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domingo, julho 22, 2007

AS IMAGENS GÉMEAS


pinturas de rocha de sousa


Não vejo os rostos de quem sofreu comigo
ou está sofrendo,
pedaços de quem somos, de quem são os outros,
e o tempo passando na luz crua
ou esgotando-se no sangue que escorre,
batalha de todas as idades,
Idade Média
Segunda Guerra Mundial,
Angola perdida,
Angola imensa, colossal de fecundidade e floresta,
combates menores talvez,
tiros rasteiros, tiros estalando por cima das nossas cabeças
e os bichos fugindo do desconhecido
ou grandes aves de princípio do mundo
batendo enormas asas contra a terra, o ar em breve,
lugares para ocidente na poeira que o sol alaranjava,
carros rosnando como cães malditos, a subir,
e as explosões das minas, pulsões lumínicas, brancas,
a lembrança do horror gémea da guerrilha há pouco,
há pouco as feridas e os rasgões e a retirada
para a base de campanha, ruído, candeias,
passos de corrida ou de aflição,
respostas a perguntas
e respostas em choro convulsivo,
a perna, a mão exposta, um fogo de sangue no rosto,
e a madrugada chegando no vago apaziguamento
das vítimas no horizonte
simétrico do outro,
retratos sem rosto, rasurados,
metamorfose lenta do sangue e da lama.
rocha de sousa2007

2 comentários:

magnohlia disse...

Belo.

magnohlia disse...

Voltei a ler. Belíssimo. Sangrento quase apocalíptico, muito visual. Terno também.