deles, como de Deus, nunca mais haverá sinais. Este é um mundo sem razão.»

do livro «NARRATIVAS DA SUPREMA AUSÊNCIA»