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segunda-feira, fevereiro 25, 2013

NEM ANTIGO NEM VELHO, IMITAÇÕES À ESPERA

  

fotografia de Rocha de Sousa

Loja de antiguidades. Venda de Velharias. A fotografia é deliberadamente traiçoeira, um desafio ao nosso olhar e às memórias da percepção. Em boa verdade, este cenário não é habitado por objectos de uma antiguidade cara nem de velharias para devaneio de vários fingimentos épocais. É antes um cenário relativamente acanhado, armazém de um grande bazar onde se vende de tudo um pouco, objectos decorativos ou funcionais, de cozinha ou de sala, móveis com algumas décadas, pratos e centros de mesa, cadeiras, candeeiros eléctricos, materiais caseiros, instrumentos de cozinha, serviços de chá a fingir Limoges, faqueiros de há vinte anos, não mais, ferramentas ou caixas de pose ornamental. 
Este embuste, aliás ainda virgem de vendas e numa casa honrada, está aqui, na reserva, para uma esperada venda. Tudo o que vemos ali (sem rigor porque o olhar nunca o foi) é constituído por objectos das mais variadas espécies, já com anos ou décadas, mas que nunca tiveram saída para o palco da loja principal, num bairro lisboeta, e ali continuam jamais usadas, jamais verdadeiramente vivas, à espera de que o seu desuso, de que o seu estado démodé, lhes permita aspirar a compra e a entrada numa habitação de família, "gente remediada" ou de "novos-ricos" a desejarem engalanar o seu habitat com coisas novas mas de traçado antigo, como foi moda vulcânica nos anos 60.
A bem dizer, aproximamo-nos do tempo em que nem sequer haverá casas com mobílias completas e ornamentos "assim-assim". Já duas famílias partilham um único apartamento. E agora até há uma campanha para que os estrangeiros ricos (angolanos, porventura) venham comprar as casas que sobraram da vertigem europeísta, já mobiladas, com piscina, 400.000 euros e limpas de complicações.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

CORTE O PÃO MAS NÃO MORRA. FMI OU MORTE?


O rei foi ferido no início da batalha por Portugal. Foi ferido, o sangue escorreu entre os encaixes da couraça mas o verde da sua marca de esperança  trancou a hemorragia. Quando, séculos e séculos depois, o rei já havia sido substituído por um amanuense duro e rigoroso, seminarista incompleto, muito tempo depois da gesta das navegações e dos Descobrimentos, que fora ponderada com razão e demora, com apoios múltiplos, acabada, enfim, no intervalo das indecisões, até um dia (no futuro) ter começado perto do risco o famoso Império que parecia ter acontecido eterno após todas essas aventuras. Um dia, no limite de uma longa espera, pela última metade do século XX e durante uma pesada guerra além-mar, o amanuense, morto, chegou a ser substituído por um professor universitário, mas os capitães travaram Lisboa, o Carmo, e o próprio presidente do Conselho. No Carmo, entre povo e balas contra as paredes, gritos de vitória no barulho do sonho. O presidente do Conselho foi então levado no interior de uma Chaimite, e os capitães (de Abril) meteram cravos por todos os lados, até no cano das espingardas, ali ao Chiado. Tal imagem andou por todo o mundo e Sartre veio visitar o país. Parecia uma glória europeia.
Mas não era. Formou-se a União Europeia e os nossos moderníssimos políticos, cheirando a vanguarda e um planeta central, lavaram as mãos da mais rápida descolonização de sempre, o que provocou dores imensas, roubos inauditos, sobretudo entre os «retornados», velhos e novos. Foi tudo depressa outra vez. Os homens do poder trataram de aderir à União, papando o euro e tudo, moeda de fascínio que caíu na nossa terra, sob condições draconianas: era preciso largar metade das pescas, reduzir a agricultura em mais de 60%, afundar a marinha mercante, formar quadros. O país nadava em euros e compras faustosas, dos iates às autoestradas, e a dívida foi aumentando. Nas terras do sul, os coitados produtores de laranjas tinham de calibrar tudo como mandava a Europa, perderam-se de todo, e a Espanha invadiu de novo Portugal com as sua laranjinhas medidas ao milímetro, entre outras coisas, enquanto os nossos patos-bravos desataram a encher tudo de casas, em conluio com os bancos e massas de crédito que levaram as populações, ensandecidas, de olhos arregalados, a comprar casa própria por centenas de milhares de euros. Estava o caldo entornado. E logo se entornou nos Estados Unidos da América, infectando o mundo: depois da queda do muro de Berlim, o capitalismo mostrava o seu lado aterrador, venal e contaminante. Os credores, que viviam soberanamente do pagamento dos juros (isso bastava), acharam que tal festa acabara: os mercados crisparam-se, pararam os créditos e exigiram, em pouco tempo, o pagamento de todas as dívidas -- biliões e biliões de euros. Ainda Portugal, já engasgado de auto-estradas, andava a negociar o início das obras do TGV para Madrid, calcule-se.
De súbito, os ricos da Europa e os senhores aristocratas do Norte, disseram o que tinham a dizer: a bancarrota é o fim, façam favor de chamar O FMI e pedirem planos de resgate. Toda a gente sabe o que aconteceu de seguida, o Sócrates andava a querer um PEC 4, o PSD babava-se pelo poder. A TROIKA foi chamada: passámos todos a viver de cortes nas despesas e nos salários, o governo da coligação PSD-CDS cumpria o duro memorando da TROIKA com sagacidade e cegueira, cada meta era atingida através de contracções brutais, o consumo baixou, as Empresas faliram aos milhares e milhares. Tapando buracos financeiros no meio da marcha forçada e falhando os objectivos de cada patamar, o Governo discursava sem capacidade mobilizadora nem boa comunicação.
E agora, que se atingira a segunda fase nas reformas e pensões, fase  de um sacrifício imenso, todos a pagarem as fraudes e os deslumbramentos dos maiores, um novo programa para 2013 começou a fumegar: o monstro comia um pouco por toda a parte: nos salários, no IRS, através do IVA, e apesar de tudo a derrocada era precária para tão longas dívidas e tão estranha gestão europeia, sobretudo centrada na Alemanha, por uma senhora vinda da RDA, cujo treino da norma e da austeridade parecia imbatível.
Começou 2013. E, sem que ninguém percebesse como, foi derramado sobre o país, julga-se que a pedido do próprio governo, um Relatório Proposta do FMI. Há quem diga que está muito bem feito e oferece pistas apropriadas. Há quem diga que se trata de um simples golpe final de uma conspiração do tamanho do Sol. Muitos portugueses emigraram no ano passado, embora haja sempre quem arranje uma horta na varanda e se ponha a comer relva, vendo futebol. Eu não emigro, aliás sou muito velho e tenho artroses. Já me cansei de pensar: o que eles querem, afinal, é simples, trata-se de aliviar o Estado de 60 a 100 mil funcionários, incluindo 50.000 professores, mantendo cortes substanciais nas reformas e nos rendimentos, além do aumento das taxas na Saúde, uma taxa de solidariedade (não sei para quem) e a queda do subsídio de desemprego, considerando ainda que a polícia é excessiva e custa mais do que as europeias, devendo o Hospital Militar integrar-se no SNS. De resto, o cuidado com a Educação parece um pouco pecaminoso, devendo por isso poupar-se 710 milhões de euros nesse sector. Isto é o que me lembro. Vou deixar-me abater, poucos anos me separam do fim. Mas gostaria de ajudar os meus compatriotas a troikar o troikado pensamento dos troikistas. Louçã, amigo meio reformado, achei o teu artigo tão manso, tão pouco imaginativo. Será que vais emigrar? Nós, outrora navegadores, já nem dominamos meio mar e abandonámos 6% de pessoas na agricultura. Talvez eu saiba como se pode recomeçar, mas fiquei de súbito muito cansado. Já ouvi três intervenções na TV, vozes de sábios, todos tratavam em oposições e bondades mútuas o fenómeno kafkiano que o FMI nos ofereceu. Ó Louçã, sabes que há um gajo que já visitou o Banco Central Europeu com um carro armadilhado, obrigando o presidente, num prazo curto, a emitir secretamente 50 triliões de euros, tendo fornecido uma lista de instâncias onde o dinheiro devia ser, no escuro, entregue e negociado para certas operações? Um espião da Alemanha soube do caso e disse no Banco que parassem tudo, pois a inflação não era coisa para germânicos. Tem graça, foi morto por um Palestiniano disfarçado que, por sua vez, sequestrou um político israelita. Suprema Ausência!

sábado, janeiro 05, 2013

ABOMINAVELMENTE OLHANDO O VISÍVEL E PINTANDO O INVISÍVEL

pintura digital de Rocha de Sousa

Abominavelmente parece um pouco excessivo, embora corresponda a um estado de olhar, de ver e de representar que começa e culmina ao longo de um caminho exaltante e muito perturbador. Ainda que haja quem se sinta em estado de júbilo ao pintar, vendo ou mesmo no limite da cegueira. É que não vemos nada do que olhamos e não vemos nada do que decisivamente constitui a realidade. Paul Klee apontou-se o véu de um exemplo. A Arte não reproduz o real, torna-o visível. Parece assim que, em boa verdade, olhar pertence  às funcionalidades do viver,  incluindo ver e pintar, mas que a maior consistência das coisas se situa para além das aparências. E que a criatividade é um processo de descoberta para além do sentir corrente, abre-se à memória, ao imaginário, às linguagens do ser, passando mesmo (talvez sobretudo) pelo domínio mais encoberto dos sonhos, misturas em certos casos dantescas da vulgar paisagem e de colossais ou inquietantes visões que o real nunca nos fornece em termos de quotidiano. Por vezes, a Natureza rebela-se: são os dilúvios e as catástrofes mais extensas que arrasam populações inteiras. Nada que o Homem, em grupos armados, não seja capaz de produzir.
A luta que o artista trava perante o real e perante ele mesmo, isso é um abominável e fascinante destino civilizacional que antecipa vidas estranhas, inimagináveis, revoluções orgânicas e, com alguma frequência, a anunciação da morte. Chirico pintou uma praça relida em Freud, onde as sombras são ameaçadoras mas contra as quais, inocente e feliz, uma menina empurra sobre as pedras, em equilíbrio, um arco de ferro. Ela vive e a pintura mistura os dois pólos da existência. Mas o medo está em qualquer parte, pressente-se nos próprios instantes do contentamento. Por outro lado, ao olharmos os auto-retratos sucessivos de Rembrandt, nos quais há um início faustoso, o último de todos eles tem a grandeza de um fim, testemunho da superioridade do Homem na irrecusável anunciação  do inexplicável apagamento.
Na pintura: imagem da vida.
Igualmente: imagem da morte

sexta-feira, janeiro 04, 2013

DEPOIS DO DESAPARECIMENTO DA HUMANIDADE



Num dos séculos do segundo milénio, durante dois anos, todo o equipamento de energia nuclear no mundo começou a explodir, arrasando com grandes partes do planeta e a substância estrutural das sociedades humanas. Fugas em massa, desesperadas, não evitaram o horror da contaminação radioactiva. Em cerca de dez anos não havia rasto da humanidade, senão as suas cidades e tóxicas formas de exploração do  meios de energia mais perigosos. A fauna, em zonas remotas menos poluídas, resistiu ao nível de diversas espécies, como parte da flora, a qual, cem anos depois, já começara uma importante recuperação, absorvendo os meios em ruínas da civilização humana.
Em baixo, algumas antecipações, sem arranjo cronológico, de um filme que escalpelizou a evolução do fenómeno até ao deserto, por exemplo, que pulverizou e cobriu toda a cidade maníaco-festiva de Las Vegas.

 explosões quase em cadeia das centrais atómicas









Berlim e Londres, 200 anos depois, a parasitagem floral de Paris e um aspecto de Londres.
                                                                                       



Cerca de 300 anos mais tarde, este é um dos aspectos da cidade de Nova Iorque, com derrocada do Empire State Building, numa geral maceração do antiga metrópole.                   
 

Apesar desta paisagem apocalíptica que será reduzida a uma floresta monstruosa e desertos, o fundo dos mares encheu-se de mais destroços dos que já lá existiam. Os peixes que resistiram foram multiplicando-se por espécies e no tamanho. À superfície, dos insectos aos mamíferos de pequeno, médio e grande porte, tudo se reequilibrou sem os distúrbios dizimantes da tecnologia humana.
 


Tendo resistido mais do que se supunha, a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, acabou por se desmoronar, acabando o suporte apenas erguendo hastes e meio submerso na flora em redor.
 

 A Liberdade degolada


Um aspecto de Londres a meio do período de
degradação que iria chegar aos 900 anos. 
 

 


                              
                           As barragens não duraram para sempre. A Natureza                                           recuperou  a sua dimensão  e as barragens romperam.                                      
      
 

 Os desertos acabaram por delimitar grandes zonas   dantes frondosas e usadas para produções diversas.

Nova Iorque
300 anos depois


sábado, dezembro 15, 2012

CIRURGIAS DOS DESENHOS IMPONDERÁVEIS

Pode saber-se, debaixo para cima, após a cena do «rei morto», que as novas aparências gráficas, soma de registos electrónicos, em cima, não traduzem, na qualidade corrente da percepção, o claro efeito dos apartamentos orgânicos, miniaturais, a partir dos quais os cientistas puderam formar juízos porventura aproximados das lesões orgânicas verificadas no corpo de Sua Majestade, finalmente não raros nem coroados nem benzidos por nenhuma sagração. A parte de um olho, aberta sobre o quadro esquerdo, teria ainda registado imagens nos últimos segundos de vida. Provisoriamente, na altura da morte, com a animação curta do coração, segundo o estado conservado do aparelho auditivo em conexão com o cérebro, o rei terá ouvido dois batimentos cardíacos e o apito da morte, como terá, em hipótese mais rara, percepcionado o braço do médico premindo o seu peito, a cabeça logo tombada, um fio azul, horizontal, no espaço negro — e só negro depois, e só nada.
A vida pode ser ilustrada por processos semelhantes; a vida enquanto vida plena, vários ecrãs mostrando o ritmo cardíaco, em vários traçados, o espectro óptico, a rede vascular palpitando numa plenitude de circulação sanguínea, os patamares superiores e inferiores da acção multipolar, e assim por diante com a colheita de sangue e a avaliação da sua estrutura e dos ecos renais, do fígado, do pâncreas, dos níveis químicos, se estáveis, para que tudo decorra tal como parece ter-se desenvolvido a partir de quaisquer materiais básicos, incluindo a própria água, num bizarro de problemas que suscitaram outros e outros, complexificando tudo, um montão de formas e aparentes próteses, tudo em ordem à ordem multirrelacional do cérebro.
O Homem, apesar de tudo, nunca cresceu para além da sua formatação mecânica e psicológica, especulativa. Chegou à concepção de valores identitários e de somas de espécie ou de grupo. Mas, desde muito cedo, as etnias estilhaçaram aquelas maravilhas que viam e acertavam num ganso a cem metros. Mesmo quando chegaram ao séculos XX e ergueram cidades inúteis, em tamanho e custos a longo prazo, já as guerras tecnológicas haviam começado um pouco por toda a parte, afundando-se em dinheiro, e assimetrias civilizacionais absurdas. O futuro não parece melhor e os chineses são mais que muitos. Talvez aconteça, antes do fim do universo e antes da morte do sistema solar, uma catástrofe planetária, gerada pelos tumores que fazem desabar, no interior dos corpos e na Natureza, os ilusórios equilíbrios sistémicos. Se sobreviverem os membros de uma família equilibrada haverá tempo para sustentar, ao fim de um século, uma nova colónia humana no velho planeta terra, a caminhar para desertificações semelhantes às de Marte. Após a catástrofe na Terra, autopsiados os génios, aparelhos automáticos continuavam a enviar sinais apavorantes da  realidade que desaparecera em Marte. Mas os humanos restantes já não dominavam essa tecnologia e os dados monitorizados no cosmos eram tão absurdos como outrora as pirâmides do Egipto.

segunda-feira, outubro 29, 2012

ANOS 60, PORTUGAL, MILHARES DE EMIGRANTES

O EMIGRANTE
Pintura de Rocha de Sousa

Sou um mau curador da minha obra, como se pode deduzir por este blog, no qual eu desejei publicar quase tudo o que fiz em termos de artes plásticas. A verdade é que nunca entendi a arte (a pintura, neste caso) como um campo isolável da vida, das pausas, das derivas, de outras linguagens. Por isso tornei a pesquisa plástica em ponte para outros campos, na fotografia e no cinema, na crítica de arte e na literatura, campo a que me tenho dedicado nos últimos tempos por razões multidisciplinares e de mobilidade condicionada. 
Desta forma, o blog construpintar02 absorveu muitas obras do meu percurso, mas ao ritmo das inevitáveis idiossincrasias, oportunidades, insertos de reflexão e artigos a propósito, aberturas ao processo do olhar e do ver, a problemática da percepção. Por isso o tempo e os factos abordados não respeitam cronologias, antes e sim pluralidades.
Desta vez, com uma viagem no tempo, proponho a publicação de um quadro meu de há décadas, comprado na galeria Judite Da Cruz por um coleccionador americano que vivia em Inglaterra, anos 70, portanto. Este quadro, de técnica mista, fazia parte de uma série sobre personagens do mundo quotidiano, desde os emigrantes que partiam, sobretudo para França, até aos banqueiros, entre muitos outros. Daqui, aliás, é que surgiu a ideia, mais tarde, de realizar a série Personagens Ilustradas, anos 80. Durante muito tempo, procurei o sentido da mensagem, a qualidade dos fenómenos  da realidade humana, a sua condição, os seus Desastres Principais. Tendo um eixo, em todas as hipóteses formais, que ligava o percurso ao longo dos anos, as variações para os restos da catástrofe das guerras e o seu significado político-social, marcas de compromisso com os olhos cheios de imagens e propondo-se como denegação do minimalismo e da cegueira.
O quadro aqui presente (cujo documento eu perdera) foi-me enviado pelo comprador, tanto tempo depois, agora de Nova Iorque. Ele queria falar comigo, o que falhara em Lisboa, e queria, no arranjo da sua colecção e empréstimos a museus,  dispor dos dados curriculares do autor, natureza daquela fase e sentido do próprio quadro. A figura renasce de uma capa que fiz para um livro de Nuno Rocha, França, a emigração dolorosa. Por baixo do rosto e de restos de letras de imprensa, há um mix cinematográfico de mãos escondendo as cartas chegadas de longe ou apontando para a bruma das pontes vencidas até à Estação de Vitória. Na parte inferior da composição, a paisagem rasa e abandonada, sob um céu baço, do Alentejo mítico que também emigrava, embora naquele tempo as saídas (30.000 por mês) eram sobretudo do Norte de Portugal, Trás-os-Montes, Beira Alta, Minho.
Os quadros que são capazes de falar tanto tempo depois nunca morrem. Eles não são uma questão de estilo. São sobretudo expressão, voz, permanência de certas autenticidades.

sábado, setembro 08, 2012

FILOSOFAR TALVEZ COISA NENHUMA, À TARDE


 






















O pastor e o seu amigo de infância, deixando o rebanho a roer o pasto,
 decidem caminhar um pouco pela terra da vereda indecisa; mas em breve,
 ao encontrarem três grandes pedras arrumadas ao tronco de uma oliveira, 
 de comum acordo, e sem palavras, sentam-se os dois  nesse sítio, aliviando
--se de alguns adereços da  marcha e contra o sol. O pastor, que conhece bem
o amigo e gosta de o ouvir  falar, a propósito dos estudos, da impropriedade
das escolas, da solidão dos mestres entre tantos moços bravios, olha o perfil
do companheiro e corta o silêncio daquele repouso sem nexo, dizendo num 
bafo de som:

Tu és um verdadeiro filósofo.
Não digas isso.
E porquê?
Porque não consta do meu registo civil.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Claro que tem. Tem tudo a ver.
A qualificação de filósofo é a ideia que eu faço de ti.
Então não faças.
Mas porquê?
Primeiro porque eu não quero. Depois porque sou filho de um corticeiro. 
Os meus estudos não sustentam nem um fio desse estatuto.

Pausa.

Paira no ar um cheiro a laranjas. O outro insiste.Estudaste os teus livros 
e os livros dos outros. O teu avô paterno era professor.
Deixa lá o meu avô. Dos livros não sei nada. Mas gosto de alguns versos 
do Caeiro, as pedras roladas que ele conhece entre a terra, à beira do 
pasto.
O outro julga ter ali o seu primeiro argumento, nem sequer pesado:
Vês? Falas desse gosto como se filosofasses.
Que raio de coisa, amigo. Filosofar não é ser filósofo — e muito menos
verdadeiro.
O outro cala-se, fica pensativo — a filosofar. 

Assim estamos bem, aqui sentados. O fresco do entardecer. Este rumor 
das  folhas em redor, abanadas por uma brisa que só elas sentem.
Ao lado, o pastor esboça um sorriso
As cabras, uma a uma, duas a duas, começam  a descer do sítio onde
comeram longamente, esmagando ainda, em saliva, outra saliva ou 
baba, que escorre pastosa, indecisamente verde.





sábado, agosto 25, 2012

ROCHA DE SOUSA PINTAVA ASSIM NOS ANOS 60




Estas pinturas são obras de Rocha de Sousa numa faixa de tempo situada nos anos 60. Houve polémica na altura em que Paula Rego se apresentou na Galeria de Arte Moderna da SNBA. As afinidades estéticas pareciam relacionar os dois autores. Questão da história, Rocha de Sousa não tinha ainda a projecção que veio a ter, sendo hoje bem coerente com a morfologia desenvolvida naquela época, tal como se viu na FBAUL, numa exposição importante de antigos professores daquela instituição.

Sousa Carneiro
 

terça-feira, julho 24, 2012

CIDADE MORRENDO DE SILÊNCIO E AUTOMÓVEIS


Cheguei tarde, pela tarde, à cidade ainda iluminada pela luz dourada do sol que acendia as paredes e os vidros das janelas. Era, por vezes, um fogo escondido no horizonte, claridade a lamber o empedrado das ruas que apontavam ao poente, silenciosamente.
O Verão caíra sobre os telhados de cerâmica em cana, abas reconstruídas depois dos anos setenta, salpicadas, para dentro de outras casas térreas, de telhas carcomidas e velhas, acinzentadas, breves, por vezes juntando remendos de alumínio moldável ou restos de cal escorrida.


Abri a porta, entrei na sombra, atirei as bolsas para cima da cama e abri devagar uma fresta das portadas interiores da janela, linha de luz ao alto, e confiando no meu ainda escondimento naquele entardecer de fantasia, oco e silencioso, vazio de gente, só portas e persianas fechadas um pouco por toda a parte, os carros estacionados como bichos abandonados e dormindo.
Cheirava a pano, parecia de algodão, a mobília continuava escura, estranha, monacal ou como cenário absurdo da morte de alguém àquela mesma hora, ali mesmo. O soalho rangia, estalava breve e sem alarme, passando pelos espelhos sombras de mim no imprevisto dos ângulos e da lenta virtude dos passos.
Fui passar água pela cara e senti a barba já incómoda, o tempo na pele desalinhada pelos dias. Dias secos. Dias quentes, abafados pela noite dentro, um Agosto parado, vazio de chamamentos. A porta que ligava o corredor ao quintal apresentava um quadrado de luz ou de parede no seu terço superior. Mas dispensei esse percurso da curiosidade, sobravam horas, uma semana, talvez, o corredor serviria para outras viagens de amanhecer. Decidi dar uns passos pela rua fingidamente medieval, colhendo a hipótese de tomar um café no bar ali perto, que tantas vezes me torturava de música metálica pelas festas de Julho. Fechada a porta carregada de publicidade e um letreiro oferecendo o estabelecimento para venda, sale.



Tudo isto me surpreendia cada vez mais, a imobilidade das coisas, as janelas e as portas como que definitivamente encerradas sobre a incerta memória dos mortos, ou gente ausente, ou meninos por nascer. Velhos dedicados, nenhuns. Gente porventura deslocada, pessoas que haviam partido de férias ou desempregados cujo destino se apresentara de novo na emigração, sem retoma das origens, homens laterais e sem nome. Como a cidade ainda se apresentava lavada e pintada dos anos de glória revolucionária, após se terem deitado fora as colónias e os haveres que nem lhes pertenciam, tudo amarelecia com esta luz cada vez mais baça, perdido o fulgor do ouro e da cintilação arabizante. Ninguém espreitava dos lugares de espreitar, vidros, esquinas, jardins de bancos pintados mas completamente abandonados, talvez aceitando a monotonia do pó dos outros dias de isolamento e ausência. Cafés e esplanadas tinham fechado. As esplanadas mostravam alguns toldos abertos, mas levemente tocados de brisa, exactamente como se vê no cinema depois de uma evacuação de qualquer pequena cidade californiana após um risco de desastre natural.

  

Não acendem as luzes, o rio espelha a noite próxima, os pequenos barcos de madeira estão mal tratados e parecem agrilhoados nos ancoradores de margem ou de esguelha, sem cordame, fundados na lama da maré baixa. E nem os velhos, que conversavam num grande banco de ferro junto ao alto muro de uma fábrica corticeira há muito destruída, se veêm. No ano passado, havia menos velhos, mas estavam por lá meia dúzia deles, cacarejando as dores e as lembranças. 

 

Resigno-me a saber, algum dia, qualquer notícia com verosimilhança. Vou dormir cedo. Junto da minha casa dou de perto com uma parede alta inteiramente coberta pela sombra e pelo cheiro de plantas que sopram o seu sono dos dormitórios como aqui parece estar a acontecer. Valerá a pena voltar para a casinha de Lisboa, na inércia de tudo por outro lado, à espera que o SNS me deixe morrer?