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quinta-feira, dezembro 20, 2007

ABRUPTAS, ESPERADAS MANHÃS BRANCAS

pintura digital de rocha de sousa




beleza de manhãs arrefecidas sobre o aniquilamento,

paz vertente

passada por manhãs em sopro

de brancura, sobre a pressão esplendente do vazio,

sem uma pausa, continuadas, pequenas,

num plano difundido, embriaguez estática, êxtase

horizontal, levitante, paragem quase

apaixonamento, quase desgaste para trás,

quase um pouco de tempo na sumptuária ausência

do espaço dessas manhãs, e como de repente

se perfuma de velocidades internas,

como se apressam de uma miriápode troca

de atenção, escarpas no ar bruto,

centro de buracos deslumbrantes,

a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,

energia,

relampejante textura, uma espécie

de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram

as manhãs respondidas,

toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada

por lunações abruptas,

a madeira fulminada pelo tacto doloroso,

pistas de esporões e tramas vivas,

os jactos de néon filtrado a prumo,

e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas

*

poema de Herbert Helder, excerto de Os Brancos Arquipélagos

2 comentários:

jawaa disse...

Mas que linda manhã, a sua!
Obrigada por partilhá-la connosco, soube bem.
Sabe que comecei a ler esse belo poema de Herberto Helder julgando que era escrito por si?
Não estaria mal. Nunca escreveu poesia?

fernanda disse...

esplendoros
sublime
belíssimo
quase chorei