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domingo, agosto 19, 2007

A MORTE NÃO É UM FIM, É O FIM

Breve visita a um cemitério de província, no sul, eis-me a guardar o que já guardara aqui, neste mesmo lugar, na circunstância dos meus próprios mortos. Continuo a pensar estes lugares em termos de territórios onde se repetem, na diferença e na semelhança, quase sempre em mármore branco, as moradas rasas de gente que acabou embalada numa cerimónia tão bela e tão inútil como as suas vidas mais ou menos interrogadas, mais ou menos produtoras de história, intérpretes de afectos, tudo em redor de grandes e pequenos acontecimentos que moldam o mundo e nuncam o explicam.

De ínício, após a morte de um ente querido, a sagrada unidade do círculo, estruturando a coroa de flores, rege esse objecto de despedida, de certeza, porventura de fé, simbolizando as palavras e os risos de outrora, a realidade ainda consagrada da família entre milhares de povos e gente a nascer para que haja amanhã, para que possam viver, assim frescas, as imensidades de flores no seu território fecundado, seres mudos mas apelativos, que também nascem, crescem e morrem, sem que os homens, seus admiradores, pensem numa alma para elas e guardem os ramos secos, mortos, amputados da terra, acabando indeterminadamente num caixote do lixo.






Um nome oxidado, como tantos outros, é dito erradamente no seu jazer, como talvez tenha sido grande parte da sua vida, aqui matriculada com o código F. 4. A2. A968, estranha memória que podemos decifrar numa outra não menos obscura: Falecido em 4 de Fevereiro de 1968. José Nascimento foi homenageado junto de outros parentes, presumo, mas a notícia da sua morte falece na margem da sepultura ali ataviada com mais zelo.







Há muitos anos que vejo nos cemitérios de província estas velhas redomas onde repousam, atrás de um vidro, as imagens ou almas dos falecidos de outrora. Talvez eles, em vida, tivessem pensado a morte como um fim, ou seja, como a passagem desta existência para outra dimensão de paz, as famílias em concórdia, sem feridas, como naqueles sonhos em que o céu é branco e há muitos anjos, alguns sem asas, saltando, vogando em redor das crianças acabadas de morrer.



Quando as flores arrefcem, morrendo em palidez, há sempre um portão para fachar


3 comentários:

magnohlia disse...

Será mesmo o fim?
"Na natureza nada se perde nem nada se cria, tudo se transforma"...
Parece que esta máxima ainda vigora, ou não?
Parece-me ter lido que se perdia energia.
Bem, seja como for, deixamos muito ADN espalhado por aí...cabelos, pele, etc.
:)

jawaa disse...

Continuo a sentir alguma dificuldade em lidar com os rituais que se sucedem à morte e à «necessidade» de frequentar o lugar dos meus mortos mais recentes. Já manifestei os desejos para o fim do meu corpo. Não creio que deva colaborar naquilo que apresenta com tanta realidade nas suas fotos.

eu que te amei disse...

Em silêncio, muitas vezes interrogo-me sobre o mistério da criação, mas a reflexão paira sempre sobre as razões da morte e do caminho que percorremos até ela. Perdi alguém que era muito especial para mim. Sinto-me vazia e não sei bem ainda como continuar. Procuro explicações, procuro na net pessoas que passam por momentos como estes, procuro palavras, procuro... nem sei bem o que procuro
...mas é mesmo assim, o fim?
http://reisesteves.blogspot.com/