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quarta-feira, dezembro 23, 2009

PINTURA ARRANCADA AOS LIXOS URBANOS

pinturas de rocha de Sousa (2009)
desenho digital, seguido de técnica mista


Voltemos transitoriamente à pintura, aquela que se faz com matrizes digitais e se transforma, por diferentes meios directos e indirectos, em obra plástica mista sobre papel. As configurações podem não ter relevo estético muito apelativo e obrigar a leituras decifrantes, intermitentes, sem verdadeiro feed back. É um risco de todos os processos de comunicação pela imagem, mas é também uma conquista no campo expressivo, pluralmente liderada, segundo uma infinidade de projectos, de despojamentos, de apagamentos e recomeços. No meu entendimento, todo o ruído do experimentalismo ao longo do século XX, deixou marcas, sequelas, suicídios consumados. Nenhuma batalha se faz sem feridos ou mortos. Por este caminho demoradamente em catarse, os gritos e os silêncios haveriam de deixar impressivos efeitos sobre a evolução dos modos de formar ou os segredos dos grandes mestres da Renascença, para não citar outros, de outros tempos, de civilizações mais recuadas. A arte foi submetida, pela vontade sensível e pelos fenómenos do registo mecânico, a uma reflexão sobre a sua verdadeira natureza, possível autonomia, se estava ou não largamente infectada pelas indumentárias, riquezas de habitat, projecção de ornamentos, efabulações do ver e do delírio. Pelas conclusões das análises intensas e radicais, depressa se argumentaram os caminhos da simplificação, despojamento, limpeza do acessório. O princípio parecia legítimo. Mas não absoluto. E, com efeito, mal se chegou ao minimalismo da linha solitária sobre a tela ou do corte desesperado, num só golpe, ao centro da própria tela, acto liminar de Fontana, logo a moda subverteu o modo. Mas o homem não é simples, nem por fora nem por dentro.
Ele cumulou em si mesmo milhares de finas orientações, desejos e sonhos, todo um corpo, hipoteticamente belo, que se deformou com o seu destino perecível, interrogado por pincéis perversos ou lúcidos como os de Bacon, Goya, Soutine, Munch, entre muitos outros e até aos exorcistas que se serviram das máscaras africanas.
Quando a última depuração esvaziou a tela, sugerindo um ponto final de difícil inversão de marcha, o milagre aconteceu, os homens reivindicaram a riqueza do seu elemento cultural: e, embora não recuperassem os panejamentos do barroco, as distorções do expressionismo, utilizaram de novo os pincéis e os pigmentos, sem perder de vista novas ferramentos, como a fotografia e a informática. O Hiperrealismo, disseram alguns, foi um episódio sem importância nem verdadeira profundidade ou questionação. Mas, como sempre se tem verificado, não é bem assim: os hiperrealistas colocaram-se à frente e atrás dos realismos de cunho expressionista, e o gosto pela pintura em si, de novo comprometida, foi reaparecendo um pouco por toda a parte, a retomar caminhos já trilhados: pintar exigia outra vez uma paixão avassaladora, cujos impulsos se carregavam do sentido do métier, em certos instantes convocando as escritas da inocência ou da infância. O acto de representar, mais ou menos artilhado com novas próteses, voltou a inundar os espaços onde a pintura se pensa, expõe e se manifesta. E a verdade, apesar de algumas excepções alucinantes, as técnicas, apoiadas ou não, mostram agora o prazer de todos os recomeços. E as formas ressuscitaram para esse domínio pujante com o seu carregamento de garatujas e olhares de Rembrant. As duas coisas passaram a poder coexistir no mesmo espaço. O nosso desejo de visitação de todas essas manifestações permite-nos vereficar a mutação das figuras, justamente porque, entre o dom reconquistado da escrita primitiva, cada vez mais as telas estão povoadas de muitas coisas vindas do real ou da infância, óbvias, enigmáticas, ou anunciadoras do futuro. Podemos assinalar, num caso, «esta figura corresponde ao número 3». Depois não sei: «talvez certos círculos me lembrem os bonecos do meu filho, quando era muito menino. E ali, à direita, reconheço um bicho rastejante, visto de cima, e certamente uma velha casa, de madeira, meio arruinada. Então poderei deduzir vários tipos de lixo, talvez voando, à esquerda, uns após os outros, como fotogramas de um filme amador em Nova Orleães.

terça-feira, dezembro 15, 2009

TRANSPARÊNCIAS DE UM AMOR SEM NOME

cartilagens transparentes na oficina desarrumada
Rocha de Sousa


As coisas aparecem assim, como nas casas dos espíritos, um pouco sem nexo, mas batendo certo no chão de cimento, conforme o alfabeto. Quer dizer o seu nome marcando primeiro letra a letra? Uma pancada sim, duas pancadas não. (Ouve-se uma pancada.) É sim. Vamos: A, B, C, D, E, F, pancada. Vamos confirmar para F. Uma pancada sim. (pausa. Ouve-se uma pancada.) A primeira letra do nome é um F. Alguém se lembra de um familiar ou amigo com um nome começado pela letra F? (Digo eu, então) Fui, durante muitos anos, amigo e cliente de uma pessoa cujo nome começava por F. (Pausa) Quer dizer o nome? Frederico. Pensamos que a pessoa que nos visita é o Frederico. Vou usar os meios: Se o seu nome é Frederico, use apenas uma pancada. Se for apenas uma pancada, estaremos na presença do senhor Frederico. Concentremo-nos. Uma pancada para confirmar a presença do senhor Frederico. Ouve-se uma pancada forte.

Era ele, num dia sombrio mas sem chuva. Chegara pelas oito horas e ficara, como sempre, a descansar um pouco, dormitando sobre o volante do carro, já estacionado muito perto da oficina. Por volta das nove horas, quando era mais provável entrarem os primeiros mecânicos, dois deles estranharam a oficina ainda não estar aberta. Trocaram impressões sobre o facto, e um dos rapazes achou que o Frederico estava atrasado, nada mais, por isso deviam abrir a oficina e retomar a rotina. Um hora mais tarde, o Frederico não aparcera. De casa, para onde telefonaram, a mulher confirmou que o marido saira como habitualmente, cerca de vinte minutos antes das oito. Os homens entreolharam-se, foram até à porta, e poucos instantes depois descobriram o carro, quase à esquina, reparando que o Frederico estava aconchegado ao volante, como fazia habitualmente, para descansar um pouco antes de fazer a abertura. Foram lá, bateram no vidro, para acordar o patrão, mas ele continuou na mesma posição. Abanaram o carro, uma, duas, mais vezes e já atormentados. Nessa última tentativa, o corpo do senhor Frederico escorregou para a esquerda e eles viram e sentiram claramente como a cabeça do patrão e amigo tombara para a esquerda, batendo no vidro. Não estava a dormir. Foram buscar a chave de reserva e abriram a viatura, procurando agarrar logo o corpo do amigo, corpo lasso, rosto pálido e frio, corpo logo nas mãos dos homens e um grito para telefonarem para o 112. Estava morto e os meios de apoio à vida limitaram-se a confirmar esse facto e a guardarem o corpo numa lona apropriada. O que mais espantou a rapaziada e os vizinhos foi a decisão dos serviços de auxílio abandonarem o corpo ali, dizendo que não devia ser removido por ninguém antes da chegada do delegado de saúde. Por ali se conversou, lembranças comovidas de um homem ainda novo, honesto, trabalhador, que geria a oficina como uma cooperativa bem fraternal. Grande conheceor das mecânicas de vários tipos de carro, os seus diagnósticos eram infalíveis.
Quando, dias depois, entrei na oficina, conheci a filha do Frederico, dinâmica, pronta, já a gerir o negócio tanto quanto possível segundo o critério do pai. Das imagens que trouxe para aqui, só uma é pintura de pequeno formado, feita a guacho no interior da oficina, apontamento sem força nem brilho, embora capaz de sugerir a atmosfera daquela cave. Andei por lá, fascinado como nunca, a tirar fotografias de certos pontos ou postos de trabalho, tudo numa tontura de coisas sobrepostas, ainda por arrumar, roldanas, elevadores, vidros foscos entre faixas para operações mais delicadas, um batimento ao fundo, imagens trémulas, uma fotografia sobre a anterior na primeira máquina que tivera, comprada em Angola, e cuja passagem manual do filme, parando com um estalido, permitia enganar as normais funções da cadeia de janelas, fotografando assim, coisas sobre coisas, sombras, luz artificial de mistura com a que vinha do portão e das janelas altas - e assim o voltei a fazer anos mais tarde, a sério, em nome da arte e do ausente/presente Frederico.
Frederico, lemras-te do meu primeiro carro, um austim 850? Deixaram-te abandonado na rua e ali estiveste à espera de uma palavra da nossa parte, capaz de explicar o que o tempo faz às coisas e às pessoas. O tempo não apaga as imagens, nem os afectos, nem os actos solidários. Só a morte apaga tudo isso, todas as nossas horas, a nossa arte, os nossos amores. Impunemente e sem a menor utilidade.

terça-feira, novembro 24, 2009

FEIRAS DE ARTE E BRINQUEDOS NÓMADOS

fotografias de Rocha de Sousa

Ontem fiz referência a um texto de Hugo Canoilas sobre a exposição «Atravessando Fronteiras», dedicada aos anos setenta e promovida pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Hoje, ainda perante um outro texto do mesmo autor («Vem aí a Feira») passo para este espaço, acompanhado de imagens de vários feirantes que registei num grande evento no Algarve. Vou assim citar amplamente Hugo Canoilas, a bem de uma importante causa que envolve a arte actual portuguesa e a submete de forma tosca a mimetismos de olhos desvairados vindos da Alemanha ou de Espanha, visitantes de consumadas feiras de arte, a primeira das quais sucedeu em 1970, Colónia, vítima de grande contestação por artistas como Wostell ou Joseph Beuys. Segundo o articulista aqui evocado, aqueles e outros autores sentiam que a «feira» era um caso de «constrangimento criativo e de práticas de exclusão injustas». Tal sentimento parecia, diziam eles, «trazido por esta moda», apesar dessa espécie de bolsa das artes revelar a abertura de maior número de galerias na Alemanha. Apesar dos «poços de ar» verificados noutras circunstâncias, esta febre afinal mercantilista fez alargar imenso o número de galerias entre os anos 60 e os meados dos anos 70: apenas 400 espaços, grande variedade de produtos como é próprio de qualquer feira que se preze. Haverá nesta realidade um factor socializante em termos de distribuição, o que, na altura, se ligava a algumas propostas mais conservadoras e, naturalmente, a um grande aumento dos valores de mercado. Hugo Canoilas acentua, a propósito da natureza de certas tipologias de algumas vertentes artísticas, o curioso facto de autores como Blinky Palermo e Gerhard Richter «serem absolutamente pró mercado em reacção às práticas conceptuais vigentes (quando a arte conceptual era no início não mercantilizável)». Vivia-se entretanto a ideia envolvente (que alguém espreitava da margem da história) de que estes eventos talvez permitissem manusear trabalhos, negociar com com artistas e marchands, tendo em conta igualmente a conhecida sensibilidade dos clientes e o seu modo de comprar. Agitando produtos e lugares, ainda se pensou que a feira poderia alcançar um importante significado para os homens do ofício (artistas e vendedores a retalho). Perante a actual Feira de Lisboa, Hugo pergunta-se com pertinência: Será que, em Portugal, ainda não se aperceberam que este modelo de feira é um «nado morto»? É, com efeito, problemático este alinhamento (pobre) por exemplos exteriores que já mudaram de figurino, apelando à inscrição da cultura e contra a menoridade dos objectos. Se as galerias investem muito dinheiro na apresentação da feira, o certo é que o nível da visibilidade alcançada não escapa ao ruído envolvente, aos equívocos de bem parecer, à cedência ao público arreigado e aos imperativos dos habituais ou duros coleccionadores. De resto, procurando estratégias «adequadas» para este tipo de acontecimento, ao certo quase nada interdisciplinar, os galeristas ensombram a desejada «celebração da arte contemporânea», o que deveria convocar ambientes festivos, o gosto pelo debate sobre o papel da arte no mundo de hoje, inclusivé envolvendo todos os agentes (artistas, galeristas, coleccionadores e público) numa frutuosa troca de ideias, entre saudáveis polémicas e possíveis consensos. Com leituras também, a relação do livro, da sua linguagem perante outras de suportes e factores integrantes diferentes. E como o verdadeiro cinema faz falta nestes casos, mesmo que para tanto as barracas tivessem que fechar os varandins, deixando ao relento os dados físicos de algum marketing..Hugo Canoilas diz ter verificado que a feira de Amsterdão, ao comemorar os seus 25 anos, solicitou a todas as galerias a apresentação de exposições individuais, facto que aconteceu e conferiu um novo interesse às acções correntes. «Foi de facto - diz ele - uma das melhores feiras que vi»; em experiências assim ganha a vontade de participar e os termos de legibilidade. Há outros exemplos de outras soluções, como em Viena e o convite a autores de Leste cuja produção, espectro de dados inovadores, grangeou um entusiástico interesse do público. Viena vai mais longe, convida curadores de prestígio, uma classe que parece seguir o antigo caminho da crítica - o de se substituir aos próprios artistas, gerindo mediatizações e deploráveis ostracismos. Um dia, estou certo disso, este poder institucional, protegido nas respectivas instâncias, terá de ser melhor enquadrado e trabalhar com outro espírito. A arte, esquiva a dogmas e decisões absolutistas, ela sim, ela é que faz a sua verdadeira história.


Cito de novo, ao correr das palavras, um trecho de Hugo Canoilas (e ele que me perdoe trazer para aqui vários inserts da minha visão deste assunto, melhor: deste tema por debater: «Existe também um divórcio entre as instituições portuguesas e a feira. O que torna tudo mais amador e de menor qualidade.» As galerias e aquelas entidades acolhem entre si as incertezas e a responsabilidade pela débil proliferação da arte portuguesa na sociedade. «Não se compram espaços nas revistas, patrocinando mas também divulgando actividades e transformações neste domínio. Não existe aliás qualquer tipo de estratégia para colocar definitivamente os termos Arte Conteporânea na própria língua portuguesa, como tem acontecido com o Design e a Moda. A arte praticamente não chega à televisão; ou, quando chega, aparece mediada. Chega sempre em segunda mão.» A verdade, digo eu, é que a lógica mercantil das televisões atingiu proporções verdadeiramente absurdas, acentuadas, aliás, pela manipulação do público através de formas de espectáculo indescritíveis, todos os canais vestidos de igual à mesma hora. De quando em quando, anos talvez, lá vem uma espécie de «curador» curar de um artista já assado e condimentado. Excepções só no erudito «Câmara Clara» (bem longo) e no «debate» futebolístico (bem mais longo). Há quem diga que é melhor assim, pois uma acção em terreno movediço sai fora dos padrões de audiêncicai e vai cair nos mesmos, sem risco nem contraditório. E no entanto era perfeitamente exeqível (competitivo, como dizem) um programa sobre várias artes, cada bloco de 50 minutos proposto por um agente cultural de interesse reconhecido por uma comissão prévia. Augusto França pode seguir-se a Leonel Moura, Paula Rego tratada por Rui Mário Gonçalves, Nuno Portas dissecando a obra em geral de Siza Vieira. Nada disto tinha de ser curado por curadores. Temos muita gente bem apetrechada para dirigir e orientar projectos assim. Vai sendo tempo de pensar a alma do país e a moodernidade que nele se gerou para além das chamadas «imagens convenientes». Os artistas que ganham o primeiro galão (mesmo só como alferes) tendem a ligar-se a diferentes tutores, tribos, lobbies, garantindo a sua colher de sucesso nacional e internacional. As encomendas que venham, eles não as procuram. Por isso abominam associar-se, criar organismos representativos deles: isso dá trabalho e obriga a compromissos rapidamente queimáveis pela inveja latente no burgo. Talvez por isso é que eu fui obrigado a ouvir o membro de um governo provisório, quando se instituía a Faculdade de Belas Artes da U.L., que a nossa pretensão era fútil e sem fundamento: «o país não precisa de artistas», disse o homem, um pé institucional sobre a onteria do 25 de Abril.

Na feira que visitei, colocando-a ao lado de de Lisboa, os brinquedos de madeira fecham uma sala. E não posso deixar de me lembrar que um artista português usou, nos anos 70, este brinquedo do pássaro com rodas e cabo em grande quantidade de uma amável e repousante instalação.

os velhos brinquedos de uma geração ainda não perdida

terça-feira, novembro 10, 2009

TRANSPARÊNCIA E UM RELÓGIO DE HORAS



Água verde mas límpida.
Translúcido espelho amarrado
ao muro de pedra já ferida.
Velho espelho em casa da avó,
tão velho como o relógio centenário
preso à parede, rachado e só,
sempre a bater as horas
sobre um obtuso relicário
no qual se eflectia
o arrastado ranger da corda,
essa espécie de coração
cujo rumor de concavidade
se faz sentir no quarto exíguo
pelo frio de pedra
ou pelo circular rigor do tempo

sábado, outubro 31, 2009

PRESENÇA E APARÊNCIA NA FORMA DO VISÍVEL


pintura | técnica híbrida | rocha de sousa

Achei aquela frase num simples livro de Educação Visual. Acharia outro, se tivesse vontade para procurar, entre as imagens quotidianas da metamorfose do mundo: gente e coisas, o lixo disfarçado no desvão dos cafés ou das vielas irreparáveis. O livro era pequeno, pouco ilustrado, falando de Kandinsky e Paul Klee, como não podia deixar de ser. Os exercícios de pintura de Paul Klee pareciam lições práticas, sustentadas no olhar, ensinavam entretanto a ver a ordem das formas e das cores no espaço, os valores, os ritmos, a textura de uma simples mancha aguada. Em certo sentido, era quase tudo o que havia para aprender, começando no ponto e na linha e na sua diversa multiplicação. Do visível até à pintura que dele em parte se apropria vai uma grande distância, mesmo quando não parece: quando, por exemplo, os olhos de um retrato realista destilam lágrimas ou alguma viscosidade emergente. Coloquei este pequeno trabalho aqui, sustentado por meios electrónicos, mais como uma espécie de electrocardiograma, folha de registo, linhas e fundos, formas e figuras, desenho do que me faz pulsar, qual o estado em que se encontra a minha capacidade de ordenar a desordem, de chamar imagem ao real transformado, a um espaço sobrecarregado, em suma, de sucata inominável. Vou e venho, vejo as marcas consistentes e embrulhadas nesta maneira de ver as coisas. E penso sempre: talvez fosse bom que uma anunciação deste tipo se fizesse a cru, breve e secamente, aberta em pontos, duas linhas, a mancha do mar ou a imitação esboçada de três pequenas nuvens. Mas eu gosto de adjectivar, não sei porquê. O problema pode estar na própria língua, atrás de semânticas austeras, em textos exemplares e sintéticos. Na pintura as coisas seguem também, por outro lado, o bater do coração, o deslizamento das tintas, riscos reais e virtuais, dores de quem não chega ao ponto exemplar com que sonhava, fechando-se como um bicho de conta, a espreitar milagrosamente a primeira figura do que deveria ser uma multidão, os crentes gemendo passos circulares em Meca, os peregrinos amontoados em Fátima, pés a sangrar, iguais aos de todas as batalhas, e a praça do Vaticano coalhada de cabeças, só cabeças e sobretudo escuras, pontos brancos aqui e além, o marulhar das ondas distorcido à escala tímbrica das rezas e das canções menos ásperas que se ouvem nos grandes espaços do espectáculo de massas. Não era disso que eu queria falar aqui. Queria apenas lembrar, pela suave sabedoria de Klee, que todas as vertentes da sua geometria plástica podem ganhar outra configuração, perdendo a transparência em nome da opacidade fracturada, fósseis aqui e além, ferros, peças sem contexto, armadilha de asas pela frente de uma atmosfera em azul forte, nenhum realismo na realidade alcançada, porventura legível aqui e além, presumível como resto, espaço onírico, reinventável através da análise ou do sonho, verdadeira porque sim, operática também, pânica igualmente, algo daquilo que sou em mim e nos outros, vazio às dez horas da noite. De madrugada a mesma coisa será diferente. E haverá no céu três pequenas nuvens.

terça-feira, outubro 27, 2009

A DEVASTAÇÃO DO IMOBILIÁRIO QUALIFICADO


Aqui ficam para memória futura os primeiros sinais de devastação de um prédio urbano das primeiras décadas do século XX, recoberto de azulejos, cerâmica de muito boa qualidade estética e funcional. Foram longos anos de ataque a esta fachada, zelo para hecatombes sociais, icrementado a partir da altura em que um velho chefe de família, rodeado pela mulher, duas filhas e um filho de maior idade, sucumbiu inesperadamente. Vieram outros anos, outros ventos, uma das filhas morreu ao arrepio do destino e a senhora viúva ponderava como gerir a cada vez mais dramática ausência de meios. Havia gente nas águas furtados, creio que um casal jovem e uma avó vigilante, recortada por vezes nas janelinhas alcandoradas, simultaneamente devolvida da sombra pelo seu reflexo num espelho ao fundo. No piso junto à rua, à direita, nunca percebi quem aí habitava: porque, embora as janelas estivessem tratadas e com cortinados de renda, ficavam sempre fechadas. Percebi uma vez que havia lá alguém, porque estava perto e o carteiro bateu para lá e esperou muito tempo. Depois, no vão da escada, foi um murmúrio surdo e uma tosse rápida. De resto, o lado esquerdo esteve quase sempre ocupado por uma loja de ferragens, à qual se seguiram lojas de artesanato e biscatos em papelão, colagens, animais afectuosos, de cartolina, para meninos da escola.
Em cima, a desertificação começou pelo uso que o filho mais velho da família destroçada foi dando aos quartos, sala e saletas, um quintal que nunca vi, com ramagens de aguarela. O ataque continuava, nenhuma classificação fora conseguida, ou critério de bem público (que o era) e muito menos quando a avó das águas furtadas morreu, dias no quarto, depois um funeral esquisito, acompanhado por gente jovem, mal vestida, duas moças magras, crianças recentes, de olhares já indiferentes e breves.
Tudo pronto: os homens dos papéis e da ganância lá conseguiram a licença de demolição. Nem uma meia dúzia de azulejos, para amostra, sobrou da insanidade vandalizante. Deitar abaixo é uma coisa. Arrasar a arte e a nobreza dos adereços é outra. Ninguém veio ao funeral da amável moradia que conheci durante quarenta anos. Vim eu, olhando da minha própria janela.
As duas imagens seguintes, muito belas à sua maneira, corresponem ao fundo da casa, já esburacado até às traseiras da garagem da outra rua. Oiço as miúdas de antigamente e lembro-me do senhor de cabelos brancos e olhos claros mas avermelhados. A menina mais nova, magríssima, a comer um gelado. E o gato. E aquela moça angular, de camisola sem mangas, que aparecia na janelinha direita, assente no telhado. Costumava passar discos dos Ping Floy e cuidava de um cato arrumado no canto do pequeno varandim.
Nunca mais recebi sinais dali, da menina e do rapaz, da mãe dele que acabara por casar com um engenheiro civil, longe daqui. Mas quem sabe da folha de serviços do engenheiro?



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Máquina trituradora, ficção na sua forma e no seu roncar. Racha tudo, parte, arrasta para a direita e para a esquerda, entulho a sobrar. Quando vem a noite, o braço de ferro tomba. O monstro acomoda-se, silencioso, sobre o entulho. Dorme.














Janelas partidas, vidros estilhaçados, uma geometria suspensa, abanando em melancolia e já no patamar do desaparecimento. Há muitas inexistências entre as novas velhas existências que fazem chão sobre o chão desaparecido.













A pata da máquina sobre os destroços. Nem o menor sinal da história humana aqui contada. Nem um simples resto de livros, cadernos, uma jarra partida. Madeiramentos soltos, já sem origem e de destino eventualmente incerto. Os homens não sabem como crescer, porventura como olhar cada paisagem devastada, coisas e espaços que podiam ser futuro de outra morte.

segunda-feira, outubro 12, 2009

ORFANDADES E SOLIDÕES, O DESERTO


Donde vieste? De longe, da Fragura, é da praça que a gente vive. Vives como, assim, e os teus pais? Já se foram, o pó de pedra deu cabo deles. Mas vives sozinha? Não, nada disso, cuido das minhas irmãs e trato da casa e arranjo a terra. Duas irmãs? Sim, a Esmeralda, que é bem mais, nova do que eu, e a Bendita, fez há pouco dez anos. Vão à escola, as tuas irmãs? E tu? Só a Bandita é que anda na primária, vai de manhã cedo e volta pela tardinha. Ainda nos ajuda um pouco, mas tem de fazer as contas e as letras, adivinhar coisas. E ela tem transporte para a escola? Ainda houve tempo que usámos o burro até meio caminho. Mas no Inverno ainda era pior e o burro, coitado, acabou por morrer. Ela vai assim, a pé, tem umas botas de borracha, roupa, o chapéu de chuva que era do meu avô. Já se habituou e gosta de professora. São muitos alunos? Já foram, já foram. Agora são onze e por isso não acabaram com a escola, como no Carrascal ou na Azinheira de Baixo. E tu, tu nunca estudaste? Aprendi a ler enquanto o meu avô foi vivo, ele tinha a quarta classe e gostava de ler jornais, mesmo atrasados, e havia um que era da freguesia, todo sobre as sementeiras, o estado das terras, os mortos. E a Esmeralda? Essa não tem nada, não pode, nasceu com pouco tino, com os olhos em bico. Mas é boa menina e sabe limpar, lavar, ajudar na cozinha. Então tu é que fazes o papel de mãe? Papel não, mãe tal e qual. As minhas irmãs precisam de mim. E têm que ser orientadas nas coisas, na rega, no cuidado com o transporte da água, na comida. A Esmeralda sabe os caminhos aqui em volta, os mais próximos, e vai buscar pão ao Forno do senhor Estorninho. Ele é nosso amigo. Por causa dele é que temos galinhas e sabemos de outros amanhos. Que é que tu estás roendo? Não sou rato, isto é oferecido pelo senhor Estorninho, parecem bolachas, pãezinhos, algum chouriço, é um grande amigo. Já levou a minha irmã Bendita ao médico, na Azinheira de Cima. E aonde arranjam dinheiro para o sustento? Pois então, como há-de ser, é das coisas que tiramos da terra e vendemos aqui, os ovos, alguns serviços que nos pedem, e de uma pensão que os senhores da Segurança Social nos mandam. É pouco, mas é o que resta da doença do pó que matou os nossos pais. E afinal tu, não me disseste o teu nome. Eu sou a Esperança.

terça-feira, setembro 29, 2009

METAMORFOSES DE UM VELHO MURO LATERAL

foto montagem com colagem de rocha de sousa

Tu já viveste menino na calha de pedra onde subsiste este muro. Um branco sujo, cal outrora, encobria ruínas de edifícios obscuros, sem rosto nem fim. Esse branco, através do qual muitos ossos pareciam emergir fantasmas, enquanto a chuva descarnava areias, tornava visíveis veladas figuras de meninos e meninas, velhos encolhidos, ferros ou próteses oxidadas pela intemporal carga das argamassas. Armaduras de Ucello, pareciam e talvez fossem, guernicas depois, recortes de patas de cavalo e urros durante a morte, apesar da lâmpada suspensa do tecto do mundo, porventura o céu iluminado pelos últimos gritos, o olhar dos mortos. Tu vias essas coisas como? E fotografavas o quê, além das rugas e fracturas da superfície do muro? Eu sei: foi no tempo em que repintaram aquela longa empena de vermelho saguíneo, visão de todas as batalhas, borbulhas submersas nas novas toalhas deslavando-se, coisa de tanta areia imprópria, em breve feridas explodindo sem que ninguém reparasse na hora. Sim, claro que podes redizer: surgiam também órbitas como buracos escuros pelos quais se podia espreitar a suspeita presença, no fundo, de ossos, tíbias, mãos de alumínio, uma espécie de revelação do enterro de guerreiros biomecânicos, sem origem nem vitória visível, mesmo quando tudo não passasse, em sonho, de ortopedia superior, articulações ligadas a hipotéticos nervos e músculos de cetra gente, talvez vagos indícios de seres impossíveis ou míticos, esmagados no impiedoso emparedamento. Nada disso pode ser real, tu bem sabes, nem o próprio Universo, nem o fim nem o princípio dele. Alguém, em todo o caso, tinha medo de que se desnudasse o manto que encobria origens difusas e memórias insustentáveis: o muro voltou a receber baldes de tinta vermelha, menos definida, mas nenhuma sombra sobrou. Não se ouviu nenhum grito, nada de nada maculava a tinta ainda fresca. Todos os cavaleiros de Ucello haviam desaparecido sob aquela lisura afinal quente, não restavam sinais de ossos ou cabeças escondidas em elmos tapados de ferrugem. O muro imenso, cada vez mais tosco e anos depois abrindo outras fendas, é apenas visitado, nas tardes de verão, por pardais que ali fazem curtas escalas em direcção às árvores, ninho da noite. Hoje só podes fotografar esta última ambiguidade, brancos e argamassas enfim emergindo definitivamente por sua conta, cinzentos inexplicáveis, polpa orgânica fingida e meio apodrecida, natureza morta assim, inteira, sem vestígios além do que parece velho ou de configuração abstracta.
É outra escrita, mas igualmente uma escrita indecifrável.

quarta-feira, setembro 23, 2009

MEMÓRIA REVIVIDA DE UM TANGO PERDIDO


f0tos obtidas da internet

A esquina, o canto, o ângulo recto de um chão enviesado, o vermelho e o negro, como em Stendhal,
talvez a pena de ferro fino crispada sobre o papel poroso, todo o ruído num só fio rasurado - e a dança procurada dos dedos invisíveis, apenas o aparo em jeito de lança antiga, preto, branco e vermelho, memória revivida de um tango perdido, aqui encoberto pelos fragmentos minimalistas das suas cores emblemáticas, românticas, a prumo ou na horizontal, a escrita cursiva, itálica, bordando aluns limites escuros, lisos ou texturados, e ainda os panos dos teatrinhos de zarzuela, flamengo em Granada, as praças de Buenos Aires, desertas sob a bota militar, gente desaparecida, assassinada, corpos cinzentos atirados para as valas comuns que só há pouco as mães dilaceradas desobriram, impossibilitadas de encontrar nas fardas e nos ossos, o rosto forte dos seus filhos. Praças amplas como as de Chirico, atravessadas por sombras negras, oblíquas, ameaça visual que uma menina, inocente, não conhece, fazendo rolar o arco sob os contrastes da luz branca, solar, e a sombra côncava debaixo das arcadas, como acontece na Lua que já sabemos como é, nem plácida nem escura: os poetas cantavam-na, em tabernas e espaços nocturnos, ouvindo os sapatos das mulheres, vendo as blusas vermelhas, os seus folhos negros, uma coxa avançando, branca, e logo se escondendo, enquanto as botas dos homens, pretas e luzidias, traçavam o espaço e batiam no chão, num rodopio do sonho e do desejo, e em tudo isso afinal, uma geometria secreta como a que se expõe e se oculta nestes planos negros, nestas faixas vermelhas, no brilho branco das camisas, equilíbrio ternário que submete o nosso olhar à vertigem das curvas, à doce violência de um enlace pela dinâmica, corpos em contra-luz, negro partilhado com o vermelho, branco com o apagamento do gesto petrificado. Também nestas telas o mundo se petrifica e as diagonais sugerem a ordem pelo absoluto, são igualmente absurdas na inutilidade do seu espectáculo mínimo, só elas fingindo uma rasura textural em certas arestas, espaço do silêncio entretanto, a completa imobilidade, o completo esquecimento das grandes bandeiras totalitárias.
Se Chirico ressuscitasse e viessa visitar estes espaços, na dureza de quase nada, haveria de desenhar uma menina que ele criou e ali costumava passar, o aro de metal barulhando devagar no empedrado de outrora.
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texto de Rocha de Sousa, partilhado com duas pinturas de Miguel Baganha na exposição em Setembro, galeria Prova de Artista, e uma sessão de Tango, 2009

quinta-feira, setembro 10, 2009

UMA VIDA ESCASSA PARA TANTA MELANCOLIA



Já não tenho fotografias tuas na velha casa do sul, a não ser esta em que pareces muito novo. Era o teu rosto na altura em que casaste com a mãe. Sempre me disseram isso, desde os meus primeiros passos pela escola. Que fizeram das tuas fotografias, aquelas de corpo inteiro, com uma bengalinha a fingir e polainas de camurça nos sapatos envernizados? Não vi nada dessa época, ao vivo, só achei para meu consolo as fotografias de família, belíssimas, aquela rapariga ao mesmo tempo singela e notável, meias de lã, sapatos de fivela lateral, um vestido muito fino, de cintura descaída, em cores esplendorosamente diluídas. E tu, mais tarde, com ela já mudada para senhora, um inverno cinzento por cima das cabeças, um chapéu de fita em ti, uma gola de pele nos ombros dela. Havia, cobrindo as vossas silhuetas, uma ligeiríssima velatura sépia, jeito do fotógrafo assaz famoso ou sinal da passagem do tempo que tem essa propriedade mágica e branda de queimar os ingredientes da representação assim.
Muitos anos depois, lembras-te?, a tua fabriqueta de rolhas ficou a viver das sobras, entre farmácias leais que produziam alguns remédios e a protecção daquele homem silencioso, trabalhador sem mácula, que se chamava Juiz, José Juiz, e tinha de facto uma surpreendente noção dos valores da amizade, da partilha, da beleza dos caminhos campestres, embora não soubesse ler nem escrever. Foi uma época triste mas votada à esperança pela poética lírica dos teus versos. Era, na humilhação da perda, a possível sobrevivência do espírito, os passos pisando veredas junto ao rio, papéis escritos e guardados na albibeira do casaco, um chapéu mais moderno e mais feio na cabeça, com a tal fita no tom próprio apesar de indevidamente baça, cinzenta como os altos muros das velhas fábricas corticeiras, mortas pelo fogo que a crise financeira espalhava pelo país, sombra, aliás, da política e exportação da cortiça em prancha, portanto sem a manufactura portuguesa, ao acaso de quem herdara milhares de sobreiros, assim enriquecendo mais depressa, delfins prosaicos, caçadores arrogante a fingir nobreza genealógica.
Agora posso ver-te daqui, através da derradeira imagem, sentado nos muros baixos a montante da lagoa que o rio nos emprestava em certas épocas do ano para um repouso tardio, as lágrimas dos chorões quase tocando o espelho móvel da maré baixa. O sol batia no teu rosto, enchendo-o de luz, olhavas em frente, na direcção da foz ou daquele horizonte que recebia a queda do balão redondo e luminoso, alaranjado, ao ritmo da temperatura lenta do começo e do fim de cada Verão. Toda a paisagem vista nessa atitude contemplativa, descomplicada como a voz de um poeta guardador de rebanhos, Alberto Caeiro, ou como a de um outro artista de ninguém que dizia sentir a sua alma voando de mundo em mundo e o coração preso à terra, bem lá no fundo.
José Juiz tinha um cão que o acompanhava pela cidade. O homem levava as encomendas ao correio e o cão deslocava-se a seu lado, numa agitação das pernas em frente, para acompanhar a grandeza plácida do seu senhor, passos maiores. E num desses dias, já imprevistos, José Juiz, grave, aproximou-se de mim, tratou-me por menino, como sempre, e disse apenas: «menino, olhe bem para o seu pai».
Foi só desta maneira, nada antes, nem com os sonhos premonitórios da mãe. Não me fora apresentada uma sentença, parecia um aviso apropriado, e logo a cabeça do José a baixar, a mão acenando pendida, o corpo a enfiar-se na viela a que chamavam rua Nova. Então olhei para ti, pai. De manhã cedo, estavas a sair da casa de banho, com uma toalha em volta do pescoço, e disseste «olá, tão cedo» e eu percebi o teu sorriso, esbocei um «bom dia,pai», enquanto tu fixavas os olhos nos meus, boca entreaberta de haver falado, boca tão pouco enviesada mas enviesada no canto esquerdo, expressão de súbito tímida, de desconforto ou pudor -- «menino, olhe bem para o seu pai». Foi o dia em que soube que ias morrer.



eu sei, era com este objecto que tu espreitavas as rimas
dos teus versos, as facturas de pequenas encomendas e
a pureza das rolhas, quando a sua matéria se dizia sexta.

quarta-feira, agosto 26, 2009

HORA DE SOMBRAS OU MADRUGADA DE MORTE


fotografias de Rocha de Sousa

Foi no tempo do Melícias, estás ou não estás lembrado? Tu andavas aluado por causa da maluca da moça do Entradas, a Vergina, mas os homens vieram correndo, a apitar, pendurados das carrinhas, dos carros, das mulas, e gritavam para a gente se chegar de lado que vinha aí mais pessoal. Então já se ouvira dizer que os cães haviam ladrado, outros uivado, ficando em silêncio durante mais de uma hora. Não se ouvira nada de nada nessa hora comprida. Tu tens que estar lembrado, homem, eu bem sei o que digo. Antes de tudo acontecer os cães ladravam de hora em hora, mas no intervalo não havia grilos, nem ruídos de outros bichos, nem deslizes no restolho de pássaros atrevidos com o medo, nenhum deles saía das tocas. E havia aquela luz coada, uma coisa entre a noite e a madrugada, um peso no respirar. Foi por aí que se ouviu um terrível sopro, grandioso, vindo além do cerro, e a terra começou logo a bater pedras, mais pedras, rolou muita grés da parte seca, perto do mato, e daí a nada abriram-se fendas fundas, negras como a noite. Os telhados da Mariazinha cairam num instante, então sim, as galinhas quase voavam a cacarejar, e a moça também, a correr, a correr, os cabelos pretos como gavinhas abanando estouvadamente, cadelas e cães, até ratos. Toda a gente veio para a rua, ali na praça, e houve quem mijasse ao ver o alcatrão a quebrar, de longe as sirenes, de longe o roncar das camionetas, os bombeiros, a malta da cortiça, não havia ordem, a terra parecia ferver salpicando bolas das entranhas, umas pedrinhas meio quentes, e depois chegou a guarda para evitar a malandragem de se aproveitar de tudo, das portas abertas, dos vidos partidos, das galinhasa correr, Vergina a chamar por ti, perdera a vergonha, dizia palavrões, malvada, malandros, quem é que reza agora, senhora?, agora é só fugir, fugir para os descampados, porra, lá desgraçam os barros do meu pai, barros, sim, muitos barros já feitos e pintados e cozidos, prontos para a merda da feira. Era um circo do mal, um circo do inferno, cinco minutos de cagaço e horas e horas aí por esse mato fora, pelos casebres, a salvar gente, a levantar vigas, a escorar tectos e paredes, e tudo acabava por cair, esmigalhando as mesas, candeeiros, cadeiras, sacrários, gatos e cães. Vai lá enganar outros, com essa do não foi bem assim. Dessa maneira, nada de nada de como a gente vê e diz. Vai perguntar à Vergina.





Olha, olha, então eu não vi?

Nada de nada, nunca. Vai perguntar à Vergina. Até se mijavam, agarrados
uns aos
outros, mesmo junto ao café do Almerindo.

Quando amanheceu, devagar, ninguém arredava pé.
Espreitavam os que podiam e cortavam a garganta de tanto gritar.

Deus? Deus estava a dormir, nunca dá por nada. Nada de nada

MARIANNE E O DRAMA DO PINTOR FRENHOFER



Tu vens em nome da Odette ou és a Marianne? «Começei por ser Marianne. Contracenava com o actor Picolli no filme Bela Impertinente, de Rivette. Mas de si obtive o nome de Odette, com que fiquei durante toda a memória do livro Belas-Artes e Segredos Conventuais.» E agora? «Agora fiquei de novo ligada a si, porque me evocou no livro Obra de Ninguém, nos capítulos onde são abordados vários filmes em concordância com a problemática do ver e do representar. Aquelas suas sessões marcaram-me profundamente, quer como personagem, quer como pessoa forçada a atravessar décadas com o mesmo rosto e o mesmo corpo: veja a fotografia que tem aqui e pode confirmar que os meus olhos o olham como dantes. Em todo o caso eles vieram de um laboratório que terá existido por volta de 1900. Esta face, perdida nos sonhos de Frenhofer, pintor em decadência e na evocação, cuja mágoa viveu através de mim, um amor meio longínquo, um retrato talvez acabado, talvez desaparecido, algo que tinha para ele ainda a substância carnal da pessoa, da pintura e da própria representação.» Foste muito condescendente com a violência de Frenhofer, a maneira como ele disputava o teu corpo, numa espécie de mistura do desejo e da rejeição. «Estas profissões são assim, irreversíveis em cada caso. Preferi sofrer com a exigência de Franhofer do que aturar assédios patéticos, perante uma obra que não se faz nem se desfaz. Aí prefiro perder o meu dinheiro e partir. De resto, a minha vontade era a de participar num outro filme, onde os caminhos estreitos, as cenas esfumadas e a sombra inquietante do bosque condicionariam tudo. Nesse caso, o problema da representação, que também se insere na linguagem fílmica, seja qual for o estilo, vinha do visível igualmente a perder sustentabilidade realista. E todo o material que entretanto se recolheu fez-me emergir da profundidade sombria, quase fantástica, de um belo jardim a fingir de bosque, ali ao sul, numa cidadezinha do interior. Essa parte do bosque tinha apenas, além de espessos arbustos, dezenas de troncos pertencentes apenas a quatro ou cinco árvores. A uma certa hora do dia, sobretudo ao entardecer, não era preciso operar com adereços de luz, as coisas saíam limpas, condução inerente à própria deriva dos entes sem nome da não-história. Mas havia também um tratamento por filtro das flores decadentes que surgia entre ruínas, sobre arbustos estranhos e um chão que teria pertencido a uma antiga casa de habitação, toda ela removida a favor de outra construção que não chegou a fazer-se. O tempo empurrou plantas do quintal, ao fundo, para dentro da área das antiga casa, algo que nos dava a impressão, espreitando pela óptica, de estar diante de um plano de Tarkovski, os verdes secos, os amarelados acinzentados, a luz difusa, a morte anunciada em certas raízes que não tinham conseguido furar a tijoleira e assim haviam produzido ramos sem esperança de vida, alimentados no inverno, após as chuvas e os pequenos lagos lamacentos sobrando na cerâmica rachada. Depois disso, as paredes fracturadas, os altos muros crivados de pregos, de aberturas irregulares, como relâmpagos em negativo, tudo servia para certas panorâmicas lentas, as quais teriam futura ligação com dois personagens, um homem velho e uma rapariga, ambos atentos, perturbados, escutando a água correr donde em onde, sem avistar senão aldeias devastadas por si mesmas ou pelo abandono. E de súbito, a madrugadaca vinha contradizer tudo, iluminando em especial o rosto da rapariga (Marianne ou Odette, não sei qual) e estilhaçando em difusão o caminho da última cena . Toda a luz branca crescia à medida que a câmara avançava em travelling, na convergência das linhas até um muro avermelhado a travar uma hipotética saída. Quando a objectiva chegava a esse ponto o foco era apurado sobre a parede: o campo enchia-se de nova sombra, a do muro já menos quente e mais sujo, irregular na textura e nas finas fendas que o percorriam de alto a baixo. Mas isso era traduzido a cerca de dois metros, entre o nosso olhar, o olhar focado da câmara, longo plano fixo que lentamente dava lugar a um escuro opressivo e ainda tocado pela sangrenta materialidade de um submerso tom siena.»
Fico a olhar para ela e não sei o que dizer. Não sei quem devo procurar, Marianne já se afundou na história da vida e dos filmes em que participou. E Odette era absolutamente igual à rapariga que nos servia de modelo nas aulas das Belas Artes, comendo a sua maçã ao intervalo e lendo, rosto sereno, um livro de Éluard. A minha também vai chegar, com a sua carga de memórias e os seus sucessivos apagamentos, apesar destes belos fantasmas e das imagens retiradas das gavetas e pouco depois retornadas a essa sombra apagante.




a luz esfumava as imagens
de um caminho estreito, obtido
num velho e simples jardim

domingo, agosto 23, 2009

A BELA IMPERTINENTE E A DOR DE FRENHOFER

fotomontagem de rocha de sousa

Ainda bem que te revejo, Marianne. Fazias parte de outro filme meu, colada à imagem de Odette e aos sonhos brevíssimos de Alice. Adolescentes ainda, vasculhámos as teses de Antonioni em «Blow-Up», Brian de Palma depois, em «Blow-Out», e assim por diante. Em «Viagem Breve pelo meu Corpo» era um desafio a Rivette (calcula!) e ao trabalho de «A Bela Impertinente». É preferível viver assim, folheando o futuro, do que beber de uma só vez a purga do tempo. Lembras-te da Lourdes? Que belo rosto, no cinema sobretudo, ou mesmo perdido num cemitério de automóveis do «Encontro no Século XXI». Entretanto foi sofrer para a grécia, tentando libertar-se de muitas feridas do corpo e da alma: voltou salva mas irremediavelmente envelhecida. Estivemos uma tarde a ver «O Contrato», de Greenaway. Deixei de a ver entretanto. Ainda bem que encontraste o livro. O outro chama-se «Obra de Ninguém» e é um livro quase impossível de escrever, porque metade dele procura dar a ver grandes pinturas não assinadas, que viajam incógnitas pelo mundo, com passagem atribulada por Maputo e Lisboa. Pois é, tens razão, podes dar uma vista de olhos a esses capítulos. Concordo com o que dizes: também escrever é dar a ver, irrecusavelmente pela leitura.



«Esta reflexão sobre a pintura passa pelo acto de representar, em sucessivas conquistas gráficas e pictóricas apoiados no real. Como nas antigas Academias, o pintor Frenhofer parece ter saído de uma pausa indeterminada, em nada parecida com as famosas férias sabáticas. O seu retorno ao desenho é um patamar de presumível animação na pintura. É algo a que ele aplica a palavra projecto, um repetido percurso, na sua essência e nos seus vazios; semelhante ao de Sísifo, considerando o modo como as rochas se desprendiam daquelas mãos doridas - quadros sempre incompletos - e rolavam pela encosta mítica numa espécie de fatalidade incomportável para a vida dos homens e dos próprios deuses. Não é por acaso que este artista, talvez de meia idade, e cujos gestos e olhares escorre alguma lassidão, ainda convoque um modelo vivo, essa jovem mulher gratificante mas de gestos sem grande iniciativa, bem capaz, em todo o caso, de servir a novos passos iniciais, passagens, referências, treino também de hipotéticos diálogos com o espírito de muitas formas perdidas. Frenhofer quer reencontrar-se com a memória de Liz, um afecto longínquo e contudo bem nítido nas rasuras da sua pele, porventura da sua arte anterior, horas de sucesso e entregas, prémios mediáticos e ilusórios da vida, enquanto nos mantem empreendedores no sentido impressivo dos riscos, de cada escolha e de cada deus, indiferentes aos breves avisos das margaridas da morte que se espalham como sardas insidiosas, por vezes cedo, pelas costas das mãos. Mas este homem parece, por outro lado, ter consciência de aue está condenado ao impossível, como afirmava Picasso, embora lhe reste, após uma incerta depressão, o sopro susceptível de conferir à vontade o sentido de algum derradeiro encontro - a descoberta, enfim, da forma de realizar um quadro adiado sobre as pétalas caídas no quarto de Liz. Se alguém lhe pergunta, a propósito do trabalho que já fez ou do que está começando a fazer, se tudo tem corrido bem, se aquela busca é difícil, ele respondo no tom apropriado a fim de referir um miterioso esforço: «Sim, é difícil»
O Professor calou-se, não levantou os olhos, passava entre os dedos as quatro ou cinco das fichas em que se apoiara. Então sim, ofereceu um olhar evasivo à turma queo fitava sem ameaças de desprendimento.
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Excerto do livro, a sair em 2010, obra de ninguém, de Rocha de Sousa

quarta-feira, agosto 19, 2009

SÍSIFO, A PEDRA OU A CONDIÇÃO HUMANA

Sísifo, todos os calvários do mundo

A mobilidade visual, no espaço da aparência e da representação, não é propriamente uma teoria; no fundo, é mais uma praxis, mostra-nos a inevitabilidade, e mesmo a urgência, em nos deslocarmos no plano real, a par de apropriadas convocações da memória. Os pontos de vista têm de se multiplicar cada vez mais, consoante o intuito da nossa aproximação.
As grandes estátuas da Ilha da Páscoa, que sempre olharam de frente, a defender ou a vigiar não se sabe o quê, sairam das mãos de uma gente que imaginou porventuta tais deuses, sem olhos e portanto sem o dom da visão. É que a visão de si que esse povo teria quanto ao destino fixava-se na produção daquele bem, algo que o sinalizava e o protegia. Era um longo conjunto de actos que não parecia decorrer de uma experiência perceptiva aproximada de tais formas, inexistentes no contexto da ilha, antes deveria nascer de um outro modo de ver e da própria natureza do meio, do procedimento instrumental, de uma prioridade assim, lúdica e assaz permanente. Dir-se-ia que este povo misterioso concebera a infinitude no finito, retirava daí o seu conforto, como que superiormente destinado áquele lugar, cego para a expansão, preso para o crescimento, alheio à ideia de partir.
O homem sempre se dedicou, tanto para se guardar como para se condenar, à idealização dos seus deuses e heróis. A mitologia, num sentido lato, pairou longamente sobre as civilizações de eras distantes. Conhecemos todos esses casos e as suas ressonâncias simbólicas, uma teologia obscura. Herói mítico, deus à sua medida, Sísifo, que Camus interpretou de forma soberba, tornou-se conhecido por aquele trabalho a que fora condenado, rotineiro e dilacerante. Tratava-se de um castigo para lhe mostrar que os mortais não têm a liberdade dos deuses. Os mortais têm a liberdade da escolha. Essa é uma das suas superiores afirmações, integrando ideologias e a esperança. Mas o mundo que gerou o castigo de Sísifo concebia que a escolha obrigava à concentração nos afazeres da vida quotidiana, vida só assim vivida em plenitude, tornando-se criativa na repetição e na própria monotonia.
Esta questão é essencial. Curiosamente, Sísifo morreu de velhice e foi considerado um grande rebelde, juntamente com Prometeu. O trajecto dos homens, sendo estruturalmente idêntico ao de Sísifo, desviou-se muito cedo daquela relação entre liberdade e escolha. A escolha implica uma responsabilidade decisiva, ligada aos efeitos sobre os outros e o mundo. Inclui o devastador direito de renúncia. O homem quer sempre ulgtrapassar os seus limites, abrir-se a mais território, por exemplo, num fio indeterminado de novas apropriações. Constrói e destrói, como na parábola da pedra. Mas procura contornar tal condenação e descobrir maiores benefícios para além da rotina, crescendo, amontoando informação, virando as quantidades de tudo e dos próprios benefícios contra si. A abastança em desequilíbrio contraria a simetria doUniverso e pode provocar a implosão ou o caos absoluto.
Já não vemos nem representamos o que vemos. Com razão à partida, porque ver não é contemplar: é sair ao encontro das coisas, é recriar a dinâmica do transpoite da pedra, esboçando atalhos. Mas de nada serve erguer e multiplicar aleatoriamente mais montanhas, juntas, sobrepostas, cada vez maiores. A arte não nos pede o excesso incomportável nem o deserto de todo e qualquer sentido. A grande dependência das construções em vias de implosão pode ultrapassar a crise da Natureza, em parte gerada pelo homem, mas redes sistémicas de uma civilização baseada no dinheiro e no crescimento sem retorno, também podem pulverizar-se com a renúncia de Sísifo. Nem todos pensam em falência na repetição sisifiana: mas a verdade é que ele não tem o poder dos deuses e um dia o mundo acabará encurralado como os conformados habitantes da Ilha da Páscoa, outrora.
Não foi por acaso, a seu tempo, que Albert Camus começou o livro «O Mito de Sísifo» com esta frase: «Só há um único problema filosófico: é o suicídio».
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Extracto do livro de Rocha de Sousa «Obra de Ninguém»


a renúncia de Sísifo

Sísifo: condenação ou condição

quinta-feira, agosto 06, 2009

CEMITÉRIO E MORGUE DOS NAVIOS MORTOS


fotos de Rocha de Sousa

Seixal, tempo anterior. Lugar de abandonos e novas presenças, grandes restos de máquinas em ferro, silhuetas enganadoras de carros de combate, feridos por fora e rasgados por dentro, vazios num torpor de sonoridades chegadas da estrada marginal. Há um bater de ferros e latas por ali, para lá do pântano, coisas soltas em parte mergulhadas nas matérias esverdeadas e lodosas. De longe, na estrada em curva, os carros passam e há pessoas ensaiando a vida nos seus passos de domingo. Mas aqui, mais passos em frente ou em volta, ainda se descortinam pedaços de casas desconstruídas, cadeiras velhas, lavatórios, ferrugem até nas pedras. E os carros de combate? E aquele buraco em ferro onde os rumores do trânsito pareciam convocar arrastadas memórias da guerra? Ali não, afinal, nem mais além, onde as empenas de metal corroído não passam de restos de grandes navios, serrados de cima a baixo várias vezes, desmontados, despintados, examinados assim na morgue que lhes preparam um lugar transitório no cemitério dos mares. E é verdade, caso a caso, montes de ferros, hastes dobradas, janelas de comando, metal amolgado e ainda com parafusos presos, ao lado de buracos redondos, pequenos, de outros parafusos que os batimentos manuais suprimiram. Nem tanques nem barcos, nem mesmo navios. São monstros marinhos depositados como monumentos escultóricos, de vontade e de acaco, formando memórias da arquitectura das navegações, agora peças meio soltas, por vezes mito altas e gemendo ao vento, máquinas navegantes e mutiladas, entretanto meio imersas na superfície lododosa, entre cheiros a maresia e gritos de gaivotas girando por todo aquele espaço a picar algum bicho de consistência apropriada para voar até ao ninho e filhos dela.
Vieram os homens, os que trabalham na apanha de bivalves entre fedores inconsequentes e os que pertencem à desmontagem dos ferros, como quem derruba árvores para exportar madeira. Máquinas vivas avançam por meio de lagartas de aço, elevam guindastes com garras suspensas da ponta. E há vozes de comando. Vozes longe e perto. Martelos batendo carcaças já rasgadas e semi-desfeitas, corcovas de ferro oxidado, e a grua roda, deixa pender um grande disco com garras abertas, roda, roda, pára, espera, e de súbito deixa cair as mandíbulos sobre um monte de sucata de belo efeito. O ruído dos dentes a fechar-se e dos ferros semelhantas a latas de brincar, mais e mais, vai firmar-se num uivo de sucção, o disco subindo e levando consigo várias toneladas e metais meio configurados que já desempenharam funções leves e pesadas numa grande unidade de carga ou eventual petroleiro. Espalhados pelo cemitário, já ninguém lhes recohece nome, matrícula, origem, décadas de história. As serras operam entretanto de alto a baixo, cortando fatias e fatias de muros espessos, agora rangentes e porventura, de longe, semelhantes a latas que qualquer tesoura rasgaria quase em silêncio. Senhores, vejam isto uma vez na vida, vale bem qualquer doca de Nova Iorque. É um cemitério lindo, uma instalação interestelar, os restos de grandes naves que tombaram sobre a terra, talvez anunciando vida semelhante à nossa em pontos invisíveis a cerca de dois milhões de anos luz.

terça-feira, julho 28, 2009

ENTRE GUERREIROS E POMBAS, APENAS SONHOS

desenho digital do autor do blog

Coitado de mim, aqui à porta, sem jeito para nada, coisas esquecidas de alguns moinhos de papel numa Primavera agreste. Já se acabaram as ovelhas, os amigos do fundo do vale, afinal a aldeia é só de mim e da minha velha mãe. Aqui estamos, vamos a ver, há duas galinhas, um piriquito por companhia, e por vezes o vizinho de cima vem pedir para cuidar ou guardar algum animal até à noitinha, em certos casos mais tempo, é gente pouca de Vinhais de Cima. Vale tudo uns tostões mas por vezes pagam-nos em alimentos, enchidos, pão, bocados de carne assada, uma garrafa de água. Eu faço uma parte da lida da casa e a mãe lamenta-se de eu estar aqui por causa dela, sem emprego nem estudos. «Já tens quase dezoito anos, moço. Tens de sair daqui». Fiquei a pensar que não sabia sair dali, nem do cerro, nem do vale, se já não guardava ovelhas, guardava galinhas. O senhor Artur tem um galo e já o deixou aqui umas poucas de vezes. Mas ainda não vi os ovos. Se a coisa pegar vou ter trabalho com os pintainhos. O filho do senhor Artur, que está muito longe, em Aveiro, vai ser doutor mas já disse ao pai que virá ao lugar ajudar na pecuária. Talvez nessa altura eu já tenha uma catrefa de pintos, dos pintos guardam-se os machos e de galinha em galinha as coisas podem dar bem. Eu sou daqui, coitado de mim, rezo aos montes, foi a mãe que me ensinou, pedindo dias melhores. Digo aos montes que é preciso haver muitos pintos. Agora nem dormir posso, estão sempre a passar no escuro guerreiros a pé, com cajados e barretes e máscaras, vem um morcego branco por cima deles, estremece a terra com tantos passos, todos os dias assim. Mas estas doidices só podem ter sido contadas quando eu era menino, porque os sonhos que gostava de sonhar são aqueles com as ovelhas a parirem, um ou outro cão esganado, as árvores inclinadas pelo vento, sempre aquele uivar pelas serras e o choro das folhas embrulhadas no raio do tempo.
Mas isso eu sei ver e até gosto. A velhota diz que não há morcegos brancos, só pombas dos castelos. E também já não é tempo de guerreiros, as terras estão conquistadas e afeitas, nem a família do Artur atravessa uma serra para espavorir o sono entaremelado de moços como eu. Mas posso estar a fazer o mundo outra fez, em sonhos. Não me dizem que o mar é assim como uma parede azulada, ao longe, sem fim? Daí pode aparecer um sonho, barcos desses que andavam pelo rio, carregando coisas. Agora, escangalhado, não há cabras, nem ovelhas, só duas galinhas e um galo emprestado. Mas como é que posso mudar o sonho só com a lembrança destas poucas coisas? O sonho somos nós. Tudo o que vejo nos sonhos é mais meu do que as histórias de lobos, medos, passos nas casas, essas coisas todas que o senhor Artur conta, escarninho e sempre a beber, babado.

terça-feira, julho 21, 2009

MENINA CIGANA E O VÉRTICE DO SEU OLHAR

foto do autor do bloga

Olha para mim, pequena, os meus olhos estão atrás desta máquina. Olha bem para este vidro, o teu rosto está dentro dele, a olhar também para ti. Assim, ficas esperta e com o medo do teu estrabismo. Vieste à praça? Vieste com a tua família? Vives além no cerro, aquele do moinho em ruínas? Agora podes conversar comigo, já consegui meter aqui dentro o teu retrato. Queres ver? Espreita para esta janelinha. Aquela menina és tu. Claro que sim. Não, fica tranquila, eu só copiei a imagem da tua cabeça. Pronto, eu sei, nunca vista a cabeça dentro da máquina. É verdade. Esta engenhoca é diferente, mas não rouba o rosto ou o corpo de ninguém. Passo a mão pelos teus cabelos encrespados, não sentes? Não desapareceste do teu lugar, estás inteira, aceitas o meu abraço, queres olhar outra vez para o vidro. Aí estás tu de novo. Abana a cabeça, isso, de um lado para o outro, e lá no vidro é como num espelho. Quando sais do espelho a tua cara não permanece dentro dele. Além de não ser máquina, não tem mais nada para registar. Agora, este vidro redondo, que se chama lente e pode reflectir imagens, está a funcionar mais ou menos como espelho, perto de ti, e tu não voltas para dentro da máquina porque eu não toquei nestes botões. Espreita a janela, cá atrás. Não está nenhuma menina como a outra de há pouco. É tudo a fingir.
Ela riu-se, desviando o corpo, limpando as mãos suadas ao tecido da saia. Olhava-me de lado, começava a afastar-se. Tinha pena, queria saber mais, mas o pai, cigano do cerro, estava na tenda, além, meio deitado numa cadeira de lona. Ele quer sempre os filhos por perto e de resto há pouca gente na feira, mais na praça, os gritos de oferta e chamamento perdem-se no ar, voam com os pombos para as frestras abaixo das telhas de vidro. Fogem, os gritos, logo acompanhados por outros, entre as hortaliças e a bancada do peixe. A menina cigana ainda me olhou de longe, o dedo na boca. Talvez tivesse percebido que eu não sou um caçador de cabeças. Registo, com doçura, imagens sempre bonitas de rostos sempre vivos, olhos nos olhos.

segunda-feira, julho 13, 2009

A PASSAGEM DAS HORAS SOB A TEMPESTADE

grafismo digital de rocha de sousa

Estás só e curvas a cabeça, como sempre, a esta tempestade tropical que se aproxima. Cada vez é mais assídua mas ainda é vulgar, quase branda. Virá um dia a sacudir a mítica temperança do clima peninsular, varrendo estas terras que já perderam a relação regular das estações do ano. Isso sim, será inquietante. Tem cuidado, não mintas a ti mesmo: desde menino, desde o ciclone, que ficaste refém desse trauma devido à Natureza em violência. Não, não estou a exagerar, e tu sabes perfeitamente que só levantaste os olhos às verdadeiras tempestades tropicais quando estiveste em Angola, ao acaso de todos os casos. Esperavas por elas, com outros companheiros, no limite do morro, um abismo de floresta à tua frente, a cortina de água apagando horizontes, uns após os outros, branco cinza compacto cujo interior se iluminava sem desenho e muitos segundos depois chegava a ti o ruído de enormes pedras rolando sobre estradas de zinco. Podias fazer as contas, trabalhando com a velocidade da luz e a velocidade do som: a verdade dessa operação matemática estava aberta diante de ti e dos outros. Deus brincava com os sinais da sua Omnipresença e já sabia a data em que sairias dali, daquele soturno universo de florestas e covas sem fim. Então começavas, num olhar de minúcia, a observar o avanço (metro a metro) da torrente de chuva: ao longe, o verde-verde sombrio das copas das árvores, coladas entre si, desaparecia sob essa água tumultuante, entre salpicos em bruma, num lamento rouco, que mal se ouvia. Tudo começara a acontecer cerca de uma hora atrás. De súbito, sem aviso, um risco torto, divino, acendeu-se num traçado tortuoso, brutal, imenso, tal e qual como Deus escreve nas linhas direitas, acompanhado (numa fracção de segundos) pelo rasgamento simultâmeo de mil árvores colossais, imagem sonora dos troncos tombando, rolando, bramando em cavernas de montanha, ronco cavo, pedaços de som esfarelando-se num lugar qualquer, inacessível. As vossas pernas nuas recuavam um pouco, avançavam depois, e toda a gente começava a ver uma parede como a do Niagara rompendo caminho, engolindo metros e metros de fdolhagem, agora produzindo um ruído tão intenso como o som intermédio das descargas eléctricas, mas sem quebras de altura, primeiro ainda tolerável, quase brando, e pouco depois, a cem metros do vosso abismo, imperioso, contínuo, abafando as próprias vozes que te ladeavam. A dez metros ainda podias ver a tromba de água, ciclorama apocalíptico. Ninguém se ouvia mais, os primeiros pingos de água alagavam tudo, e tu correste como um coelho acossado, entrando em queda na casa de zinco, enorme, em que habitavas com os sargentos e oficiais. Toda a gente se encolheu nas camas, tapando os ouvidos num desespero, porque aquela carga a desabar sem intervalo sobre o zinco parecia mesmo a cólera do Deus impossível do Primeiro Testamento. Nunca viras nem ouviras uma coisa tamanha. Nada de nada parecida com o sopro ciclónico da jua meninice, aquele que levantou telhados e arrastou árvores inteitras pelo espaço adiante. Pouca coisa, mas o medo é próprio dos homens. A tempestade tropical, assim, vista de longe e bem de perto, é outra coisa, em particular sob o zinco amplificador, o mundo em poedaços. Afastava-se depois, neia hora depois, majestática e cada vez mais «mansa», apesar da artilharia que arrastava consigo e tornava todos os bichos invisíveis, mesmo que não tivessem ouvidos. Lembras-te quando tiraste os dedos dos ouvidos? Chovia longe, ouvia-se o pingar das goteiras, pequenas goteiras das folhas de zinco, uma impressão estranha de fogo na distância devida a uma luz já alaranjada que entrava pelas frinchas, aliás juntando-se a outra, talvez insinuada pelo som dos pingos de água ouvidos a desfazer-se na terra molhada. A medo, mas fascinado, foste até à porta. Havia gritos de grandes aves que se preparavam para levantar voo. E a chuva longe. E os relâmpagos vermelhos, amarelos, brancos, empurrando o som em largos círculos que já precisavam de cinco segundos para chegar ao vosso território. Em volta das casas e casinhas, zinco, madeira e lona, troncos e ramos de árvores, viaturas militares em verde azeitona, brilhando como nunca, espalhavam-se impensáveis brilhos de lagos abertos na terra, coroas de lama pegando-se umas às outras, o céu já vermelho e roxo, projectado nos espelhos horizontais, nos reflexos mamutianos da lama. E uma simples bota que lá entrasse, porque nada parecia tão grande como realmente era, afundava-se naquela carne mole. Era terrível retirá-la de lá e sobretudo transportá-la no pé com cinco quilos de barro, pelo menos, agarrado a ela. A paz era então anunciada pelos últimos arcos-íris que enfeitavam o resto violeta suave do vosso céu, para leste, cruzando-se entre si ou arrancando de pontos que podias tocar, erguendo logo os olhos a fim de perceberes qual era a extensão desse arco multicolor, uma curva da mais sublime geometria, desfazendo-se, ao contrário de outras, além ao funco, entre nuvens baixas que pareciam pássaros silenciosos deslizando no fio horizontal da brisa. Queres dizer alguma coisa? Claro que sim. Sabias perfeitamente que eu tenho esse espectáculo, inteiro, na memória. Não, não sabia inteiramente. Calculava. Mas tu estavas dobrado, riscando por nada. Por nada, dizes bem: não era medo de tempestade nenhuma, era apenas medo de não conseguir apagar (ou esconder) a fotografia terrível que imprimira neste papel. Sobrou em cima, à direita, o rosto de uma rapariga pacífica, mas não sei o que fazer com ela. Deve ser o anjo que tu nunca soubeste ser para mim. Desculpa.