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terça-feira, fevereiro 13, 2007

A CÂMARA CLARA

fotos Rocha de Sousa

«A Fotografia não diz (forçosamente) aquilo que já não é, mas apenas e de certeza aquilo que foi. Esta subtileza é decisiva. Diante de uma foto, a consciência não segue necessariamente a via nostálgica da recordação (quantas fotografias estão fora do tempo individual), mas, para toda a fotografia existente no mundo, a via da certeza: a essência da Fotografia é ratificar aquilo que representa. Um dia, um fotógrafo enviou-me uma foto minha. Apesar dos meus esforços, não consegui recordar-me onde havia sido tirada. Inspeccionei a gravata, o pull-over, a fim de detectar em que circunstância os tinha usado; trabalho inútil. E, contudo, porque se tratava de uma fotografia, não podia negar que tinha estado (mesmo que não soubesse onde). Esta distorção entre a certeza e o esquecimento provocou-me uma espécie de vertigem e como que uma angústia policial (o tema de Blow-up não andava longe); eu ia à inauguração como um inquérito para compreender finalmente aquilo que já não sabia de mim próprio» 1
Este trecho de «A Câmara Clara», de Roland Barthes, encerra muito da nossa contingência, o tempo em que nos reconhecemos e aquele de que nos perdemos, embora ambos possam coincidir num mesmo registo. Blow-up é uma obra modelar neste sentido e os próprios instrumentos usados, embora diferentes, dizem a mesma verdade final: o pintor apropria-se do real, começando a pontilhar a tela, partindo portanto do irreal. O fotógrafo, que Antonioni coloca no centro da trama (possuidor da aparente verdade que uma fotografia encerra), regista convulsivamente o real, uma cena de amor, verificando depois, no atelier, que a ambiguidade da posição da rapariga num certo instante podia pôr em causa a evidência inicial. De facto, como sabemos, a investigação técnico-plástica do fotógrafo, leva-o a concluir ter captado a sequência de uma armadilha, não uma cena de amor mas uma cena de crime.
Aqui, ao entardecer, enquanto escrevo, olho para fora e um sol dourado estimula-me a pegar na máquina fotográfica para registar aquele instante de luz. Continuo a trabalhar, batendo as teclas do computador como agora. Numa pausa, pouco depois, não posso saber bem, lembrei-me da luz e ergui os olhos. Tudo havia mudado. Fotografei de novo o que via, mesmo sem repetir o enquadramento, só para reflectir aobre a incerteza das coisas e do olhar no tempo. Se perdesse o primeiro registo e me quisesse, anos depois, reencontrar na segunda fotografia, baça e tristonha, teria infelizmente a certeza de que a imagem de outrora, usado outro meio de a dizer, nenhum texto (por exemplo) poderia entretanto dar-ma.
1 Excerto do livro «A Câmara Clara», de Rolamd Brathes, pag 120, ed 70

4 comentários:

Dionisios disse...

li varios livros do barthes e com certeza esse é muito bem escrito.
um outro livro é como viver juntos.
maravilhoso
até

Dionisios disse...

Dionisio, baco, iaco, hybris, agon, dupla ressonancia e espiral sem definicao.
seu discurso é um caramanchao cuidadoso, vasto e enraizado.
gosto do seu saite e da sua escrita.
mas escrevo mais num outro chamado

dionisios.zip.net = olhe.

afonso alves - cuiaba - mato grosso - brasil;

naturalissima disse...

Cá está mais um livro sitado por si que irei procurar. Sem dúvida que será importante para mim, estando eu ligada à fotografia.

Continuação de uma boa semana
Fique BEM, tiomeu
um beijinho carinhoso
Daniela

copa-rota disse...

Gostaria de SENTIR-ME...para sentir que me SINTO realmente...saber onde onde me encontro AUTÊNTICAMENTE...para depois tentar perceber se o tempo existe...
Por vezes, também eu ao rever?...certas fotografias onde a minha suposta aparência física parece autenticar a minha existência, sinto um vazio ao tentar descobrir o que significa aquele momento...aquele reflexo...de mim?

Já reside em mim, uma profunda admiração por aquilo que escreve, João...ao longo deste curto período virtual, aprendi imenso com as suas reflexões, onde a sua vontade insaciável do querer, da vontade de descobrir sempre algo mais, é expressa com uma paixão e sabedoria notáveis.Espero um dia, disfrutar "in loco" da sua tão peculiar e fascinante perspectiva de vida, será uma honra conhece-lo pessoalmente...
Lamento,( acima de tudo por mim )não ter a disponibilidade que gostaria para o visitar mais vezes...tomara que o "tempo" me faculte essa possibilidade no futuro... que espero breve.

" Numa pausa, pouco depois, não posso saber bem, lembrei-me da luz e ergui os olhos. Tudo havia mudado. "

Aproveito para sublinhar esta sua expressão, que em muito se identifica com emoções vividas por mim recentemente.

Um abraço, desejando que se encontre o melhor possível...

Obrigado pelas intervenções sempre pedagógicas...ESCREVENDO TORTO, POR LINHAS DIREITAS,

Miguel Baganha